Resenha 04: Como Ler Livros (Mortimer Adler; Charles Van Doren)

 

São Paulo: É Realizações, 2010, 432 pp.

Tradução: Edward Horst Wolff/ Pedro Sette-Câmara

Categoria: Leitura; Vida Intelectual;

Primeira Leitura: Realizada entre os dias 01/01/2015 e 21/01/2015.

Segunda Leitura: Realizada entre os dias 01/01/2017 e 18/01/2017

 

Desde 2011 tenho ouvido falar sobre Mortimer J. Adler como uma excelente referência na área de Metodologia Científica. As indicações vieram de mentes brilhantes como Almir Marcolino Tavares, Bruno Milhomens Soares, Franklin Ferreira, João Paulo Thomaz de Aquino, Olavo de Carvalho e John Piper. Pouco tempo depois, tomei conhecimento da Editora É Realizações e, simplesmente, fiquei encantado com a possibilidade de ler tantos autores de excelência acadêmica como: Eric Voegelin, Olavo de Carvalho, Russell Kirk, T. S. Eliot, José Guilherme Merquior, Roger Kimball, Mário Ferreira dos Santos, Theodore Dalrymple, Mirian Joseph, Richard Weaver, Roger Scruton, dentre outros.

Porém, só atentei para a leitura desta obra magnífica no início de 2015 e acabei de relê-la. É um daqueles livros que vale apena ser lido e estudado continuadamente. Mortimer Adler é um gênio e sabe explicar conceitos difíceis com uma maestria como nunca vi em nenhum outro autor. Foi um dos maiores educadores norte-americanos e dentre suas obras, além deste clássico, podemos elencar: “Aristóteles para Todos”, “Como pensar sobre as Grandes Ideias”, “Como Falar, Como ouvir” , etc. De viés aristotélico, foi um dos maiores incentivadores da metodologia escolástica típica do trivium e quadrivium.

O livro originalmente “How to read a book” foi escrito em 1940 (apenas por Adler); sua segunda edição ocorreu em 1967; e, em 1972 houve a terceira edição, agora com a participação de Charles Van Doren. É desta edição a tradução em português feita pela É Realizações em 2010.

O prefácio da edição em língua portuguesa é escrito pelo saudoso José Monir Nasser, que também possui uma palestra de apresentação da obra em destaque[i] o qual afirma ser o livro tanto um manual de técnicas de leitura quanto um estudo ontológico sobre a natureza da leitura (p. 15). Nasser tece muitos elogios a esta obra, mas afirma que uma de suas falhas é a categoria de livros práticos, que ao ver de Nasser não deveria existir, pois mesmo os livros práticos são manuais teóricos sobre como fazer algo.

Nasser foi um grande intelectual e sua apresentação do livro já é um belo resumo da obra. Ele faz uma análise comparada das abordagens sobre a arte de ler (São Vítor, Agostinho, Sertillange), passando por quatro níveis de leitura (elementar, averiguativo, analítico, sintópico), incluindo os seis gêneros literários (poesia, teatro, prosa, História, Ciência, Filosofia) e afirma debaixo do viés aristotélico dos quatro discursos (com base em Olavo de Carvalho) um processo cíclico nestes quatro gêneros (algo parecido com a espiral hermenêutica de Osborne).

A proposta de Adler aponta para a necessidade de equilíbrio na velocidade de leitura, posto que algumas obras exigem uma leitura mais lenta e outras podem ser lidas em grande velocidade (p. 19). Visando fazer com que os livros ensinem seus leitores, Adler traça o objetivo da obra: ler para entender; ele direciona este objetivo para os bons livros, reforçando que na leitura devemos aprender com os professores presentes (ouvindo-os) e com os professores ausentes (lendo-os) (p. 35).

Observe esta pérola de sabedoria extraída da presente obra:

Caso você formule uma pergunta ao professor, ele provavelmente lhe responderá. Se continuar com dúvidas, poderá poupar o trabalho de pensar e pedir mais explicações ao professor. Porém, se você formular uma pergunta ao livro você mesmo terá de responder. Nesse sentido, o livro é como a natureza – ou o mundo. Quando você os questiona, eles lhe responderão na medida da sua própria capacidade de pensar e analisar. (p. 36).

