Reflexões autobiográficas (I): Eu nasci.

nascimento

 

Eu nasci!

Já parou para pensar na profundidade desta declaração? Mais profunda ainda é a declaração: “Eu fui gerado”. Aquela diz respeito a uma frase na voz ativa, está na voz passiva. Mas, quanto de sua atividade realmente foi efetuada para que você nascesse?

Bem, partindo do pressuposto que a vida começa na concepção (é o que realmente creio), até mesmo os movimentos do gameta masculino que adentrou o óvulo que formou a sua célula-ovo (você em sua fase mais primitiva de existência), foram efetuados anteriores a você. Sua geração depreendeu-se de um processo biológico natural sem sua participação, até porque você é fruto deste processo chamado fecundação. Além disso, a partir daí a placenta passa a ser o mediador entre você e sua mãe!

Atividades inter-comunicativas entre o embrião e a mãe provocam reações na mãe e no embrião. Ela se esvai em vômitos, tem sua fisiologia conformada para receber mais um membro da raça humana e o feto passa a se desenvolver involuntariamente (creio que não seja o feto que ordene a formação de seu Sistema Nervoso Central). Há uma atividade passiva ao longo de todo o processo gestacional (isto não impede o feto de dar uns chutes na barriga da mãe de vez em quando, mas não o qualifica para escrever, falar ou cometer pecados – calma, já voltamos para a temática da depravação total). Ao mesmo tempo, a passividade não é inativa; o feto sorri, chupa dedo, tem suas trocas gasosas e começa a dar manifestações da maturação gradativa do SNC em fluente harmonização com o soma (se bem que o SNC também é soma).

Nesta fase, após a manifestação de amor entre os pares (pai e mãe) para a sua formação, o feto passa a receber o amor direto da mãe e indireto do pai (manifesto em sua contínua preocupação com a gestação, nos preparativos para a chegada do bebê, no beijo aplicado na barriga da mãe, no coito ao longo da gestação, nas carícias, etc.).

Eu nasci em 15 de julho de 1981. Minha mãe disse que eu nasci a termo, então é possível que tenha sido gerado em meados de outubro de 1980. Meu pai e minha mãe estavam apaixonados, passaram a morar juntos e do fruto de sua união eu fui gerado. O local de minha concepção foi na cidade de Boca do Acre, terra “altaneira”, meu berço amado. Naquela localidade, uma única célula passou a desenvolver-se e formar trilhões de tantas outras. Porém, isto não consistiu num mecanismo meramente biológico. A espiritualidade inerente ao ser humano, expressa em sua personalidade, naquilo que chamamos de Imago Dei, foi a mim outorgada pelo Pai, mediada de alguma forma pelos elementos biológicos de meus pais, mas em certo aspecto misterioso, transcendente ao físico (metafísico). Eu ia me desenvolvendo, corpo e alma, no ventre materno, a qual já era corpo e alma desenvolvidos (mas ainda em desenvolvimento).

Fui amado desde a concepção e conforme relatos de minha mãe, tudo ocorreu muito bem ao longo de toda a gestação. Esta harmonia feto-materno não se limitou apenas às relações biológicas, mas se manifestou intensa e profícua no relacionamento entre a alma já formada e a alma em formação. Apesar de tudo, Deus trabalhava em meu ser me preservando, por exemplo, de um abortamento espontâneo e no ser de minha mãe (fazendo-a evitar um abortamento provocado); trabalhava em meu ser, livrando-me de uma má-formação congênita, e no ser de minha mãe (levando-a a evitar substâncias teratogênicas). Mas em tudo, a atividade por excelência foi de Deus. Ele determinou cada um dos meus dias, inclusive o dia de minha geração, desenvolvimento intra-uterino e nascimento.

Muitos fazem reflexões otimistas e motivacionais sobre o sucesso desde a concepção, por meio do nadar vitorioso de seu espermatozoide até o óvulo. Declaram: você é um vencedor desde o começo. Sua concepção já foi vitoriosa. Porém, tal pensamento, tende a colocar o mérito da vitória do “nado gametal” no próprio gameta. Eu penso no mistério da vida e reflito: como eu pude vir a existir? Que mistério é este que uniu corpo e alma e me gerou? Deus me concebeu no ventre de minha mãe. O mérito é dele, não meu. Não há uma marcha vitoriosa rumo à vida; há uma condução decretiva de Deus sobre os gametas. Seu decreto executado é quem me traz à existência. E eu pergunto: por quê? Por que eu fui formado? Por que no meio do mar das infindas possibilidades pré-concepcionais, aprouve a Deus selecionar aquela possibilidade que me fez vir a ser? Calo-me diante do Criador e só posso ouvi-lo dizer: “Porque eu quis”.

Avanço na reflexão e penso: “por que Deus me manteve no ventre materno?”; “por que não fui abortado?”; “por quê”? A resposta não está no preparo e condicionamento físico de minha mãe nem mesmo na minha genética, mas no Seu Eterno Decreto. Ele já sabia cada pecado que eu cometeria, porque mesmo assim me deixou nascer, enquanto milhões não conseguem sair do útero com vida? A resposta é: Providência. Ele sustentou por meio do decreto; o Decreto garantiu a sobrevivência, a manutenção, a nutrição, a maturação fetal e os meios adequados para que minha mãe “desse à luz a mim”. Mas a verdadeira luz quem me deu foi Deus, permitindo que meu nervo óptico fosse devidamente formado, meu globo ocular tivesse funcionalidade, que eu não fosse infectado pelo Toxoplasma gondii. Deus foi gracioso e propiciou todas as condições para que eu nascesse e enxergasse (mas a luz do mundo só foi por mim vislumbrada algum tempo depois).

