Reflexões autobiográficas (III): Confissões de um asmático

asma

Você acorda no meio da noite procurando um pouco de ar; vira-se para um lado e para o outro em agonia, agitação! A respiração ofegante denuncia que algo vai muito mal. Seu peito parece querer explodir. Não dá mais pra ficar deitado. Você fica em posição sentada e curva a sua cabeça pra frente, posiciona os ombros para a frente e flexiona a coluna vertebral à procura de ar, mas ele não chega. Levanta-se, anda com dificuldade e começa a chiar enquanto respira; os sibilos parecem o canto de dezenas de pássaros engaiolados clamando por liberdade; e nada de ar!

Bate na porta do quarto dos pais e diz: “Mamãe, estou morrendo”! E a partir daí começa toda a aflição familiar em torno de uma crise asmática. Os pais revezam-se nos cuidados para com o menino, que melhora ao ser embalado em uma rede. Uma nebulização com Berotec em pequena quantidade (para não “agitar” o coração) era realizada. Quando não se resolvia, então procurava-se o Hospital.

Eu sou asmático e cresci tendo que enfrentar muitas crises deste estado de “hiperresponsividade das vias aéreas inferiores”. Desde os primeiros dias de vida tive afecções respiratórias, enquadrando-me na “síndrome do bebê chiador”. Aos dois anos, tive uma crise grave e meus pais tiveram que me levar de Boca do Acre, nossa cidade natal, para Rio Branco-AC. Foi por um tris, mas Deus em sua providência quis manter-me com vida. Na verdade, para aqueles que não conhecem a asma e seus paroxismos, é de cortar o coração e tomado como uma das piores angústias observar uma criança sibilando. Parece que ela vai morrer dentro de 30 segundos e não conseguirá “se virar nos 30”, tão fragilizada que se encontra. Mas tanto a família quanto o indivíduo portador de asma brônquica passam a conviver de forma “tranquila” com a doença. Porém, sempre na expectativa de cura!

Cura? Até que um médico chega e diz: “asma não tem cura”! Caiu a casa para uma mãe que ouve uma frase dessa. É como se todas as expectativas de eliminar aquele “convívio tranquilo com a doença” fossem por águas abaixo. Choro, decepção, desânimo, mas perseverança e confiança! O que o médico quis dizer é que ainda não se conhece um tratamento definitivo que leve à cura, mas que é possível ter uma boa qualidade de vida, com um tratamento de manutenção adequado. Só que até aquele momento, ainda não dispúnhamos de maturidade e conhecimento suficiente para isto. Eu tinha por volta de 7 anos e minha mãe uns 23.

Minha mãe passou a estudar e a saber coisas relativas à doença na busca de me ajudar. Aprendeu sobre leucograma, antibióticos, alergia, nebulização, os efeitos cardíacos do Berotec, etc. Todas as mandigas possíveis foram tentadas, uma vez que a expectativa de cura era vislumbrada, mesmo com a negativa incisiva do Doutor Fulano de Tal.

À propósito, lembro-me do perigo que um médico possui em sua fala ao anunciar o prognóstico de uma doença. Certa vez tive em meu consultório um paciente de uns 16 anos com Herpes. Ele estava muito angustiado e nervoso e me perguntou: “Dr., Herpes tem cura?”. Eu fui incisivo: “Não, não tem. Mas possui tratamento para os períodos em que as lesões se manifestam. Mas isto nunca erradicará o vírus”. O jovem redarguiu: “Então, não tem cura pra mim, doutor?”. Eu tentei explicar com mais cautela, porém só causava mais confusão e desesperança àquele jovem. Em minha ânsia por dar a notícia correta, e sem a devida prudência de falar com seus pais, eu findei colocando os dados de uma forma que gerou mais tensão do que informação. Aquele jovem angustiou-se e em pouco tempo refugiou-se no tenebroso submundo das drogas. Ao saber disso, eu fui tomado de culpa e pavor. Fora eu o culpado por aquilo! Lembrei-me do médico que dissera à minha mãe que asma não tinha cura (e não tem mesmo) e fui mais complacente com ele! Oh! Quanto cuidado devemos ter com nossas palavras!