 

As leituras são classificadas em 4 níveis: elementar, inspecional, analítica e sintópica. Ao tratar de leitura elementar, ele aponta para o mero reconhecimento dos signos. Adler foca basicamente no grau de alfabetização dos indivíduos, apresentando estatísticas assustadoras sobre como alguns alunos chegam lendo muito mal nas universidades e enfatizando a necessidade de maior preparo e prática para ampliar seus horizontes neste nível. Ele aponta que os níveis são cumulativos, sendo que uma leitura deficiente em determinado nível impossibilita avanços nos demais.

A leitura inspecional é dividida em dois tipos de leitura: pré-leitura e leitura superficial. Com dicas preciosas sobre estas técnicas, Adler e Van Doren nos orientam sobre a prática de sondar um livro. É impressionante como pequenos detalhes passam despercebidos (examine a folha de rosto e o prefácio, o sumário, o índice remissivo, a contracapa e a sobrecapa, os capítulos centrais ao argumento do autor, folheie o livro); esta leitura é útil na seleção de livros, sendo que a leitura inspecional superficial uma vez bem feita gera o entendimento prévio necessário para a leitura analítica de um livro.

A ênfase, contudo, recai sobre a leitura analítica que ocupa 14 capítulos da obra. Adler classifica os livros em dois tipos de literatura: imaginativa e expositiva. Dentro da expositiva existem livros práticos e teóricos (História, Ciência e Filosofia). Na literatura imaginativa (ficção) encontram-se os livros de poesia, teatro e prosa. Ao ver a quantidade de regras presentes na leitura analítica o leitor pode sentir-se desestimulado, mas ele alerta que nem todos os livros são dignos de uma leitura analítica. A análise busca compreender o sentido do livro, apontando sua ideia central, sua unidade e sua diversidade com as devidas subordinações, seleção de palavras-chave, identificar os problemas da obra e observar como o autor os resolveu.

Uma regra muito importante dentro da leitura analítica e que é de particular importância para mim é a seguinte: “não critique até que tenha completado o delineamento e a interpretação do livro” (p. 174). Isto só deve ser feito ao final da leitura. Se houver algum erro ou desinformação, o leitor deve ser capaz de identificá-los. Do contrário é melhor ficar calado. Não agindo desta forma, estaremos sendo preconceituosos e desonestos com a obra lida:

Você não pode dizer, como muitos alunos dizem por aí, que ‘não encontrei nada de errado nas premissas, nem no raciocínio, mas mesmo assim discordo das conclusões’. Do contrário, o que você estaria dizendo é que não gosta das conclusões. Você não está discordando, está expressando suas emoções ou preconceitos. (p. 171)

 

Em seguida, Adler e Van Doren apresentam dicas muito úteis sobre os diversos tipos de literatura: livros práticos, literatura imaginativa, história, ciências, matemática, filosofia, teologia, ciências sociais.

Permitam-me algumas breves observações: na seção sobre História, Adler parece colocar a coisa no campo da impossibilidade de descobrir o real fato histórico, uma vez que muitos eventos nos foram legados pela ótica de um único historiador. Um exemplo disto é a descrição da Guerra do Peloponeso. Referindo-se a Tucídides, Adler afirma: “Se você ler Tucídides bem, talvez até acabe desistindo de tentar descobrir o que realmente aconteceu no passado.” (p. 250). Ele continua: “A história é a narrativa do que nos trouxe até aqui. É o presente que nos interessa – o presente e o futuro” (p. 250).

A partir daí, Adler parece colocar em segundo plano a real descrição do passado, mas apenas utilizar o relato como interface para descobrir como pensava o ser humano. Ele afirma: “leia um livro de história não só para saber o que realmente aconteceu em determinado tempo e lugar no passado, mas também para ver como os homens agem em todo tempo e lugar, sobretudo agora.” O relato pode ter sido falso, mas o que importa é saber como os homens pensaram e agiram em torno daquele relato. O evento per si pode ser falso, mas a descrição do homem é verdadeira. Este é o correspondente da “crítica da redação liberal” (coloquei entre aspas, uma vez que existe a legítima crítica da redação, feita de uma perspectiva ortodoxa) aplicado à Ciência Histórica.

