Resenha 02: Teologia Sinfônica (Vern S. Poythress)

 TEOLOGIA SINFÔNICA: a validade das múltiplas perspectivas em Teologia.

Autor: Vern S. Poythress

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São Paulo: Vida Nova, 2016, 160 pp.

Tradução: A. G. Mendes

Edição de texto: Tiago Abadalla T. Neto / Produção: Sérgio Siqueira Moura.

©1987. Vern S. Poythress.

Título do original: Symphonic Theology: the validity of multiple perspectives in Theology

Resenhista: Fares Camurça Furtado

 

     Esta é a primeira obra de Vern S. Poythress que eu leio. Encantei-me com sua simplicidade e capacidade de dizer muito em pouco espaço. Poythress é professor de Interpretação do Novo Testamento no Westminster Theological Seminary, na Filadelfia. Com formação em Cambridge e Havard, o autor possui várias obras e pertence à tradição de teólogos pressuposicionalistas (pelo menos foi esta a impressão passada neste livro, bem como sua ligação com o WTS).

     O livro surgiu como uma proposta de ir além da abordagem monolítica da Teologia Sistemática convencional. Tomando como base os avanços no estudo da Linguística (e olha que o original foi publicado em 1987), seus estudos pessoais dos Evangelhos e de Apocalipse (p. 151) e a influência do pensamento perspectivista evangélico (Van Til, Frame e Pike, aos quais Poythress prestigia na seção de agradecimentos) e filosófico (Arthur F. Holmes), Poythress desenvolve o que rotulou de Teologia Sinfônica.

     Nos 4 primeiros capítulos, faz-se um tratamento introdutório e preparatório para a exposição da Teologia Sinfônica propriamente dita; dos capítulos 5 a 8, a Teologia Sinfônica é esmiuçada em detalhes, sendo que no capítulo 6 apresenta seu arcabouço linguístico; nos capítulos 9 e 10, Poythress nos dá um modelo de aplicação da Teologia Sinfônica, a partir do tema dos milagres; o livro ainda consta de um epílogo, apresentando outras obras sobre perspectivismo, dando indicações úteis sobre estudos mais aprofundados neste tema; possui também uma bibliografia muito bem confeccionada, o que demonstra a amplitude da pesquisa e detalhes explicativos das principais obras entre colchetes.

Você deve estar se perguntando até agora: mas, afinal, o que é Teologia Sinfônica? Poythress responde no início do capítulo 5:

Usamos o que descobrimos em uma perspectiva para reforçar, corrigir ou melhorar o que entendemos por meio de outra. Chamo esse procedimento de Teologia Sinfônica, porque é análogo à combinação de vários instrumentos musicais para expressar as variações de um tema sinfônico (p. 51).

 

Trata-se de um livro de Metodologia Teológica e o seu método é a Teologia Sinfônica, que visa analisar temas bíblicos e teológicos por meio de múltiplas perspectivas, as quais ao invés de gerarem dissonâncias ad eternum, findam gerando harmonia por meio das muitas instrumentações e/ou perspectivas, de forma semelhante a uma orquestra sinfônica.

No capítulo 1, são visualizadas as perspectivas na vida cotidiana, ilustrada por meio dos planos dos vértices de um cubo ou de um chafariz (também poderia ser elencada aqui a figura da jovem/velha). É lógico que possuímos perspectivas diferentes ao analisar a mesma imagem. Este exemplo aponta para o fato de que a verdade objetiva é multiperspectival, onde os modelos teóricos são as perspectivas. O perigo de abordagens monoperspectivais é o reducionismo presente, por exemplo, no Freudianismo (redução a impulsos sexuais), behaviorismo (estímulo/resposta) e o humanismo (que é a escola seguida por Augusto Cury), que reduz o significado da vida à auto realização e à capacidade de resolver problemas. Apesar disto, a vantagem da abordagem monoperspectival é que podemos aprender muita coisa de alguém que se concentrou em estudar uma área específica, por um único viés, mesmo que seu pressuposto esteja errado.

No capítulo 2, Poythress avalia o uso das perspectivas na Bíblia, a qual se vale de analogias ou metáforas; estas são tipos de perspectiva; várias ilustrações ou metáforas são aplicadas a Deus (Pai, luz, santo, pastor) e isto amplia nossa compreensão de Deus; porém, o sentido da divindade expresso por meio de tais analogias é incompleto.

