REFLEXÕES AUTOBIOGRÁFICAS (II) – Eu pequei!

3 anos

Eu, aos 3 anos de idade.

Olhamos para as criancinhas e tendemos a vê-las como bebês inocentes. Inconscientemente, acreditamos que, de maneira genérica, as crianças são bem-comportadas, exemplos de moralidade, anjinhos encarnados e verdadeiros modelos de espiritualidade, até porque o próprio Senhor Jesus relacionou as crianças com o reino dos céus. Os pestinhas são exceções à regra! Crianças são santas (na verdade, “santinhas”). Lembro-me de um irmão que se referia às crianças como “estes inocentes”.

Na prática, todos nós sabemos que isto não corresponde à realidade. É lógico que não dá pra se precisar quando uma criança comete o seu primeiro delito, só sabemos que é após a fase intra-uterina, como já referendado em uma postagem passada. Para muitos pais, entretanto, seus filhos são impecáveis. O mundo inteiro está errado, menos os seus filhos (como se os filhos fossem extemporâneos e oriundos de outra dimensão). É lógico que não vamos aqui começar a publicar os pecados e os erros de nossos filhos, mas sabemos que mesmo sendo virtuosos, eles e os filhos de nossos amigos (e até os dos inimigos) são pecadores. Se você pensa o contrário, reúna as crianças de sua igreja para um encontro de 24 horas em sua casa presidido por você. É bem possível que mude de ideia sobre os filhos dos outros; sobre os seus, sei que seus pensamentos são quase inamovíveis.

No entanto, pense sobre você; sua infância; seus primeiros momentos de consciência. Ao fazer isto, neste breve exercício de rememoração, poderá perceber em que consiste a natureza pecaminosa já expressa em uma criança. Contarei a minha experiência, tentando persuadi-lo a fazer mentalmente o mesmo com a sua.

Antes disto, porém, sugiro que olhe para as crianças ao seu redor. Pensemos em um culto de uma igreja que oferece o serviço de berçário; neste culto, uma mãe resolver ficar no templo com sua criancinha de colo. Esta começa a chorar no meio do sermão de encerramento das conferências. A igreja está lotada, o microfone não está muito bom, mas a amplitude dos berros da criança que está sentada no banco da frente é ensurdecedora. Todos começam a se impacientar e perguntam: “será que esta mulher não vai sair com esta criança? ”. Você sabe que se trata daquela criança “birrenta” que não para de chorar durante todos os cultos, cuja mãe insiste em permanecer com ela no templo ao invés de levá-la para o berçário. Todos começam a se incomodar! Mesmo sabendo que crianças choronas podem estar com fome, ter fraldas sujas, estar doente, com cólicas, o ponto que nos vêm à mente é: “que menino chorão”, bem como: “será que essa mãe não se toca?” . Quando a atitude alheia nos incomoda, passamos a vê-la como “pecaminosa”, falta-nos paciência e expressamos nossa insatisfação, mentalizando mil e uma esconjurações sobre a mãe e o bebê. Só para te avisar, um dia, em algum aspecto, você já foi esse bebê (e talvez, não se lembre, mas se for mulher, já tenha sido esta mãe; ou se for homem, tenha sido o pai descendente de Adão que silencia ao lado do filho berrante e da mãe inoperante).

Bem, dou este exemplo para lembrá-lo de como o exercício da observação do incômodo que chega até mim por parte do outro me faz perceber rapidamente os seus pecados. Por implicação, é bem possível que os meus façam a mesma coisa e eu não perceba (aliás, se até o odor de nossos flatos chega às nossas narinas como perfume francês, imagina a traquinagem de nossos filhos, quão doce não chega à nossa mente?).

Continuemos observando os bebês. Perceba como manifestam perfeitamente suas insatisfações quando por exemplo mordem o mamilo materno; já um pouco mais crescidos, fazem chantagem para ter os pais por perto e diante dos coleguinhas são capazes de inventar mil e uma histórias para não “ficarem por baixo”. Crianças não são tábulas rasas, onde os males sociais vão se infiltrando; já nascem com uma natureza pecaminosa predisposta para o mal; sem capacidade de encontrar a Deus; alheios à vontade do Pai. Isto já está inserido no seu DNA espiritual (graças a Deus, que Cristo é capaz de mudá-lo por meio da regeneração). Mas quando se comete o primeiro pecado? Há uma idade mínima? Há algo que desperte a criança para o seu primeiro pecado.