Outra observação que faço diz respeito ao capítulo 18. Falando sobre livros canônicos, Adler afirma que os fiéis:

leem de modo reverente. Eles não questionam – nem podem questionar – a leitura autorizada ou correta dos livros que consideram canônicos. Os fieis são proibidos por sua fé de encontrar qualquer erro no texto “sagrado”, isso para não falarmos da proibição de ver algum nonsense nele. (p. 299).

 

No entanto, Adler e Van Doren se esquecem que todos os leitores, mesmo os arreligiosos, possuem seus critérios de “canonicidade” e suas obras canônicas, por mais que não articulem isto de forma consciente. Além disto, os autores atribuem o “cânon” cristão meramente ligado ao Novo Testamento, quando na verdade, nós tomamos como “cânon” os escritos do Antigo e do Novo Testamento (cf. p. 299).

Apesar de ser ferrenho em sua crítica aos “cânones” que possuem “canons irrevogáveis de leitura”, Adler e Van Doren suavizam sua análise sobre como os fieis leem a Bíblia:

O problema de ler a Bíblia – se sua fé diz que ela é a Palavra de Deus – é o problema mais difícil em toda a área da leitura. Existem mais livros sobre como ler as Escrituras do que a respeito de todos os outros aspectos da arte de ler, juntos. A Palavra de Deus é obviamente o texto mais difícil que o homem pode ler; mas é também, se para você trata-se da Palavra de Deus, o mais importante a ler. O esforço dos fiéis tem sido devidamente proporcional à tarefa. É verdade que, ao menos na tradição europeia, a Bíblia é o livro, em mais de um sentido. Não só é o livro mais lido, mas também o livro lido com mais cuidado. (p. 300).

 

Novamente, reitero meu argumento: se não for a Bíblia, todos terão seus “livros canônicos” para lerem-nos com “mais cuidado” aos quais todos os leitores devotadamente entregam sua fé. Aqui Adler não revela o que de fato pensa sobre a Bíblia, mas no mínimo soa ambíguo e contraditório, uma vez que sabendo que certos livros “canônicos” são falsos (e esta premissa é fácil de ser depreendida), o autor deveria alertar os leitores a não lerem seus livros canônicos de forma canônica.

Outro comentário, desta vez favorável e concordante com Adler, é sobre nossa interação com o livro. Se já chegamos ao livro com os pressupostos dos comentadores e analistas de segunda mão, é bem provável que passemos por cima do real significado da obra, quando a lermos. Por isso, vale a pena ler a fonte primária antes dos comentários (não é mesmo, pregadores?). Subscrevo plenamente o que Adler diz quanto a isto: “Não é possível entender um livro quando há uma recusa em ouvir aquilo que ele diz.” (p. 306).

Por fim, ele apresenta o nível de leitura mais profundo: a leitura sintópica. Esta consiste numa espécie de leitura comparativa entre diversos autores em um determinado tema. Como o próprio nome diz, são leituras que tratam do “mesmo tópico”. Isto se torna mais compreensível porque os autores apresentam exemplos de como fizeram uma leitura sintópica em torno da temática “progresso”. Eles nos dão uma grande sacada sobre a diferença entre a leitura analítica e a leitura sintópica: “(…) quando você lê um livro analiticamente, assume em relação a ele a posição de discípulo; quando lê sintopicamente, você é o mestre da situação.” (p. 321). Se um dia você tiver a oportunidade de escrever uma dissertação ou uma tese, leia analiticamente para fazer o fichamento das obras e leia-as sintopicamente para faze a dissertação ou a tese propriamente ditas.

Ao final, temos uma lista contendo o nome de 138 autores que, ao ver de Adler e Van Doren, são de leitura imprescindível e, por fim, trazem nos apêndices uma proposta de realização de testes e exercícios nos quatro níveis de leitura. Sobre os livros clássicos, dentre os quais certamente incluo este, os autores afirmam:

É preciso enfrentar livros que estão além de sua capacidade, ou, como dissemos, livros que estão acima de você. Somente os livros desse tipo vão levá-lo a ampliar sua mente. E, a menos que você a amplie, não aprenderá. (p. 340).

