Resenha 18: Criados pela palavra (Matt Chandler; J. Patterson; E. Geiger).

criados pela palavra

CRIADOS PELA PALAVRA: a igreja centrada em Jesus.

Autores: Matt Chandler; Josh Patterson; Eric Geiger

São Paulo: Vida Nova, 2015, 288 pp.

Título do original: “Creature of the Word: the Jesus-centered church © 2012, B&H.

Tradutor: Caio Peres.

Trata-se de um livro sobre “revitalização da igreja”. Os autores são ligados a igrejas expressivas nos Estados Unidos e apresentam considerações valiosas sobre o Evangelho.

No capítulo 1, eles mostram como Deus forma “um povo” para agir coletivamente, à media em que desenvolve suas habilidades individuais. Utilizando o exemplo de um pastor tradicional com uma ortodoxia morta até um ativista, cheio de marketing, mas com a mensagem do Evangelho barateada, ele afirma que a necessidade de todos os líderes e igrejas consiste no genuíno Evangelho centrado na pessoa de Jesus, o qual em seu plano redentor, desde o AT separou um povo para si e no NT tem a igreja como seu povo. A igreja é criada pela Palavra e não o contrário. A necessidade da comunidade eclesiástica (assembleia) é justificada por uma variedade de passagens, mostrando que as ordens (imperativos) sempre têm como base o genuíno evangelho (indicativo): Lv 20:7,8; Lc 6:36; 1 Jo 4:12; Hb 10:19-25; 1 Pe 2:9; 1 Pe 2:10-12; 2 Pe 1:3-7; 1 Jo 4:19. Tudo o que ocorre na igreja é por intermédio do Evangelho e isto nos conclama a adorar a Deus.

No capítulo 2, utilizando-se da passagem de João 4, os autores falam sobre a adoração das criaturas. Explicam que existem 3 barreiras para a adoração: os poços errados (dinheiro e conforto, relacionamentos e sexo, respeito e sucesso), os pecados não confessados e a ignorância. Vencidas estas barreiras em Cristo, então, a criatura está pronta para a adoração integral (em espírito e em verdade), que é expressa como “corações inflamados e mentes informadas”. Para eles, “em espírito e em verdade” está relacionada com afeições e intelecto. Nossa adoração é um reflexo da eternidade. Nós não estaremos no céu meramente por fuga do inferno, mas porque já aqui na terra desejamos o céu, onde haverá uma variedade de culturas, povos e raças. Enfatizam que nem todos os cultos são “extraordinários”, mas sempre são “sobrenaturais” (na presença do Senhor).

No capítulo 3, os autores falam sobre a vida em comunidade a partir de Romanos 12:9-13. Com base no princípio da necessidade de relacionamentos horizontais derivados do relacionamento vertical, de forma muito criativa, os autores mostram que a vida em comunidade não pode ser mascarada, é compassiva, mas não complacente, tendo em vista que odeia o mal, ama fraternalmente, relembra, mas não instrui e supre as necessidades dos santos.

No capítulo 4, os autores falam sobre o serviço das criaturas em Cristo. Muito interessante a ênfase colocada nas motivações para se realizar o serviço. O serviço não pode ser feito por compaixão (“pena”), por culpa, por mera obrigação ou por orgulho. É necessário levar a comunidade a ver um exemplo mais profundo e elevado de serviço: o de Cristo. Nosso Senhor realizou um serviço abnegado por amor àqueles a quem servia, de acordo com a missão e por amor ao Pai. Por fim o autor aplica este serviço à vida diária de cada crente: em casa (os tempos de privacidade na época de solteiro não eram melhores que os anos de casamento; ocorre que agora há alguém apontando os teus pecados escondidos que você nem percebia quando tinha um quarto só para você); na vizinhança (colocando-se à disposição); no trabalho (encarando-o como algo espiritual) e na igreja, que centrada em Jesus, aponta para o fato de que os crentes devem lavar os pés uns dos outros.

No capítulo 5, é tratado o assunto da multiplicação não meramente de uma perspectiva numérica, mas nos vários ângulos pelos quais alguém é acrescido ao reino. Matt conta o seu exemplo de quantas pessoas contribuíram no processo de evangelização e influência direta em sua vida até que Deus o salvasse. Utilizando-se dos diálogos de Lewis e Tolkien (e neste caso, dando mais ouvidos a Tolkien, que dizia que os mitos eram necessários), os autores afirmam que vivemos numa grande epopeia e que o fato de estarmos apáticos para a multiplicação é simplesmente por não percebermos que fazemos parte desta história. Ele cita Colossenses 1:15-20 que aponta para a redenção cósmica e conclama todos os crentes a batalharem na multiplicação orgânica e na multiplicação numérica.

O capítulo 6 é aquele capítulo de transição para os capítulos práticos do livro. Trata da cultura centrada em Cristo. Ele usa a metáfora de um edifício: alicerce, paredes e móveis. Ele aplica cada um destes três respectivamente à teologia, filosofia ministerial e prática. Não adiante correr atrás do sucesso das outras igrejas próximas à nossa. É necessário entender nossa cultura local. Isto está diretamente relacionado aos ofícios de Cristo: a liderança profética (ensino); liderança régia (com líderes ligados ao evangelho) e a liderança sacerdotal (nutrição dos de dentro e dos de fora).

