R.O.A. (03) – Fernando Henrique. Obra: Escrever e Argumentar.

 

Sobre o resenhista:

FHC33

Fernando Henrique

 

Fernando Henrique Pereira da Silva é pós-graduando em tradução da língua inglesa pela Faculdade Estácio de Sá. Fortaleza-CE. Professor de línguas bíblicas no Seminário e Instituto Bíblico Maranata (SIBIMA). E-mail: fhenrique.net@gmail.com.

R.O.A. (03)

KOCH, Ingedore; ELIAS, Vanda. Escrever e argumentar. São Paulo: Contexto, 2016, 240 pp.

Resenhista:

Fernando Henrique PEREIRA DA SILVA

 

Palavras-chave: Argumentação na linguagem; escrita; texto; linguística de texto.

Key-words: argumentation in language; written; text; text linguistics.

 

Ingedore Koch e Vanda Elias são linguistas que atuam na vertente da Linguística de texto. Juntas, elas possuem outras obras como Ler e Escrever (2015) e Ler e Compreender (2015). As contribuições da professora Koch são enormes tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Dentre elas, pode-se destacar Argumentação e Linguagem (2011) que serviu de fundamento para o livro aqui resenhado.

Escrever e Argumentar é dividido em nove capítulos. No primeiro, as autoras visam definir o que é texto, argumentação e sentido. Mas antes disso, apresentam sua visão epistemológica sobre a linguagem como instrumento de interação entre participantes. Ou seja, por meio da linguagem revelam-se

Relações que desejamos estabelecer, efeitos que pretendemos causar, comportamentos que queremos ver desencadeados, determinadas reações verbais ou não verbais que esperamos provocar no nosso interlocutor etc (p.14)

 

Uma vez que a linguagem é interação, há um fazer entre os interlocutores de um sobre o outro. Para as autoras, há uma razão da argumentação. É o fato que o ser humano é dotado de vontade, sendo um “homem que constantemente avalia, critica, isto é, forma juízo de valores” (p.28). É partindo também desta base antropológica que Koch e Elias (2016) consideram que argumentar é

Tentar influenciar o nosso interlocutor por meio de argumentos cuja constituição demanda apresentação e organização de ideias, bem como estruturação de raciocínio que será orientado em defesa da tese ou ponto de vista, visando à adesão do interlocutor (p.34).

 

Com essas considerações e seguindo a Linguística de Texto, Koch e Elias (2016) definem o texto como “um objeto complexo que envolve não apenas operações linguísticas como também cognitivas, sociais e interacionais” (p.15). Dito de outra forma, a proposta segue a visão interacionista de Bakhtin (2006) e o sociocognitivismo de van Dijk (2008). Uma visão interacionista, de fundamento bakhtiniano, entende que a linguagem é uma relação dialógica não somente entre texto, produzindo a intertextualidade, mas também a interação entre os participantes do discurso. Já a ideia sociocognitiva em van Dijk (2008) o conhecimento é visto em termos de modelos mentais, que são conhecimentos armazenados na memória.

Toda esta visão a respeito do seja o texto serve de fundamento para as autoras tratarem do sentido, que “é construído na relação que se estabelece entre o autor, o texto e o leitor” (p.19). Nota-se com isso o caráter interacional da linguagem, sendo o texto um médium entre os participantes, interação essa que se revela na argumentação. Por essa razão também as autoras trabalham aspectos textuais como o processamento, os articuladores e a intertextualidade.

Valendo-se de Charaudeau (2008), as linguistas entendem que a argumentação é

O resultado de uma combinação entre diferentes componentes, que exige do sujeito que argumenta construir, de um ponto de vista racional, uma explicação, recorrendo a experiências individuais e sociais, num quadro espacial e temporal de uma situação com finalidade persuasiva (p.24).

 

Textualmente, a argumentação é feita por operadores ou marcadores argumentativos, os quais, organizam as ideias e promovem a progressão textual de tal forma que haja coesão e coerência. Pelo uso destes elementos, o ato de argumentar se visto como algo essencialmente linguístico no sentido de que o uso dos elementos conduz para determinadas conclusões, para determinadas orientações argumentativas. A orientação argumentativa se dá também pela seleção lexical. Como elas afirmam:

A seleção lexical é uma das maiores importantes estratégias do vocábulo que deve ser usado, tanto com relação ao tema que se vai desenvolver, como quanto ao destinatário, aos propósitos do enunciador e toda a situação comunicativa” (p.32).

