Sócrates em dois tempos: vida e filosofia

filosofia-socrates

 

 

Texto escrito em 2007, na cidade de Boca do Acre, por ocasião de uma palestra proferida no antigo NESSA (Núcleo de Estudos de Sabedoria do Sul do Amazonas), o qual tinha como membros, além de mim, Leonan, Cleuson, Fabrício Brito, Itamar Cunha de Sousa, dentre outros nobres colegas.

Foi um trabalho que surgiu a partir da apresentação de um seminário sobre Maiêutica Socrática na Escola Estadual Nossa Senhora de Aparecida, dia 27 de outubro de 2007, que por sinal é a data de aniversário de minha esposa, Aminadabe Leiva Furtado, a quem dedico o fruto de meu labor.

 

 

  

“Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim,

a si mesmo  se negue, dia a dia tome a sua

cruz e siga-me”  (Jesus Cristo em Lucas 9:23)

 

 

“Em verdade, em verdade te digo que, se alguém

não nascer de novo não pode ver o reino de Deus

(…) o que é nascido da carne é carne; e o que

é nascido do Espírito é espírito.

(Jesus Cristo em João 3:3;6)

 

 

INTRODUÇÃO 

Este trabalho não pretende ser um tratado exaustivo analítico-crítico da vida, filosofia e crítica textual socráticas. Pelo contrário, trata-se de uma breve síntese sob minha cosmovisão a respeito do que pode se apreender de Sócrates por intermédio daqueles que escreveram a seu respeito.

Muitos paralelos podem ser encontrados entre Sócrates e alguns personagens da História. Assim, com muita cautela passemos dos pré-socráticos, que na verdade deveriam ser chamados de filósofos da physis, a este homem que revolucionou o modo de examinar, conversar e expressar suas opiniões tão elementares e até mesmo as mais complexas, conectando-as com a realidade da cidade e da psique.

Que estes poucos parágrafos possam servir de base para a reflexão e para o pensar e repensar Sócrates; mas, acima de tudo, que seja visto com um texto particular, sem tentativas apologéticas, aberto para as críticas, tanto destrutivas quanto construtivas, pois na maioria das vezes precisamos mesmo é destruir nossas paredes, metais com qualquer coisa que venha a contribuir para a destruição de raciocínios falazes, massageadores do ego e inimigos da alma.

É um texto não escrito de maneira erudita que tenta verificar Sócrates tomando como base os escritos mais confiáveis a seu respeito. Leia, critique e depois me contate, com a finalidade de que tal texto seja mais um veículo de comunicação e de compreensão de nossas humildes almas desprovidas de saber inerente.

Boa leitura. Nada é tão rápido e tão fácil que não mereça ser feito com esmero e atenção.

 

 

SÓCRATES 

É impossível reconstruir totalmente e de maneira fiel o pensamento de Sócrates, pois ele não nos deixou escritos pessoais. O que dele conhecemos vem da pena de outros que admiravam ou odiavam a sua pessoa.

As principais fontes textuais a respeito de Sócrates vêm de Aristófanes (comediante contemporâneo de Sócrates), Platão e Xenofonte (discípulos de Sócrates); e Aristóteles (discípulo de Platão).

Sendo assim, é um verdadeiro desafio intelectual descobrir o que pensava e como viveu o verdadeiro Sócrates da História. Mas uma coisa deve ser levada em consideração: sua influência é viva e presente em todos os grandes filósofos e pensadores contemporâneos. Para descobrirmos a causa do fascínio de Sócrates entre a maioria dos filósofos devemos mergulhar nos escritos e fontes históricas a seu respeito.

 

Breve relato Biográfico

Sócrates nasceu em 470/469 a.C. no burgo de Alôpekê, em Atenas. Era filho de Sofronisco (escultor) e Fenareta (parteira ou maiêuta), com os quais aprendeu muitos de seus princípios filosóficos.

