Resenha 09: Apoteose da Vigarice (Olavo de Carvalho)

 

APOTEOSE DA VIGARICE: Cartas de um terráqueo ao Planeta Brasil. Volume I

Autor: Olavo de Carvalho.

Campinas/SP: Vide Editorial, 2014, 272 pp.

Primeira Edição: Agosto de 2013; segunda edição: Fevereiro de 2014.

Editor: Silvio Grimaldo de Camargo

Categoria: Filosofia Moderna / Ensaios políticos

Leitura realizada entre os dias 02/01/2017 e 22/02/2017

 

Olavo de Carvalho é uma das figuras mais polêmicas no meio acadêmico brasileiro da atualidade. Aliás, muitos nem o consideram acadêmico, pelo fato de não ter formação superior formal. Porém, seja odiando os seus escritos, amando-o, sendo Olavete, ou repugnando-o em sua consciência, fingindo ignorá-lo publicamente, o que é certo é que você não pode simplesmente deixar passar batido que este homem tem influenciado boa parte dos políticos, novos intelectuais, editores, escritores, leitores e militantes políticos da atualidade.

Olavo de Carvalho tem uma vasta erudição e escreveu obras diversas. Sua principal obra, ao meu ver, é O Jardim das Aflições, um texto muito fino que aborda a forma como a Filosofia ignorou homens da envergadura de Aristóteles, Agostinho e Aquino e como colocou em voga pensadores de inclinação esquerdista, como sinônimo da elite intelectual da história universal, conforme nos revela a seleção feita por Pessanha da coleção Os Pensadores, tudo isto como processo do Cesarismo. Ele ainda escreveu obras em estilo irônico contra os intelectuais da USP (O Imbecil Coletivo I e II), de sua pena temos um tratado contra a Nova Ordem Internacional e o marxismo cultural gramscista (A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra e Antonio Gramsci). Além destes e de outros, não poderíamos deixar de nos reportar à compilação de muitos artigos seus sobre diversos temas, editado pela Record sob o tema “O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”.

Em 2005, Olavo de Carvalho mudou-se para os Estados Unidos da América. Olavo já transmitiu um programa de rádio chamado True Outspeak e hoje possui muitos cursos on-line, destacando-se o Seminário de Filosofia e o COF (Curso On-line de Filosofia). Jornalista e filósofo consagrado, Olavo de Carvalho já foi correspondente de diversos periódicos. O livro aqui resenhado é o primeiro de uma coletânea de artigos de Olavo para o Jornal do Comércio. Os primeiros artigos são de 2005, primeiro ano de Olavo nos EUA, e aqui estão reunidos neste primeiro volume da série “Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil”.

Pelo título da Coleção, já se percebe o tom irônico e depreciativo de Olavo para com a mídia brasileira. É impressionante como Olavo em pouco tempo passa a apresentar dados precisos sobre a política norte-americana e os apresenta semanalmente nos artigos aqui publicados.

O objetivo deste primeiro volume é tríplice: 1). Documentar e apontar para a existência do Foro de São Paulo; 2). Denunciar a fraude jornalística brasileira e, 3). Emitir novos conceitos filosóficos. Os dois primeiros já estão fartamente documentados e hoje percebe-se como a mídia é enviesada e não possui compromisso com a verdade. O Foro de São Paulo é uma organização esquerdista formada por partidos políticos, narcotraficantes e líderes latino-americanos que tem como objetivo o processo de domínio da América Latina a partir do fenômeno da bolivarização. As novas tendências filosóficas são quatro teorias desenvolvidas e aplicadas por Olavo: atomismo histórico-sociológico (só se pode provar um fenômeno sócio-histórico se ele puder ser reduzido aos seus mínimos detalhes de maneira comprovável. Ex.: a Revolução Francesa não foi burguesa pois ao se observar as fontes, na verdade, ela foi antiburguesa; teoria do sujeito da história (em síntese, Nações, classes e Estados não são sujeitos da histórias, mas cenários ou objetos da ação); Teoria das  castas (os intelectuais inventaram as “ideologias de classe”) e teoria dos quatro discursos (reunida no livro Aristóteles em Nova Perspectiva).

Os artigos são muito bem escritos e tentam provar que os articulistas da grande mídia nacional nada sabem sobre política e economia mundial. Por exemplo, vivem falando mal dos EUA mas se esquecem que a abertura comercial para a China foi feita pelos EUA. Mas Olavo vai além e mostra o quão perigoso é confiar no livre comércio, posto que a China se beneficiou do livre comércio com os EUA para fortalecer seu exército, o qual se prepara para combater aquele que lhe abriu as portas do comércio (pp. 24,25).

