Resenha 23: A Generous Orthodoxy (Brian McLaren)

RESENHA 23

MCLAREN, Brian. D. A Generous Orthodoxy. Why I am a missioanl + evangelical + post/protestant + liberal/conservative + mystical/poetic + biblical + charismatic/contempaltive + fundamentalist/calvinist + anabaptist/anglican + methodist + catholic + green + incarnational + depressed-yet-hopeful + emergente + unfinished CHRISTIAN. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2004, 352 pp.

 

 

UMA ANÁLISE DA IGREJA EMERGENTE A PARTIR DA OBRA “A GENEROUS ORTHODOXY” DE BRIAN MCLAREN

 

 

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como propósito apresentar as ideias da igreja emergente conforme apresentadas no livro “A Generous Orthodoxy”[i], de Brian McLaren, o proponente mais famoso da Igreja Emergente. Ao longo da obra é possível observar intertextualidade com a obra de G.K. Chesterton “Ortodoxia” (p. 148), mas não uma ortodoxia inflexível, fria e cruel; segundo Mclaren, a Ortodoxia que é proposta hoje pelas principais denominações mundiais foge aos propósitos bíblicos. Por isso ele acrescentou ao título de sua obra o adjetivo “generosa”.

Desta maneira Brian McLaren tenta uma atitude conciliatória com todos os segmentos do Cristianismo. Não é uma ortodoxia qualquer, ela é generosa e leva em conta a diversidade de manifestações do Cristianismo; mas não é mera generosidade, nem se trata de generosidade heterodoxa; pela contrária é uma generosidade ortodoxa. Tendo esta proposta em mente, podemos prosseguir com a apresentação da obra.

  1. APRESENTAÇÃO DA OBRA.

O impacto sobre os seus leitores e a amplitude do projeto de Brian McLaren é observada a partir da descrição que Phyllis Tickle faz no seu prefácio a obra (p. 8), quando afirma que Lutero e a Reforma Protestante fizeram para o século XVI o que Brian McLaren e a Igreja Emergente tem o potencial de fazer para o século XXI. O que as 95 teses serviram como marco de protesto na época de Lutero, “Ortodoxia Generosa” tem servido como marco de protesto no século XXI.

 

Outro prefaciador da obra é John Franke. Ele afirma que nesta obra as aproximações entre as diversas alas do Cristianismo tem sido saudadas com alegria. Segundo sua análise, “críticos menos informados do Pós-Modernismo acusam-no de irracionalidade, mas estão enganados; o que ocorre é um repensar da visão moderna, que não fora reformulada desde o Iluminismo” (p. 10). O termo “Ortodoxia Generosa” foi cunhado por Hans Frei para descrever um entendimento do Cristianismo que contém elementos do pensamento conservador e liberal, numa completa rejeição do Fundacionalismo (p. 10), num forte interesse ecumênico (p. 11); Jesus é o centro da obra de McLaren (p. 12); ele não fala em termos de ter a última palavra; é uma conversação autêntica, aguardando novas respostas.

 

O livro propriamente dito é dividido em duas partes. Na parte I, que vai dos capítulos 1 a 4, McLaren explica porque é um cristão, explicando a base de seu Cristianismo. Na parte II, McLaren apresenta o tipo de Cristianismo que professa, em capítulos que abarcam e tentam conciliar várias visões dentro do Cristianismo. O subtítulo da obra confere o tom da proposta de McLaren: por que eu sou um cristão missional + evangélico + pós-protestante + liberal/conservador + místico/poético + bíblico + carismático/contemplativo + fundamentalista/calvinista + anabatista/anglicano + metodista + católico + verde + incarnacional + deprimido ainda que esperançoso + emergente + inacabado.

 

No primeiro capítulo, Brian McLaren relaciona os 7 “Jesuses” que ele conheceu e a partir daí é evidenciado como estas sete experiências sobre Jesus modelaram seu Cristianismo. O Jesus número é o Jesus protestante conservador, que é o Jesus das boas novas centradas na cruz, elucidado por meio de 4 metáforas: justificação, resgate (que ele crê sser pago a Satanás – p. 46), representante e o guerreiro vitorioso. Porém, a ênfase excessiva na salvação individual o conduziu ao Jesus número 2, o Jesus pentecostal/carismático, que trata-se do Jesus alegre, presente, dramaticamente envolvido na vida diária (p. 50). Muito o agradou, mas que o afastou do pentecostalismo por causa da visão elitista segregadora entre os cidadãos de primeira classe (os cheios do espírito que falavam em línguas ) e os comuns (que não falavam).

