Um rio para se contemplar!

 Que rio você gostaria de vislumbrar pessoalmente, presencialmente?

É certo que o nosso planeta possui rios, fontes de água doce, da mais pura beleza e qualidade. Se quiser se encantar com o volume de água, visite o rio Amazonas; se desejar admirar o mistério das águas escuras e claras que “nunca se misturam”, visite o encontro das águas; se quiser conhecer as barrancas mais belas de toda a Amazônia, visite o rio Purus. Se desejar conhecer o incrível processo de cheias e secas, visite o rio Acre; se desejar conhecer vários rios onde não correm mais águas, a lista é infindável. Se desejar conhecer o rio que alimentou a cultura e a mitologia egípcia, visite o rio Nilo; se quiseres um vislumbre de como a ação humana é capaz de apodrecer a natureza, visite a nascente do rio Tietê e o ponto em que seu percurso corta a cidade de São Paulo; se desejares ver o efeito expansivo, destrutivo e criativo da ação do homem sobre a força das águas, visite o rio Paraná, onde se localiza a Usina Hidrelétrica de Itaipu; se desejares se encantar com múltiplas quedas d´água com efeito visual hipnotizador, visite o rio Iguaçu ou o rio Niágara. Se quiseres desfrutar das belezas dos rios do Velho Mundo, então precisarás visitar Tâmisa, Reno, Danúbio, dentre outros. Se o vislumbre se junta ao misticismo oriental, então a pedida correta é o rio Amarelo ou o Gânges; se o objetivo é visitar o grande rio das narrativas bíblicas, então, certamente estamos falando do rio Jordão. Se quiseres conhecer um grande rio da Oceania, visite o rio Murray.

Falta-nos tempo para tratar dos rios São Francisco, Tigre, Eufrates, Sena e Mississipi; sem falar nos pouco conhecidos, mas valorosos, como o Salgadinho, o Capibaribe e o Canindé. Sem contar os igarapés, igapós, ribeiros, riachos, etc.

Não sou hidrólogo, é certo que você já percebeu pela pobreza das descrições acima mencionadas; tampouco visitei todos estes rios, mas pude vislumbrá-los por meio de fotografias, vídeos e mapas. Um em particular que gostaria de conhecer, não por causa do rio em si, mas por causa de sua emblemática associação com o Reino Unido e a cidade de Londres, é o rio Tâmisa (Thames). Muitos lugares são maravilhosos e os visitamos mais pelo poder fascinador do turismo; outros, por mais que sejam meros desconhecidos num mar de nomenclaturas e minicelebridades são visitados pela importância das pessoas que lá habitam ou por suas riquezas. Mas, eu gostaria de mencionar um outro rio cuja realidade é bem diferente do lago mencionado em um post passado. Refiro-me ao rio descrito em Apocalipse 22:1,2:

Então, me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos.

Rios são sinônimos de vitalidade, pois suas águas doces servem tanto para hidratar diretamente o indivíduo pela ingesta de H2O como para nutrir e vitalizar inúmeras plantas ao longo do trajeto. Esta linguagem de Apocalipse ecoa o rio descrito em Ezequiel 47:12:

 

Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio.

Esta vitalidade proveniente dos rios também é levada em conta nas passagens de Jeremias 17:8 e Salmo 1:3:

 

Porque ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão, não se perturba, nem deixa de dar fruto.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido.

A imagem do rio transmite a ideia de vida, vitalização, fortalecimento, frutificação e sucesso.

Esta ideia está presente desde os primórdios da criação, no Éden. Lá havia um rio que regava todo o jardim, por meio de seus quatro braços, conforme nos descreve Gênesis 2:10:

E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços.

 

Nas proximidades deste rio, havia a vegetação descrita em Gênesis 2:9:

Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.

É bem possível que as águas deste rio que saía do Éden, por meio de seus quatro braços fossem os agentes nutridores da árvore da vida. Eis o contexto em que o rio da água da vida nos é apresentado, levando-se em conta a intertextualidade bíblica e a simbólica nela contida.