É certo que algumas passagens possuem diferenças, mas estas são harmonizáveis. Muitas vezes, tais diferenças decorrem de um interesse seletivo do autor. Ex.: II Crônicas enfatiza o reino do Sul, já o livro dos Reis, o Reino do Norte. Porém, é necessário observar que apesar de termos muitas perspectivas só possuímos uma cosmovisão, sendo que a nossa é a cosmovisão bíblica. Em outras palavras, ninguém possui duas cosmovisões.

Já no capítulo 3, são apresentadas as perspectivas em Teologia. Poythress, com o seu punhal, atinge as vísceras do liberalismo, com o requinte de um pressuposicionalista:

Infelizmente “está na moda” em nossos dias adotar uma visão de mundo secular ocidental oposta à Bíblia. Depois de aceitar boa parte da cosmovisão moderna, porém, alguns ainda querem mostrar respeito pela Bíblia e tentam manter algum compromisso com ela. Esses pensadores poderão criticar a cultura contemporânea usando a Bíblia como base e, ao mesmo tempo, “atualizá-la” para eliminar o que consideram ofensivo à nossa cultura. Neste livro, contudo, partirei do pressuposto de que meus leitores já venceram esta tentação. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Não podemos sequer pensar em ser sábios se não dermos ouvidos, com humildade, a Deus e à sua Palavra (p. 24).

 

Temos aqui a cosmovisão bíblica como estrutura adequada para a Teologia. A Bíblia deve ser lida tematicamente (doutrinariamente), em busca de princípios éticos e de forma devocional. O autor exemplifica isto na passagem de Lucas 18:35-43, que trata da cura de um cego. Por meio da Teologia Sinfônica observa-se que toda Teologia Sistemática é ética; não há conflito; uma foca no crer (Teologia Sistemática); outra, no fazer (Ética); mas só se “faz” algo com base no que se “crê”.  A vantagem da Teologia Sinfônica é que ela nos livra da visão compartimentada, a qual é arbitrária e artificial; além disto, as múltiplas perspectivas nos ajudam a notar coisas que uma leitura reducionista não nos permitiria.

No capítulo 4, temos exemplos de perspectivas bíblicas úteis. Uma passagem pode ser avaliada à luz do tema do livro. Em Lucas 18:35-43, por exemplo, a passagem da cura do cego pode ser vista em termos da salvação, do jubileu e da libertação; grandes temas podem ser avaliados ao longo de toda a Bíblia: as alianças, o templo, glória e sofrimento, etc. Algumas perspectivas podem ser expandidas. É o caso dos 10 mandamentos, que podem ser estudados ao longo de toda a Escritura (aliás, John Frame tem um tratado sobre isto em sua obra “A Doutrina da Vida Cristã”). Outra forma de abordar as Escrituras são as perspectivas éticas: normativa (que critérios devo usar para agir), situacional (como certa circunstância ou situação contribui para a glória de Deus) e existencial (como minhas atitudes expressam minhas motivações mais íntimas).

Neste capítulo fui extremamente impactado com este excerto:

Talvez achemos que somos sinceros, mas nossa atitude não será realmente correta se não tivermos a mente de Cristo (1 Co 12.6), se nossa mente não for transformada para conhecer a vontade de Deus (Rm 12:1,2). Se não tivermos a lei escrita em nosso coração (Hb. 10:16, cf. 2 Co 3:3-6). Em outras palavras, a atitude de amar a Deus e ao nosso próximo será amor genuíno (e não sentimentalismo) somente se guardarmos os mandamentos de Jesus (João 14:15,23). (p. 42).

 

Ainda podemos estudar a Bíblia pela perspectiva dos atributos de Deus como tema e a partir dos ofícios de profeta, sacerdote e rei.

Começando a seção da Teologia Sinfônica propriamente dita, o capítulo 5 faz uma defesa desta abordagem. Aos leitores mais conservadores, o multiperspectivismo pode parecer relativismo; Poythress afirma enfaticamente: a Teologia Sinfônica é diferente do relativismo. O autor crê em verdade absoluta mas entende que o conhecimento humano é relativo em conteúdo (não temos conhecimento exaustivo), em uso (não podemos usar plenamente todo conhecimento que temos) e em tempo. Porém, nossa arrogância não nos deixa enxergar que nossa interpretação bíblica nem sempre é correta; o autor aponta para o perigo da influência da matemática euclidiana aplicada à Teologia, que finda   cristalizando e reduzindo a fórmulas matemáticas conceitos que transcendem tal domínio.