Não satisfeito com a pouca ênfase em justiça social do Jesus número 2, McLaren foi conduzido ao Jesus número 3, o Jesus Católico Romano, ou melhor a perspectiva católica dos autores Walker Percy e Flanery O´Connor. O foco é no Cristo ressurreto, o “Christus Victor” (p. 54). Ainda não satisfeito, ele foi introduzido ao Jesus número 4, o Jesus ortodoxo oriental, a partir dos escritos de Dostoyevisk,Tolstoi e Anthony Bloom (p. 55). O relacionamento entre as pessoas da trindade (perichorese) numa eterna dança de alegria convida cada vez mais pessoas para esta dança (p. 54).

 

Após o seu casamento, conheceu o Jesus número 5: o Jesus protestante liberal. Descobriu que os liberais eram “conservadores enrustidos” que buscavam sanar suas deficiências no conservadorismo protestante. Criou muitos amigos liberais e a partir do exemplo de Cristo encarnado na igreja, muito da estrutura política educacional mundial poderia ser restaurada. Eles não criam no sobrenatural, nos milagres. Há um significado, entretanto, nos milagres que querem nos ensinar lições que doutro modo não aprenderíamos. Brian McLaren crê em milagres mas simpatiza com os liberais (p. 59).

 

O Jesus número 6 é o Jesus anabatista e este o atraiu por casa da ideia de “pacifismo cristão”, onde a ênfase não está na instituição, mas na comunidade dos discípulos. Por fim, Brian McLaren foi apresentado ao Jesus dos oprimidos (p. 62). O Jesus da Teologia da Libertação. Uma espécie de junção dos princípios comunistas com o Cristianismo. Como os cristãos foram relapsos em sua função social, outros vieram a preencher esta lacuna. A ênfase residia no ativismo dos discípulos contra os sistemas de opressão. A ênfase da morte de Cristo foi a resistência não-violenta (p. 63).

 

Sendo Jesus o centro da teologia de Brian McLaren este desdobramento e esta assimilação dos 7 “Jesuses” explica o porquê do seu tipo de Cristianismo na parte II envolver uma assimilação de diversos segmentos do Cristianismo. Antes disto, porém, no capítulo 2, McLaren apresenta uma outra concepção de Deus a partir de Jesus. Jesus nos apresenta um Deus B, que é diferente do Deus convencionado, o Deus A: solitário, dominante, poderoso. O Deus B que é revelado em Jesus, que é um Deus diferente do estereotipo apresentado pelo denominacionalismo vigente, é um Deus de relacionamento comunitário, unificado, eterno, misterioso de amor salvífico (p. 75). Ele utiliza três termos para aprofundar ainda mais seu conceito de Jesus: o salvador do mundo, o Senhor e o Filho de Deus. É interessante notar sua proximidade com o teísmo aberto neste capítulo, pois para ele Universo que o Deus A criou é limitado, submisso, um domínio. Já o Universo do Deus B é universo de interdependência, relacionamento, possibilidade, responsabilidade, mutualidade e liberdade. É este o tipo de Deus que Jesus revela (p. 75).

 

No capítulo 3, Jesus é apresentado como Senhor que nos liberta do poder opressor inclusive do poder religioso (de pastores e bispos); seu poder não é o de um opressor mas de um sonho de liberdade. Não é o domínio de César, mas a libertação de Jesus. Neste sentido, o senhorio de Cristo desconstrói o velho significado e o reveste de um novo (P. 83). Os servos de Jesus se transformam em amigos.