Logo de cara, percebemos que Gênesis 1 e 2 apontam a criação e Apocalipse 21 e 22 nos apontam a consumação. O texto bíblico possui outros atos, tendo Cristo como ato central na Redenção, e a partir do evento Cruz, temos no restante do texto bíblico um interlúdio entre a criação e a consumação. O caminho para a árvore da vida se perdeu na queda, o Éden foi perdido, o paraíso se perdeu do campo visual do homem. Por meio de Cristo, os eleitos poderão ter o Éden restaurado.

O rio do Éden regava o jardim, mas a vida provinha da árvore da vida; na consumação, nós temos um rio que expressa em seu nome a vida tanto quanto a árvore, o rio da água da vida.[i] Em Gênesis 2, o rio saía do Éden, em Apocalipse, o rio sai do trono.[ii] Temos uma figura da presença viva de Deus alimentando e abençoando o seu povo por toda a eternidade, conforme a descrição de Apocalipse. As águas dos nossos rios podem ficar salobras, contaminadas, intoxicadas e podem até mesmo acabar. Mas a água do rio descrito em Apocalipse é límpida e cristalina, mais pura do que qualquer água depurada pelos melhores filtros terrenais, ela vem de uma fonte eterna, o próprio Deus, por isso nunca se exaure e aponta para a vida eterna, em consonância com a árvore da vida.

Mas, o poder do rio não está no rio em si, mas no próprio Deus, a vida em Si mesmo, de onde o rio e a árvore expressam vitalidade. A nova criação no Eschaton, recebe vida diretamente do próprio Deus, derivada diretamente do trono de Deus e do Cordeiro, uma clara evidência da deidade do Pai e de Cristo.

Alguns veem uma figura do Espírito Santo no rio, em associação com o texto de João 7:37,39, de maneira que o Espírito Santo, procedendo do Pai e do Filho, conecta os redimidos com a Deidade em plena harmonia eterna.[iii]

Não sei se você notou, mas na descrição do Éden Restaurado, não encontramos mais a árvore do conhecimento do bem e do mal. Não haverá mais nenhuma possibilidade de queda, pois o fruto a ser degustado e as folhagens a serem usadas como “cura para as nações” que vêm até Jerusalém é o fruto da árvore da vida.

Alguns acreditam que esta descrição é meramente simbólica, mas eu penso de forma particular que o “Novo Céu e a Nova Terra” realmente terão um rio e lá teremos de fato a árvore da vida. Desta forma, pretendo um dia contemplar um rio que é a manifestação da realidade dos eleitos em Cristo: terão vida eternal, vitalidade na pessoa do próprio Deus, deleite e gozo eterno por meio da vida que decorre do Pai e do Filho, através do Espírito Santo, serão puros eternamente, sem possibilidade de queda. Quanto ao fato da apropriação real das águas do rio e do fruto da árvore da vida, isto exige reflexão muito mais profunda e acurada, o que meus estudos não me permitem fazer no presente momento.

Uma coisa é certa, a água deste rio é melhor que a água de qualquer dos nossos rios; dentre os rios que ainda pretendo vislumbrar nesta área, nenhum deles se compara com o vislumbre que terei quando, por fim, vislumbrar, pessoalmente e presencialmente o Rio da Água da Vida. Mas o vislumbre maior ainda não é o do rio, mas o de Cristo (Apocalipse 22:3,4). Amém!

_____________________________________________________

[i] Osborne, G. R. (2002). Revelation (p. 769). Grand Rapids, MI: Baker Academic.

[ii] Idem.

[iii] Não sei se chegaria a asseverar isto, mas a ideia é muito atrativa e possui em G. K. Beale um de seus proponentes: Beale, G. K. (1999). The book of Revelation: a commentary on the Greek text (p. 1104). Grand Rapids, MI; Carlisle, Cumbria: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.

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