Minha mãe tentou de tudo para me curar: leite de égua, leite de cabra, o sumo da corama, gemada, sumo da semente da maconha (este eu não sei se ela usou), suco de couve, entre outros como banha da sucuri e banha do boto. Porém, a mandiga só funcionaria se o doente não soubesse o que estava tomando. Ela não me disse, mas suponho que muitas outras mandigas ela usou. Você conhece alguma? Fala depois pra mim, tá?

Eu fui crescendo e passando a ter crises mais intensas; acostumei-me a ser internado cerca de 3 a 5 vezes por ano e passei a ter os meus remédios favoritos. Um que eu gostava em especial do sabor era o Celestamine; certa vez, tomei “meio vidro” escondido de minha mãe; outro com o qual sentia alívio era o Salbutamol. As inalações nunca as preparei, mas ficava feliz ao ver o barulho e a fumaça de um inalador. Todas as vezes que não tinha crise, passava longe da fumaça de cigarro, do barulho de caminhões com seus escapamentos nocivos e do cheiro de casas recém-pintadas. Sabia que era fatal! Se me aproximasse disso, teria crise na certa. Mas gostava do cheiro e do gosto do Celestamine, do barulho e da fumaça do inalador. Uma atividade paradoxal dos mesmos meios! Mas confesso que não sou Hanemanniano (o pai da Homeopatia).

Quando passava mais de 4 meses sem ter crises, passava a acreditar que estava curado, mas tão logo chegava esta sensação, na mesma semana uma crise chegava para gerar ceticismo em meu coração. Tornei-me cético quanto à cura e passei a conviver com a doença. Alguns dizem que fui protegido e mimado por causa da doença. Não trabalhei no pesado e nem me expus a situações mais perigosas. Porém, não entendo que minha mãe agiu assim. Ensinou-me a ler cedo, comprou livros junto com meu pai e tinha o hábito de ler para a família; ensinou-me a lidar e a evitar coisas que poderiam desencadear uma crise: ácaros, poeira, fumaça. Ensinou-me a nadar na piscina da AABB de Boca do Acre, ensinou-me a dirigir, não me empatava de brincar na praça e às vezes até deixava eu tomar banho na chuva. Mas o medo de uma crise mais grave e fatal sempre a assombrava (e a mim também). Mas a confiança de que seria só mais uma crise nos deixava motivados a continuar sonhando e vivendo.

Em 1996, aos 15 anos, eu estudava em Rio Branco e morava na casa de minha avó. Tive uma crise que durou bem mais do que o habitual. Mais de uma semana. Idas e vindas ao Pronto-Socorro e nada de melhora. Minhas tias tiveram a providencial ideia de me levar para uma consulta com uma pneumologista chamada Célia. Eu cheguei lá ofegante. Meus pulmões pareciam querer explodir. Ela me atendeu com um fundo musical de Richard Clayderman (aquela música nunca mais saiu dos meus ouvidos – Ballade pour Adelline) e com uma atenção e simpatia penetrantes, mesmo em meio ao seu olhar sisudo. Percebeu a gravidade do quadro e sugeriu internação hospitalar em um hospital particular de Rio Branco. Fui a pé com uma de minhas tias caminhando até este hospital (não era tão longe do consultório da doutora) e lá fui internado com um quadro grave de Pneumonia. Achei que morreria naquela ocasião. Recebi visita de familiares, meus pais logo chegaram e recebi conforto. Ali conheci novos fármacos (como a acetilcisteína e a Prednisona, por exemplo) e recebi alta hospitalar melhorado. A doutora Célia era conservadora e me proibiu de tomar banho à tarde e por um bom tempo até mesmo de manhã (talvez por isto, não goste tanto de banho). Quase fui reprovado por faltas, mas tive a compreensão de meus professores e consegui passar. Deus me dera uma nova chance, mas eu ficava a imaginar: “meu Deus, será que resistirei à próxima crise?”.

