R.O. A. (04) – Márcio Rogério. Obra: A Poeira da Glória.

Sobre o resenhista:

Marcio rogerio

Márcio Rogério Bernardo Matos

Márcio Rogério Bernardo Matos é fundador e presidente do grupo CaFé com Letras, um grupo de leitura  estabelecido na cidade de Juazeiro do Norte que se reúne periodicamente para tratar de Literatura, Filosofia e Teologia. Márcio Rogério é um leitor voraz, um grande intelectual, com análises literárias precisas e cirúrgicas. O resenhista é teólogo, membro da Primeira Igreja Batista da Convenção de Juazeiro do Norte.

R.O.A. (04)

A POEIRA DA GLÓRIA

Autor: Martim Vasques da Cunha

Rio de Janeiro: Record, 2015, 630 pp.

 

 

                                  Pois  o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade…

                                                                                                                                      Efésios. 5: 9.

 

                                  Algo anda mal na cultura de um país se os seus artistas, em lugar de se proporem a mudar o mundo e revolucionar a vida, se empenham em alcançar a proteção e os subsídios do governo.

                                                                                                                      Mário Vargas Llosa

 

 

A poeira da glória é um livro arrebatador que tomou de assalto o cenário cordial e politicamente correto do mercado editorial brasileiro; um cenário onde o acesso aos escritores novos é acanhado e alguns medalhões são cortejados e tratados com lugares-comuns ensaiados pela claque que os acompanha. Escrito por Martim Vasques da Cunha  um jornalista e escritor, doutor em ética e filosofia política pela Universidade de São Paulo autor também de Crise e Utopia: o dilema de Thomas More, o livro é em  uma de suas mais fiéis  expressões, uma incisiva e explosiva dissecação da personalidade e da obra  de alguns dos  mais consagrados nomes da cultura literária brasileira, uma surpreendente  leitura da mentalidade própria de autores e da intenção formacional do pensamento coletivo através da mensagem e dos símbolos por estes impressos em suas obras.

Ainda que a princípio possa o livro parecer para alguns um manifesto irado e irresponsável de um crítico em busca de espaço na mídia, “ A poeira da glória” é na verdade uma apaixonada apologia pelo fazer a literatura como nobre arte; arte que não se desvincula de seu influente papel na formação do pensamento de um povo, que tem que gerar o belo sem se abster da produção do conhecimento.

É certo que muito já se estudou a literatura brasileira e se atribuiu uma certa identidade cultural ao povo brasileiro a partir da contribuição científica e artística dos intelectuais nacionais mais celebrados, mas é igualmente legítima a assertiva de que o estudo e o relacionamento com essa elite intelectual se deu pelo excesso de compadrio e reverenciamento que sempre os conservou imunes a um exame que os retirasse  do panteão sagrado e os tomasse na mesma estatura do homem comum ao ponto de derrubar os mitos que eles criaram em torno de si mesmos  e do meio humano.  É justamente nessa direção minada que vem  “A poeira da glória”, um trabalho que reúne o produto de mais de uma década de estudo aprofundado e de grande suporte bibliográfico, que nem de longe possui a característica da mera especulação e que se lança ao contraditório dos vorazes defensores do pensamento politicamente correto (quem sabe até do politicamente incorreto) com a sede pelo debate visceral e desprovido de amarras ideológicas ou afeições particulares e o destemor da polêmica particulares de um amante de Bob Dylan dos quadrinhos de Alan Moore e do cinema de Terrence Malick.

Martim enxerga que no espaço literário brasileiro predomina como lente de interpretação por toda a história  ele a expõe no percurso do livro, a temática do esteticismo que, segundo ele, tem norteado a forma de se fazer literatura no país e oferecido aos autores tanto uma plataforma ideológica aos quais eles mesmos estão amarrados e porque são submissos à uma irresistível tentação pelo poder, quanto a possibilidade de uma projeção estetizada de si próprios sem que esta os obrigue a confrontar os dilemas comuns ao humano e subjugar-se às contingências da sociedade média. A crítica ao esteticismo empreendida por Martim é egressa da análise anterior de Mário Vieira de Mello  no livro “Desenvolvimento e cultura: o problema do esteticismo no Brasil”, onde o mesmo pontuava: “O sofrimento, a miséria, o desespero de um homem podem constituir matéria de criação artística e se tornar inclusive objetos do nosso mais vivo interesse. Mas uma condição é preciso observar: esse sofrimento, essa miséria , esse desespero deverão ser o resultado do impacto de forças adversas e não a conseqüência de sentimentos de índole narcisista, não o produto de uma complacência para consigo mesmo, que faz o sofredor um ressentido e um revoltado contra o mundo, que lhe parece injusto porque não corresponde à sua noção particularíssima de justiça”.

Essa necessidade de se fazer uma correta leitura da miséria humana e de criar os meios de  escape do ensimesmamento é fundamental para uma compreensão íntegra do mundo no que concerne à vida presente como ensaio ou vislumbre do eterno.  Segundo Martim, esse comportamento pessoal e método de trabalho dos intelectuais brasileiros cria no leitor um deslocamento da realidade e o artificialismo de uma vida desprovida de leituras realistas do drama humano tornarão o indivíduo um joguete ordinário das elites que orientam o pensamento na sociedade.  A tese do livro caminha por nuanças de pensamento profundas e as vezes de difícil entendimento, mas isso, talvez o próprio autor, afirme prontamente que é por que estamos acostumados com uma literatura pródiga em simplificações e  o estudo dessa mesma literatura idem, criando uma base de leitores que além de mínima é medíocre e incapaz de compreender os grandes clássicos universais, de compreendê-los naquela mais fiel tradução, a de que são histórias humanas. Depreender a esse “labirinto” ao qual está presa a nossa existência tem seu princípio partindo de concepção anterior do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard de que a vida do Ser Humano percorre por três estádios perceptivos, sendo o primeiro, o estádio estético,  em que o indivíduo enxerga a sua própria vida e a vida dos outros como uma imagem retratada ou como uma escultura,  o ético, no qual este mesmo indivíduo entende que existe a necessidade de se fazer escolhas morais e estas, implicam em compromissos, e o religioso ou espiritual, onde se projeta a abertura para o transcendente e “ ele aceita que, após ter passado pelo belo e pelo verdadeiro, deve deparar-se com o Bem, agora em função de uma dor mais profunda, uma tristeza permanentemente alimentada do seu próprio ensimesmamento e que, paradoxalmente, reforça o bem que orienta o Belo e o Verdadeiro…”