Não se sabe muito a respeito de seus primeiros anos. O contexto de Sócrates é de mudanças constantes na política, ceticismo (ninguém acredita em nada) e os principais pensadores de sua época eram sofistas (afirmavam saber sobre tudo e diziam que não existe conhecimento absoluto). A impressão que os testemunhos históricos nos deixam é que esteve envolvido com o pensamento pré-socrático e chegou a estudar Anaxágoras e Arquelau.

No campo particular, era de rude aparência, pobre e modesto, mais ligado às coisas da alma que as da matéria. Casou-se com Xantipa e teve três filhos (algumas tradições afirmam que teve uma segunda mulher: Myrtos).

Participou em três campanhas militares; foi um dos representantes da Assembléia Popular e não se intimidou diante dos políticos quando teve que tomar decisões.

A base de suas pesquisas e de suas buscas intelectuais era um sinal divino, que dirigia sua consciência por meio de sinais, revelações, sonhos e profecias. Havia um envolvimento religioso e uma missão divina. Tudo que o sinal divino (sua consciência) dizia para fazer ele fazia sem relutar.

No templo de Delfos, a pitonisa revelou a Xenofonte (amigo de infância) que Sócrates era o homem mais sábio que existia.

Sócrates passou a tentar provar se isto era verdade. Com cada pessoa que conversava, descobria que pensavam ter conhecimento de algo, quando, na verdade, eram ignorantes.

A base de sua sabedoria, que também poderia ser estendida a todos os homens era reconhecer que a verdadeira sabedoria está apenas com os deuses e que ao homem cabia reconhecer sua ignorância e a partir disto procurar com zelo onde estava a verdadeira sabedoria (pois só procuramos algo que tanto almejamos se nos encontramos desprovidos desta coisa: no caso de Sócrates, a sabedoria).

Despertou inveja e ódio em todos os que o ouviam. Foi acusado no tribunal ateniense por Meneto (poeta), Anito (rico industrial) e Lícon (orador). A base da acusação era corrupção de jovens, abandono da religião grega e adoração a deuses estranhos aos da cidade.

Sócrates foi condenado com 281 votos favoráveis à pena capital e contou ainda com 220 votos favoráveis à sua absolvição. Isto não foi suficiente pois ainda precisava de 30 votos para não ser condenado. Fez um discurso em sua defesa (registrado em Apologia de Sócrates. cf. Resenha 07:  https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2017/02/15/resenha-07-apologia-de-socrates-platao/ ) ; em outro momento falou sobre a vida após a morte e, finalmente, morreu, após tomar cicuta.

 

 

Alguns pontos importantes da Filosofia Socrática:

 

DECLARAÇÃO DE IGNORÂNCIA 

O verdadeiro sábio é aquele que percebe a sabedoria noutro lugar, não em si. Todos são ignorantes e devem buscar o saber. A frase célebre de Sócrates é esta: “Só sei que nada sei”. Infelizmente todos vivem presos à sua própria realidade, acreditando que aquilo que vivenciam e experimentam seja a verdade em todos os outros aspectos da vida. Tomando sua vida como maior fonte de ensinamento e jurisdição, fazem as coisas da maneira como lhes convêm. É necessário relutância e humildade para começar a concluir que as minhas impressões são incertas e precisam de auxílio externo para resolver os problemas; se especularmos um pouco mais, chegaremos à constatação que não sabemos. Só com esta consciência é que o sábio buscará o saber.

 

IRONIA

Manobra pela qual Sócrates, simulando a própria ignorância, arroga-se a posição de questionador e incita seu interlocutor, que tem a imprudência, a responder pela posição que ele se acha capaz de justificar.

“A ironia socrática consiste em fingir que se quer aprender alguma coisa de seu interlocutor, para levar este a descobrir que não sabe nada no domínio em que pretende ser sábio”. (P. Hadot, Qu’ est-ce que la philosophie antique?  Paris, 1995, p. 53)

A ignorância é sobre um conhecimento definitivo e absoluto. O saber de Sócrates é um conhecimento não definitivo, provisório, até que alguém o refute. Muito do que ele alega “saber” no campo ético é fruto de revelação dos deuses (sinal divino). Seus textos não são aporias (sem saída).