No ano seguinte, em 1997, tive uma crise severa no período de férias em Boca do Acre e fui levado às pressas para o Hospital, estava taquicárdico e muito nauseado. Minha mãe entrou em desespero. O médico instalou oxigenioterapia e avisou a minha mãe que eu iria melhorar, pois tinha um coração bom (que funcionava bem, apesar dos meus pecados). Foi o momento em que senti a morte mais de perto, mas Deus me livrou. Lembro-me que após a alta hospitalar eu fizera uma promessa de rasgar minha lista de filmes assistidos e de evitar assistir a novos filmes. Foi um voto de tolo. Tão logo me recuperei, já estava assistindo a filmes novamente.

Havia a perspectiva de ficar bom, pois meu tio ficara “curado” depois da adolescência. Eu tinha 16 anos e achava que depois dessa grande crise, eu ficaria curado. Ledo engano!

Fui estudar Medicina em Manaus, esperando fazer Pneumologia, com a finalidade de descobrir a cura para a Asma (quanta ingenuidade) e na Faculdade tive muitas crises e consultei-me com alguns pneumologistas. Aprendi sobre o uso de corticoterapia inalatória e aprendi a manipular Prednisona via oral como ninguém (que risco eu corri). Casei-me e em certo sentido cumpriu-se aquilo que ouvi de uma senhora vendedora de livros na Galeria Meta a respeito de minha condição de saúde pulmonar: “quando casar, sara!”. E sarou! Não a asma, mas pelo menos crises não as tive mais. Aprendi com o tempo a detectar o cheiro de substâncias alergênicas de longe e passar longe delas: tartrazina (presente na Fanta), camarão, certos corantes azuis, tintas, perfumes, etc.

Em certo sentido, esqueci-me de como é sentir uma crise asmática, sabendo que a qualquer momento uma nova exacerbação pode ocorrer e que o risco de desenvolver D.P.O.C. nas próximas décadas é grande. Porém, penso que isto gerou em mim sensibilidade quanto a pessoas com asma, a pessoas portadoras de doenças crônicas e experiência para lidar com suas mazelas.

A doença me ensinou algumas lições:

  • Quão frágeis nós somos. “Porque tu és pó e ao pó tornarás”. O fôlego de vida foi soprado em nossas narinas por Deus. Tão logo ele retire o seu fôlego, então expiramos. Nas crises de asma, passei a pensar nisto. Mesmo em pequena quantidade, nas crises, mas o sopro de vida estava lá. Apegava-me a isto e pedia para Deus de mim não tirar seu ar. Não somos nada em termos de segurança. Não podemos nos jactar de nossa saúde; de nossa virilidade e vitalidade; não podemos nos jactar de nossa jovialidade; um dia, o fôlego será tirado e a questão é: nossas almas irão se encontrar com Deus em que estado? A doença me fez perceber minha fragilidade, minhas falhas e defeitos e apontou para degeneração gradual do nosso corpo. E nossa alma? Já foi regenerada.
  • A doença me ensinou a lutar diante das crises. Diante de cada crise que aparentava ser irreversível, um fio de esperança pairava sobre mim e forças descomunais me faziam lutar contra a falta de ar. Quis entregar-me, mas lembrava-me de como Deus me livrara de crises passadas e isto me acalmava para buscar o alívio e a melhora daquela situação difícil.
  • A doença me fez pensar na analogia com nossas almas decrépitas, incapazes e insuficientes de serem salvas, buscando os paliativos dos “corticoides espirituais”, dos “beta-adrenérgicos da alma” e das “aminofilinas do ser”. Nada disto pode fazer alguém deixar de ser asmático. Apenas mantê-lo melhor e temporariamente afastado das crises enquanto perenemente asmático. Este é o homem sem Deus. Não há paliativos neste mundo que possam preencher a alegria de alguém. A completude da alma pode ser buscada no cônjuge, na bebida, nos prazeres, nas fugas e escapes, nos finais-de-semana, mas não é encontrada e nem pode ser adquirida pelos recursos humanos. É preciso um verdadeiro milagre, uma intervenção divina, mudando o DNA espiritual da pessoa e regenerando-a, dando-lhe nova vida. Para a cura da asma, só um novo DNA e um novo nascimento físico com uma estrutura imunológica não hiperresponsiva em sua dimensão respiratória. Sou asmático e morrerei asmático (ainda bem que não sou flamengo). Mas sou pecador, mas não morrerei em meus pecados, pois fui regenerado e em Cristo obtive nova vida, sentido existencial e segurança eterna.
  • Durante os períodos de crise, somos capazes de prometer qualquer coisa para delas sair, tão somente para descumprir nossa promessa ao primeiro sinal de melhora. Na crise, até um ateu clama por Deus, somente para negá-lo após a melhora de seu estado de saúde. Que vivamos de maneira digna do Evangelho de Cristo fora das crises, pois quando estas chegarem, poderemos ter a consciência tranquila diante de Deus de nossa conformação à imagem de Cristo ao ponto de nossas consciências não nos acusarem de qualquer proceder ilícito. Isto não nos fará sentir necessidade de fazer votos de tolo. Que pensemos na situação crítica de nossas vidas fora da crise e que diante das crises pensemos na estabilidade de nossas almas na pessoa de Cristo.
  • Que a doença nos faça mais sensíveis com as mazelas alheias. Que possamos levar conforto àqueles que sofrem de doenças similares às nossas. E se como médicos, munidos estamos de potentes recursos humanos para o alívio e a cura de muitas mazelas, porque não aplicá-los integralmente. Com sensibilidade, respeito e apreço pela pessoa. Lembremo-nos que enquanto seres humanos, nós médicos, também somos pacientes e, mais cedo ou mais tarde, estaremos diante de outro colega, requerendo dele compaixão, atenção e afeição. Qual é o custo em cumprimentar o paciente, tirar suas dúvidas de forma simples e sensível? Hoje, olho para meus pacientes procurando tratá-los integralmente. Principalmente, os asmáticos!
  • A presença de comorbidades requer intensos cuidados ao paciente asmático. O risco de uma Pneumonia mais agressiva é grande. Ao lidar com a cronicidade da vida, saiba que você está sujeito a muitas comorbidades e deve levar isso em conta. Um estado te deixa predisposto a outras doenças e malefícios. Cuide de sua alma de maneira integral. Cuide do corpo, pois ele carrega sua alma; cuide de sua alma, pois ela subsistirá depois da morte de suas células.
  • A asma me ensinou a ver o quanto sou amado por Deus. Quantas vezes, fui liberto da morte e não percebi? Quantas vezes sou liberto da morte e não percebo (aliás, neste instante, Deus está nos livrando da morte). Por que motivo ele me permite viver hoje? Que valor deseja implantar em mim diante das crises vivenciadas? Quão amado fui e sou pelos meus familiares? Quantas noites meus pais passaram em claro por amor a mim? Quão generoso estou sendo para com meus pais, meus filhos e minha esposa? Quão generosos os médicos, enfermeiras e técnicas foram comigo? Sei que sempre pensavam: “lá vem esse menino de novo com mais uma crise de asma”. Mas nem por isso deixavam de me dar a atenção e o cuidado necessários ao meu bem-estar. Talvez existam pessoas ao seu redor que insistem no erro. O que você tem feito por elas? Você tem evitado tais pessoas? Ou tem lutado por elas? Mesmo que você pense: “lá vem esta pessoa dizendo que quer mudar, mas eu sei que tão logo ela saia daqui vai continuar em seu erro”, continue dando-lhe a atenção, a orientação e o cuidado necessários ao bem-estar integral de sua vida.
  • O fôlego de vida é um dom divino. Por mais curto que o seu esteja, é um presente de Deus. Viva com este pequeno fôlego diante de Deus, para Deus e com Deus. Um dia Deus tirará o fôlego de meus pulmões, mas sei que neste dia, junto com o fôlego que é dEle, levará juntamente minha alma para perto de sua presença consoladora. Neste dia, não serei mais um asmático. Terei plena saúde diante de meu Deus, aguardando a ressurreição do meu corpo.
  • Até lá, louvarei a meu Deus com o fôlego que ele tem me dado. “Todo o ser que respira louve ao Senhor”. Amém!
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s