Não me recordo quando cometi meu primeiro pecado, mas posso dizer que sempre tive uma consciência aflorada quanto ao pecado. Em minhas lembranças da infância, recordo-me de nossa casa em Boca do Acre, situada à rua Tamoatá, no centro da cidade. Minhas lembranças mais remotas são de quando eu tinha aproximadamente entre 2 e 3 anos de idade. Lembro-me das friagens, de meus primos; lembro-me de meu avô Sinval brincando comigo em cima de uma pedra, recordo-me de meu bisavô materno Eliutério, já cego, sentado em sua cadeira preferida; lembro-me de como as barrancas do rio Purus ficavam longe da casa de meu avô Benigno, parece que o barranco nunca levaria a casa; lembro-me de como minha mãe e meu pai me levavam de bicicleta para os almoços na casa do vovô Benigno; recordo-me de meus primos Héliton e Sancler, de uma ocasião bem remota quando o Héliton cortou seu dedo no ventilador; lembro-me do mini-disco de Roberto Carlos “Verde e Amarelo” que meu pai gostava de ouvir; das músicas de Raul Seixas, Biafra, dos primeiros filmes: “Rambo”, “Rock”, “Superman”, no início da década de 80; recordo-me com afeição de minha mãe cantarolando para mim, meu pai me carregando no colo quando eu adoecia; de minhas peripécias no banheiro, entre outras coisas. A década de 80 foi uma década muito alegre, pois foi a década em que minha retina teve as primeiras impressões da criação divina visível.

Mas, não me lembro quando foi a primeira vez que pequei. Fui batizado na igreja católica; minha mãe me arrumou todinho e preparou-me para aquela cerimônia onde eu fui levado à pia batismal pelas mãos de um padre barbudo (no auge da Teologia da Libertação). Foi uma grande festa para a família; recebi padrinhos e segundo a teologia católica, naquele momento fui liberto do pecado e regenerado como filho de Deus, tornei-me membro de Cristo, fui incorporado à igreja e feito participante de sua missão (cf. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1213). Só que não!

Continuava tão perdido quanto antes do batismo. Não houve regeneração; não houve libertação dos pecados, nada disso. Somente um senso de culpa e condenação que só fazia aflorar à medida que eu crescia. Minha mãe me ensinara a rezar o Pai Nosso; algumas vezes ainda em tenra infância fui a algumas missas e desde cedo eu tive uma forte convicção de pecados. Rezava às 6 horas o Pai Nosso porque achava que aquilo iria aliviar minha alma. Não entendia, mas já me via culpado e isso sem precisar do sistema penitencial católico levando-me a perceber a culpa do meu coração. Um dos primeiros pecados que tenho consciência foi o de simular sono quando alguém foi à tarde em nossa casa nos visitar. Eu, por algum motivo, não queria me levantar da cama, nem falar com ninguém. Então, quando a referida pessoal chegou para a visita, minha mãe disse que eu estava dormindo, foram até o quarto e me viram com os olhos fechados. Ouvi alguém dizer: “Ah! Ele está dormindo!” . Mas, continuei fingindo dormir. Esperei um pouco até que a pessoa se retirasse de casa, somente para abrir os olhos aliviados porque ninguém me incomodaria naquela tarde. Isto me transtornou pois naquele momento senti-me o maior de todos os mentirosos. A mentira já pairava em meu coração, mesmo que eu não tivesse proferido nenhuma palavra.

Ainda me lembro das vezes em que minha mãe foi para o Hospital dar à luz aos meus dois irmãos. Quando ela foi “ganhar” o Fábio, eu tinha quatro anos de idade e me recordo que fui levado para a casa de meu avô Benigno e lá dormi, apreensivo, choroso, querendo a mamãe. Pouco tempo depois e lá estava a minha mãe com um neném no colo, meu irmão Fábio. Lembro-me de seu desenvolvimento e muito me alegrei com aquela criança. Pouco tempo depois, eu e o Fabinho fomos levados para a casa da tia Enedina para que minha mãe fosse ao Hospital dar à luz a Ana Flávia. Meus irmãos eram muito amados por mim. Porém, faz-se necessário dizer que quando eu tinha cerca de 4 anos, lembro-me que tinha um prazer em “reinar”, “judiar” com crianças. Se um bebê fosse deixado em determinado lugar dando sopa, eu gostava de brincar com aquele bebê, com um desejo perverso de beliscá-lo. O sadismo, desejo de ver o outro sentir dor, já era manifesto em mim, desde a mais tenra infância.

Em outra ocasião, eu e meus amigos esperávamos nossas mães irem trabalhar para desobedecer suas ordenanças. Outrora, tive a ousadia de roubar as bolinhas de gude de um determinado coleguinha. Tínhamos sociedade  em bolinhas de gude. Ele deixou-me tomando de conta de uma bacia cheia de bolinhas de gude. Eu retirei algumas das bolinhas e coloquei em minha lata. Fiquei feliz por ter mais “petecas” (é como chamamos bolinhas de gude no Amazonas) e incomodado por ter cometido um furto. Fiz isso somente para depois ao jogar com este meu colega, perder para ele todas as petecas (talvez foi uma forma de minha consciência ter alívio, mas meus pecados continuavam sem perdão). Aos poucos, aqueles pecados eram cada vez mais nítidos e os trazia à memória com facilidade, ao ponto de lembrar da oração do Pai Nosso e do desejo de me ver livre deles.

