R.O.A. (2) – Nelson Ávila. Obra: Há um significado neste texto? (Vanhoozer)

Sobre o resenhista:

Nelson Ávila é formado em Teologia com honras (Summa Cum Laude) pela Escola Teológica Charles Spurgeon e Bacharel em Teologia pela Faculdade Kurios. Mestrando em Teologia Sistemática pelo Instituto Aubrey Clark / SIBIMA. Pastor da Igreja Batista em Itaitinga, professor de Teologia e articulista na revista Teologia Brasileira (http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiacolunista.asp?codigo=127). É casado com Aline e pai de Jonas.

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Nelson Ávila

R.O.A. (02)

VANHOOZER, K. J. Há um Significado neste texto? Interpretação Bíblica: os enfoques contemporâneos. São Paulo: Editora Vida, 2005, 664 pp.

Resenhista: Nelson Ávila

Tradução do original: Álvaro Hattnher

Copyright: 1998, by: Zondervan.

Leitura concluída em 10/02/2017

Kevin J. Vanhoozer é professor de teologia sistemática na Trinity Evangelical Divinity School há mais de 30 anos. Ele também lecionou em University of Edinburgh e Wheaton College. Vanhoozer obteve seu M. Div. no Westminster Theological Seminary e seu Ph.D. na Cambridge University. Ele também tem publicado vários livros notáveis, inclusive recebendo premiações, como melhor livro de teologia pela Christianity Today em 2006, com o livro The Drama of Doctrine, e em 2015, com o livro Faith Speaking Understanding. Além disso, Vanhoozer tem se destacado igualmente como editor.

O presente livro de Vanhoozer não deveria ser adotado como uma introdução às discussões contemporâneas em torno da hermenêutica por iniciantes no assunto, e não por alguma deficiência no livro em si, mas devido à própria complexidade dos temas abordados, especialmente na parte 1 do livro. Seria mais interessante que o recém-chegado ao mundo da hermenêutica fizesse uma leitura prévia em livros-texto mais simples sobre o pensamento de homens como Schleiermacher, Kant, Saussure, Gadamer, Ricoeur, Fish, Derrida, Rorty, Foucault, Hirsch, Habermas e Searle, à menos que tenha, durante a leitura, o acompanhamento de alguém capacitado para o esclarecer. Vanhoozer dialogará com cada um desses autores, dentre outros, nem sempre de maneira clara ou organizada, e quanto mais informação prévia o leitor tiver, melhor proveito fará da obra.

A obra se divide em duas partes, que talvez poderíamos até chamar de “do ceticismo” (parte 1) à “fé em busca de compreensão” (parte 2), e isso porque a primeira parte da obra é destinada à exposição do pensamento hermenêutico incrédulo, ou seja, dos defensores de uma abordagem radical reader response, dos utilitários e dos desconstrucionistas, ambos os grupos buscando “desfazer” a possibilidade de conhecimento literário objetivo, enquanto a segunda parte defende a obtenção de conhecimento adequado (em oposição à ideia de conhecimento absoluto) alicerçado nos atos de fala do autor no texto. Essa última seção também argumenta brilhantemente em favor de uma moralidade interpretativa que dialogue com e respeite os textos e o que seus autores intentaram por seus atos discursivos.

Vanhoozer é extremamente honesto no trato com outros autores (os “incrédulos”), num esforço visível para fazer críticas justas, evitar caricaturas e absorver o que for bom (mesmo no que diz respeito ao desconstrucionismo, normalmente rejeitado de pronto e como um todo por seus críticos). O interessante das avaliações de Vanhoozer são seus apelos constantes à autoridade das Escrituras, seja direta ou indiretamente, ao invés do comprometimento com alguma filosofia secular. Ele se coloca sob a Palavra.

Vanhoozer também deixa claro que o problema nas discussões hermenêuticas da atualidade é, antes de tudo, teológico – a morte de Deus nos círculos acadêmicos traz consigo a morte do autor, do significado e, em último caso, a própria irrelevância dos textos e leitores. Em suas próprias palavras, um de seus “objetivos perlocucionários ao escrever este livro é convencer o leitor de que a hermenêutica geral é teológica” (2010, p. 482). Nisso ele é persuasivo, visto que até mesmo citações de Derrida apoiam sua conclusão.