A ausência desse trâmite na literatura deve-se primeiro ao fato de que os escritores são todos niilistas, suas obras recebem uma pesada tonalidade de sua  visão pessimista de mundo, e, esta forma de captar a realidade está  impregnada do ensimesmamento do autor que é no fim das contas a mola propulsora para que ele ofereça um texto que é um reflexo de seus complexos.         Quem escreve afinal sabe que quando exterioriza  suas idéias, com muita dificuldade acolherá,  mesmo que de forma protocolar, o contraditório e a desaprovação. O escritor como formador de opinião sofre essa tensão de maneira muito mais intensa, pois em verdade, ele deseja a formação de colegiados que se submetam à  sua orientação. Em “A poeira da glória” os intelectuais nacionais são apresentados como pessoas fascinadas pelo poder, ainda que suas vivências no cotidiano lhes dêem as mais latentes provas de incapacidade de gerir, de ocuparem o posto de comando. Martim não fica na simples conjectura para afirmar isto. Exemplos como o de Euclides da Cunha que por pura revelia e autoexaltação era capaz de tecer críticas ao então presidente Floriano Peixoto suportadas  em pressuposições pessoais suas  de aparência furtivas, o mesmo proceder aconteceu com Lima  Barreto, um homem de personalidade no mínimo suspeita. O encantamento pelo poder dos intelectuais por sua vez, sempre fortaleceu-lhes o vínculo com os governantes e sucessivamente foi adicionando uma característica ainda mais negativa, a dependência financeira em troca do suporte e aprovação da inteligência às ideologias vigentes. Tal movimento atingiu o seu auge nos anos que sucederam a Semana de Arte Moderna de 1922 e sua obsessão pela elaboração de uma identidade nacional do brasileiro, e, com a política de uma educação social uniforme durante o período de governo de Getúlio Vargas.

Martim oferece como subsídio incontestável para isso, uma carta de Mário de Andrade endereçada ao então ministro da educação e saúde pública onde o primeiro pede dinheiro a este. Em tempo, aqui destaco um trecho da referida correspondência: “Venho pedir a você que me faça pagar isso imediatamente, e por outra via ai do Ministério, pois estou numa situação insustentável, crivado de dívidas ridículas, sem cara mais pra me apresentara certos amigos, que positivamente não têm obrigação de me sustentar. Felizmente não estou acostumado, em quarenta e cinco anos de vida, a viver de expedientes e situação penosa. O resultado é um desespero, uma inquietação, uma desmoralização interior que não mereço, e  a que, espero, o Ministério não tem razão de me obrigar”. Este é um dramático relato  que vem corroborar com a triste constatação de Martim Vasques da Cunha, de que os intelectuais brasileiros estão como que “com o pires nas mãos” diante do Governo, pois aqui é mencionado um caso em que é mostrado dessa forma, um dos artífices do Modernismo, mas, o mesmo se repete cotidianamente m todo o país, a começar pelo que de conhecimento mais próximo verificamos aqui no Cariri cearense.

A outra razão pela qual o escritor brasileiro não enfrenta “as sombras da existência” se deve ao fato de que lhes falta a imaginação moral, é porque em razão de estarem os mesmos absorvidos  por uma concepção de mundo relativista que visa o construto social, por supervalorizarem o traço estético numa prática literária que exime-se  de oferecer ao leitor a capacidade de percepção e de escolhas éticas, o escritor priva a sociedade (o seu público leitor) de contemplar o mundo a sua volta como algo além da experiência pessoal e concreta. A melhor definição do processo de abandono da imaginação moral imposta à literatura bem como as demais formas de expressão artística , sugerida pelo próprio Martim , é a do poeta e dramaturgo e crítico literário  T. S. Eliot que sentenciou: “Com o desaparecimento da noção de Pecado Original, com o desaparecimento da ideia de intensa luta moral, os seres humanos que nos são apresentados hoje, tanto em poesia quanto em prosa ficcional, e de forma mais evidente entre os escritores sérios do que no submundo das letras, tendem a ser cada vez menos reais (…) Se acabarmos com essa luta, e sustentarmos que pela tolerância, pela benevolência, pela não ofensividade, por uma redistribuição ou aumento do poder de compra, combinados com a devoção à arte por parte da elite, o mundo será tão bom quanto gostaríamos que fosse, então devemos esperar que os seres humanos se tornem cada vez mais etéreos”. Em síntese, o que Martim defende é uma literatura que transmita beleza e que transmita consciência ao leitor para que ele tenha ferramentas que o façam contemplar a si próprio diante do divino e fazer um autoexame confessional de características agostinianas e o possibilitem uma revolução interior no indivíduo que por fim lhe ofereça o poder do autogoverno, a capacidade de reger a sua vida livre de qualquer  intervenção externa. Como forma de ilustração para corroborar com a ideia do perigo que representa a associação ou submissão do intelectual com a política trago à tona a frase de Otto Lara Resende:

“Intelectual na política é quase sempre errado. É sempre errado. A práxis não deixa espaço para pensar; pensar é muito sutil, enrascado, complexo, multiplica as alternativas”.

A liberdade interior do indivíduo é  pois para Martim, algo do qual não se pode abrir mão e não se pode confiar a outrem que sempre será o Governo, o mesmo Governo que historicamente no Brasil sempre intelectualmente subvencionado pelos literatos e artistas que formam opinião, visam o controle absoluto sobre o pensamento e impedem ao indivíduo a sua emancipação moral. Nisto, para Martim a busca pela liberdade interior do ser humano, que é atividade permanente, é também uma luta contra o intervencionismo e a regulamentação estatal. Não é à toa a tensão que o autor  empresta em  “A poeira da glória” quando trata desse tema se olharmos a forma como o aparelhamento estatal tão onipresente nas universidades, veículos de comunicação, academias de letras e outras entidades de promoção cultural tolheu o direito de pensar de forma distinta, impediu o contraditório de encontrar acesso ou credibilidade nos círculos intelectuais que gozam do prestígio moralista. Acerca do ambiente de animosidades e de impossibilidade do debate genuíno de idéias diferentes Martim  afirma que:  “A falência no debate intelectual começa sobretudo na falência da comunicação entre as pessoas. Nesse sentido, já vivemos uma guerra civil há muito tempo e ninguém nos avisou (ou então nós não queremos ver isso porque preferimos “a estratégia da avestruz”. A palavra confiança é um anátema no nosso vocabulário; não há mais relações de honra, em que uma pessoa pode se apoiar na outra sem desconfiar de que será prejudicada a qualquer momento. A própria noção de dar a sua palavra é algo que é tratado com certo escárnio – e isto se reflete em todas as áreas da sociedade, como bem observou o escritor alemão Hermann Broch na coletânea de ensaios Espírito e espírito de época”:

‘A humanidade foi tomada por um desprezo peculiar pelas palavras, um desprezo que é quase uma repulsão. A confiança que as pessoas tinham em persuadir umas às outras pelas palavras e pela linguagem foi irremediavelmente perdida; parlare tem agora um sentido negativo, e os próprios parlamentos [onde isto era praticado à exaustão] estão por baixo na própria atividade de discussão e de argumentação. Qualquer lugar onde uma conferência ocorra se encontra sujeito ao escárnio e ao ceticismo de polemistas  que sempre concordam na impossibilidade de concordar. Cada um sabe que o outro fala uma linguagem diferente, habita um sistema de valores diferente e que cada palavra está aprisionada em seu próprio sistema de valores. Não apenas cada  país, mas cada vocação: o comerciante não consegue persuadir o soldado, nem o soldado o comerciante, e eles se entendem apenas na medida em que cada um concede algum direito de usar quaisquer meios que eles têm à disposição para empregar seus próprios valores sem nenhuma misericórdia, como quebrar um acordo caso um deles decida invadir e conquistar o outro que se tornou seu inimigo. Seja isto chamado de cinismo ou não, nunca antes, pelo menos na história do ocidente, o mundo admitiu abertamente que palavras significam nada e, mais do que isso, de que qualquer tentativa de uma compreensão e de um acordo mútuos sequer vale  a pena. Nunca antes nos resignamos de forma tão explícita ao pensar que o único meio possível que pode, ou deve, ser usado é o do poder, o poder do forte sobre o fraco’.

[Essas considerações extremamente pontuais ao nosso tempo, são de um intelectual austríaco e sua data de composição percorrem os anos 30 e 40].

São de fato, verdadeiramente inumeráveis os casos em que flagrantemente novas formas de pensar a sociedade e suas inter-relações são delineadas de maneira determinista onde uma ideologia politicamente correta, por mais que incoerente que possa ser, já entra vitoriosa no debate público, e, seu oponente está fadado ao deboche. Pois bem , o pensamento politicamente correto é, como ecoa do livro, uma criação artificial, uma construção estética que visa por meio de violenta revolução, instaurar uma sociedade aperfeiçoada e uniforme que não cede espaço para o indivíduo pensar como unidade detentora de liberdade, o indivíduo só pode pensar como mera engrenagem nesse construto social imposto por uma elite de pensamento totalitário.

A construção social do pensamento  ou dessa forma de pensar do intelectual do Brasil tem o seu início com o Romantismo, com a publicação de “Suspiros poéticos e saudades”, de Gonçalves de Magalhães com seus vislumbres de devaneios das palmeiras e do pássaro musical único, passa pela Semana de Arte Moderna de 22 e sua busca pela “gramatiquinha” da fala comum do brasileiro  e é coroado com a política de rígido controle do Estado Novo de Getúlio Vargas. Para Martim, todo esse cenário, onde está compreendida a fictícia “identidade nacional”, se desenvolveu pela completa dependência dos escritores ao Sistema e porque eles, os escritores, em sua ambição narcisista pelo poder acabam por serem medíocres e proclamarem uma vida de mediocridade  pública, não escapam da escravidão que atinge o homem para além da condição étnica, a condição que Martim traz de Joaquim Nabuco em “O abolicionismo”, de que o sujeito é um escravo moral de um sistema de poder do qual depende a sua subsistência. Identidade (ou Unidade nacional) nas palavras de Martim, é algo irreal, artificial e imposto porque “…o brasileiro nunca teve uma identidade fixa  ou constante  – e mais: qualquer escritor ou intelectual que insistisse nessa idéia mal sabia que esta identidade nacional não passava de uma ficção, de uma mentira que, infelizmente, foi a base de todo o Modernismo Brasileiro e que contaminou a nossa sensibilidade até o momento. Mas, mesmo assim, a inteligência do país ficou obcecada com essa idéia e preferiu investir nela como se fosse uma questão de vida e  morte. E de fato era. Afinal, na competição acirrada para ser o líder do movimento modernista, muitas reputações estavam em jogo – e precisaram apoiar-se nessa ilusão da identidade nacional” para recuperar o prestígio perdido, como foi o caso de Oswald de Andrade”. _ Vide os movimentos, Manifesto Pau-Brasil ( 1924 ) e Manifesto Antropófago ou Antropofágico ( 1928 ).

Martim então propõe uma revolução pela libertação desse cárcere em que escritor e leitor se encontram, mas ao contrário dos moldes que vogam hoje no Brasil, não pela utilização da violência de inspiração marxista, nem pela sujeição aos ditames do politicamente correto, que é igualmente violento e desprovido da reflexão pessoal e confrontadora da essência do indivíduo, mas uma revolução que faça que este mesmo indivíduo se contemple diante de suas contingências naturais, Bem, Mal, Morte, Espírito e Eternidade, etc. Aqui em nosso país, como sabemos, graça no círculo acadêmico o molde ideológico de esquerda e, portanto, pautas progressistas sempre estão presumidamente caminhando ao lado dos que detêm o bom senso e os melhores intentos em prol do humano e os seus opositores representam o atraso e o vínculo aos totalitarismos que travam o desenvolvimento. Mas, cabe salientar que no livro, o autor deixa latente que não nutre fascínio por quaisquer ideologias que representem cerceá-lo ou paralisá-lo intelectual e moralmente.

No entanto, diante do “descaso” com a literatura nesse país e do grau de pequeneza da comunidade intelectual nacional, é preciso denunciar que o atual estado das coisas é  culpa primeira por parte daqueles que a  deveriam cortejá-la, enriquecê-la e ofertar-lhe guarda permanente contra todo invasor que queira torná-la uma forma de cultura  rasteira ou arte menor. Uma ilustração do quadro ordinário em que se encontra a literatura no Brasil e de sua incapacidade de se dissociar do poder governamental  é o da mais que recente maior “festa” literária do país, a Flip de Paraty, evento que deve pretensamente reunir grandes nomes da literatura nacional e estrangeira. Ocorrida no período entre os dias 29 de junho e 3 de julho últimos, a festa não proporcionou ao público presente a possibilidade de contato com nenhum literato nacional ou estrangeiro de real relevância. Os autores presentes, novos e antigos representavam apenas expressividade numérica de vendagem de seus títulos, e não se pode confundir sucesso literário com qualidade literária como afirma o próprio Martim; alguns dentre esses autores lá presentes compensavam sua mediocridade com  pautas polêmicas e desconstrutivistas que afirmam que toda a riqueza e segurança da tradição dos antigos deve ser abandonada, se possível pela via do tripúdio libertino e, parte do público por sua vez, panfletava insuflado por mesas de debates, manifestações políticas de cunho maniqueísta aos gritos de “Fora Fulano”, “Fora Sicrano”, “Não ao golpe” e seus congêneres.

O esteticismo diz:  a arte é superior à natureza; a natureza copia a arte, e, não a arte que copia a natureza”. Dessa anomalia de entendimento surge o adágio lançado às massas: “A vida imita a arte”. 