Foi quando passei a frequentar a Igreja Evangélica Batista de nossa cidade. Lá, em uma determinada EBF ouvi falar da história de Jesus e de sua morte na cruz do Calvário. Aquilo me trouxe esperança. Mas ainda me sentia culpado, sujo, indigno de salvação. Chegava a pedir a Deus incessantemente para me ver livre daqueles pecados, mas eles eram como fantasmas atormentando dia e noite minha consciência.

Lembro-me de certa ocasião em que não quis compartilhar minha “farofa de ovos” com meu irmão, mesmo minha mãe tendo ordenado que eu dividisse. Ainda hoje recordo com tristeza desse episódio.

Mas, como é que as pessoas me viam? Como uma criança bem comportada, obediente a Deus, inocente, uma verdadeira bênção. Quando minha inteligência foi aguçada pelo fato de ter aprendido a ler aos quatro anos, alfabetizado por minha mãe através da cartilha “Caminho Suave”, passei a me tornar uma criança presunçosa, mostrando às demais como era a leitura correta, o quão rápido eu lia e como os outros eram inferiores a mim, simplesmente porque eu aprendi a ler cedo demais. Usei isto como amuleto para garantir alguma vantagem sobre os demais e enchia-me de orgulho ao ouvir os elogios dos familiares, vizinhos e conhecidos.

Mesmo assim, já vivia em um mundo dicotomizado, entre a escravidão da consciência pelos pecados e a alegria dos prazeres familiares, materiais, estéticos e culinários. Falo de uma criança entre os 3 e os 5 anos!

Era feliz em certo ponto ao lado de meus pais, de meus irmãos, meus avós maternos e paternos, parentes, vizinhos, colegas do pré-escolar, entre outros. Tinha consciência do prazer que a leitura ocasionava em mim e o prazer de me ver crescendo nesta arte; tinha a alegria de brincar, de viajar para Rio Branco, de ir ao Piquiá, de visitar meus avós em sua residência, conduzido na “garupa” da bicicleta de meus pais. Porém, desde os 4 anos, pelo menos, eu já sabia que era pecador, eu já sabia que cometia pecados, eu já tinha praticado atos correspondentes à minha natureza pecadora. Não me via salvo, mesmo tendo sido batizado na Igreja Católica, mesmo tendo ouvido a história de Jesus na igreja Batista, mesmo tendo pais tão exemplares e uma família tão protetora ao meu redor. O pecado lá estava, cutucando, martelando, pulsando firmemente em cada um dos meus vasos sanguíneos. Eu pequei quando tinha por volta de 3, 4 anos. Já estava perdido, agora concretizava em atos aquilo que já era em essência. Eu era um pecador!

Isto deve nos levar a observar quão cedo se manifesta o pecado na vida das pessoas. Isto deve nos estimular a pregar o Evangelho cada vez mais precocemente. Não creio em uma idade da consciência, mas creio em uma conscientização progressiva de nossa natureza, ratificada pelos pecados praticados. Pregue o Evangelho a uma criança, ela é capaz de entender a mensagem do Evangelho. Muitas delas desde cedo já sabem que são pecadoras; muitas delas já tentaram achar o caminho libertador de suas culpas, mas não encontraram.

Todos pecaram e carecem da glória de Deus. A fé em Cristo só pode ser expressa por meio da pregação do Evangelho. Não existem águas regeneracionais nem amuletos eclesiásticos, pactos e promessas feitas a nossos filhos que confiram graça aos infantes. Eles precisam de Cristo. Eu louvo a Deus pela missionária que contou a história de Jesus, eu louvo a Deus por homens pioneiros que trouxeram a Bíblia para o Brasil. Eu louvo a Deus por ter tido acesso à Bíblia a partir dos 5 anos de idade. Em outra postagem, se Deus permitir, contarei a história de minha conversão. Mas, por enquanto, lembre-se: todos pecaram, inclusive você e seus filhos, e todos carecem da glória de Cristo, todos tem uma consciência que os acusa de pecado e sabem que precisam de salvação fora de si.

Eu nasci em pecado!

Após nascido cometi pecado!

Em minha consciência fui acusado!

O que fiz não me deixou assegurado!

Da salvação estava afastado!

Este é um breve relato sobre minha infância. Eis a criança em sua essência, não um “anjinho”, mas um pecador carecente da graça de Deus!

 

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