Nos artigos, Olavo usa com maestria o artifício de intercambiar dados de um assunto relativos aos EUA e arrematar a temática com a situação no Brasil. Em um dos artigos ele aponta a Revolução Judicial nos EUA, em que gradualmente as cortes vão ganhando ares de legislação, ao ponto de deliberar gradativamente causas em favor da Esquerda Internacional, na surdina, abrindo precedentes para práticas hediondas. Aqui no Brasil não temos percebido nada disto não é mesmo (nem no STJ, tampouco no STE. Os casos Toffoli, Marco Aurélio são apenas teorias da conspiração de ultra-conservadores contra um supremo pautado pela ética, não é mesmo?). Isto pode ser exemplificado nos EUA através do caso em que muitos cidadãos foram desapropriados de suas residências em favor de construção de empreendimentos do campo imobiliário, por meio de decisão judicial.

Uma tirada fantástica sobre o orgulho carnavalesco brasileiro e o orgulho patriótico norte-americano é vista na seguinte expressão a respeito do July Four:

Vou hoje a Virginia Beach para ver a queima de fogos, os concertos de bandas, a alegria nacional de um país que tem amor-próprio e razões para isso. A diferença entre os EUA e o Brasil começa aí: naquele, a festa mais popular é o Dia da Independência; neste, a baderna geral que celebra a fuga às obrigações, a abdicação da realidade. São galáxias de distância entre um patriota com bandeira na mão e um folião bêbado vestido de baiana. (pp. 38,39).

 

Existem artigos mais polêmicos como “A CIA que ninguém conhece”, onde Olavo desconstrói o argumento de que a CIA é totalmente oposta ao esquerdismo internacional. Pelo contrário, agentes infiltrados da KGB dentro da CIA trabalham para o esquerdismo internacional. Ao tratar do Brasil, Olavo aponta como o esquerdismo utiliza parâmetros conservadores de “ética” para chegar ao poder. Camuflado da boa “ética” e do discurso messiânico, denunciando os mínimos deslizes dos seus opositores, o PT chegou ao poder mediante a estratégia leninista que “acusava os outros de fazer o que ele próprio, assim, podia fazer com toda a tranquilidade, a salvo de qualquer suspeita”. (p. 47).

No artigo “Da ignorância à maldade”, Olavo mostra a estratégia do PT (lembre-se que nesta época – 2005 – Lula estava no poder): ignorância – fraqueza – maldade. Utilizando-se das categorias de Aristóteles, Olavo aponta como o PT utilizou-se de décadas de ignorância meticulosamente programada para fragilizar o povo e deixá-lo vulnerável para propagar o mal à nação. Perceba: pouca ênfase em educação, diminuição dos rigores escolares, nivelamento por baixo do Ensino Superior e banalização do acesso ao saber, ideologização universitária esquerdista preparatória para o desarmamento civil, a fragilização das polícias, o financiamento do narcotráfico e vice-versa, a propagação e financiamento do banditismo até a supressão de liberdades individuais, culminando no massacre, violência e opressão real (não aquelas que dizem que fazemos contra as minorias) contra os cidadãos ao ponto de exterminá-los (quer dizer, que o neonazista é o Bolsonaro? Ou seria o Santo?).

No artigo “Miséria Intelectual sem Fim”, Olavo aponta obras essenciais em diversas áreas da Literatura, Política e Filosofia e aponta o quão longe estamos de atingir o patamar de verdadeira erudição e alta cultura, tão tacanhos sejam os nossos ideais e programas literários. Em outros artigos, Olavo mostra como o esquerdismo internacional manipula informações sobre George W. Bush, tornando-o vilão da história. Na verdade, no caso do alerta de um furacão a um estado governado por uma democrata, ele tentou de todas as formas ajudar os cidadãos por meio das forças federais (FEMA), mas a estratégia da governadora era não dar munição e ibope para Bush, sendo assim negou até quando pôde. Resultado, o Katrina devastou seu estado e Bush ainda saiu como vilão. Foi assim que a notícia chegou ao Brasil, mas a apuração real dos fatos poucos sabiam.

Olavo, em outro artigo, mostra que Bush é um conciliador compulsivo entre democratas e republicanos e certamente pagará o preço por isto (já está pagando). No artigo “A miséria no mundo” ele inverte a moeda de que o globalismo é a tábua de salvação do mundo e que o capitalismo precisa ser suprimido. Numa escrita invejável, Olavo demonstra que “o capitalismo é uma força de expansão, o globalismo uma força de contração” (p. 152).

Em outro artigo, Olavo mostra como o Brasil se negou a receber apoio financeiro dos EUA para comprar medicamentos contra a AIDS, simplesmente, porque uma das exigências dos EUA ao Brasil era que no texto do convênio não houvesse legitimação da prostituição. O governo federal não quis e quem pagou o tratamento contra a AIDS? Nós. 48 milhões de dólares dos nossos bolsos! Quem saiu como mocinho: O PT!