Eu não tinha praticado o pecado, mas já era possuidor da natureza pecaminosa; o pecado a mim transmitido por Adão (pecado original) não era mera culpa de meu antepassado, mas a minha própria culpa auferida por meu representante federal e seminalmente a mim transmitida. De uma maneira mística eu estava no Éden, pecando com Adão, e por isso fui concebido em pecado e em pecado me gerou minha mãe. Ela, uma pecadora; meu pai, também um pecador. Não eram regenerados ainda, mas, por mais que o fossem, não poderiam garantir minha limpeza espiritual. A natureza pecaminosa continua sendo transmitida mesmo nos regenerados, pois não há perfeição no sentido pleno da palavra, nesta esfera da existência (a não ser em Cristo). Sendo assim, já era um pecador, mas um pecador amado por meus pais e preservado por Deus. Por isso nasci!

Minha mãe ganhou algumas roupas, comprou outras com os poucos recursos que meu pai tinha. Meu enxoval não foi tão exuberante quanto o de minha filha Sofia, mas foi adequado para a circunstância e para a realidade financeira de meus pais. Enfim, nasci! Chorei e também levei minha mãe às lágrimas. Lágrimas de emoção, lágrimas de tensão, lágrimas de alívio, lágrimas de amor! Fui amado por Deus e isto foi expresso no amor materno e no amparo paterno.

Vim ao mundo e gerei alegria para meus familiares! Não eu em si, mas a mão de Deus efetuando o milagre do meu nascimento e renovando a vida em mim. O nascimento de mais um membro da espécie humana é celebrado pelos seus! Recebi roupa, alimento materno (o leite materno e depois o leite modificado de vaca), abrigo, abraço, afago, cuidados médicos e fui agraciado com um lar maravilhoso. Por quê? Providência! Deus assim o quis!

Não foi casualidade! O Decreto Eterno foi quem me levou a ser gerado! Passivamente, pois não poderia me autocriar. Fui submetido passivamente às mãos de Deus, que me deram o contorno exato de meu fenótipo e de meu genótipo, utilizando como meios naturais e espirituais, a vida de meus pais (por isso vim a ser Fares Camurça Furtado, pecador, filho de Francisco e Antônia). Não fui um vencedor no sentido competitivo, mas amavelmente fui eleito para vir à existência pelas mãos dAquele que venceu a Morte. No meu nascimento, os esforços sincronizados da mãe e os movimentos involuntários de contração fetal não foram os verdadeiros agentes do “nascer”, mas a mão divina em tudo agiu com o objetivo de que vida eu viesse a ter.

Poderia ter sido em Londres, Pequim ou Nova York, mas quis Deus que fosse em Boca do Acre, estado do Amazonas. Nem por isso foi menos importante; também não foi mais importante do que uma criança nascida às margens do Arapixi ou do Inauini. A importância da vida e sua sacralidade está na imagem que ela representa, sendo assim, seja em Pauini, Fortaleza do Abunã, São Paulo, Boca do Acre, Canindé ou Washington, todo ser humano é criado à imagem de Deus. Que privilégio é ter nascido, mesmo sem ter merecido! Tudo fruto da misericórdia de Deus aplicada ao meu ser; porém, em nada podemos nos sentir melhores que aqueles milhões de fetos que não vieram a nascer. Em tudo a graça de Deus, mesmo nas situações geradoras de morte intra-uterina. Deus é soberano e sabe o porquê de cada feto não ter nascido (mas se você cometeu um aborto provocado, isto não te isenta de pecado).

Vejo-me como alguém agraciado pela concepção, honrado pelo privilégio da manutenção intra-uterina e encantando com a bênção de ter nascido, sobretudo no seio de um lar que tanto me amou (e que me ama até hoje). Vitória como mérito meu ou de meus pais? Otimismo esbanjador? Sucesso em meio a outros gametas? Meritocracia em relação aos que não conseguiram nascer? Longe de mim pensar tais coisas: a Providência assim o quis e eu louvo a Deus por isto, só podendo realizar esta atitude de louvor a posteriori justamente porque nasci! Obrigado, Senhor, eu sei que não mereci. Mas tu assim o quis. Estava em teus planos que assim o fosse! Eu só posso te agradecer pelo privilégio de nascer. Tu és a própria vida e a minha vida de ti é derivada, tu me conheces no íntimo, minha vida pública e também a privada; não me deixes pensar que melhor que o outro sou; não houve mérito no nascer, já nasci um pecador. Se tudo é fruto da tua misericórdia em mim aplicada, porque reclamar da vida, de ter nascido como se tudo isso fosse “nada”? Tu sabes todas as coisas e diante de Tua Ciência eu me calo; contemplo teus grandes feitos e por comparação e através do que me contaram, vejo que sou um dos teus feitos também! O que dizer daquele que me gerou, me preservou e me fez nascer? Obrigado, Senhor, que por mim morreu, para que por ti eu pudesse viver. A ti a glória pelo meu nascimento e aos meus pais fica o agradecimento por se deixarem ser usados por Ti, tendo-me como rebento!

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4 comentários sobre “Reflexões autobiográficas (I): Eu nasci.

  1. Eu acabei por “acaso” aqui porque queria descobrir o dia da semana que nascí e acabei por ler este belo pensamento de alguém que nasceu no mesmo dia e ano que eu e a filha tem o mesmo nome que a minha. .que coincidência. ..só que eu não acredito em concidências.

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