 

No capítulo 4, Mclaren desenvolve o conceito de Jesus como salvador. Ele não tem reservas em apresentar suas ideias. Uma delas é de que a práxis deve anteceder a teologia (p. 91). Sua fundamentação filosófica é demonstrada nas seguintes palavras: “similarmente, eu tenho me convencido de que uma ortodoxia generosa apropriada para nosso mundo pós-moderno terá de crescer a partir da experiência dos povos pós-cristãos e pós-seculares das cidades do século 21.” (p. 91). Perceba o forte nexo com o pós-modernismo.  A salvação de Jesus, para McLaren, envolve três formas primárias: salvação por meio do julgamento, do perdão e do ensino. Na página 100, ele afirma: “eu creio em Jesus como meu salvador pessoal, mas eu não sou um cristão por esta razão. Eu sou um cristão porque eu creio que Jesus é o Salvador do mundo inteiro”. Para ele, quem se interessa meramente pela salvação pessoal ainda vive na adolescência espiritual.

 

A parte II, que vai dos capítulos 5 a 20, apresenta o tipo de Cristão que Mclaren afirma ser. De maneira abrangente sem deixar de levar em conta a ortodoxia McLaren inicia uma tarefa de conciliar visões praticamente “irreconciliáveis” aos olhos do Cristianismo convencional, a partir de um viés ecumênico, sem a preocupação de ser incoerente, uma vez que sua base não-fundacionalista o permite fazê-lo, conforme apresentado no capítulo 4.

 

No capítulo 5, ele se apresenta como missional. Para ele, Missiologia não é uma disciplina dentro da Teologia, mas que teologia Cristã é uma disciplina dentro da missão Cristã. Sua definição de evangélico missional é “ser e fazer discípulos de Jesus em uma comunidade autêntica para o bem do mundo” (p. 108). Utilizando o chamado de Abraão, ele afirma: “Missiologia não é uma disciplina dentro da Teologia, mas que teologia Cristã é uma disciplina dentro da missão Cristã. Arguido sobre ser universalista, exclusivista ou inclusivista, Brian McLaren afirma na página 113: “eu estou mais interessado num evangelho que é universalmente eficaz para o todo da vida na terra antes da morte na história.” É universalismo no verdadeiro sentido. “Mais importante para mim do que a questão do inferno é a questão da missão”. De maneira estratégica, McLaren foge do problema do destino humano ao centralizar o foco no aqui e agora. Conforme visto no final do capítulo 4, esta discussão sobre o destino final das almas não é coisa para adultos espirituais.

 

No capítulo 6, McLaren apresenta-se como evangélico e não Evangélico (com “e” maiúsculo, para se diferenciar das denominações vigentes). Ele crê que ser evangélico envolve mais do que um sistema de crenças (p. 117). Ao mesmo tempo que se diz evangélico ele crê que o termo mais apropriado seria pós-evangélico O prefixo pós em pós-evangélico não significa anti ou contra. Significa vir de, crescer de; enfatiza ambos a continuidade e a descontinuidade. Etimologicamente ele assume-se evangélico no sentido de ser “pertinente às boas obras”. Ele afirma: “poderia uma convergência de cristãos pós-modernos de várias tradições trazendo nova vida e esperança tanto aos cristãos, como um todo, e ao mudno? Eu espero que sim.” (p. 120).

 

Um passo a mais na compreensão do pensamento de McLaren é dado no capítulo 7 e aqui. A fundamentação filosófica esboçada no capítulo 4 permite a McLaren redefinir todos os termos com critérios totalmente diferentes daqueles propostos quando os termos foram cunhados. É o que ele faz com protestantismo. Por isso, ele se afirma pós-protestante. Mas segundo McLaren isto não é uma incoerência, uma vez que ele retira o conceito de protestante como sendo derivado de “protesto” e o transfere para “pró-testificar”. E, para ele, pró-testificar é melhor definido por pós-protestante (p. 127).

 

Isto permite que católicos, ortodoxos e protestantes estejam juntos não apenas reconhecendo as falhas uns dos outros, mas cada um reconhecendo a sua própria falha. E esta união nos faz aprender mais acerca daqueles contra quem temos protestado. Ele utiliza a ilustração do conceito de “remanescente fiel”. Quando as igrejas tradicionais utilizam este termo geralmente elas são exclusivistas, numa atitude elitista, sem preocupação com os demais. Mas aqueles que eram considerados remanescentes (Moisés e Paulo) foram pró-testificadores de seu próprio povo, que estava prestes a ser destruído. Pró-testificar é ser generoso e ortodoxo. Não é uma clausura no clube elitista do remanescente fiel (p. 129).