Martim no  entanto, parece crer que a possibilidade de mudança desse estado de coisas é remota se esperarmos por uma oferta que venha de cima para baixo, de um movimento que parta dos atuais altos círculos acadêmicos para as camadas inferiores onde estão os leitores e para mais baixo ainda onde jazem os não-leitores, porque o ressentimento que reveste nossos escritores não lhes deixa ver que um leitor mais crítico eleva a qualidade da literatura e desvela suas potencialidades adormecidas, ou, porque a ausência desse poder formador que só a literatura pode proporcionar à língua e a linguagem nacional é uma simples e clara confissão de sua limitação.  Com certeza não estamos seguros se confiarmos nossas expectativas a esses homens acostumados com o rito das cortesias mútuas e dos “jantares inteligentes” ou do chá da tarde travestidos do fardão verde com fios de ouro; eles infelizmente não podem ser identificados com o povo uma vez que ascenderam à uma elite reverenciada, não são nossos fraternos e, usando arbitrariamente a fala de  Nelson Rodrigues:

_ “Só o inimigo não trai nunca”.

Acerca da leitura crítica feita pelo autor de “A poeira da glória”, Martim percorre em sua análise um universo de autores que vem desde o Padre Antonio vieira e Gregório de Mattos, passando pelos “impolutos” José  de Alencar e Machado de Assis e, alcançando até nomes célebres e mais recentes como Raduan Nassar e João Ubaldo Ribeiro. Percebe-se no curso do livro a influência de outros autores e críticos sobre a percepção de Martim, estes são Otto Maria Carpeaux, José Guilherme Merquior, Wilson Martins, Bruno Tolentino (sua mais impactante influência) e Rodrigo Gurgel. E, isso quero afirmar muito cuidadosamente, que o traço de influência pode vir por vias distintas na interpretação de Martim, eles o influenciam tanto quando seu pensamento é concorde quando contrário.

Algo quem se pode perceber claramente na interpretação de Martim, é que ela não se identifica, pelo menos no conceito exposto em “A poeira da glória”, com a Nova Crítica Literária ou Neocriticismo que surgiu nos Estados Unidos na década de 20, quando ela sugere a separação entre autor e obra afim de que o texto seja o objeto em si mesmo e quando ela se nega à análise literária  que considerem o contexto social e cultural. Para Martim, “o autor e a obra não podem ser analisados de forma separadas, isso é infelizmente um modo de leitura que se tornou no Brasil freqüente exatamente devido ao esteticismo. O que está em jogo na minha análise da cultura brasileira é que a obra literária é o reflexo de um drama interior. Então se o drama da pessoa é superficial e não passa de pose literária, nessa simbiose entre autor e obra é absolutamente necessário que o crítico literário veja que a obra é resultado de uma escolha moral do próprio perante a condição humana”.

Por penetrar de forma tão profunda em um mundo tão cercado de redomas e apontar corajosamente nos outros, que são os protegidos dentro dessa redoma, a tendência para a húbris, que é comum ao ser humano, sobretudo naquele que trata da intelligentsia ou do exame crítico desta chamada intelligentsia, Martim não se nega a  confessar primeiro a mesma tendência nele mesmo; ele admite que precisa lidar com esse demônio pessoal que sorrateiramente busca dominá-lo; que é preciso reconhecer o quão pequeno cada indivíduo de fato é diante do todo, do todo presente e do todo mistério além da vida. O autor admite que pode ser imediatamente confundido com um polemista presunçoso e arrogante, mas seu livro tem por objetivo desmentir essa impressão com ricos subsídios. É bem provável que o melhor exemplo para ilustrar essa inclinação do intelectual de se imaginar como o único humano “iluminado”, ou uma espécie de demiurgo do gnosticismo que pode criar o Estado estético ideal, o mundo perfeito para a espécie que lhe é semelhante apenas na aparência seja o de Richard Wagner, um grande artista no plano estético, mas de personalidade no mínimo perturbadora, que extorquia dinheiro do imperador Ludwig II, da Prússia, um sujeito talvez ainda mais controverso, abusando do amor deste por sua música e concepção estetizada de mundo. Curiosamente no que concerne ao vislumbre de mundo ideal que compartilhavam Wagner e Ludwig II, que antes seria instaurado mais pelo uso da arte do que pela força, mais tarde ganhou os tons de violência e de insanidade do imperador antes pacifista, agora convertido em sanguinário ditador. Neste caso em específico, ambos eram megalômanos esteticistas e a arte de um despertou a personalidade agressiva e incipiente no outro.

                               Preservando a poeira do passado e do presente

Logo na primeira página do livro (pág, 17) nos deparamos com o seguinte texto: “Otto Lara Resende afirmava que os autores cobertos pela ‘poeira da glória’ não tinham sequer sido lidos corretamente, tampouco revelados de verdade; tal poeira era o resultado daquela soma de equívocos a que damos o nome de fama (para citar a tão batida frase de Rilke) e, por isso, os leitores tinham apenas duas formas de se relacionar com eles: medo ou reverência. As duas provocam a fuga da leitura que, como poucos reconhecem neste Brasil, é um dos remédios contra qualquer espécie de solidão que atinja o gênero humano. Este livro quer assoprar essa poeira, e faz isso com o espírito de serviço público. O motivo é simples: o descaso pela literatura neste país chegou ao limite. Exceto por um pequeno grupo que finge que lê e dita as normas culturais publicadas nos cadernos de cultura  e outras publicações que as macaqueiam com o esnobismo típico dos jecas, quem leva a literatura brasileira a sério sabe que ela vai de mal a pior. Escritores semiletrados e críticos militantes (quando não pusilânimes) transformaram  a melhor coisa que este país poderia fazer para si mesmo – respeitar o cultivo da língua portuguesa e aprimorar as nuances da linguagem – em um muro no qual o leitor não sabe com quem se comunica  e o artista ignora para quem produz”. É um diagnóstico duro de ser assimilado de primeiro impacto, mas MARTIM logo decreta a primeira medida a ser tomada: soprar, varrer essa poeira. Mas sabemos, ainda que concordemos com ele, não é tarefa simples invadir o memorial de mortos e vivos tão bem sedimentados no pensamento coletivo.

Em novembro de 2012, durante um ciclo de conferências realizadas na Academia Brasileira de Letras, o acadêmico Eduardo Portella desenvolvia o tema “A teoria literária em questão”, quando proferiu o seguinte comentário: “O crítico (literário) que registra na sua folha de serviços a denegação de Machado (de Assis), deve passar por momentos extremamente delicados ou inconvenientes“. Portella apoiava sua afirmação  na lembrança de um episódio em que o advogado e jornalista Silvio Romero, um homem dado por controvérsias com políticos e escritores, empreendeu um agressivo embate de idéias com o igualmente advogado e jornalista Lafayette Rodrigues Pereira, conhecido também como Conselheiro Lafayette, quando este, publicou uma série de artigos em defesa do patrono de nossa literatura no livro intitulado apenas como “Machado de Assis”. O livro já era uma resposta às críticas desfavoráveis feitas por Sérgio Romero à Machado e sua obra.

