Feliz 2017!

 feliz-ano-novo

(01)             “Feliz 2017 para você e sua família! ”

(02)             “Feliz ano-novo! Que neste ano todos os seus sonhos se realizem! ”

(03)             “Hoje é um novo dia / De um novo tempo que começou / Nesses novos dias as alegrias/ serão de todos, é só querer/ Todos os nossos sonhos serão verdade / O futuro já começou. ”[i]

Algumas pessoas não gostam das festividades alusivas ao Ano-Novo. Não somente isto, evitam a qualquer custo cumprimentar seus semelhantes, desejando-lhes votos de Ano-Novo. Elas desenvolvem tal aversão à medida em que vão participando de muitas destas programações e percebem que para a maioria das pessoas o ano-novo sempre chega, mas a alma continua velha e carcomida pela mediocridade. Aliás, muitos nem percebem que tal descrição representa eles mesmos e que por se verem em tal estado patológico da alma, não conseguem ter razão para comemorar e agradecer por mais um ano que se inicia.

Os pessimistas acreditam que todas as três frases acima enumeradas representam mera conveniência e que não podemos esperar ano-novo quando o mundo e o Brasil vão de mal a pior. Os radicalistas veem nesta festa um misticismo secular e acreditam que envolver-se com votos de feliz ano-novo implica necessariamente em cair no caldeirão das mandingas (vestir-se de branco para entrar o ano com sorte, por exemplo) e da associação com o mundanismo. Outros são misantropos e não desejam feliz ano-novo pelo simples fato de não irem às festas. É certo que existem outros motivos, mas esta pequena amostra já é suficiente para cogitarmos sobre a viabilidade ou não de desejarmos “Feliz 2017” para alguém. Afinal, é válido ou não? É pecado ou não é?

Primeiramente, perceba que dentre as 3 fases acima elencadas, seria um reducionismo muito grande (desculpem-me o paradoxo) equiparar a frase número um com as duas subsequentes. A vinheta de final de ano de certa emissora apresenta uma proposta redentora centrada no indivíduo. Aqueles que creem na frase 03 realmente acreditam que o homem é auto-redimido e são adeptos da famosa máxima popularizada por Napoleon Hill: “Querer é poder”. É como se em um passe de mágica todas as mazelas sociais, econômicas, pertinentes à saúde, relacionais fossem anuladas pelo Deus “Cronos” e que a passagem de Ano não fosse um mero ritual (rito de passagem), mas um ritual com poderes mágicos; um verdadeiro Abracadabra, onde a utilização das frases e dos elementos mágicos corretos garantiriam o feitiço desejado. É algo mágico, não real. É do campo fantasioso e não do vivencial. Há quem acredite na mágica, mas neste caso, eu acredito que até os atores lá estão pela conveniência global de continuar tendo um salário vultoso. Se desejar feliz ano-novo for sinônimo de cantar e crer na vinheta global, então não desejarei mais feliz ano-novo a ninguém. Mas é certo que nem todos pensam assim ao desejar votos de ano-novo.

Em segundo lugar, observe que até a frase número 02 possui diferença em relação à frase número 03. Esta é uma assertiva que assegura ao indivíduo a realização de seus sonhos; aquela expressa apenas o desejo da realização. Uma garante, a outra deseja; uma é plenipotenciária, a outra é potencial; uma é global, a outra coloca-se na possibilidade da realização do onírico. Em geral, quem fala assim nem se dá conta do que está dizendo! São votos desapercebidos de quem deseja o bem para o seu próximo. Geralmente é um avô dirigindo-se ao neto, o pai ao filho, a esposa ao marido, etc. No fundo sabe-se que nem todos os sonhos concretizam-se de maneira adequada, bem como entendem que a mera realização dos sonhos de uma alma deprimida não é capaz de causar prazer, alegria ou sentido vivencial. Mas ainda assim, cai-se na falácia de que os desejos e os pedidos do outro são a rodovia que pavimenta o caminho certo para a felicidade. Ledo engano! Muitos dos nossos sonhos e pedidos são vazios, egoístas, ocos e destruidores. Imagine se fôssemos realizar todos os desejos de nossos filhos! Mas, em termos de maturidade, muitos de nós não passamos de criança pedindo biscoito de polvilho quando nossos estômagos espirituais carecem de verdadeira proteína, carboidrato e vitaminas espirituais. Isto não se consegue com sonhos libidinosos, luxuriantes ou avarentos. E mesmo os sonhos mais “espirituais” não podem vislumbrar as reais motivações do coração.  Mesmo que bem-intencionado, o portador da frase de número 02 não teria justificativa argumentativa para desejar tais votos.