 

No capítulo 8, ele afirma ser um liberal/conservador, apresentando uma terceira via ao invés da polaridade antagônica entre estas duas correntes (p. 131).  O problema com liberais e conservadores é que eles comparam o “seu” melhor com o pior de “sua” contrapartida (p. 135). McLaren entende que o melhor de liberais e de conservadores é verdadeiro heroísmo, mas de diferentes maneiras. O melhor dos liberais inclui a tolerância, o valor às classes, inclui a busca de tratar homossexuais com compaixão (p. 138) enquanto que o melhor dos conservadores é a ênfase na conversão individual e discipulado. Ele é pós-evangélico, pós-conservador e pós-liberal. Perceba a ênfase extraída de sua filosofia pós-moderna que imprime novos conceitos e novas formulações a sistemas pertencentes ao modernismo. O capítulo termina com uma excelente parábola de pessoas que saíram de uma cidade infectada por uma epidemia para buscar suprimentos e remédios em outra comunidade. Mas para isto cada um teve que trazer uma mochila pesada nas costas. Na volta, uma parte do grupo se desprendeu das cargas o mais rápido que pôde para tentar chegar logo em casa para salvar seus compatriotas; os demais pararam para descansar no meio do caminho, enquanto repensavam estratégias para melhor influenciar. Para McLaren os liberais são o grupo apressado e os conservadores, o grupo que fica com as cargas. Para ele nem uma coisa nem outra. A solução é os liberais recuarem e com a concessão dos conservadores ajudarem-nos a carregar os suprimentos de maneira rápida até a cidade.

 

No capítulo 9, McLaren apresenta-se como um místico/poético. E aqui sua crítica é feita a teóricos que escrevem seus textos em forma de tratados frios, em mera prosa, sem nenhuma relação com poesia ou misticismo. Esta ênfase é derivada de sua própria experiência, uma vez que abandonou a faculdade de Filosofia para ingressar na de Literatura (p. 147). Ele cita o vigor e a beleza dos textos de C. S. Lewis e Chesterton em contrapartida aos teólogos sistemáticos. Ele cita Barth e nisto demonstra sua ânsia ao esperar pelo dia quando Teologias Sistemáticas se tornarão obsoletas (por se tratarem de mera prosa). Só é proveitoso aquilo que possui mistério e poesia. A dissecação e a tentativa de entender todos os detalhes da deidade é o que ocasiona esta obsolescência aos teólogos ortodoxos (p. 156).

 

No capítulo 10, ao afirmar ser bíblico, McLaren propõe aceitar uma visão da Bíblia sem levar em conta termos tais como: autoridade, inerrância, infalibilidade, revelação, absoluto e literal. Para ele, Escritura é aquilo que equipa o povo de Deus para boas obras (conforme 2 Timóteo 3:17). Esta é a definição simples de Bíblia sem os pressupostos fundacionalistas, que são baseados no Iluminismo (p. 165). Mais do que seguir as tendências de estudiosos da Bibliologia ele prefere os ensinamentos práticos de pessoas que realmente viveram para as boas obras, conforme sua definição de Bíblia, tais como São Francisco, Madre Tereza, Billy Graham (p. 165).

 

Há um caminho melhor, segundo McLaren, para entender a Bíblia conforme sua literatura. Ela não é um compêndio de doutrinas mas uma narrativa (p. 167). É por tal motivo, que Gandhi mesmo não identificando-se como cristão pode seguir o caminho de Cristo, porque não existem doutrinas distintivas oriundas das Escrituras. Ela é uma narrativa que aponta para um modelo de vivência, que está longe de ser encontrado na maioria daqueles que defendem as Escrituras.

No capítulo 11, McLaren afirma ser um carismático/contemplativo. Os carismáticos localizam o centro do Espírito no além do normal; já os contemplativos no centro da normalidade (p. 174). Ele diz que pode-se chegar a Deus a partir dos dois. Deus pode ser encontrado tanto em manifestações efusivas quanto na calma e no silêncio contemplativo da natureza.

 

No capítulo 12, McLaren afirma ser um fundamentalista/calvinista e inicialmente retoma sua fundamentação ao afirmar que distanciou-se do fundamentalismo porque ele (McLaren) filosoficamente possuir uma base pós-fundacionalista. Na medida em que se defende os fundamentos do Cristianismo ele aceita o termo fundamentalista. Na forma como foi abordado no início do século XX e ainda hoje, ele não o aceita. Para McLaren os princípios fundamentais são: amar a Deus e ao seu próximo como a si mesmo.