 

REFUTAÇÃO

É o passo que segue a ironia no desenvolvimento pedagógico de Sócrates. Sócrates prova que as bases do argumento de seus opositores são contraditórias. Se não houver uma disposição a ouvir e responder os questionamentos da ironia, certamente, fugir-se-á do debate apologético. A apologia revelará no final que a premissa e a fundamentação da idéia do opositor é insegura e incerta, pois tem como base o conhecimento a priori, subjetivo e unilateral daquele que se propõe a saber. A partir dos questionamentos Sócrates mostra que as conclusões de muitos são frutos de uma visão míope, restrita e fechada para a iluminação externa. Ele quer por meio da ironia refutar os seus argumentos. A refutação é o sopro que derruba as paredes da casa que impede o indivíduo de ver a luz que está vívida e brilhante lá fora.

Na Apologia: “Submeter a exame a si mesmo e aos outros”

“Uma vida que não foi submetida a exame(…) não merece ser vivida.

 

AUTO-CONHECIMENTO

Capacidade de avaliar a si mesmo no que concerne aquilo que eu sei e que não sei (discernimento). Este conhecimento surge por meio da refutação. Somente o auto-conhecimento leva ao verdadeiro discernimento. A frase inscrita no frontispício do templo de Delfos inspirou a filosofia de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”.

 

CUIDADOS COM OS BENS DA ALMA

Os bens são de três tipos: bens da alma (virtudes); bens do corpo (saúde; beleza; força); bens exteriores (riqueza, glória). Sócrates acreditava que o principal destes bens são os da alma; por tal motivo viveu uma vida sem regalias, exageros e excessos, pois sua busca era pela alma (virtude). “Não é da riqueza que vem a virtude, mas da virtude que vêm as riquezas” (Apologia de Sócrates).

Por fazer cortes no ser da pessoa, Sócrates falhou no sentido particular de sua vida, por não dar atenção aos cuidados da família e do corpo. Mas, apesar deste triste desdobramento prático oriundo de sua doutrina, é louvável sua capacidade de atribuir a verdadeira felicidade àqueles que buscam as virtudes. A mensagem que devemos perceber é que enquanto estivermos sufocados pela beleza dos atrativos desta vida e pela busca desenfreada pela estética, saúde física e cuidados deste mundo, mais longe estaremos de encontrar diretrizes sólidas que nos conduzam à felicidade perene, dado à transitoriedade da vida.

 

MAIÊUTICA

Sócrates como parteiro de almas.

Refutação: mostra aos que se acham sábios que são ignorantes.

Maiêutica: mostra aos que se acham ignorantes que são sábios.

No diálogo Teeteto Sócrates explica o processo da Maiêutica. Ajudava os outros a parir suas idéias e dar concepção às suas almas por meio das reminiscências, segundo as quais as almas são grávidas de conhecimento, que possuem antes de se incorporar. O aprisionamento da alma ao corpo faz com que o homem esqueça a sabedoria anteriormente aprendida. A maiêutica era o meio de fazer suscitar este conhecimento incubado na alma e desejoso de se expressar e aflorar. Sua mãe (que era parteira) sabia os passos necessários para um bom parto. Era necessário que a parturiente estivesse em trabalho de parto, com o colo dilatado e amolecido, para que o bebê pudesse passar facilmente; havia ainda a necessidade de uma força que empurrasse o bebê para fora: as contrações uterinas; a mãe precisava se concentrar e esforçar-se para que o bebê nascesse. Em tratando-se do parto das idéias e da sabedoria, devia ser entendido que a dilatação e o amolecimento do colo, referiam-se ao quebrantamento do ego endurecido, que deveria amolecer e ficar propenso ao ensinamento; da mesma forma os impulsos que dariam expressão às idéias seria a auto-negação e a necessidade de orientação externa. Depois da angústia e do sofrimento que é se auto-anular; destruir os castelos de raciocínios previamente construídos de maneira parcial, egoísta e fechada; agora era necessário reconstruir de maneira imparcial, tolerante e aberta, modelando um novo ser, que finalmente seria gerado: o conhecimento. Sócrates não fazia nascer o conhecimento em ninguém, pois todos estão grávidos de conhecimento. Ele só auxiliava as pessoas a pari-los. Quem não se anulava e não se deixava dominar pela humildade e necessidade de reconstrução findava por sufocar o bebê do conhecimento, chegando a matá-lo (assim para sempre ficaria sem sabedoria, pois não soube seguir as instruções de como se chegar a ela).