 

Mas também é marcada pelo que está implícito. Com isso, é necessário que o leitor faça inferências para descobrir o significado do texto por meio de marcas linguísticas que orientam o texto.

 

Além destes, a intertextualidade é outro elemento que funciona na argumentação – tema do segundo capítulo. O conceito é entendido como o diálogo entre textos[i]. Dentre as formas, há a citação direta, que serve como recurso de autoridade, a fim de dar maior credibilidade à proposta ou opinião a ser defendida. Já a citação indireta é uma forma de “dizer com nossas palavras ou parafrasear as ideias alheias” (p.49). A intertextualidade pode também se apresentar em títulos, servindo como orientador para o que vai ser dito.

 

No terceiro capítulo, as teóricas do discurso afirmam que “a gramática de uma língua possui certos elementos que têm por função indicar ou mostrar a força argumentativa dos enunciados, a direção ou o sentido para o qual apontam” (p.61). Elementos esses designados de operadores argumentativos, “elementos linguísticos que permitem orientar nossos enunciados para determinadas conclusões” (p.64).

Há orientadores que conduzem para uma mesma conclusão (e, também, ainda); os que indicam o argumento mais forte de uma escala a favor de determinada conclusão (até, até mesmo, inclusive); os que deixam subentendida a existência de uma escala com outros argumentos mas fortes (ao menos, pelo menos, no mínimo); aqueles que conduzem a conclusões contrárias (mas, porém, todavia, no entanto e etc.); outros que introduzem uma conclusão em relação a argumentos apresentados anaforicamente (logo, portanto, por isso); operadores que servem para justificar ou explicar algo dito no cotexto anterior (porque, já que, visto que, como etc.); elementos que ligam por meio de comparação com fins a uma conclusão (mais… (do) que, menos…(do) que, tão… quanto); operadores alternativos (ou… ou, quer… quer); os que assinalam conteúdos pressupostos (já, ainda, agora) e por fim, os que funcionam em uma escala que orienta para a afirmação da totalidade (um pouco, quase) ou para a negação da totalidade (pouco, apenas).

O quarto capítulo trata de como a progressão textual contribui para a argumentação. Como afirmam Koch e Elias: “o autor remete a algo que já está presente na memória do leitor e, considerando essa base, vai acrescentando informações novas, que, por sua vez, passarão também a construir suportes para informações subsequentes” (p.86).

Em outras palavras, pela retomada de informações conhecidas (nos termos de Halliday, Dado) e suas relações com as informações novas, o texto forma um todo coerente. Uma das formas de se perceber tais relações é pela retomada de referentes, termo que é substituído por referenciação.

A forma com que os referentes são [re]categorizados no desenvolvimento textual ocorre “de acordo com o nosso objetivo, a nossa intenção, os nossos leitores/ouvintes, a situação em que nos encontramos envolvidos” (p.89). Com isso, tal fenômeno revela a orientação argumentativa a uma dada conclusão. Além disso, a referenciação serve para encapsular porções textuais e segmentar o texto em parágrafo.

Em seguida, o capítulo apresenta as estratégias de progressão textual. Uma delas é a repetição, que contribui para a coesão textual e a referencial. Outro recurso é o paralelismo sintático, que consiste na “repetição de uma mesma estrutura sintática” (p.101). A paráfrase também é mencionada, sendo uma forma de repetição no âmbito semântico por meio de expressões do tipo: isto é, ou seja, ou melhor, em outras palavras etc.

Por fim, são apresentadas formas de progressão textual sem a recorrência de termos. É o caso da progressão temática. Funcionalmente, o texto é organizado em torno do tema, “aquilo que se toma como base da comunicação, aquilo de que se fala” (p.104) e o rema, “aquilo que se diz respeito do tema” (p.104). A progressão temática pode ser: 1. Com tema constante; 2. Com subdivisão do rema; 3. Progressão linear, quando o rema do enunciado anterior passa a ser tema do seguinte; 4. Com salto temático; 5. Com recursos retóricos, que se dá por efeitos pragmáticos como a anteposição do rema e 6. Progressão/continuidade tópica, que trata do tema geral ou tópico discursivo.

Ainda no âmbito textual, o sexto capítulo relaciona os articuladores textuais com a argumentação. Os articuladores funcionam para fazer articulação entre orações, períodos, parágrafos e sequências maiores, de tal forma que o texto seja visto como um todo de sentido. Esses marcadores discursivos se dão nos níveis global, intermediário e microestrutural. Suas funções são estabelecer relações de ordem lógico-semântico (espaço-temporal, condicional, causalidade, finalidade, alternância) para o estabelecimento da organização textual.