 

Ele também valoriza Calvino, mas não o seu determinismo. O que ele considera é o vigor intelectual e sua entrega total à missão de erigir uma comunidade cristã em Genebra. No rigor intelectual, o calvinismo é a mais alta expressão do cristianismo moderno, mas ele não é generoso. Sendo assim, McLaren não mede escrúpulos ao redefinir o seu calvinismo em termos que não fazem nem de longe alusão ao acrônimo original da TULIP. A TULIP que McLaren deseja expressar é a TULIP generosa tal como ele a formula (p. 186): T = amor triúno; U = eleição não auto afirmada. L = reconciliação limitada. I = graça inspiradora. P = apaixonada, persistência dos santos.

 

No capítulo 13, ele se denomina um (ana)batista/anglicano. Dos anabatistas ele tem em alta conta o compromisso pessoal e a visualização da fé cristã primariamente como estilo de vida. Mas critica sua tendência de viver marginalizado da cultura. Os pontos positivos são a busca por praticar a paz e viver em harmonia numa “comunidade em criação” (p. 198).

 

O anglicanismo, por sua vez, tem o mérito de tentar reconstruir uma ponte entre o catolicismo e o protestantismo. McLaren observa 3 práticas essenciais nesta tarefa dos anglicanos: a tensão dinâmica, o compromisso e a beleza.

 

No capítulo 14, Brian McLaren enfatiza os intentos de George Whitefield e dos irmãos Wesley, demonstrando que estes fizeram pela formação espiritual o que Lutero e Calvino fizeram pela doutrina. No capítulo 15, McLaren se apresenta como católico, à medida que católico é um termo que significa “universal” e ser universal é ter em conta amar o mundo, que tem a ver com se importar que este mundo, antes que a história acabe. Mas do Catolicismo Romano ele afirma o sacramentalismo e o aspecto litúrgico, o respeito pela tradição, a celebração de Maria, o saber festejar. Ele não omite os escândalos dentro do catolicismo. Mas sua ênfase é em defender a honra que se deve prestar a Maria, mesmo que não a adoremos (p. 228). E para ele, o protestantismo destruiu esta ligação instrumental que Maria faz entre Deus e os homens.

No capítulo 16, ao se declarar verde, ele assume uma consciência e uma militância ecológica, uma vez que o protestantismo sucumbiu a uma escatologia do abandono, onde às custas de aguardar a chegada de Cristo e a tendência de desordem e caos daqui para a frente, findaram esquecendo de qualquer compromisso ecológico. Mas MacLaren afirma que o compromisso e o engajamento do reino envolve também a causa ecológica.

 

No capítulo 17 ele se afirma encarnacional à medida que professa uma tolerância pelas manifestações culturais e religiosas de sua época, tal como Paulo o fez para com os gentios e Cristo o fez para com samaritanos, prostitutas e fariseus. Já no capítulo 18, Brian McLaren afirma ser depressivo mas ainda esperançoso. Critica aqui o otimismo psicológico de muitas religiões e denominações que propõem uma solução para o problema do sofrimento, quando na verdade nesta vida sofrimentos sempre existirão e os exemplos do passado estão aí para nos lembrar de que podem nos atingir a qualquer momento. Mesmo em meio a depressão e a problemas, a proposta é ser esperançoso e não triunfalista.

 

No capítulo 19, ele explica porque é emergente utilizando a ilustração dos anéis que vão se acumulando no tronco de uma árvore (p. 277): “existem muitos tipos de pensamento. Alguns são discursivos em seu pensamento, traçando o desenvolvimento de uma ideia de uma maneira linear. Outros são polêmicos, sempre encabeçando uma disputa (…) Alguns são analíticos, fragmentados sistemas integrais e complexos em parte simples (…) Mas outros pensam em termos do que veio antes – como um novo anel numa –arvore – partindo para algo maior. Isto é o pensamento emergente ou integrativo”.

 

Por fim, no capítulo 20, conforme sua definição de emergente, ele está inacabado e por isto ele acha ineficaz capturar a verdade. É melhor viver como um missional, caminhando e construindo ao longo da estrada (p. 293). Usando as palavras de Chesterton ele termina a obra da seguinte maneira: “ortodoxia é sempre uma revolução e revolução é uma restauração. E por esta razão também, a aventura da ortodoxia generosa é sempre inacabada e”.

