Resenha 26: Banquete (Platão)

 

BANQUETE[i]

Autor: Platão

 

Coleção: A Obra-prima de cada autor.

Apologia de Sócrates/Banquete (20). São Paulo: Martin Claret, 1999, 176 pp.

Tradução: Jean Melville

Texto Introdutório: Paul Tannery

Categoria: Filosofia

 

O Banquete é uma obra muito bem escrita e dentre os diálogos de Platão é aquele que se destina a tratar sobre o amor. Novamente a personagem central é Sócrates, já celebrado no diálogo por sua notória inteligência mesmo no meio de pessoas como Aristófanes e Ágaton.

Um tema tão badalado e tão mal entendido quanto o “amor” é descortinado nesta obra, da perspectiva das relações amorosas entre os seres, bem como o deus regente desta virtude na mitologia grega chamado “Eros”.

A obra começa com  um encontro entre dois discípulos de Sócrates: Apolodoro e Glaucon. Glaucon deseja saber como fora o banquete em que Sócrates e outros participantes discursaram sobre “amor”. O banquete ocorrera muito tempo antes deste encontro; Apolodoro foi notificado deste evento por meio de Aristodemo, outro discípulo de Sócrates que participara do banquete, que ocorrera na casa de Ágaton (em comemoração a um prêmio literário ganho por ele).

Antes de iniciar a obra, a dicotomia matéria/espírito muito comum em Platão já é explicitada na fala de Aristodemo a Glaucon:

 Aliás, é para mim um inexcedível prazer falar ou ouvir falar de filosofia, o que creio ser de grande utilidade. Existem outras conversas, as vossas, as dos ricos e comerciantes, que me enchem de aborrecimento. Deploro a vossa cegueira e a de vossos amigos, que servis absolutamente para nada! Talvez neste momento estejas a dizer intimamente que sou infeliz. É possível que acredites estar com a verdade; eu, porém, não penso; sei com certeza que vós é que sois infelizes! (pp. 96,97)

 

Apolodoro é tido como doido por Glaucon, pelo desprezo ao material (p. 97), uma demonstração de que havia divergências interpretativas entre os discípulos de Sócrates quanto a esta relação. Esta dicotomia levada ao extremo poderia fazer o indivíduo fugir da realidade de suas práticas e deveres cotidianos, por outro lado o foco no outro espectro da dicotomia poderia levar o indivíduo a ter uma visão medíocre da espiritualidade e do sentido da vida. Todos nós, por mais que não percebamos, estamos entre os dois polos e nos cabe um diagnóstico preciso sobre nossa posição e a ciência necessária para viver a realidade da existência, tomando cuidado para não descambar para o materialismo ou cair em um idealismo extremado.

Iniciemos a trama. No caminho para o banquete Sócrates encontra Aristodemo e o convida para ir também. Ocorre que Sócrates para ao longo de sua jornada para meditar. Aristodemo vai na frente. Mandaram buscá-lo, mas Sócrates não atendeu. Aqui, o princípio a ser extraído é a necessidade de meditar quando exposto a uma situação que nos convida à reflexão. Muitas vezes, temos preciosos insights e grandes reflexões quando uma imagem se projeta diante de nós ou quando ouvimos algum discurso, frase, etc. Aquela meditação parece sublime e por confiarmos em nossa memória, findamos esquecendo, atarefados com nossos afazeres diários. Porém, quando tentamos resgatar aquele precioso pensamento somos surpreendidos com o fato de que eles não estão mais lá. Quando o pensamento aparecer registre-o em seus escritos, não se volte para seus afazeres enquanto não tiver certeza que apreendeu aquele momento com a linguagem adequada devidamente registrada em uma fonte acessível em ocasiões futuras. Eis o que as múltiplas reflexões de Sócrates podem nos ensinar.

Uma fala de Sócrates pode causar confusão sobre sua suposta identidade bissexual: “deve-se ir bem vestido à casa de um belo rapaz” (p. 98). Porém, a leitura atenta da obra nos mostrará que Sócrates apenas se adequa aos costumes de sua época sem, no entanto, deixar-se levar pela prática da pederastia. (Será?).