Ainda que se considere a personalidade intransigente  e perceptível na crítica de Romero ( ela é o que costuma–se chamar de crítica do subsolo), e que sua opinião acerca de Machado seja equivocada, o que emerge como caracterização deste e de tantos outros episódios em que um membro de uma casta de intelectuais sustenta uma tradição de salvaguarda e às vezes blindagem de seus “imortais”, e que não se restringe ao campo da literatura, é o protecionismo classicista do mundo das artes, que visa dar amparo em meio ao rebaixamento do legado de aclamados heróis do panteão artístico; a elite intelectual de intocáveis que se escudam mutuamente, cortejados por uma nova leva de sucessores pretendentes `a mesma “imortalidade” dentro do academicismo e que, em razão dessa composição de unidade define a norma cursiva da literatura e da crítica literária. Essa norma é arbitrariamente aprisionada dentro do politicamente correto revolucionário, violento e totalitarista e ela o que é o bom e aceitável dentro do contexto de sociedade e, essa simples escolha, em si , já o torna idôneo e imune à desaprovação.

È nesse campo minado que o livro “A poeira da glória” se lança desde as primeiras páginas. Com a ousadia e certa irreverência próprias de alguém que corre os riscos de tocar em “ungidos” e de atrair o ódio de ou a indiferença, mas, que simultaneamente não se furta de fazer uma manifestação apaixonada em nome da liberdade interior a partir dessa mesma literatura que ele deseja ver promovendo não a resposta universal para o maior dilema humano, a sua Salvação, mas condições para cada  um saber  portar-se diante dele. O livro de Martim Vasques da Cunha certamente encontra no cenário de leitores acostumados a uma idéia cultural e política predominantemente diversa da sua, correntes majoritárias de oposição do que de simpatizantes, mas sua importância é demarcatória de um período, e aqueles o leem e o acolhem representam uma massa significativa de mentes que pensam e querem uma liberdade semelhante; liberdade para além do mero direito à manifestação exterior, tanto para si quanto para uma parcela tão importante e influente para  a vida das sociedades, a classe dos intelectuais de  quem  eles dispõem.

Uma sentença machadiana no mínimo contestável:

“Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu , com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto”

 

Um patrono coroado de láureas e da poeira da glória

Machado de Assis sem dúvidas, tem  uma seleção de obras riquíssima e de beleza estética, o seu grande problema segundo Martim, é a insipidez de sua vida e a omissão em face do mundo que o cercava. No livro lemos: “Machado de Assis foi um sujeito que fez de tudo para ser alguém do seu tempo, para sobreviver num mundo cruel  onde a verdade de seus comparsas literários  era  a única coisa a ser evitada. Os críticos em geral tentam convencer o público que ele foi o exemplo do “grande artista” que, para provar sua superioridade moral, tinha de ser rebelde, solitário, pertencente à escola da constante oposição infelizmente para os sonhos deles, não foi nada disso. Por vezes Martim enxerga o autor Machado em personagens e situações muito baixas, como em um cachorro em Quincas Borba, para escapar ao que Martim chama de “baile das sombras” , que são as situações que de fato importam na vida de todo ser humano. Mas, para colocar de fato essa fuga moral de Machado quero trazer à tona um trecho não exposto por Martim, uma passagem terminal de Dom Casmurro onde personagem e autor são postos no banco dos réus da dissimulação por que se escondem em simulações e factóides para evitar o enfrentamento moral e passar de  largo dos olhares alheios:

 

A Solução

Aqui está o que fizemos. Pegamos em nós e fomos para a Europa, não passear, nem ver nada, novo nem velho; paramos na Suiça. Uma professora do Rio Grande, que foi conosco, ficou de companhia a Capitu, ensinando a língua materna a Ezequiel, que aprenderia o resto nas escolas do país. Assim regulada a vida, tornei ao Brasil.

Ao cabo de alguns meses, Capitu começara a escrever-me cartas, a que respondi com brevidade e sequidão. As dela eram submissas, sem ódio, acaso afetuosas, e para o fim, saudosas; pedia-me que a fosse ver. Embarquei um ano depois, mas não a procurei, e repeti a viagem com o mesmo resultado. Na volta, os que se lembravam dela, queriam notícias, e eu dava-lhas como se acabasse de viver com ela; naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar a opinião. Um dia, finalmente…”

O que temos aqui é alarmante e confessional, a omissão do personagem de buscar  a verdade e as possíveis implicações, tensões e traumas de um  até então, fato suspeito. Bentinho  no entanto teme deparar-se com a realidade traindo a Capitu em negar-lhe o mesmo direito e, para satisfazer o apetite das expectativas externas e não as suas, cria um arranjo fictício, um artificialismo para suprir o vazio moral que o habita.

 

Eis então, Dom Casmurro e Machado pondo em prática a dissimulação como meio de sobrevivência no cruel mundo cruel, onde a vida se acomoda e se resolve na invisibilidade pública. Ao aderir à leitura crítica de Martim Vasques da Cunha sobre a pessoa e obra de Machado de Assis, não diminuímos a beleza  que a literatura brasileira deve ao seu patriarca, nem é essa a proposta de “A poeira da glória”, O texto machadiano é belíssimo e inspirador, mas é necessária a correta interpretação do intelectual brasileiro em toda a sua extensão, pessoal, textual e contextual social e cultural. A questão é também que, Martim não encontra na literatura nacional, autores produtores de clássicos da mesma dimensão de um James Joyce por exemplo, e, o niilismo e o rancor, o ressentimento do literato brasileiro produz um prejuízo muito grande em toda a sociedade civil. A obra de característica  meramente esteticista por mais que fantástica e inspiradora que possa ser, se não produzir consciência e liberdade interior, se lhe falta a inteligência moral, ela não passa de um reflexo do ensimesmamento de quem a compôs.