 

O livro contém pérolas de sabedoria e ao meu ver é indispensável para todos os indivíduos de nível superior. Em algumas disciplinas de Metodologia do Trabalho Científico este livro tem sido adotado como leitura obrigatória. Este volume, juntamente com A Vida Intelectual, de Sertillanges, formam ao meu ver uma dupla imbatível para iniciação à vida acadêmica: o primeiro como um tratado sobre a leitura e o segundo como princípios gerais norteadores da vida intelectual. Após estas obras, o leitor poderá se aventurar com os livros de Northrop Fries (Anatomia da Crítica) e Susan Bauer (Como Educar Sua mente). Para um viés protestante da crítica literária e da arte de ler, indico a obra Lit: A Christian Guide to Read Books, de Tony Reinke (uma sugestão do professor e pastor Felipe Prestes).

Diante de tantas qualidades, eu indico Como Ler Livros com muita satisfação e confesso que apesar de ser um livro razoavelmente grande, foi uma das melhores leituras que já fiz. Creio que o rigor desta obra, conforme sugerido pelos autores, não deve ser aplicado a todos os livros, mas as dicas mais genéricas são de grande valia e merecem aplicação na vida intelectual daqueles que querem crescer em suas leituras.

É uma leitura confortante para quem já está com mais de 30 anos. Estou com 35 e fiquei muito feliz ao me deparar com as seguintes palavras:

Quando a maioria das pessoas chega aos trinta anos, o corpo atinge o ápice; na realidade, o corpo de muitas pessoas começa a se deteriorar nesta fase. Mas não há limite para o crescimento e o desenvolvimento da mente. A mente não para de crescer quando chegamos a certa idade; é só quando o cérebro mesmo perde vigor, na velhice, que a mente não pode mais crescer em termos de capacidade e compreensão. (p. 346).

 

Termino destacando um excerto portentoso que me chamou a atenção ao longo da leitura e que me ensinou não simplesmente a ler muito, mas, acima de tudo, a  ler bem:

Os grandes escritores também são grandes leitores, mas isso não quer dizer que leram todos os livros que, na época deles, eram considerados indispensáveis. Em muitos casos, eles leram menos livros do que se exige na maioria das universidades modernas, mas o que leram, leram muito bem. (…) No curso natural das coisas, um bom estudante frequentemente se torna um bom professor, e, de maneira similar, um bom leitor se torna um bom autor (p. 176).

 

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[i] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SR9IlKLIJTA

 

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6 comentários sobre “Resenha 04: Como Ler Livros (Mortimer Adler; Charles Van Doren)

  1. Recentemente, Talyta comprou a obra e, com certa frequência, afirma: amor, você precisa ler esse livro! Eu sempre a respondia: amor, está nos planos. Hoje, após essa excelente resenha, compreendo a razão da insistência de minha amada esposa. O que tão somente estava nos planos acaba de se tornar o próximo plano. Obrigado, meu amigo, por mais uma contribuição significante neste site. Deus o retribua…

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  2. Tenho sido desafiado pela leitura deste clássico. Depois que a iniciei nunca mais consegui enxergar os livros e a arte da leitura da mesma maneira. O conhecimento está acessível – me refiro a um nível mais profundo de conhecimento, da posse holística do livro, conforme Adler propõe. No entanto, tal conhecimento será apenas para aqueles que se lançam no desafio de se tornarem leitores melhores e não apenas que leem mais. Sou grato ao bom Deus pela vida e obra de Adler que tem ajudado este pobre e sedento leitor que vos fala a corrigir suas falhas e a sondar a alma de alguns de seus autores favoritos.

    Parabéns pelo texto e obrigado por compartilhá-lo!

    Curtido por 1 pessoa

    • Romeu Sátiro, obrigado por seu precioso comentário. Não é tanto a quantidade e sim a qualidade. Este ano, resolvi fazer leituras mais densas num ritmo mais lento e percebo que estou tendo mais proveito do que leituras apressadas visando uma meta numérica meramente. Bons estudos e que Deus o abençoe. Parabéns pelo seu mais novo trabalho. Aguardamos os próximos vídeos.

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