PROCLAMANDO A VIDA NUMA CULTURA DE HOMICIDAS.

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Imagem disponível via internet[i]

 

O ativismo pró-aborto é um tema dominante nos noticiários, nas discussões parlamentares e tem sido motivo de debates acalorados entre os cristãos. Envoltos por uma concepção libertista, os militantes pró-aborto têm alcançado os grandes meios de comunicação e tem se infiltrado nos mais diversos segmentos e representações sociais com a finalidade de propagar suas ideias, subscritas em uma estrutura feminista, com o objetivo de assegurar a liberdade individual a qualquer custo,[ii] como uma espécie de reação extremada, destilando ódio contra a tradição judaico-cristã.

Ao passo que as manifestações viram projetos que terminam em leis pró-aborto, muitos cristãos se mantêm indiferentes. Indiferença que é manifesta na omissão em se posicionar sobre o abortamento. E aqui é necessário evitar dois extremos: o primeiro, de transformar uma bandeira específica, como a campanha anti-aborto, no centro diretor do ministério, de maneira que o ministério seja reduzido exclusivamente a tal campanha; o segundo extremo é o indiferentismo. Mesmo que leis abortistas sejam aprovadas e mesmo que alguns membros de igrejas vejam com naturalidade a prática do aborto, algumas lideranças evangélicas simplesmente evitam falar e se posicionar sobre o assunto.

Acontece que não são poucas as mulheres que executam tal prática, sendo que a alta incidência abriu precedentes para uma regulamentação. Porém, os pressupostos libertistas dos que lutam por tal prática não querem a mera regulamentação, mas a ausência total de críticas por parte daqueles que defendem os princípios tradicionais da família. Como afirma Koyzis: “numa sociedade pluralista (…) o Estado é obrigado a excluir da praça pública toda crença que possa vir a dividir o corpo político.”[iii] Assim cria-se um espantalho de que o cristianismo é intolerante, enquanto se abafam as vozes cristãs na grande mídia, vitimiza-se o abortismo, o qual volta-se com intolerância contra qualquer direito de expressão cristão. Para eles, o abortista tem o direito de praticar o aborto, mas o cristão não tem o direito de se posicionar contrariamente.[iv]

Da perspectiva consumista, a comercialização da sexualidade é realizada em nome do livre direito de expressão sexual; tal inconsequência leva a múltiplas gravidezes indesejadas; e, em nome da mesma liberdade que alguém tem de extirpar um apêndice, agora pode-se jogar fora o feto. Bilhões de dólares estão em jogo e os interesses oligárquicos, aliados a uma cosmovisão pluralista anti-cristã transformam a mulher em cliente, o ser humano na fase fetal em um apêndice a ser retirado (um aborto) e o procedimento de retirada (o abortamento) no meio de viabilizar a liberdade da mulher de se livrar daquilo que a incomoda.

Filosoficamente a ontologia determina a ética. Uma vez que a vida começa no ato da concepção, qualquer ato que induza ao aborto configura-se num assassinato; não importa em que fase de maturação o indivíduo se encontre. O ser vivo prescinde de cuidado, atenção e respeito. Nenhum mecanismo ético-político de viabilização de direitos está acima da realidade metafísica da existência de um ser humano.

Deus trata os seres fetais como seres humanos (cf. Sl. 139:13; Jó 31:13-15) e por tal motivo, ainda que haja malformações fetais e até casos de estupro, mesmo que a força emotiva do argumento aponte para a viabilização do aborto, o ser é maior que o direito. Se fizermos pequenas concessões, estas tornam-se o precedente minimamente necessário para a quebra do sistema inteiro, assim como alguém que abre mão de um único ponto do Calvinismo, na prática já abriu mão de todos. Quando abrimos uma margem mínima qualquer estamos cedendo ao pensamento homicida, daqueles que em nome do desejo inconsciente de matar, armam-se de mentiras sutis que enfatizam tanto o direito individual a ponto de negar o direito de vida.