Resta-nos a frase número 01: “Feliz 2017 para você e sua família!”. Em terceiro lugar, observe que desejar feliz ano-novo não implica incorrer no efeito mágico da frase número 03, nem na ingênua equiparação de felicidade com realização de sonhos e desejos. A análise da frase número 01 consiste em afirmar nossos desejos de que o ano de 2017 seja feliz para o nosso receptor, bem como para sua família. Seria isto um lugar comum inviável? Bem, seria necessário entender em que consiste a felicidade do ano, ou melhor, o que torna o ano-novo feliz. Antes desta discussão, alguns breves comentários são dignos de nota.

Se o indivíduo acredita que os votos de feliz 2017 são desnecessários, então porque participa, consente ou permite um culto de virada? Por que aguardar o momento da queima dos fogos, da contagem regressiva e do frenesi de participar do rito de passagem de um ano para o outro tão somente para em seguida fugir dos apertos de mão a ele destinados?

Já que desejar “feliz ano-novo” é algo místico, mundano e mágico, então porque a necessidade de iniciar o ano de mãos dadas numa corrente de oração? Será que a oração coletiva de mãos dadas é mais forte que a oração individual e introspectiva? Ou será que no fundo não cremos no reforço positivo causado pelo ato de dar as mãos uns aos outros?

Perceba ainda que é quase impossível estar alheio e desapercebido ao ritual de passagem. Somente se estivéssemos trancados em nossos quartos e ainda assim correríamos o risco de abrir as portas do quarto tão somente para ver a queima dos fogos e observar o movimento das pessoas saudando-se e brindando o novo-ano.

Aliás, o povo de Israel comemorava o Ano-Novo (apesar de que o fazia em uma data diferente). Mas havia todo um rito alusivo à data e nem por isto havia pecado, até porque fora o próprio Deus quem determinara os elementos do rito e da festa de passagem de ano.

Observe, porém, que ao desejar feliz ano-novo, não estamos reforçando o bordão: “Ano-Novo, vida nova! ”; até porque o simples ato do dimensionamento cronológico não transpõe nossas vidas para uma nova matriz histórica. Nossa história se continua a partir da matriz já estabelecida nos anos que antecederam o novo ano.

Tampouco, os 365 dias trazidos pelo novo-ano não são capazes de se multiplicarem em todos os momentos de desperdício dos anos passado. Você não recupera 20 anos em 01 ano (no sentido cronológico, isto é impossível). Na verdade, é bem possível que a tentativa de compensação feita a partir de uma agenda lotada com itens que tragam à tona todas aquelas velhas fórmulas, viagens, livros a serem lidos, cursos a serem feitos, a fim de inseri-los no ritmo normal de atividade de um novo-ano, leve-nos à exaustão, causando o abandono das metas propostas tanto para aquele ano quanto para a compensação do desperdício do passado.

É lógico que toda uma mística foi criada em torno do Ano-Novo (presentes, brindes, votos a entidades, roupas brancas, mandingas, astrologia, etc.), mas não são elementos suficientes para suprimir a semântica dos simples votos de “Feliz Ano-Novo”. Se assim o fosse, deveríamos deixar de dar “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”. O hiper-literalista semântico dirá: “não sei! O dia ainda não terminou para que eu saiba se foi bom”. A frase “bom-dia” não traz um efeito mágico que torna o dia bom, mas apenas estima o desejo de que o dia da pessoa com quem se fala seja bom, ou até mesmo transporta-se para uma carga pragmática do tipo: “olá”. Nossa linguagem possui percepções e sentidos pragmáticos, isto é fato! Mas não anula-se a realidade da carga semântica original.

Comemoramos aniversários de pessoas (às vezes, até mês-versários), temos os ritos de passagem e comemorações alusivas às datas de casamento (bodas de prata, ouro, diamante, carvalho, etc.). Não seria viável comemorar um Novo-Ano que se inicia?

De certa forma, todos estamos adequados à sistematização cronológica de 365 dias. Planejamos nosso trabalho, calendário escolar, a partir dos 365 dias daquele ano (inclusive, aguardamos ansiosos que os feriados nacionais, estaduais, municipais e pontos facultativos ocorram em dias úteis da semana, de preferência que seja um feriado “imprensado”). O calendário das igrejas, inclusive é feito à partir desta mesma sistematização!

Os mais radicalistas dirão: “Ah! Mas, ninguém deseja felicidades a um ano”. Leia a frase número 01 novamente e perceba a quem está se desejando felicidades. É a uma pessoa e não ao ano. Felicidade ao longo do ano. E, afinal, o que pode garantir sua felicidade no ano de 2017?