Noutro artigo, Olavo desmerece Chomsky como grande intelectual. Ele afirma que Chomsky foi um tipo de intelectual público, daqueles que aparecem na mídia, dão entrevistas, etc. Mas que como produtor intelectual, sua obra ficou restrita ao gerativismo. Além disso, demonstra como a Folha de São Paulo o elevou à categoria de maior intelectual, quando na verdade pegou dados de uma pesquisa da revista Prospect sobre o intelectual mais influente do mundo. Os admiradores de Chomsky e os seus detratores deveriam ler este artigo intitulado “a origem das opiniões dominantes”. Noutro artigo, Olavo faz um apanhado histórico brilhante e sintético da Esquerda e da Direita.

Assim, ao longo do livro, por exemplo, Olavo revela dados escabrosos sobre Fidel Castro e a Revolução Cubana (pois o objetivo de Olavo é fazer uma exegese e descortinar o grande mandatário do Foro de São Paulo e da América Latina, cognominado Fidel Castro). Enquanto isto a imprensa brasileira fala mal dos cubanos que conseguiram chegar nos EUA como “mafiosos de Miami”, porém o fato de serem prósperos somente os credibiliza, enquanto a miséria do povo cubano na ilha, somente descredibiliza o regime castrista.

Mas para que Fidel conseguisse o total domínio sobre a ilha (totalitarismo), ele precisou usar leis brandas para os políticos e rígidas para o cidadão (mas, graças a Deus, isto não acontece aqui no Brasil!). Gradualmente, Olavo vai apresentando sua teoria da paralaxe cognitiva, a saber a existência de um abismo entre a realidade e as construções teóricas. E, assim, Olavo aponta como os governos esquerdistas, seguindo uma frase de Maquiavel (“não digo uma só palavra do que creio nem creio numa só palavra do que digo”), vão mascarando a realidade de seus intentos por meio de discursos utópicos e altamente nocivos, que findarão por exterminar aqueles que acreditarão em suas palavras.

Para ampliar ainda mais suas ideias sobre o esquerdismo internacional, Olavo relaciona o Marxismo cultural com o Islã, mostrando seus pontos de similitude em destruir a cultura ocidental. Assim como herodianos se uniram com fariseus, os marxistas se mancomunam com islâmicos pelo fim do Ocidente:

Inúmeros teóricos marxistas e muçulmanos vêm fazendo há décadas um profundo trabalho de harmonização das duas grandes utopias: o socialismo planetário e o califado global. A orientação mais geral é tomar o islamismo como um coroamento espiritual do socialismo meramente “terrestre”. (p. 211).

 

Em outro artigo revelador, mas não menos polêmico, Olavo, que é católico militante e não simpatizante da reforma protestante tenta demonstrar como a revolução puritana na Inglaterra culminou num socialismo incipiente nos primeiros puritanos que adentraram aos EUA, os quais só não foram à completa miséria por abandonarem padrões socialistas. A polêmica aqui consiste em relacionar a Revolução Puritana com o Esquerdismo. Confesso que preciso estudar mais este assunto, pois a relação de Reforma com Revolução já é algo que deve nos soar estranho aos ouvidos.

O artigo que dá nome a este livro mostra como de maneira paulatina, insidiosa e cruel as leis pró-aborto vão sendo implementadas nos EUA e aqui no Brasil também.  Olavo ainda encontra tempo para criticar o improviso chinfrim brasileiro de muitas igrejas evangélicas, em total oposição à megaestrutura dos musicais natalinos de certas igrejas evangélicas norte-americanas.  Neste artigo ele volta a criticar o ativismo judicial pró-esquerda e faz uma relação de George Soros, o banqueiro internacional em favor das esquerdas, com Lex Luthor (vale muito a pena dar uma conferida).

Um dos livros citados do início ao fim desta obra é Intellectuals, de Paul Johnson, obra seminal para entender como os intelectuais agem como parte da inteligentzia esquerdista a fim de disseminar suas ideias. Fica a dica de leitura (já encomendei meu exemplar!).

Seja você um anti-Olavo ou uma Olavete, leia este livro com olhar crítico, observando suas declarações, deleitando-se com sua escrita refinada e com seu estilo irônico peculiar e comparando suas exposições com a realidade. Olavo não é dispensável. Ele precisa ser lido, mesmo que seja para ser combatido. Indico esta obra para entender melhor sua denúncia contra o Foro de São Paulo, o seu anti-petismo, a sua revolta contra a mídia brasileira e insights de suas principais teorias filosóficas. Boa leitura! Quanto a mim, em breve partirei para os outros volumes desta coleção.

 

 

 

 

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