 

Boca do Inferno e o proselitismo e escrita elegante de Vieira

Gregório de Matos, nascido em salvador, no ano de 1636 recebeu a alcunha de “Boca do Inferno” ou “Boca de Brasa” principalmente por sua crítica contínua à Igreja Católica e o conteúdo erótico em suas sátiras aos costumes da sociedade, em especial a de Salvador, sua poesia era de três características principais: a poesia religiosa, a amorosa e a satírica e em todas elas o autor revela seu destemor em apresentar uma linguagem ácida que ele considerava apenas retrato dos comportamentos do cotidiano por ele observado, mas, esse conteúdo crítico de sua poesia o levou a ser denunciado ao Tribunal da Santa Inquisição, acusação a qual não surtiu êxito, no entanto não o deixou livre de acusadores que em 1694 conseguiram enfim deportá-lo  para Angola, onde contraiu uma febre que veio a matá-lo em apenas um ano depois de regressar ao Brasil. Gregório, considerado um dos maiores poetas da língua lusófona via o mundo como uma prisão perpétua onde apenas aquele que percebe a miséria humana dentro deste cárcere pode buscar em seu aprisionamento e na consciência de tal condição, o escape ou o alívio para uma forma de liberdade que se constituíra na sensibilidade do próprio ser do Brasileiro. Gregório mostra a visão de existência que é doente e problemática que costumamos dar o nome de malemolência e “picardia”, a malandragem e o jeitinho brasileiro em parte. Martim tende a exaltara Gregório de matos como o primeiro grande autor brasileiro, juntando-lhe as classificações reducionistas que outros críticos lhes atribuíram, o satirista, o amargurado por sua “triste Bahia”, o torturado religioso , o amante priápico, o criador da literatura brasileira, e uma referência passageira na nossa formação nacional _ Para Martim, Gregório vai  além disso tudo. Já o Padre Antonio Vieira embora visse o Brasil, principalmente na figura do indígena , como um fornecedor de mão-de-obra e de enriquecimento para a Coroa Portuguesa, e nenhuma preocupação tivesse para com nossos povos nativos, exceto por sua catequização, Vieira contribuiu para a literatura luso-brasileira e assim, também à formação nacional, lançando-lhe o senso de expectativa, uma vez que em seus sermões como em seus discursos, é onipresente o vislumbre escatológico de Portugal como a capital do Quinto Império Cristão _ onde a voz e o mandato político do Estado se confundem com a voz profética  e a Nação Santa de Deus.

Embora Vieira  sempre aponte para essa Era Escatológica, ele não poupa a ninguém de suas censuras e imprecações; príncipes e mandatários, bem como a camada mais baixa do povo, são alvos permanentes de suas acusações e dos alertas da iminência do Juízo em virtude do mal uso do poder, principalmente da omissão. Ainda para alguns possam também ser classificações reducionistas, Vieira é apresentado muito além do simples religioso e do literato, ele é também o político e o profeta. Já que aqui nos referimos a dois nomes que fizeram uso freqüente da religião como tema de sua literatura, abaixo, reproduzimos de um deles (Gregório) uma poesia:

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei,  Senhor; mas não porque hei pecado,

Da vossa alta piedade me despido;

Antes, quanto mais tenho delinquido,

Vos  tenho a perdoar mais empenhado.

Se  basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido

Vos  tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida já cobrada,

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

     

 

Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha

José de a Alencar foi o mestre do Romantismo Brasileiro, precursor de Machado de Assis e Talvez por proximidade e importância seja quem mais rivalize  com ele quanto ao posto de patrono da literatura brasileira, na verdade quando da fundação da Academia Brasileira de Letras, o próprio Machado defendia que Alencar deveria ser  o patrono da cadeira número 1 da ABL, sugestão derrotada por seus . Nascido no Ceará e tendo praticado a vida política no período do Segundo império pelo Partido Conservador foi deputado estadual  e  chegou a ocupar o cargo de ministro no  Ministério da Justiça. Através de sua literatura e proximidade com o poder, Alencar desejava influenciar o imperador apresentando o índio como um cavalheiro, nas palavras de Martim. Sua literatura quando voltada para a sociedade urbana e branca, evidenciava o amor de contrato social (como é o caso de Senhora) em detrimento do amor verdadeiro, e, por intermédio desses, Alencar insere como forte característica à  sua obra, o   um aprofundamento na observação psicológica de seus personagens. Escreveu romances urbanos,regionais (pelos quais fez discípulos próximos como O Visconde de Taunay e Bernardo Guimarães e mais tarde, José Lins do Rego, Graciliano Ramos,Guimarães Rosa, Jorge Amado e Érico Veríssimo), romances históricos e os romances indianistas. Apesar de uma galeria ampla de obras e de sua escrita elegante e épica, Alencar por vezes chega a ser demasiado descritivo (percepção também demonstrada por Martim) e nessa descrição minimalista quase onipresente em sua obra nos inspira a dúvida se seriam os seus floreios um mero exercício para demonstrar seu elevado recurso de oratória ou um vício de excedência anestesiando o fôlego do texto.  De toda forma, mesmo sendo igual ao senso comum de intelectual brasileiro, o Crítico político que tinha a sua cota de fascínio pelo poder, que fale-nos as palavras escritas por Machado de Assis seis anos depois de sua morte:

“… José de Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura. O futuro não se engana”.

           

 

De Euclides da Cunha a Guimarães Rosa

Leiamos os dois excertos:

“Fora logo traçar-lhes a evolução do caráter. Caldeadas a índole aventureira do colono e a impulsividade do indígena, tiveram, ulteriormente, o cultivo do próprio meio que lhes propiciou, pelo insulamento, a conservação dos atributos e hábitos avoengos, ligeiramente modificados apenas consoante as novas exigências da vida _ E ali estão com suas vestes características, os seus hábitos antigos, o seu estranho aferro às tradições mais remotas, o seu sentimento religioso levado até o fanatismo, e o seu exagerado ponto de honra, e o seu folclore belíssimo de rimas de três séculos…
Raça forte, de caracteres definidos definidos  e imutáveis mesmo nas maiores crises – quando a roupa de couro do vaqueiro se faz a armadura flexível do jagunço -, oriunda de elementos convergentes de todos os pontos, porém diversa das demais deste país, ela é inegavelmente um expressivo exemplo do quanto importam as reações do meio”
Cunha, Euclides da. In, Os sertões.
“O julgamento também. Estava certo? Saímos, de trabuz. No naquele, a gente podia ver resenho de toda geração de montadas. Zé Bebelo lá ia, rodeado por cavalheiros de guarda, pessoal de Titão Passos, logo na cabeça do cortejo. Ia com as mãos amarradas, como de uso? Amarrar as mãos não adiantava. Eu não quis ver. Me dava travo, me ensombrecia. Fui ficando para trás.Zé Bebelo, lá preso demais, em conduzido. Aquilo com aquilo – Aí a minha ideia diminuía. Tanto o antes, que fiz a viagem toda na rabeira, ladeando o bando bonzinho de jegues orelhudos, que fechavam a marcha. A pobreza primeira deles me consolava – os jumentinhos, feito meninos. Mas ainda pensei: ele bom ou ele ruim, podiam acabar com o Zé Bebelo? Quem tinha capacidade de pôr Zé Bebelo em julgamento?! Então, ressenti um fundo desânimo. Sem mais Zé Bebelo, então, o restado consolo só mesmo podia ser aqueles jericos baianos, que de nascença sabiam todas as estradas”.