O autor nos convida ao irenismo e à humildade quando analisamos qualquer teologia, até mesmo a Teologia da Libertação, que apesar do viés marxista pode nos dar bons insights da temática da libertação (cf. pp. 63, 64).

No capítulo 6, Poythress faz um maravilhoso estudo linguístico como suporte para o entendimento da Teologia Sinfônica. Ele começa por dizer que cada verbete possui flexibilidade semântica, nomeando-o de “estoque de vocabulário da língua” (p. 68). Só que tal estoque é finito; por aí já se tira que o significado das palavras e frases não é meramente lexical, mas contextual. Vale-se das obras semânticas de James Barr, Moises Silva e D. A. Carson. Afirma não ser nominalista nem realista e critica Imanuel Kant, que não cria na expiação substitutiva, mas que para chegar a tal entendimento desconsiderou as Escrituras.

Cada classe natural (estado de coisas que designa coisas ou seres com propriedades afins) pode ser aplicada por uma perspectiva. Ex.: Na Medicina, a origem das doenças já teve como classes naturais: os quatro humores, as bactérias, os vírus, distúrbios genéticos (hoje, a própria Medicina utiliza uma abordagem de múltiplas perspectivas para as classes naturais).

Por isso, a Bíblia está acima das categorias da Teologia Sistemática. Parte disto depreende-se do fato de que existem fronteiras nebulosas entre um espectro e outro, o que pode gerar ambiguidades, necessitando de uma melhor análise do material a ser pesquisado. Até a Matemática não é mais tão “exata” quanto era antes. Poythress preza por uma exatidão limitada (p. 84).

No capítulo 7, o autor explica melhor o seu método teológico por meio de 12 máximas abaixo resumidas:

1). A linguagem não é evidente ao mundo (opacidade da linguagem).

2). Nenhum tema da Bíblia é igual a um termo técnico da Teologia Sistemática.

3). Termos técnicos em T.S. podem ser, em geral, definidos de mais de uma forma. Todo termo técnico é seletivo nos aspectos de seu conteúdo.

4). As fronteiras são nebulosas.

5). Nenhuma categoria ou sistema nos apresenta a realidade definitiva (e aqui é preciso humildade para reconhecer isto).

6). Diferentes autores humanos da Bíblia apresentam diferentes perspectivas de uma doutrina ou acontecimentos específicos (ex.: os Evangelistas).

7). As diferenças entre os textos bíblicos de diferentes autores humanos são também diferenças divinas (isto leva a um bom conceito de inspiração).

8). Qualquer tema da Bíblia pode ser usado como único tema organizador (e aqui vale apena investir esforços em leituras diversas com objetivos distintos).

9). Usamos diferentes temas não para relativizar a verdade, mas para alcançá-la.

10). Vemos o que nossas ferramentas nos capacitam a ver (como é útil ser edificado e aprender com outros, como estou sendo com o irmão Poythress).

11). O erro não é uma categoria ontológica.

12). Nos debates teológicos, devemos nos adiantar aos pontos fortes do adversário e a partir deles, expandir sua abordagem.

 

Faço dois destaques neste capítulo: a). Deus usa os recursos de imprecisão da linguagem (p. 98) e b). o  termo técnico é um identificador de classes naturais (p. 99).

 

O capítulo 8 traz os métodos próprios da Teologia Sinfônica e mostra que na análise de palavras de uma passagem bíblica, em um contexto específico uma palavra tem um só significado (davar ou é “coisa” ou é “palavra, nunca as duas ao mesmo tempo). Na síntese doutrinária, por sua vez, deve-se antecipar o ponto forte do adversário, aperfeiçoando-se por meio da reconciliação de ênfases opostas. Aqui ele cita o exemplo de como se deve debater com adocionistas, os quais se baseiam em Lucas 3:22/ Rm 1:3,4. Poythress ao invés de se deter no adocionismo, começa tratando da Cristologia Funcional, que desconsidera o caráter metafísico divino de Cristo. Apresenta Hebreus 1:1 e João 1:1 como texto prova do contrário, mas não consegue ser convincente no que se propôs a debater com adocionistas.