Além do mais, há os operadores do discursivos, que determinam as relações entre enunciados por adição de enunciados, disjunção, Contrajunção, justificativa, comprovação, conclusão, comparação, extensão e correção.

Junto a esses, há os articuladores metadiscursivo que funcionam como modalizadores, por apresentar a avaliação de quem fala; delimitadores de domínio, por especificar o campo e evidenciadores de propriedade autorreflexiva da linguagem, em que a linguagem explica a si própria.

Com base nas considerações de ordem textual-discursiva vistas nos cinco primeiros capítulos, o sexto, sétimo e oitavo procuram dar diretrizes de como iniciar, desenvolver e concluir uma argumentação, respectivamente. Nos capítulos seis a oito, as autoras delineiam o planejamento de como iniciar, desenvolver e concluir uma boa argumentação. No sexto capítulo se propõe o planejamento do texto argumentativo lidando com: 1. O tema ou assunto; 2. A finalidade para a qual se escreve; 3. A quem se destina o texto; 4. A situação na qual se encontram autor e leitor; 5. O conhecimento que o escritor assume que o leitor tenha, de modo que o autor seleciona o que deixar explicitar e o que implicitar e, por fim, 6. O gênero textual, pensado dentro da situação comunicativa. Já no sétimo, perguntas retóricas, comparação, exemplificação e exposições de argumentos favoráveis e contrários são estratégias para se desenvolver a tese central. Por fim, o oitavo capítulo propõe a conclusão a partir de uma síntese do que foi desenvolvido, uma pergunta retórica e a solução da problemática lançada.

Nestas orientações de organização se percebe o arcabouço interacionista e sociocognitivista da Linguística de texto para a proposta de produção de um texto argumentativo. Dito de outra forma, a interação entre os participantes (escritor e leitor), num dado contexto discursivo, influencia no que se vai dizer e como se vai dizer bem como na escolha do gênero. Não somente isto, mas a relação entre os interactantes se revela textualmente, quando da consideração do conhecimento compartilhado entre ambos, de tal maneira que o texto dá pistas de como a argumentação é orientada.

O último capítulo procura tratar da relação texto, argumentação e coerência. A partir da proposta de texto pela linguística textual, a construção de um bom texto argumentativo se dá pela consideração da sua coerência. Este conceito é um processo que envolve, consoante Koch e Elias (2016): 1. A intencionalidade de quem escreve; 2. A aceitabilidade por parte do leitor, tendo em vista que a linguagem é um meio de interação entre os interlocutores; 3. O conhecimento compartilhado entre ambos, a fim de que haja comunicação; 4. A definição do tema bem como seu progresso; 5. A necessidade de se considerar o gênero textual; 6. A questão da referenciação e 7. O grau de informatividade, que consiste na relação entre informações já conhecidas (Dado) e informações a serem apresentadas (Novo).

Percebe-se que a construção de um texto argumentativo é também uma produção de sentido, o que faz com que o texto não seja um amontoado de palavras, mas uma configuração de sentido que envolve fatores linguísticos, cognitivos e sociais.

Como se pode notar a obra tem um forte aparato teórico que permite ao leitor um bom embasamento no trato da produção textual. A reflexão teórica se deu em torno do que é argumentar, no que consiste um texto e como se dá o sentido deste.

Cabe salientar também a maestria das autoras no desenvolvimento da proposta, tendo em vista que considerações teóricas são muitas vezes enfadonhas para o leitor. Mas, por meio de recursos multimodais, por exemplo, a obra consegue atingir seu alvo comunicativo.

Posto que somos chamados a nos comunicar, se faz necessário pensar em como iniciar, desenvolver e concluir um dado raciocínio. Embora a proposta delas seja no lidar com o texto escrito e não o oral, os fundamentos da linguística de texto expostos dão subsídios para se a aplicação na oralidade, considerando, claro, as suas devidas particularidades.

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Nota de fim:

[i] Elas explicam o termo dentro da Linguística de texto como: 1. Em sentido amplo como um princípio constitutivo de todo e qualquer texto e 2. Em sentido restrito, quando há remissão a outro(s) texto(s) efetivamente já introduzido(s) e que faz(em) parte da memória social dos leitores (p.39).

 

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