Uma excelente advertência de Vanhoozer quanto a necessidade de avaliação constante de nossa própria tradição à luz das Escrituras está na seguinte frase: “Hoje, existe o perigo de se rebaixar o sentido literal (o que significava para o autor e o público original) em favor de um sentido eclesiástico (o que significa para nós hoje na comunidade guiada pela tradição ou pelo Espírito)” (p. 481). Sua advertência emerge num contexto de crítica à visão da tradição de Gadamer, tradição essa que parece impossível de revisão crítica ou de ceder espaço para novas tradições. Ao mesmo tempo, ele também reage aos que transformam a própria Escritura em mero produto da tradição sob influência viva e dinâmica do Espírito, que reveste de novos significados o que antes era apenas “letra”. Contra tudo isso Vanhoozer ressalta o princípio reformado do sola scriptura, que nos relembra a necessidade de permitir que o texto da Escritura fale, exorte, desafie, mude e transforme o que precisa ser transformado na tradição e na vida de indivíduos diferentes e em contextos diferentes – é preciso atenção às ações ilocucionárias e perlocucionárias da Palavra de Deus (e da literatura de maneira geral), ou seja, ao significado único complexo e suas múltiplas aplicações.

À despeito do que foi dito no parágrafo anterior, Vanhoozer parece brevemente traído por sua própria tradição na crítica que faz ao fundamentalismo. Em seu tópico intitulado “porque não sou um fundamentalista”, sua argumentação (inclusive com citação da Confissão de Fé de Westminster), torna visível seu compromisso com uma hermenêutica pactualista de continuidade. Nesse ponto, suas críticas ao fundamentalismo, tomado como sinônimo de dispensacionalismo, parecem dirigir-se apenas aos piores representantes do movimento. O problema não é que o que ele descreve não se aplique ao movimento, mas que não se aplica no toto, ou seja, há uma generalização que coloca o dispensacionalismo inteiro debaixo do guarda-chuva pejorativo que Vanhoozer pintou.

Deve-se notar que praticamente tudo o que Vanhoozer diz sobre princípios hermenêuticos saudáveis em seu ataque ao fundamentalismo, com exceção, talvez, apenas dos pontos distintivos de sua própria tradição aliancista (como a tendência à espiritualização e continuidade), poderia ser aplicado justificadamente à boa parte do que fundamentalistas acadêmicos já colocam em prática em suas obras. Ele afirma que os fundamentalistas/dispensacionalistas são presas de um literalismo ingênuo que ignora os diversos gêneros literários, como o apocalíptico e o profético, mas mesmo dispensacionalistas mais antigos, como Herman A. Hoyt (1979), reconhecem a necessidade de atenção ao contexto para definir se tal passagem deve ser tomada literalmente ou figurativamente. Sem falar nas diversas discussões sobre tipos, analogias e gênero em obras que abordam a hermenêutica da descontinuidade*. Michael J. Vlach (2011), um dispensacionalista, argumenta que a diferença entre as abordagens pactualista e dispensacionalista nem pode ser resumida à interpretação literal versus espiritual, mas tem a ver com a questão da prioridade de um testamento sobre o outro, o que traz implicações para literalização ou espiritualização.

Em seu trato sobre a relação entre Israel e igreja, Vanhoozer mais uma vez revela seu compromisso com uma tradição aliancista ao “declarar ‘isto’ (e.g., promessas e profecias sobre Israel) como ‘aquilo’ (promessas e profecias sobre a igreja)” (p. 483). É interessante que, mesmo defendendo a ideia de que o Espírito não altera o significado, apenas o aplica, Vanhoozer pega textos que se referem claramente à uma comunidade nacional e étnica (Israel) e insiste em que o significado verdadeiro de tais textos diziam respeito à outra comunidade, internacional e multiétnica (a igreja). Como isso não seria uma alteração de significado está longe do óbvio. Poderíamos dizer que uma coisa é a linguagem de “enxerto” e “inclusão” dos gentios nas promessas feitas à Israel (Rom. 9-11), que culminaram na criação de uma nova comunidade (a igreja – a união de dois grupos em um só corpo. Cf. Efé. 2:14-3:6). Outra bem diferente é dizer: “isto” (Israel) é “aquilo” (a igreja).