A igreja deve, portanto, proclamar as verdades das Escrituras às pessoas de nosso tempo. Nossa exposição não deve se ater meramente a exegese mas a aplicação das Escrituras a nossa realidade no século XXI. Com um tema tão importante, não podemos deixar de aplicar as verdades das Escrituras em prol da vida dos nascituros. Como sugere Piper, que toquemos as trombetas em favor dos nascituros, não como uma ênfase criada por nós, mas porque manifestar-se indiferente a milhões de assassinatos e abrir margem para as exceções é tornar-se conivente. Proclamemos o Evangelho que valoriza a vida humana e empenhemo-nos em combater a prática do abortamento. Que não deixemos a atitude politicamente correta, que é uma constante em certos púlpitos, nos fazer calar diante da escandalosa aceitação e legalização de milhões de assassinatos em massa camuflados por um eufemismo intitulado “aborto”!

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[i] Endereço eletrônico: http://olhoabertopr.blogspot.com.br/2016/11/aborto-ate-3-mes-de-gestacao-nao-e.html

[ii] Para maiores detalhes sobre a política de direitos do indivíduo e sobre a ideologia liberal, cf.: KOYZIS, D.T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014, pp. 50-86.

[iii] KOYZIS, op. cit., p. 80.

[iv] É a intolerância da tolerância, valendo-me do título de uma obra de D. A. Carson.

 

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6 comentários sobre “PROCLAMANDO A VIDA NUMA CULTURA DE HOMICIDAS.

  1. Muito bom!
    Indubitavelmente alguém alegaria: “mas vc não sabe como se sente uma mulher que foi estuprada que agora vai ter que lidar com fruto de uma relação indesejada”, mas do estupro ela não esquecerá e, quanto ao aborto, não resolverá isso. Vejo mulheres que abortaram, não nessa situação, mas em situação outra, lamentarem-se por terem feito tal procedimento com sentimento de culpa ou lidarem com naturalidade, já tendo até mais de uma tentativa ou realização. A minha sensação diante disso, de tantos métodos contraceptivos disponíveis, até mesmo pelo sus, e da frieza com que referem seu desejo de abortar (situações em que engravidaram do parceiro por pura irresponsabilidade – estavam bêbados ou drogados, etc) é que se tivessem consigo uma arma e eu as chateasse o mínimo possível seria morta ali mesmo, visto que, se ante o ser que tem metade dela ( seu material genético), em sua fase de maior vulnerabilidade – em que só teria sua mãe pra lhe livrar e defender dos males do mundo – e é justamente a mãe a primeira a querer matá-lo…. Olha, seria dramático, mas é real… Como diz a Bíblia, nos últimos dias, o amor de muitos se esfriará – pra mim esse tempo chegou infelizmente. Mas nem eu, nem ninguém é obrigado a concordar com isso. O fato é que poderia ser qualquer um de nós a ser jogado no lixo e o ponto mais crítico é que a questão não é somente o direito dessa mulher ou direito dela fazer o que quiser ao seu corpo, envolve um terceiro que não pediu para existir, que é um ser humano, que tem direitos, mas que não tem quem lute por seus direitos.

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    • Muito obrigado, por compartilhar suas impressões sobre esta temática tão controversa, Josycley. Mais do que a situação psicológica da mãe e as condições pecuniárias, deve-se levar em conta uma nova vida albergada no ventre. Excelentes palavras!

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  2. O texto se mostra ilustrativo ao que concerne o panorama geral do movimento abortista. Se tem sucesso e legitima o assassinato de uma pessoa ainda no ventre, é porque nossas classes dirigentes ignoram as evidências mesmas que demonstram que não se trata de livre exercício da liberdade individual pela mulher que aborta, mas de um assassinato deliberado. À nossa classe acadêmica e intelectual, incluso a grande mídia, atribui-se o ônus de se eximir de orientar à população corretamente acerca do assunto. No plano religioso aceito o comentário preciso do Dr. Fares e ratifico que o enfraquecimento ou até ausência de um sistema de valores judaico-cristãos que boa parte das novas gerações apresentam são também responsáveis por essa desvalorização da vida, do indivíduo e, porque não, da humanidade mesma. Afinal estamos líquidando a vida de um ser feito à imagem e semelhança de Deus todo poderoso ou apenas de um organismo simiesco dotado de córtex frontal desenvolvido o suficiente para inventar o próprio Deus?

