Resenha 20: O Monge e o Executivo (James C. Hunter)

Resenha 20

HUNTER, James C. O Monge e o Executivo: uma história sobre a essência da liderança. Rio de Janeiro: Sextante, 2004, 144 pp.

 

 

O livro é um excelente romance que trata sobre a essência da liderança, que segundo o autor consiste em servir (o título em inglês é “The Servant”). A trama envolve a história de John Daily, um líder que estava tendo dificuldades em liderar seus subordinados na empresa, num time que treinava e sua própria família. Após ouvir sua esposa, resolve participar de um retiro sobre liderança em um mosteiro. Lá, ele sabia que se encontraria com Len Hoffman, um ícone da administração que havia largado tudo e se dedicado à vida monástica, cujos ideais incluíam oração, trabalho e silêncio (p. 11).

 

Em uma semana de aulas com o irmão Simeão, o nome recebido por Hoffman no convento, John, cuja liderança estava em xeque, passa a entender o cerne da verdadeira liderança. John, o executivo, juntamente com cinco outros líderes, durante uma semana de estudos, aprendem princípios espetaculares de liderança com o monge.

 

O romance visa quebrar velhos paradigmas de liderança e para isto se utiliza da figura de um militar, pastor, profissionais da educação, psicologia, área da saúde e um executivo. E de maneira interessante, o grande professor deles, é um “monge” beneditino. Os principais ensinamentos que o livro passa são traduzidos em uma palavra: serviço.

 

O bom líder, acima de tudo, precisa ser um bom servidor, atuando como alguém que exerce autoridade e não poder (e aqui ele bebe na fonte de Max Weber, em sua obra The Theory of Social and Economic Organization), p. 26; alguém que influencia e lidera e não apenas gerencia ou visa o cumprimento de tarefas. Desenvolvem-se comportamentos adquiridos, que são escolhidos e não habilidades inatas para liderar. Para poder exercer autoridade, deve-se portanto, na concepção de Hunter, estabelecer relacionamentos e investir nos mesmos e não meramente no cumprimento de tarefas (p. 34). Os velhos paradigmas piramidais de liderança aos poucos devem ser substituídos por relacionamentos coesos, onde se investe nas necessidades dos liderados e não em suas vontades particulares (parece assentir a escala de Maslow). Mas isto exige confiança, confiabilidade! Além disto, o líder necessita ser um bom ouvinte!

 

A partir do modelo administrativo de Jesus, o autor passa a mostrar que o líder deve agir pelo amor, tendo como base o comportamento e não os sentimentos. É interessante notar que o modelo de amor não é um mero comportamento, mas é movido por vontade para que se chegue ao padrão de liderança. A base bíblica para tal asserção encontra-se em 1 Coríntios 13. Porém, ele coloca a descrição do amor meramente na base da ação, sem nenhuma relação com emoção (por exemplo, “regozija-se com a verdade” – certamente há sentimento envolvido). No final das contas, o próprio monge confessa que o sentimento de alegria (sentimento que não depende de circunstâncias externas) é buscado por ele e cultivado por meio da disciplina do serviço (p. 133). Por isso, discordo da ideia de amor ser meramente um comportamento ou um verbo e não estar associado com nenhuma afeição.

Além disso, Hunter mostra a necessidade de se criar um ambiente favorável (não se pode mudar as pessoas, mas se pode criar um ambiente propício para a mudança); aplica o conceito de práxis (o comportamento correto manifestará os sentimentos); salienta o poder das escolhas (que apesar da genética, o homem tem capacidade de realizar suas escolhas) e termina falando da recompensa proposta a alguém que administra como servidor: a alegria.

 

Alguns pontos altos do livro: as sinalizações passadas pelo mau ouvinte e pelo atrasado. O mau ouvinte não presta atenção no que o outro fala, não valoriza a opinião alheia e acredita que sua opinião é melhor que a dos outros (p. 40). O atrasado crê que seu tempo é mais importante, acredita que o outro não é importante e é desonesto ao não honrar seu compromisso de pontualidade (p. 89).

 

Ao longo do livro o autor na fala das diversas pessoas finda apresentando uma cosmovisão que se não for a sua, no mínimo sugere isto: repetição da palavra comunismo de forma pejorativa, acreditando que é um conceito ultrapassado (p. 58), mentalidade inclusivista, que reconhece a real essência do cristianismo em pessoas não cristãs; não aplicação da mensagem cristã em 1 Coríntios 13, apenas adoção de princípios pragmáticos para a vida; a não necessidade de impor sua religião e suas crenças. Pelo menos em um aspecto, ele é favorável, e isto meramente para defender a viabilidade do “livre-arbítrio” humano: a negação do determinismo freudiano. Mas ele se coloca como alguém behaveorista (ênfase no comportamento e nos hábitos), o que gera pouco espaço para afeições sólidas (a própria citação de Covey indica isto, na página 102). Indica Victor Frankl e Huston Smith com naturalidade e é fã de Albert Schweitzer.

Qualquer obra, por mais fascinante que seja em seu roteiro e na forma como sua mensagem nos arrebata, deve ser analisada em seus pressupostos. Observe o papel de Inteligentsia ao qual se presta James Hunter quando se torna o porta-voz e o divulgador de intelectuais de diversas áreas, à medida que tenta passar uma mensagem pragmática de boa liderança pautada pelo serviço, utilizando princípios bíblicos, sem necessariamente apresentar o genuíno Evangelho. Muito do que se fala sobre liderança é fabuloso, porém o forte foco no pressuposto behaviorista e a citação forçada das Escrituras para negar o real valor das afeições devem ser devidamente pesados antes de indicar este livro sem nenhuma ressalva, como o texto revolucionário da liderança, muitas vezes até mesmo entre os evangélicos. Eis o que tenho a dizer sobre esta leitura!

 

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