Resenha 11: A Cabana (William P. Young)

 

Young, William P. Young. A Cabana. Tradução de Alves Calado. Rio de Janeiro: Sextante, 2008, 240 pp.

Título da Edição original em Inglês: The Shack (2007), em parceria com Windblown Media Corp., California.

Categoria: Ficção americana

 

Esta obra foi um sucesso editorial a partir do impacto que causou em seus primeiros leitores, o que a levou a se tornar um best-seller. Foi escrita por William P. Young, filho de missionários, que se formou em Religião, em Oregon, tendo experiências em muitos segmentos sociais. A grande temática do livro baseia-se em responder o problema do mal: Se Deus nos ama, porque ele nos permite sofrer tão cruelmente? Procurando responder esta pergunta de maneira inteligível e aceitável para a grande massa foi que Young, auxiliado posteriormente por muitas pessoas, cada uma com sua cosmovisão, se propôs a escrever esta ficção. Talvez por isto não levou em conta a revelação escriturística.

O livro fez tanto sucesso que foi adaptado para o cinema em 2016 e o roteiro tem data marcada em abril deste ano para sua estreia no Brasil. Aproveito o ensejo para apresentar uma resenha que fiz da presente obra alguns anos atrás.

Trata-se da história de Mack, um homem que perdeu sua filha Missy bruscamente, vítima de um assassino em série, apelidado de Matador de Meninas, o qual até o presente momento não havia sido encontrado nem deixado vestígios dos corpos de suas vítimas. A partir daí, Mack entra em depressão (a Grande Tristeza) e se sente extremamente culpado pela morte de sua filha, pois esta sumira num momento em que Mack deveria estar cuidando dela.

Ao receber um convite assinado por Papai, resolve ir até uma Cabana para se encontrar com “Deus”. A partir deste encontro é que o autor passa a responder a pergunta sobre o mal. Ele tem um real encontro com a Trindade, cada uma das 3 pessoas, manifestas fora do estereótipo comum. Deus pai aparece como uma negra alta (Elousia); Jesus, como um carpinteiro judeu de traços árabes bem distintos dos convencionados nos quadros, e o Espírito Santo como uma mulher oriental (Sarayu). Todo o enredo é desenhado visando desarmar e libertar Mack de seus traumas: sentimento de culpa, aversão a Deus e dificuldades de aceitar a paternidade, por causa das surras que levava de seu pai na infância.

A ênfase está na Psicologia e não na Teologia; no relacionamento e não nas regras. Talvez pelos excessos de figuras, pelos antropomorfismos e antropopatismos atípicos, o livro finda passando uma imagem negativa para as instituições eclesiásticas. Percebemos, porém, que o seu grande enfoque se pauta por um tratamento personalizado e individual de Deus para com o homem, buscando as raízes psicológicas de seu problema e usando figuras e imagens que se adequem a isto e não necessariamente às Escrituras. Por outro lado, tal descompromisso para com a religiosidade (pp. 166 e 177) cria um ambiente fértil entre os não religiosos, mesmo que trate de temas que incluam o elemento divino.

Porém, observamos claramente que muitos ideais do autor findam obscurecendo alguns padrões bíblicos, tirando a primazia escriturístico-objetiva, levando a trama a cair num subjetivismo relacional. Para a mentalidade pós-moderna, esta temática é facilmente aceita e apreciada. Eis o porquê de tamanho sucesso!

Claro que não podemos deixar de reconhecer os méritos do autor quanto à sua grande capacidade criativa, que de tanta criatividade findou falando tanto de Deus de acordo com a sua visão, mesmo criticando a imagem convencional que a Bíblia tem dele; ele falou de um Deus Todo-Poderoso, mas findou adequando-o aos padrões humanos de limitação. O Deus desconhecido e superior parecia íntimo do autor, como se este tivesse acesso aos arcanos do divino, ultrapassando aquilo que fora revelado nas Escrituras.

Cito aqui algumas das dificuldades que encontrei na obra de ficção. E talvez aqui esta seja a grande problemática: por se tratar de uma ficção, o autor pode se valer do princípio que não estava tentando estabelecer doutrinas, apenas trazendo à tona uma estória com fundo moral. Mas o próprio narrador se identifica com o protagonista da história. Isto causa impacto e convida o leitor a entrar na realidade por trás da ficção. Porém, sabendo que nenhuma ficção é escrita ao acaso, entendo que todas as idéias ditas por Papai, Jesus e Sarayu nesta obra, são nada mais que as idéias do próprio autor. Quanto à maioria delas, principalmente no que tange à sua fundamentação, me antagonizo categoricamente: primeiro quanto à ênfase no relacionamento e não no padrão bíblico (pp. 168 e 169); segundo, a idéia subjacente de um insight após o acidente ser o elemento transformador de sua vida e não a Palavra de Deus (confira o capítulo 18); terceiro, o autor tende para o universalismo e para o anticristianismo institucional, colocando a salvação à disposição de todos os credos e não-credos, desde que seja focada no relacionamento com Deus. Observe esta afirmação reveladora vinda dos lábios do Jesus descrito por Young:

Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipócritas. Há banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos, judeus e palestinos. Não tenho desejo de torná-los cristãos, mas quero me juntar a eles em seu processo para se transformarem em filhos e filhas do Papai, em irmãos e irmãs, em meus amados (pp. 168,169).

 

A religião é desnecessária, mas os religiosos são convidados a continuar em sua religiosidade (paradoxal; cf. p. 166); quarto, Jesus não criou nenhuma instituição (o que dizer, então da igreja?); quinto, uma visão perigosa e distorcida intratrinitariana leva o autor a dizer mais do que deveria.

O sucesso do livro também ocorre pelo fato de ele responder razoavelmente a questão do mal (talvez da perspectiva psicológica uma das melhores respostas, centrada no relacionamento, no perdão, na sabedoria do propósito divino e na certeza de que Ele sempre está conosco). Acredito que nem todos os cristãos estão preparados para ler esta obra. Recomendo-a para aqueles que já têm uma boa fundamentação teológica, a fim de não se perderem facilmente nos sutis acréscimos e tendências de W.P. Young. O ponto mais positivo encontra-se na seguinte idéia: regras fincadas no auto-esforço são muito mais fáceis e simples do que relacionamentos fincados na auto-entrega. Só acrescentaria ao pensamento do autor, que devemos priorizar o relacionamento e a total entrega, aspecto este que nos fará encarar com mais seriedade as regras, não como um mero ritual, mas como forma de agradar ao Deus com quem nos relacionamos.

No final, um grupo de leitores (quem talvez esteja por trás disto seja a própria editora e autor) acredita no elemento transformador deste livro. Para concluir, deixo a seguinte reflexão: Parece que o livro é mais importante que a Bíblia? Claro que não é. Se tiver que tomar decisões morais, fá-las-ei com base na Bíblia. A Cabana é um enredo baseado numa lente não inspirada, que nem se compara ao real relacionamento que brota da leitura das Escrituras. Aliás, mesmo a narração distorcida de “A Cabana” só é possível graças à revelação proveniente da Escritura Sagrada.

O livro A Cabana é persuasivo e apelativo e pode levá-lo às lágrimas (como fez comigo), mas não se deixe dirigir meramente pelo sentimentalismo e toque profundo que a emoção da perda de um filho pode causar em alguém, nem acredite que estas lágrimas façam parte do “bem-aventurados os que choram” mas observe como uma trama “bem intencionada” pode nos levar para bem longe das Escrituras. Tome nota disto ao ler o livro ou assistir o filme A Cabana.

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7 comentários sobre “Resenha 11: A Cabana (William P. Young)

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