Entretanto, Roger Scruton parece perceber a presença da homoafetividade na pessoa de Sócrates (pelo menos em pulsão). Observe o que nos diz Scruton:

Segundo Platão, em sua forma comum o desejo sexual envolve o desejo de possuir o que é mortal e transitório e, portanto, também a escravização do aspecto inferior da alma, aquele que está imerso na imediação sensorial e nas coisas deste mundo. O amor à beleza é na verdade um sinal que nos instiga a deixar para trás esse apego sensitivo e a iniciar a ascensão da alma rumo ao mundo das ideias (…) É esse o verdadeiro amor erótico, o qual se manifesta no casto apego entre homem e menino – apego em que o homem assume o papel de professor, supera seus sentimentos voluptuosos e encara a beleza do garoto como objeto de contemplação, isto é, como um exemplo, no aqui e no agora, da ideia eterna do belo.[ii]

 

Parece-se assumir que o desejo sexual por pessoas do mesmo sexo era uma constante no meio da cultura grega (e talvez o próprio Sócrates tivesse esta pulsão primária pelo sexo oposto), mas que deveria ser suplantada pelo verdadeiro amor entre professor e aluno que ao invés de se entregarem a paixões pueris passam a contemplar o belo que está para além da bela fisionomia e do amor erótico entre pessoas do mesmo sexo. Ou seja, a homossexuliadade incipiente deveria ser sufocada pela verdadeira amizade entre aluno e professor (pode-se depreender que seria natural no campo meramente físico a atração entre dois homens, mas que no campo natural ela deveria ser deixada de lado, mesmo que o desejo carnal o convidasse a consumar a prática da homossexualidade – processo similar à luta de um homossexual que se converte à fé cristã, mas que vive em eterna tensão com seus desejos sexuais. Só que no caso da cultura grega, todos (pelo menos a maioria) tinham esta atração incipiente por jovens do mesmo sexo. Sobre isto, Scruton arremata dizendo sobre a visão platônica expressa nas palavras de Sócrates:

Como um mesmo estado de espírito poderia ser tanto amor sexual por um menino quanto (após uma dose de autodisciplina) a contemplação deleitosa de uma ideia abstrata? Isso é o mesmo que afirmar que a vontade de comer um bife poderia ser satisfeita (após um pouco de aplicação mental) pela foto de uma vaca.[iii]

 

Faço uso destas palavras de Scruton para elucidar melhor O Banquete. É uma obra que versa sobre estética e sexualidade, tomando como chave interpretativa para as diversas correntes já presentes na época a teodiceia erótica. Como o desejo e o verdadeiro amor surgiu e qual é sua essência. É visando responder esta pergunta que Platão escreveu esta obra no formato de discursos.

Voltando à trama, Erixímaco propõe que os participantes não se entregassem ao vinho, para que todos, cada um em sua vez, entoassem louvores a Eros. Todos concordaram: Aristófanes, Sócrates, Pausânias, Fedro, o próprio Erixímaco, Aristidemo, Ágaton (o anfitrião). Depois chegaria Alcibíades, o suprassumo da homoafetividade descrita na trama.

 

Fedro proferiu o primeiro discurso, assumindo que Eros (movimento) era um deus muito antigo, sem menção de progenitores, tendo seu nascimento junto com a Geia (terra), logo após o Caos. Por ser antigo possuía virtudes. Virtudes comunicáveis aos seres humanos: a virtude de amar. No exemplo descrito, o amor tem como objeto um jovem mancebo: “não sei de bem maior que se pode proporcionar a um mancebo do que amá-lo virtuosamente, nem para um amante do que amar um objeto virtuoso.” (p. 103). O amor está ligado com a ética – ações boas (e aqui ele tenta fazer uma ligação de bom com o anfitrião – Agaton, que significa “bom” em grego). As coisas boas e o amor levam à prática do bem e do belo. Se soubessem o poder do amor, os homens fariam um exército de amantes (dá pra lembrar o Exército dos tebanos, cuja frente estava Pelópidas e Epaminondas em 371 a.C.), pois isto os tornaria mais compromissados entre si durante as batalhas.

A homoafetividade explícita de Fedro é vislumbrada no seguinte excerto de seu discurso: “ninguém é tão covarde que sucumba ao medo, fuja e não auxilie o seu amado, abandonando-o nos perigos! Eros inspira coragem a seus adeptos e os torna semelhantes aos que por natureza são bravíssimos.” (p. 104). A Coragem é insuflada por Eros nos amantes. De maneira que os deuses honrarão aqueles que tiveram coragem de morrer por seus amantes (ex.: Aquiles e Pátroclos).