No capítulo 7, tratando do fundamento (liderança profética), os autores apresentam o ministério de pregação como necessidade essencial da igreja. A pregação deve expor a metarrativa do evangelho: criação, queda, redenção e consumação. Deve-se pregar o texto, para além do texto, mas nunca fora do texto. O para além do texto que parece estranho trata-se na verdade de relacionar o texto com a narrativa maior (a metanarrativa). Há uma ênfase na pregação para si mesmo (o que confesso ser muito difícil!). Um capítulo edificante com boas citações de Lutero e John Stott.

No capítulo 8, eles estendem a mensagem do púlpito para crianças e adolescentes e demonstram que boa parte (pra não dizer quase todos) dos ministérios infantis e de adolescentes das igrejas não trabalham com o evangelho, mas sim com princípios da “lei” (regras). A ênfase comportamental afasta a criança do Evangelho e eis um dos motivos porque tantos adolescentes se afastam da igreja. Os ministérios de adolescentes baseados em entretenimento, focados por duas premissas: “traga mais um” e “não faça sexo” findam gerando um espírito do anti-evangelho. Ao contrário de Pedro, muitos destes jovens não chorarão amargamente quando os pecados acontecerem, uma vez que foram focados na lei e não no Evangelho de Jesus Cristo.

No capítulo 9, os autores passam a falar do pastor relacionado com seu ofício-régio (liderança). Nossa liderança tem sua fonte no próprio Deus; é Deus quem levanta líderes; a liderança é um dom do Espírito Santo (Rm. 12:6-8); líderes piedosos se preocupam com as prioridades de Deus. Um outro aspecto importante da liderança é a motivação com a qual realizamos nossa tarefa; devemos olhar para o nosso coração e buscar ajuda para expô-las, a fim de realizar o trabalho com o temor do Senhor e com amor a Ele, conforme 2 Coríntios 5:1-15.

No capítulo 10, que ainda trata do ofício-régio do líder, ele apresenta a necessidade de se focar nos detalhes (o capítulo é intitulado “equipe de ornamentação centrada em Jesus”). Para que os detalhes ocorram bem o pastor precisa preparar o povo de Deus para edificar o corpo de Cristo. Achei muito curiosa sua fala de que uma das principais críticas de pastores é a falta de voluntários para o serviço nas igrejas, mas segundo os autores, isto é mais um problema da cultura de liderança que cria uma dependência dos ministros. Neste capítulo os autores ainda dão dicas preciosas sobre recepção e hospitalidade na igreja, programações (saber o porquê), finanças, comunicação e tecnologia, ajudar os necessitados e ornamentação. Os membros da diretoria devem sair das reuniões com o evangelho em seus corações e não com picuinhas.

No capítulo 11, ele passa a tratar do líder como sacerdote, enfatizando o seu amor para com o povo, na perspectiva da contextualização. Não devemos nem subcontextualizar (nada de cultura – “ao invés de construir pontes, constroem muros”) ou supercontextualizar (a cultura vale tanto que não há distinção entre cultura e evangelho – exemplo disto é a tolerância e apoio de algumas igrejas liberais a causas homossexuais e abortistas). Jesus deu este exemplo; ele veio ao mundo na cultura de sua época, mas não se deixou dominar por certos aspectos da cultura; tampouco, a menosprezou em definitivo. Os autores citam o exemplo da igreja The Village (de Matt), a qual está implantando igrejas em todo o globo e tem obtido bons resultados com crianças e adolescentes.

No capítulo 12, os autores falam do ministério propriamente dito. Eles fazem uma exposição aplicativa da passagem de Mateus 16. Pedro reconheceu a divindade de Cristo (sua identidade) em sua declaração. Mas Jesus, partindo da identidade passa a falar da missão (morte e ressurreição); infelizmente muitos pastores usam o nome de Cristo para crescer e não seguem João 3:30. Uma oração vívida que convoca a congregação a buscar a presença do Senhor em humildade é o que está faltando em muitos púlpitos. O sofrimento e a santificação devem ser ensinados (Matt fala do seu caso pessoal de sofrimento, com a presença de um tumor maligno no cérebro). Além disto, devemos celebrar a obra de Deus, ficar atentos à graça e ansiar por mais do Espírito de Deus.

Eles concluem apontando que o ministério em um certo sentido é sempre ineficiente (chegará em determinado ponto que não dá mais para avançar devido à limitação); a igreja não pode viver de aparências, mas sim de transparência e autenticidade, pagando o preço pelo crescimento.

O livro é bom; não se trata de algo inovador, mas de um livro com uma mensagem simples que canaliza para a pessoa de Cristo todos os aspectos do ministério. Os autores são criativos e contam com boas ilustrações no início de cada capítulo. A Palavra que cria um novo homem infunde nele a capacitação por meio do Espírito para cada vez mais desenvolver um ministério centrado em Cristo, não centrado na “diretoria”; que nos leva a servir, a ter vida, com um alicerce saudável; que nos leva a não colocar o foco em programações, mas a realizá-las com base no alicerce, contextualizando a mensagem de acordo com a cultura, mas nunca modificando nossa teologia. É um excelente estimulante espiritual para pastores tradicionais desmotivados com o “comodismo espiritual” de suas congregações e para pastores mais dinâmicos que estão cansados de focalizar sua confiança em mais um “novo programa”. Fica a dica!

Anúncios

2 comentários sobre “Resenha 18: Criados pela palavra (Matt Chandler; J. Patterson; E. Geiger).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s