Nos capítulos 9 e 10, o autor apresenta um exemplo de aplicação do método da Teologia Sinfônica; ele trata dos milagres. Apresenta-nos os conceitos de milagre de Teólogos Sistemáticos clássicos, os quais findam reduzindo o milagre ao caráter revelacional do período bíblico. Só que isto abre precedentes para um negativismo quanto a manifestações especiais e extraordinárias da providência divina na atualidade. Opta por não estender o termo técnico “milagre” ao período bíblico a fim de evitar confusão semântica; distingue as manifestações extraordinárias de hoje em relação a dos tempos bíblicos, aplicando a estes o termo “milagre bíblico”. Para um reformado do quilate de Poythress, creio ser esta uma tentativa honesta ousada de corrigir e ampliar as abordagens dos teólogos sistemáticos.

Ele dá conselhos a cessacionistas (que é o caso dele) a não negarem a agência miraculosa de Deus hoje. Se ele ressuscitou Jesus há cerca de 2000 anos, hoje ele também pode fazer milagres. Aconselha continuístas a não se focarem no extraordinário, mas sim na Revelação Bíblica e na objetividade da obra final redentiva no ministério de Cristo; ele ainda aponta pistas interessantes a cientistas sobre a credibilidade dos milagres bíblicos, onde a lei natural, que é a lei de Deus, já pressupõe a regularidade e as excepcionalidades do padrão irregular, onde cabem muito bem os milagres nestas excepcionalidades.

Parece que a abordagem da Teologia Sinfônica leva a uma mentalidade ecumênica, mas isto é só aparência; ela é irênica e visa convencer o irmão do erro, ao contrário do ecumenismo, que propõe a aceitação do outro com sua crença, seja ela errada ou não (aliás, o ecumenismo desconsidera as categorias de certo e errado).

No epílogo, ele dá indicações valiosas de outras obras suas e de autores diversos que utilizam a abordagem de múltiplas perspectivas.

Fiquei muito feliz com a exposição do método teológico de Poythress e acredito que vindo de um estudioso do Novo Testamento como crítica e proposta a teólogos sistemáticos, esta obra é muito útil e se levada a cabo em seus intentos por teólogos sistemáticos, produzirá teólogos mais refinados e atualizados com o que há de melhor nos avanços da Linguística aplicada a Teologia (e olha que a obra foi escrita na década de 80).

O editor do texto poderia ter sido mais minucioso com notas explicativas sobre obras citadas que são posteriores à publicação original deste livro. Talvez estas obras são citadas em edições posteriores de Symphonic Theology. Há muito o que se aprender com o trabalho de notistas e editores como Alex Catharino, estudioso de Russell Kirk, em suas edições, notas e introduções de obras editadas pela É Realizações (como A Política da Prudência, por exemplo, de Russell Kirk).

Algumas pequenas correções: na página 92 deve-se dar preferência a “século I” ao invés de século 1; na página 155, onde se lê “século 21, deve-se trocar por século XX; também gosto de ver os pronomes referentes ao ser divino em maiúsculo; assim sugiro a mudança de “dele” para “dEle” (p. 147). Também faltou indicar a tradução em português da obra de Geehardus Vos intitulada “Biblical Theology”, que foi publicada pela Editora Cultura Cristã. (p. 159).

Poythress me cativou e me motivou a ler futuramente mais de suas obras (fiquei interessado especialmente por Understanding Dispensationalists). Sua abordagem é refinada e bem explicada, é irênica e aplicável ao texto bíblico. Indico com alegria a leitura deste pequeno livro de conteúdo notável e percebo o quanto preciso estudar mais Linguística.

 

 

 

 

 

 

 

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5 comentários sobre “Resenha 02: Teologia Sinfônica (Vern S. Poythress)

  1. Obrigado Dr. Fares por nos presentear com esta resenha tão sucinta e clara sobre este conteúdo. Fiquei muito empolgado com a ideia do blog. Continue a nos abençoar com o talento que o Senhor, em sua graça, o concedeu. Que Deus o abençoe meu irmão.

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigado, pelas palavras de incentivo, PR. Franklin. Estou muito empolgado com a ideia do blog. O objetivo é publicar resenhas e coloca-las disponíveis para a apreciação e debate. Todas as quartas, se Deus permitir será publicada uma resenha de obra teológicas,filosóficas ou literárias (de vez em quando posso resenhar alguma aberração literária também). Aos sábados, pretendo publicar materiais reflexivos sobre temáticas biblicas,políticas e contemporâneas. Um forte abraço e que Deus continue te usando no reino com os teus dons e talentos.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Resenha 05: O Drama da Doutrina (Kevin J. Vanhoozer) | Fares Camurça Furtado

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