Somente Deus pode garantir tal felicidade. Como afirmou Santo Agostinho: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.”[ii] Você pode buscar esta felicidade na própria festa da virada e não a encontrará; você pode buscar esta felicidade no perfeccionismo de seu planejamento, e não encontrará; você pode buscar esta felicidade nos seus grandes feitos do ano e não encontrará; você pode buscá-la numa premiação anual, na boa sucessão do ano letivo ou até mesmo na execução cabal do calendário eclesiástico, mas não a encontrará lá. A felicidade do Ano-Novo está naquilo que o próprio Agostinho falou, afirmando que a felicidade não é concedida aos ímpios, , “mas àqueles que te servem por puro amor: essa alegria és tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em ti, de ti e por ti”.[iii] A felicidade está em Deus. É bem-aventurado aquele que nEle se refugia; é feliz o que espera por Ele (e não pela passagem de ano); são felizes aqueles que amam o Senhor e guardam os seus mandamentos, ao invés de amarem seus desejos e guardarem as mensagens criptografadas do pecado. Deus é a alegria, por isso o fim último de todos nós é “glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre”.

Sendo assim, ao desejar Feliz Ano-Novo para você está pressuposto que eu desejo que você enconte a felicidade e o contentamento para 2017 nAquele que pode suprir cada uma de suas necessidades, mesmo aquelas que você nem imagina possuir.

Mas, e o Brasil do jeito que vai, será que faz sentido desejar “Feliz 2017”? O escritor Olavo de Carvalho, referindo-se ao ano de 2005 disse o seguinte em seu artigo intitulado “Feliz Ano-Novo? Que cinismo”:

Votos de Ano-Novo? Ora, façam-me um favor! Ora, quem pode fazer votos de que tudo o que está acontecendo pare de acontecer, de que tudo o que não acontece, mas deveria, comece a acontecer? O Brasil não precisa de um milagre. Precisa da mais extraordinária conjugação de milagres que se poderia imaginar. E milagres, mesmo individualmente, jamais acontecem quando os possíveis interessados estão pedindo exatamente o contrário.[iv]

Note, entretanto, que o objeto de felicitação exposto por Olavo de Carvalho é a esperança política nacional; o meu objeto de felicitação implica na satisfação naquele que pode nos elevar à imaginação moral e nos afastar da confiança na política como esperança. Não que Olavo esteja errado em sonhar com um Brasil melhor (mesmo que ele não acredite que isto seja possível, pelo menos em 2005, ele nunca deixou de lutar pelo Brasil; sinal de que nunca perdeu as esperanças), mas que esta luta pelo Brasil só faz sentido se a felicidade já foi encontrada naquele objeto eterno de deleite que te capacita a lutar as tuas próprias batalhas com as armas adequadas, por mais difícil que seja o ano! Sendo assim, justifico os meus votos e felicitações de Ano-Novo e defendo a viabilidade da frase número 01.

Portanto, caro leitor:

Feliz 2017 para você e sua família!

[i] Letra [parcial] da música “Um Novo Tempo” de Marcos Valle. Disponível em: https://www.letras.mus.br/marcos-valle/1131689/. Acesso em: 29/12/2016.

[ii]    Livro das Confissões (I.1.1).

[iii]    Livro das Confissões (X.22.32).

[iv]   CARVALHO, Olavo de. Apoteose da Vigarice: Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil. Volume I. Campinas, SP: VIDE Editorial, 2014, p. 265.

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8 comentários sobre “Feliz 2017!

  1. É com enorme satisfação que hoje me deleito com a leitura do texto inaugural de seu blog meu caríssimo irmão e amigo Fares Camurça Furtado. Devo dizer-lhe que a temática desenvolvida veio ao encontro e de encontro à um estado de espírito o qual suas considerações foram pontualmente certeiras. Desejo que este espaço, assim como outros, sejam como que profícuos campos onde sua importante e sempre rica atuação intelectual muito contribui para a edificação e o aprimoramento humano daqueles que possuem lhe o privilégio de acesso. Parabéns! Deus muito o abençoe.

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  2. Dr. Fares belíssimo seu trabalho sempre admirei a pessoa que és, um grande servo de Deus uma pessoa de grande talento um ser humano de grande coração que esta sempre a disposição de ajudar o próximo sem olhar a quem, possuidor de uma humildade invejável mais uma inveja boa, te agradeço de coração pelos ensinamentos que a mim repassou com grande paciência e disposição, foi uma grande oportunidade que Deus me concedeu de ter a honra de sua amizade, parabéns que Deus abençoe você e toda a sua família, estarei sempre em oração por você, és um grande médico há se todos os médicos exercesse a medicina como você o mundo seria muito mais melhor as pessoas seriam mais bem tratadas nos hospitais, tem a minha admiração, Sucesso em sua vida, Grande abraço!

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