 

 

 

 

Considerações finais

 

Brian McLaren é um excelente escritor. Ele sabe utilizar as emoções, cria boas ilustrações quando é preciso. Ele sabe revisar seu ponto e sintetizar os demais. Porém, é tendencioso para distorcer e avaliar de maneira incompleta e não satisfatória a maioria dos grupos que tenda desconstruir.

Fica claro que sua experiência foi determinante para a construção de suas ideias. A falta de uma afirmação em um segmento religioso o levou a trilhar o caminho de novas descobertas religiosas, ao ponto de criar um Jesus amalgamado, conforme recortes que fez das diferentes experiências religiosas que passou.

Porém, não somente isto, mas tal experiência o levou a simpatizar com a pós-modernidade, que é anti-fundacionalista, que desconsidera os absolutos, os embates e as autoridades. Sendo assim, fica até difícil para alguém da Igreja Emergente enfatizar a autoridade de seu escrito. Mesmo que apresenta uma proposta sutil, tolerante, como ele diz,“ortodoxa” e “generosa”, ainda assim a ideia subjacente é que para ele tal ensino é a base de sua autoridade. É incoerência de qualquer pós-moderno apresentar sua visão na tentativa de ser aceito, uma vez que negam absolutos e autoridades. Os cristãos não podem ser fundacionalistas, mas ele pode se dar ao direito de ser pós-fundacionalista.

 

Brian McLaren é ambíguo e desconstrói os termos historicamente propostos para os apresentar amalgamados com uma vertente irreconciliável. Soa ainda mais agressivo seu pressuposto de que a ortodoxia dos protestantes não é generosa, mas a sua é. Ele simplesmente despe o termo ortodoxia de qualquer fundamento, uma vez que as bases do Cristianismo professados pela ortodoxia não tem nenhum valor para ele; o que conta é a práxis. Por isto é viável a alguém não adepto da “ortodoxia” ser um cristão. Ele é desonesto pois ao tentar reconsiderar Calvinismo de outra forma ele praticamente mata a ortodoxia e não é generoso para com ela.

 

Tudo no entanto, é fruto de seu sistema que analisa as coisas a partir do prisma dos anéis de um tronco. Mas se o tronco vai crescendo, ele esquece-se que suas ideias de nada valem e serão fadadas a uma remodelação, quando outros anéis crescerem ao seu redor. Por este motivo, a igreja que está sempre em evolução nada tem a crescer. Se pegarmos um exemplo de seus livros, tudo o que for sendo escrito que vai reformulando os antigos, deixa de autenticar estes para conferir autoridade ao mais novo. É algo um tanto confuso e sem nexo. Esta é a lógica da argumentação pós-moderna, que no final das contas é reduzida ao absurdo.

No entanto, esta obra por ser seminal, deve ser considerada por todos os cristãos que desejam conhecer melhor a Igreja Emergente e buscar entender a fundamentação pós-moderna que reside nela. A partir disto, podemos aprender pelo menos a não sermos relapsos com a cultura ao nosso redor, nos informando como pensa o homem hoje; podemos aprender a sermos mais honestos com os grupos antagonistas (coisa que Brian McLaren não foi) e a buscar entender a compreensão de um movimento a partir de uma leitura de primeira mão, sem suporte em resenhas alheias ou escritos de livros-textos de terceiros. Para mim foi de grande proveito a leitura desta obra e somente me convenceu mais ainda de que a Igreja Emergente carece de fundamentação bíblica à medida em que está inserida numa filosofia pós-moderna.

 

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[i] MCLAREN, Brian. D. A Generous Orthodoxy. Why I am a missioanl + evangelical + post/protestant + liberal/conservative + mystical/poetic + biblical + charismatic/contempaltive + fundamentalist/calvinist + anabaptist/anglican + methodist + catholic + green + incarnational + depressed-yet-hopeful + emergente + unfinished CHRISTIAN. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2004. De agora em diante as citações feitas à obra serão em forma de tradução livre para o português do original em inglês. As menções indiretas serão discriminas, indicando apenas o número da página.

 

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