Rosa, João Guimarães. in, Grande Sertão: veredas.

 

A evolução e a expansão libertadora de “Os sertões” até “Grande Sertão: veredas”

Embora diferentes em estilo esses dois extratos das obras “Os sertões” e “Grande Sertão: veredas”, retratam a natureza de um mesmo personagem: o jagunço dos sertões brasileiros; capangas de ricos latifundiários e políticos, e cangaceiros que buscavam uma espécie de inserção no sistema de justiça sertaneja sob a égide de um padrinho, de um mecenas. Mas o que pretendo destacar em princípio, é como o seu enquadramento quando dado pela ótica esteticista de Euclides nos apresenta uma imagem estática, inanimada, onde o jagunço é descrito em sua forma bruta, estereotipada e generalista, e, sobretudo, determinista, onde o meio condiciona o homem.É evidente que Euclides é magistral em sua composição de linguagem, mas, muito mais evidente, é o quão sua perspectiva de personagens, o homem e o meio, apresenta o predomínio do belo sobre o bom e o verdadeiro, uma vez que a imagem retratada está submissa à ótica, nesse caso extrínseca e imediatista, que conduz o leitor à uma leitura igualmente leviana; ao apresentar o Sertão e o fenômeno sertanejo como algo que pouco vai além de um lugar-comum onde destacam-se sobretudo qualidades depreciativas, ainda que seja desonesto omitir o acerto de certas impressões, o autor por menor que seja sua intenção, contribui para agregar um atestado regular da forma como o resto do país compreenderá e tratará política e culturalmente aquele malfadado espaço demográfico. A trajetória político-administrativa posterior posta em prática no Nordeste a partir do Governo Central é uma prova contundente de como uma obra literária influencia toda uma forma de intervenção numa realidade específica. A abordagem cientificista de Euclides da Cunha em “Os Sertões” pode ser lida em determinados momentos como um manual de cabeceira por uma mente intervencionista, por um político profissional que recorre a terceiros devidamente habilitados ou por alguém com grandes ambições  e sede de poder. No trecho destacado, são revelados precisamente compreensões características do sertanejo que foram e ainda são exploradas nesses incautos; na descrição do homem tudo é revelacional se o compreendemos como uma parte e não o todo e o insulamento do mesmo como efeito, não como ato; o forte apego às antigas tradições, o fanatismo religioso e o senso de honra afiançado pelo sangue; tudo é desnudamento. Para uns, beleza e riqueza cultural (e os são), para outros, um “hóspede indesejado” validado apenas na sua condição de marionete.

Em sequência, vemos como Guimarães Rosa amplia a grandeza dos personagens em questão, homem e meio. O primeiro agora  ganha vibrante mobilidade ao expressar toda uma dimensão espiritual interior, ao propor reflexões maiores e questionamentos éticos como se libertado fosse o jagunço guimaraneano das amarras ideológicas e simplistas do jagunço euclidiano. Em “Grande Sertão: Veredas”, como em toda obra de Guimarães Rosa, a linguagem é um artifício de expressão de sentido personalístico e místico; o personagem central, Riobaldo, se move e transforma-se conforme progride na trama, ele é também Tatarana ou lagarta de fogo, o companheiro dos jagunços: torna-se o Urutu-branco chefe do bando, mas é o seu primeiro nome que mais comunica a natureza de seu ser. Guimarães, um poliglota por paixão usa de todo o seu conhecimento para atribuir ao personagem uma universalidade que é rara, senão única na literatura brasileira. Em torno do nome de Riobaldo, podemos especular distintas compreensões e sentidos. Desde “aquele que regula e comanda ( Rio + aquele que governa) a partir de etimologia primitiva da palavra, passando pelo Rio + o afetivo hipocorístico de origem teutônica que poderia nos remeter ao traço por vezes manso do personagem, até  chegar ao poético e mais inerente dos termos, quanto a essência do personagem ainda casto de caminhada; o Rio + o carente, o falto, o desprovido, que nos comunica de maneira mais precisa à condição do indivíduo  quanto ao  sentido de progressão. Riobaldo depara-se com dilemas éticos, com um amor mistério e proibido, com questionamentos existenciais, com valores interiores e morte. Mas, o que podemos entender como “a jóia da coroa” de todo o livro, é a busca e o enfrentamento diante do sobrenatural, o problema de encarar Bem e Mal e aquilo que dele se pode extrair e devolver. Mais do que a conclusão pela realização de fato ou não do pacto diabólico, é mais provocativo e pertinente o sentido moral da atuação do sobrenatural expressa no real e do quanto nos cabe (nos inserindo ao personagem) nos papéis de ora oponentes e outrora proponentes. A liberdade interior presente no jagunço de Guimarães, reflete a mesma liberdade de expressão interior do próprio autor, que ainda de personalidade retraída, propunha através de sua obra caminhadas de progressão do humano como que ascendendo por degraus morais que o colocava como excerto do universo mesmo quando restrito espacialmente em um recanto extremo, isso, não porque Guimarães busca no mundo além de seu cenário recursos estranhos para alargar o alcance de seu pequeno espaço, mas porque Guimarães torna o Sertão em o mundo; O sertão mineiro no caso, comporta todo um universo e um sistema de valores éticos e lutas morais quanto a Dinamarca de um Hamlet, de Shakespeare. Não é necessário arbitrariamente transportar quaisquer elementos estranhos para conferir universalidade à obra, Enquanto isso, é claro e notório que reduzir o Espaço e o indivíduo a um quadro estático e permeado por emblemas que fundam ou fortalecem preconceitos apequenam o produto artístico em face da ‘Grande Arte’ feita pelos autores clássicos.  A inteligência moral abundante na literatura de Guimarães Rosa coloca o homem em contato permanente com o seu íntimo, com sua essência primitiva e nisso, reportando-o  a Deus, resgata-o do niilismo e da inanição determinista, enquanto a ausência dela em Euclides e no seu texto  refletem a perspectiva vazia, primitiva, caída e  imovente  pelo ponto de vista de um autor que não vislumbrava o extraordinário e a partir da avaliação de sua particular compreensão de mundo teceu sua caminhada no real de maneira trágica e inglória.