 

ESCOLAS SOCRÁTICAS (escolas que surgiram influenciadas direta ou indiretamente pela filosofia socrática)

  • ESCOLA CÍNICA: Fundador: Antístenes; reuniam-se no Ginásio Cinosarge (de onde vem o nome cínico – cão ágil).

Doutrina: Virtude e auto-suficiência Não-ter-necessidade-de-nada!  Dificuldades para obter sabedoria: orgulho e prazer.

Frase: “Eu preferiria enlouquecer a sentir prazer”

  • ESCOLA CIRENAICA: Fundador: Aristipo de Cirene. Rejeitaram as investigações filosóficas. Para eles: o prazer é um bem em si mesmo.

 

  • ESCOLA MEGÁRICA: Fundador: Euclides de Mégara. Doutrina: a única realidade é o bem. A virtude e a felicidade dependem do bem.

 

 

CONCLUSÃO

Eis o Sócrates que até o presente momento se apresentou a mim, por meio das leituras realizadas em alguns poucos textos traduzidos para a língua portuguesa e outros de filósofos nacionais.

É com extremo prazer que redescubro, mesmo a pequenos passos, o gozo da produção literária, que na verdade dever-se-ia chamar organização sistemática do complexo idealístico-lógico-prático personalizado. Devido à impropriedade deste conceito, prefiro entendê-lo como expressão do pensamento em processo, ainda não acabado, em expansão.

As buscas e as fontes fizeram-me perceber Sócrates sob outra ótica, mais próximo, mais presente, pois até o momento não tinha lido com tanto afinco os textos que versam a seu respeito. O fenômeno massificador que Sócrates causa em qualquer um que entre em contato com o “seu mundo” (que na verdade é daqueles que sobre ele escreveram) é impressionante, perdendo em seus efeitos e em sua grandeza apenas para poucos homens, dentre eles Jesus Cristo (o qual não só é o maiêuta como também é O gerador).

Apesar dos paradoxos que ele deixou bem evidentes entre sua filosofia e prática, sua clareza, força argumentativa, disposição em aprender, persistência na busca da verdade e da definição por excelência são as lições que julgo ter aprendido com as poucas leituras que fiz a seu respeito. Espero que o desenvolvimento e segmento dos textos socráticos possam amadurecer este pequeno trabalho; na verdade, estou ansioso para ler os textos de alguns colegas, o que muito contribuirá para o debate, diálogo e aprendizado em nosso município, mais especificamente os integrantes do NESSA. Fico grato a Deus que nos manifesta ensinos em muitas fontes extra-bíblicas. Agradeço a Deus pelo que aprendi de e com “Sócrates”.

 

REFERÊNCIAS 

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva.São Paulo: Nova Cultural: 2000.

GHEDIN, Evandro. A Filosofia e o Filosofar. São Paulo: Uniletras, 2003.

HUISMAN, Denis. Sócrates. [Tradução de Nicolás Nyimi Campanário]. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. Volume 1. [Tradução do italiano de Benôni Lemos; revisão de João Bosco Lavor Medeiros. 13ª Edição. São Paulo: Paulus, 2005.

__________. Introdução à Filosofia: Problemas, sistemas, autores, obras. [Tradução de J. Renard; revisão técnica de Danilo Morales; revisão literária de Luiz Antônio Miranda]. 15ª edição. São Paulo: Paulus: 2004.

PLATÃO. Apologia de Sócrates / Baquete (texto integral). Tradução: Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2007.

 

 

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