O Deus imanente em Gênesis

transcendencia

Comumente, ouve-se o argumento de que Deus criou, estabeleceu os padrões e as leis do Universo e não mais interviu diretamente no Universo, deixando a criação aos cuidados do homem. Chamamos a isto de deísmo. Deus criou o Universo e depois o deixou funcionar por conta própria; Ele abandonou o mundo à própria sorte (cf. SIRE, J.W. O Universo ao lado: um catálogo básico sobre cosmovisão. 4ª Ed. São Paulo: Hagnos, 2009, pp.60,64). Ainda é muito utilizada a expressão que Deus criou o relógio, deu corda e o deixou sem nenhuma assistência ou supervisão. Tenho observado que entre alguns colegas médicos esta posição é popular.
O conceito de um Deus Criador pressupõe a crença em Sua imanência (sua presença ou intervenção na criação). Sem a sistematização doutrinária do conceito de imanência divina, somente em Gênesis podemos percebê-lo (chamamos a isto de Teologia Bíblica da Imanência em Gênesis).
Nota-se uma intermitência entre uma ação presencial de Deus e outra (no pós-criação), mas, ainda assim, observa-se que esta simples observação já faz cair por terra o deísmo.
Destaquemos algumas ocasiões que parecem apontar para um padrão do tipo: Deus coloca-se em geral numa posição parecida com o deísmo, porém, vez por outra, irrompe ou intervém na criação para redirecioná-la ou para adquirir conhecimento sobre ela (nesta última só creem os teístas abertos). Parece que Deus está ausente na tentação de Eva, mas logo se faz presente na viração do dia, estabelece um diálogo, faz vaticínios e protege o jardim.
Depois no capítulo 4, parece que Deus está em cima e então aspira o sacrifício de Abel e dele se agrada. Ora, se o Transcendente não é também imanente, então, a fumaça do sacrifício de Abel só pode ter atingido transcendência para alcançar as narinas divinas. Veja que esta linguagem que ocorre ao longo de todo sistema sacrificial e até mesmo ao longo do Novo Testamento pressupõe a imanência divina (Cf. Gn. 8:20,21).
E para os teístas abertos de plantão, por favor leiam o texto de Gênesis 4:8-16 com bastante atenção e percebam se há ignorância da parte de Deus por conta de sua pergunta ou se os vaticínios dos versos 10 e 11 não apontam para sua onisciência?
O padrão de intermitência aparente da imanência, porém, parece ruir em 4:16 – “retirou-se Caim da presença do Senhor”. Temos aqui indícios de que, em certo sentido, Deus estava presente de uma maneira mais particular em certos lugares ou sobre certas pessoas e isto de forma contínua.
Já temos uma teologia desenvolvida em Eva ao admitir que é Deus quem dá e quem tira os filhos. Bem antes de Jó, Eva já sabia que “o Senhor o deu e o Senhor o tomou” (compare Gênesis 4:25 com Jó 1:21). Deus não estava longe, mas de perto controlava todos os desdobramentos da história narrada em Gênesis.
O aspecto espiritual da imanência divina em 4:16 é mais visível em 5:22,24 e 6:9.  O andar de Enoque e Noé com Deus indica que é possível se relacionar com o Todo-Poderoso e ter um estilo de vida que O agrade.
Independente da interpretação que fizermos de Gênesis 6:3, teremos que admitir que até então o Espírito do Senhor vinha agindo regularmente (para não dizer continuamente) no homem.
Os antropomorfismos e antropopatismos atribuídos a Deus em Gênesis 6:6,12; 8:1; 11:5 tomados em sua literalidade findam negando a transcendência em sua literalidade, inserindo-o no Universo fechado criado por Ele, na qual se aprisionou sem poder escapar, pois o Transcendente não é atingido pelas categorias de tempo para poder se lembrar e se esquecer, tampouco de espaço para ter que descer. A linguagem antropopática acomodatícia deve ser levada em conta para não cairmos em um argumento falacioso ad absurdum.