Outro problema na crítica de Vanhoozer sobre a abordagem fundamentalista é a acusação de que eles reduzem o princípio do sola scriptura à um entendimento “do que a Bíblia significa para nós”, ao invés de simplesmente “o que a Bíblia significa”. Isso sugere duas coisas falsas: 1) que os dispensacionalistas não distinguem entre “significado” e “significante”, mas basta consultar algumas obras de hermenêutica dispensacionalista para testemunhar o contrário**; 2) que os dispensacionalistas não revisam seu sistema à luz das Escrituras. Na verdade, podemos dizer que talvez não haja movimento que tenha revisado tanto sua hermenêutica como os dispensacionalistas. Um breve estudo de sua história testemunhará esse fato com facilidade, visto que a hermenêutica dispensacionalista vai desde o que poderíamos chamar de um dispensacionalismo clássico, sendo posteriormente alterado para um tipo de dispensacionalismo conhecido como revisado ou modificado, até, por fim, chegar ao que hoje responde pelo nome de dispensacionalismo progressivo***.

Apesar desses problemas, a obra de Vanhoozer não deve ser diminuída, pois ela abençoa reformados e dispensacionalistas com uma crítica poderosa aos principais desafios hermenêuticos de nossa época, além de fornecer considerável gama de ferramentas para diálogo e resposta aos problemas apresentados por utilitários, desconstrucionistas e adeptos da reader response. Ele também nos confronta em duas tentações perigosas: o orgulho (de presumir de mais acerca do significado) e a preguiça (de presumir de menos acerca do significado) hermenêutica.

Algumas contribuições importantes nesse livro são: 1) A divisão histórica da confusão hermenêutica como era do autor, do texto e do leitor. Isto é extremamente didático para a compreensão do desenvolvimento da crise hermenêutica. 2) O uso que Vanhoozer faz de algumas teorias seculares importantes, como a teoria dos atos de fala de John Searle, a ideia de textos como projetando um mundo, de Paul Ricoeur e a ideia de ação comunicativa de Jürgen Habermas. Embora Vern S. Poythress defenda que a obra de Vanhoozer deveria ter fundamentado sua resposta à desconstrução mais em sua proposta inicial (da comunicação intratrinitária) do que no uso dessas ideias seculares de Searle, Ricoeur e Habermas, ainda assim a apropriação destas teorias em favor de um realismo hermenêutico crítico é uma contribuição valiosa para o debate. Além dessas poderíamos mencionar sua defesa de um realismo hermenêutico crítico, ao invés de uma teoria de correspondência ingênua. Daniel Santos (2007, p. 123) também menciona em sua resenha outras contribuições importantes, como a) “a redescoberta da distinção entre significado e significância, há muito popularizada por Hirsch em seu livro Validade na Interpretação”; b) “a distinção entre leitura densa e tênue”; c) “a distinção entre entender e sobreentender”; d) “a distinção entre sentido literal, literário e literalista”; e) “a redefinição ou reafirmação do que é um texto, o que é significado, o que é intenção autoral, o que é interpretação, etc.”

Recomendamos entusiasticamente a leitura de “Há um significado nesse texto?” como um excelente contraponto construtivo ao que os pós-modernos têm procurado desconstruir. Essa é uma leitura nem sempre agradável ou prazerosa, mas certamente enriquecedora e útil.

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NOTAS
* Conf., por exemplo, Feinberg in Feinberg, 1988.
** Cf., por exemplo, Feinberg in Feinberg, 1988.
*** Cf. Vlach (2011, pp. 20-24).

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REFERÊNCIAS

FEINBERG, Paul D. Hermeneutics of discontinuity. In FEINBERG, John S. (ed.). Continuity and discontinuity: perspectives on the relationship between the Old and New Testaments. Wheaton: Crossway, 1988.

HOYT, Herman A. Dispensational premillennialism. In CLOUSE, Robert G. (ed.). The meaning of the millenium: four views. Downers Grove: InterVarsity, 1979.

POYTHRESS, Verne S. Review of Kevin Vanhoozer’s is there a meaning in this text? Westminster Theological Journal, Philadelphia, 61/1, 1999, pp. 125-128.

SANTOS, Daniel. Resenha. Fides Reformata, São Paulo: Mackenzie, vol. XII, nº 2, 2007, pp. 121-123.

VANHOOZER, Kevin J. Há um significado nesse texto? Interpretação bíblica: os enfoques contemporâneos. Tradução de Álvaro Hattnher. São Paulo: Vida, 2010.

VANHOOZER, Kevin J. Há um significado nesse texto? Interpretação bíblica: os enfoques contemporâneos. Tradução de Álvaro Hattnher. São Paulo: Vida, 2010.

VLACH, Michael J. Dispensacionalismo: crenças essenciais e mitos comuns. Tradução de Germano Ribeiro. Fortaleza: Syllabus, 2011.

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