A suma do discurso de Fedro é: o amor deve ser cultuado porque torna os homens mais virtuosos e felizes durante a vida após a morte. Tal amor leva o homem a se entregar pelo amado. Aqui o amado faz menção a um mancebo. Existem valores eternos em questão que precisam ser expressos numa plataforma hodierna de base homoafetiva.

 

Pausânias foi  o segundo a discursar. Ele começou contrariando Fedro (estratégia discursiva para levar vantagem em relação aos adversários, numa tentativa de desmerecer as considerações previas) ao afirmar que existem vários Eros. Ele modifica a mitologia para reforçar seu argumento. Eros é filho de Afrodite e os dois são inseparáveis (p. 107). Existem duas Afrodites, logo existem dois Eros. Existe a Afrodite filha de Urano e a Afrodite filha de Zeus. Existe um Eros vulgar (filho de Zeus) e um Eros celeste (filho de Urano).

A Afrodite popular apresenta um amor inferior. Aqueles que apresentam este amor “amam antes de tudo as mulheres e também os mancebos” (p. 108). Trata-se de um amor de concupiscência, baixo, que participa tanto do masculino quanto do feminino, porque a Afrodite de Zeus tinha pai e mãe.

O Eros superior (celestial), onde Afrodite é filha só de um homem, corresponde ao amor dos mancebos (um amor superior, sem concupiscência). Nitidamente, observa-se um desprezo às mulheres. E observa-se a “superioridade” deste Eros descrita nas palavras de Pausânias como um amor destinado aos adolescentes que começam a ter barba (e pelo no sovaco). Era um amor genuíno e não um amor de interesse e passageiro, como o devotado às crianças. Na Jônia, o amor pelos moços era tido como algo vergonhoso. Tiranos não gostam do amor entre homens, por isso os proíbem. Mas foram dois amantes que depuseram uma tirania (Aristogíton e Harmódio).

Percebe-se claramente um reflexo do discurso de Pausânias nos promotores e ativistas LGBT, os quais consideram qualquer cultura que exalte a heterossexualidade como tirana e opressora e tomam como modelo de cultura aquela voltada para a prática da homossexualidade. O ódio à cultura judaico-cristã do deputado Jean Wyllys de Matos Santos em seu ativismo pró-homoafetivo em detrimento da cultura opressora da heterossexualidade é um reflexo do discurso de Pausânias.

Mas Pausânias não tem um discurso baixo, vil e imediatista como a maioria dos militantes pró-LGBT que fazem pouco caso dos símbolos cristãos e entregam-se a prazeres vis, utilizando os objetos sagrados da religião que os “reprime”. Não! Em Pausânias há uma repreensão quanto à fugacidade do amor baixo entre os amantes homoafetivos:

É o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure. A flor do corpo que ama vem um dia a murchar – e então ele ‘se retira ligeiro como as asas’ esquecendo-se das declarações e muitas juras que fez. (p. 111)

 

A Teogonia de Pausânias traz uma explicação mais complexa e desenvolvida que a de Fedro, mostrando um Eros vil e rasteiro (a ser evitado) e um Eros bom e celestial (a ser buscado). Os amantes devem cultivar as virtudes celestiais e procurar desenvolvê-las num misto de cumplicidade, fidelidade e cultivo do virtuoso, fugindo do amor por interesse financeiro ou meramente corporal. Não é um mero entregar-se pelo objeto da paixão, mas uma busca pelo virtuoso e moral. Se o amante atual não satisfaz esta condição pode ser deixado até que seja encontrado o amante virtuoso pelo qual se possa viver e morrer.

Pausânias termina o seu discurso. Era a vez de Aristófanes (que estava com soluços), mas ele a cede para Erixímaco (médico).

Então, o terceiro a discursar é Erixímaco, o qual elogiou o começo do discurso de Pausânias, mas reconhece que não foi bem desenvolvido. (Perceba que cada discurso vai melhorando e complementando os anteriores). Concorda com os dois Eros, os quais são representados por duas forças atuantes no ser do homem, mas não somente no homem, mas também na Medicina (p. 114).