Segundo Martim, Guimarães Rosa atinge mais que o apogeu da literatura no Brasil, se colocando no patamar dos grandes literatos do mundo, e, em Grande Sertão: Veredas e ele, não define a “identidade Nacional” do brasileiro, mas, decifra a natureza da alma do brasileiro ao identificar a raiz do rancor e do ressentimento do brasileiro na raiz do esteticismo como o pacto fáustico que faz o indivíduo seguir em frente, ainda que este o negue como Riobaldo o faz;  Riobaldo é o Brasil polivalente e não reduzido á uma unidade,  o jagunço que faz o pacto para se tornar líder e não ser consumido pelo processo de modernização e urbanidade pelo qual o país está passando ; Guimarães decifra que dentro da alma do brasileiro, do labirinto que é a nossa alma reside o Minotauro, e, o Minotauro devora a cada um de nós. Este Minotauro é o Brasil. Em Grande Sertão: Veredas, é permanente a tensão entre o princípio ético e o estético. A síntese disso está em que Riobaldo precisa negar o pacto fáustico, do contrário, permanecerá inerte. Para pontuar essas considerações particulares, que são banhadas pelas contribuições determinantes do próprio  Martim e de outros, reproduzimos o parecer dado pelo próprio Guimarães Rosa acerca de sua literatura:

_ “Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida”.

 

Cândido é a personificação do  Cânon e a síntese da Poeira da glória

Antonio Cândido nasceu em 1918 e é um literato e professor da USP com doutorado em sociologia e com uma extensa e a mais celebrada  obra crítica do Brasil. Seus livros e sua influência se fazem largamente presentes em muitas universidades brasileiras bem como na obra de tantos outros críticos posteriores que frequentemente a ele recorrem para referendar seus trabalhos. Candido sempre militou na política de esquerda primeiro no PSB, onde participou de grupos revolucionários radicais, depois fez parte do processo de fundação do Partido dos Trabalhadores e, ainda hoje empresta seu nome e prestígio para campanhas políticas do partido.

Cândido ao Contrário do que o nome possa sugerir está no extremo oposto da Revolução que Martim defende, enquanto o autor de “A poeira da glória prega uma reforma interior da alma do indivíduo em favor da liberdade e da imposição exterior, Cândido é o defensor de um regime de dieta totalitária da consciência coletiva e da intervenção por força dos poderes do Estado para transformar o mundo a partir da ideia esteticista de que se o meio for moldado por uma construção ideológica, o homem atingirá ou se inserirá num modo de  perfeição. O esteticismo de Cândido é o sumário de um artificialismo, uma religião sem Deus que deve subjugar a diversidade do brasileiro e a sua consciência interior. De acordo com Martim, Antonio Cândido talvez seja tão temido e cortejado dentro da literatura brasileira porque seus pares do mundo acadêmico e intelectual sequer o têm entendido e por medo de serem inquiridos em função de qualquer possível contestação ou divergência, o sustentam nessa aura de autoridade e pela poeira da glória.

Acerca de Cândido, Martim é prontamente astuto ao afirmar: “E por falar em poeira da glória, é bem provável que, no círculo dos sábios nacional, o mais empoeirado de todos seja Antonio Cândido de Mello e Souza. Também conhecido pelo nome literário de “Antonio Cândido” e outras denominações elogiosas – como o mestre, o professor, o maior crítico literário e o intérprete do Brasil – louvores definitivos que indicam não só o prestígio, mas a absoluta reverência de seus acólitos, uma reverência que pode ser interpretada como conseqüência de um medo profundo de não reconhecerem a superfície de suas idéias”.

Literatura para a salvação da alma

                                               “Assim chegamos a uma única conclusão: a de que todos os literatos e intelectuais do Brasil, sem exceção (inclusive este que profere tal sentença), sofrem da doença da estupidez e acreditam que são parte de uma elite – mas não passam de uma ralé”.  

                                                                                             Martim Vasques da  Cunha

                           Ao término da leitura de “A poeira da glória” a maior e mais benéfica das contribuições que pode ser apreendida é o fato de sermos informados de nossa pequenez diante das grandes questões inerentes porém entorpecidas de nossa existência, um certo comportamento viciado do qual somos vítimas. Os grandes dilemas espirituais sempre existem e existirão em todos nós, mas o caso de não termos a ciência ou a correta instrução por meio da  literatura que é  a filha dileta, o sumo da língua no qual a deveríamos extrair, isso em razão de que nossos intelectuais preferiram o cultivo de uma fama questionável enganando a si mesmos e a seus leitores, é ai que reside a necessidade de nós os reais sustentadores dessa poeira de glória irrompermos em busca de uma autonomia de pensamento, não uma autonomia no sentido amplo, algo que em nós continue a alienação do divino, autonomia no sentido de rebater a argumentação esteticista e ideológica que desrespeita o real e que tomou o Brasil pela voz dos seus intelectuais e que em certo ponto  Martim chamará de patrimonialismo literário.

Esse patrimonialismo literário é “iniciado quando Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras, moldado de forma definitiva pelo Modernismo Brasileiro e tornado em instituição permanente pelo “paradigma uspiano” articulado por Antonio Candido. (…) O patrimonialismo difere daquilo que costumamos conhecer como governo representativo e caracteriza-se por ser uma estrutura mais forte que a sociedade civil, muitas vezes engolindo-a numa centralização de poder nas mãos de poucos sujeitos que têm as melhores intenções, mas que já nos levaram para o inferno há muito tempo. Já o patrimonialismo literário é uma síntese perturbadora de dois outros que insistem na luta pelos grupos dentro do Estado: o patrimonialismo tecnocrata, de influência positivista e progressista, e o revolucionário, cujos pais são o socialismo e o comunismo. Apesar das diferenças de método, ambos fazem o que lhes é pedido: transformam o que seria a coisa pública em assunto privado.

O livro “A poeira da glória” é uma voz dissonante e polêmica o quanto necessário dentro de toda essa plataforma de dissimulação que reza no Brasil, que ecoará e será consultado daqui a Cem anos como afirmou Rodrigo Gurgel no lançamento do livro. Tomara nesse tempo, o livro seja referido como um marco inaugural de uma revolução interior de intelectuais e leitores, também de uma mudança de rumo na orientação metafísica e na forma de se fazer literatura em nosso país.

 

                            O livro “A poeira da glória” é uma obra literária acurada e densa, espiritual  não-religiosa, que visa colocar o homem no caminho do autoconhecimento e do encontro de sua alma com Deus e sua salvação                                       

 

 

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2 comentários sobre “R.O. A. (04) – Márcio Rogério. Obra: A Poeira da Glória.

    • Márcio Rogério, sua presença como resenhista abrilhanta e credibiliza este blog. É com imensa satisfação que posso dizer que tenho em você um amigo. Muito obrigado por nos brindar com esta excelente resenha, fruto de suas pesquisas! Que Deus abençoe seus estudos, pesquisas e futuras atuações acadêmicas e pára-eclesiásticas por meio do CaFé com Letras e outras iniciativas.

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