As intervenções relacionais divinas realmente possuem intermitências na vida de Abrão; Deus o chamou (12:1); apareceu a ele (12:7); puniu a Faraó na presença de Abrão (13:17); apareceu a ele em visão (15:1-11); mudou seu nome para Abraão (17:5); recebeu a visita de Deus em sua casa (18:1-15); Deus apareceu em sonho a Abraão (20:6); visitou Sara e retirou sua esterilidade (21:1,2); Deus era com Ismael, filho de Abraão (21:20); Deus provou Abraão (Gn 22). As múltiplas ações de Deus justificam sua imanência e a aparente intermitência entre uma ação e outra não ratifica sua ausência da criação por alguns momentos, mas aponta para aparições divinas em que se transmite revelação especial.
Isto ocorre também com Isaque: Deus ouve suas orações (25:21); respondeu à consulta de Rebeca (25:230; Deus apareceu a Isaque trazendo-lhe revelação adicional (26:2 e ss); Deus abençoou Isaque (26:12); sua riqueza não era mero fruto de seus atributos e dotes pecuniários, mas da intervenção abençoadora de Deus; apareceu à noite trazendo mais revelação a Isaque (26:24,25); sabia que qualquer bênção que desse era diante do Senhor (27:7). Aqui temos um padrão vivencial. CORAM DEO.
A imanência divina também é manifesta na vida de Jacó e agora podemos perceber que o padrão da intermitência nas aparições divinas aponta para um aspecto revelacional: Deus lhe aparece em sonhos (28:11-15); Jacó percebeu a santidade do caráter revelacional divina. Foi neste sentido que declarou “O Senhor está neste lugar” (28:16). Jacó cognomina o lugar de CASA DE DEUS (uma teologia da habitação incipiente já é perceptível, mas foge do propósito deste estudo); a fecundidade de Lia vem do Senhor (29:31) e a própria Lia entende isto (29:32-35). Lia expressou sua gratidão a Deus nos nomes de seus filhos. Raquel tinha a percepção de que a concepção e a esterilidade vinham de Deus (30:6,22,24). O próprio Labão sabia que a bênção material vinha de Deus (30:27). Deus se revelou a Jacó para que este voltasse a sua terra (31:3). Deus interviu especialmente impedindo que Labão não fizesse nada contra Jacó (31:29); à semelhança de Betel, agora, Jacó tem a experiência de visualizar o acampamento de Deus (Maanaim – 32:2); Jacó luta com Deus e esta batalha possui aspecto revelacional (32:22-32).
No caso de José, a imanência de Deus  em atitude providencial é vista nas bênçãos que trouxe por seu intermédio à casa de Potifar (39:2-5). José tinha o senso da presença divina em santidade e por isso não pecou com a mulher de Potifar (39:9). Na prisão, a intervenção direta do Senhor sobre José continuava abençoando-o (39:21-23). José sabia que as interpretações de sonhos vinham do Senhor (40:8; 41:16); Faraó reconheceu a ação de Deus sobre José (40:38,39); os nomes dos filhos de José expressam o reconhecimento da ação providencial de Deus ao longo da história (41:51,52); Jacó reconhece que qualquer ação benevolente sobre seus filhos dependia da mercê de Deus (43:14); José percebeu a ação providencial de Deus em conserva a vida na sua ida para o Egito (45:5,7,8); José atribuiu todas as ações ruins e boas sobre sua vida a ação divina; Jacó via a ação de Deus continuamente com o Seu povo, livrando-o e fazendo-o retornar para Canaã (48:21); em Gênesis 50:15, José fala de uma visitação especial de Deus libertando o povo (50:25).
São fartas as evidências para se ver em Gênesis a imanência contínua de Deus confirmada progressivamente ao longo da revelação (João 1:3; Hb. 1:1-3). Amém!
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