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    • Caro Dr. Vinícius Pamplona, muito obrigado por suas palavras. Confesso que a última frase foi magistral. O que a maioria não percebe é que a Teoria da Evolução (e não Lei, como muitos acreditam) foi exposta por um homem que não negou Deus totalmente (é só comparar o restante dos escritos de Darwin), mas cuja teoria apontou exatamente para isto. O ditame da morte de Deus promulgado por Nietzsche, aplicado cientificamente por Darwin e manipulado socialmente por Herbert Spencer, condensado em forma literária por Sartre, resultou num ativismo pró-ateísta em Richard Dawkins. Posso afirmar, com certeza, que se os padrões judaico-cristãs continuarem sendo destruídos pela cultura vigente, nossa sociedade será fadada ao fracasso. Esta relação de poder sobre o mais fraco, adaptado para o discurso de poder de Foucault nada mais é que o homem caído, clamando por autonomia, num mundo em que ele é vento, pó e neblina. Somente se apegando ao maior valor metafísico, ontológico, epistemológico e estético é que nossa sociedade será redimida.

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  3. “o nascituro possui todos os direitos da personalidade desde sua concepção estando condicionados, ao nascimento com vida, somente a realização de formalidades jurídicas e a aquisição de direitos patrimoniais;

    I) Ex: o direito a ter um nome existe desde a concepção, todavia, esse somente será levado a registro depois de o recém nascido se desvincular vivo do ventre materno, quando então, individualizado juridicamente, poderá exercer, através de seu representante legal, os direitos patrimoniais resguardados desde quando era nascituro;

    II) o respeito aos direitos da personalidade, mais que uma aquisição do nascituro, são uma obrigação que se impõe a todas pessoas, em regime de sujeição total, que devem zelar pela vida humana em formação; entre outros exemplos legais, o mais recente consta do parágrafo 7º do Art. 9º da Lei 9434/97 que proíbe a gestante dispor de tecidos, órgãos ou partes de seu corpo que possam oferecer risco a saúde do feto.

    b) os direitos patrimoniais do nascituro se tornam efetivamente seus, com o implemento da condição suspensiva do nascimento com vida”. *

    ‘Extrair tecidos ou órgãos, Jamais / Extrair o ser em sua integridade, fique à vontade’.

    Acima disponho os comentários do Dr. Roosevelt Arraes, advogado, especialista em filosofia quando ainda da discussão do tema ‘aborto de anencéfalos’. E é na verdade ultrajante a maneira como todos os altos organismos de “promoção”, de intervenção e de normatização da vida pública no Brasil, não só no Brasil, claro, estão sujeitos a uma dialética que não leva em consideração valores historicamente sustentáveis, o estrato do pensamento e das crenças do povo e o próprio senso pelo qual se guia ou deve se guiar a análise do ordenamento jurídico. A lei supramencionada aborda a doação de tecidos e órgãos, e, por definição dela tal prática é vencida pelo direito de personalidade do nascituro, no entanto nosso STF_ composto pelo decano indicado por Sarney, por 9 ministros indicados pela dupla Lula-Dilma (ou seriam Falsão e Trambique, da Hanna-Barbera) e 1 indicado por FHC, estes dois últimos ambos Fabianos de tons levemente distintos_ se sobrepõe e objeta a tudo e todos para impor ao indivíduo e suas liberdades um programa que podemos atribuir politicamente a uma ideologia ou moralmente a assassinos de consciência escravizada a uma falsa liberdade, mas, enfim, é pecado, é alienação do sagrado é o drama do Salmo 53 sendo encenado diante de nós.

    Mas, não posso me desobrigar de parabenizá-lo pelo texto e por suscitar o tema que a igreja evangélica ignora com requintes apostáticos.

    * In, A extensão dos direitos da personalidade e a situação jurídica do anencéfalo.

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