Assim, segundo Erixímaco, existe um Eros que reina sobre o que é são e outro sobre o que é doente. A prática da boa Medicina consiste em privilegiar o que há de bom no corpo (o Eros bom). Uma definição mais ampla de Medicina feita por ele é a seguinte: “a medicina (…) é a ciência do amor nos corpos relativamente à sua repleção e evacuação, e aquele que nesses movimentos consegue estremar o bom do mau amor, esse é um bom médico” (p. 115).

O médico estabelece amor nas amizades entre os opostos do corpo: quente e frio; amargo e doce, seco e molhado. Aponta Asclépio como o pai da Medicina, segundo era cantado pelos poetas (Agathon e Aristófanes são poetas, e esta referência a eles visa mostrar a superioridade da Medicina em relação à poesia).

Ao mostrar o verdadeiro equilíbrio entre os opostos do corpo como ideal da Medicina, ele passa a mostrar que isto está presente em todas as áreas do conhecimento, como por exemplo a música.  A música é a ciência do amor quanto à harmonia e ao ritmo. Erixímaco não vê um mau inerente ao Eros vulgar. Apenas nos excessos. Para ele, a verdadeira expressão do Eros é o meio-termo. Neste sentido, temos o Eros anárquico e o Eros regular. Devemos mover-nos pelo regular. Apesar de salientar o entrelaçamento dos dois e a sua necessidade, paradoxalmente, Erixímaco pende para a mesma conclusão de Pausânias, ao salientar a proeminência do Eros regular. Todo o relativista possui um ponto de apoio absolutista para firmar o seu relativismo! (Ecos de uma ideologia de gênero que trata a determinação da sexualidade como uma construção social para combater a prática heterossexual, mas que para se defender utiliza-se de um determinismo sexual, que designa a sexualidade na genética). Erixímaco ao passo que tenta evitar a demonização do Eros anárquico, ao definir pecado finda demonizando-o, entrando em contradição:

 pois realmente todos os nossos pecados não são outra coisa senão a nossa recusa em ceder às inspirações do Eros bem ordenado, de honrá-lo, de reverenciá-lo em todos os nossos atos, pois prestamos culto ao outro Eros, o desregrado em nossas relações tanto com os nossos vivos, como com os mortos e até com os próprios deuses. (p. 118)

 

Passa a palavra a Aristófanes que estava soluçando e este mostra os meios feios que o corpo usa para corrigir o soluço (através dos espirros), numa tentativa de mostrar a anarquia do Eros como elemento resolutivo de um mal. Uma incontestável refutação da explicação de Erixímaco, que fica extremamente chateado com esta intervenção primária de Aristófanes.

Assim, Aristófanes incia o quarto discurso. Pra ele, Eros é um deus desprezado injustamente (p. 119), posto ser dentre os deuses o melhor amigo do homem. Com este preâmbulo em mente, ele passa a explicar uma teoria que certamente encontra ecos na ideia do determinismo genético da sexualidade humana, pela qual cada pessoa já nasce com seu gênero sexual determinado pela genética.

Segundo Aristófanes, antes havia três sexos humanos e não dois: masculino, feminino e o andrógino (amálgama). Cada ser humano tinha dois corpos e dois genitais (o masculino era constituído por dois homens; o feminino, por duas mulheres; e o andrógino por um homem e uma mulher). Revoltaram-se contra os deuses e por isso foram separados em sua essência. Uma parte deu origem a um ser e a outra parte a outro ser. Quando foram separados entre si, procuravam desesperadamente a sua outra parte. Assim, Aristófanes define o sexo como o desejo de se unirem novamente. Se a espécie primitiva era constituída de dois homens, então estes seres têm a senha para procurar sua outra metade em homem (são os homossexuais masculinos); se a espécie primitiva era feminina, então estes seres divididos têm a senha para procurar sua outra metade em mulheres (são os homossexuais femininos, chamadas na obra de hetairístria ou tríbade); se, porventura, a criatura primitiva era um andrógino (constituída pelo feminino e o masculino), então, estes seres procuram sua outra metade no sexo oposto (heterossexuais, procriadores).

Os homens são loucos por mulheres e a esta espécie pertencem os adúlteros (p. 122). Observe o preconceito de Aristófanes com a heterossexualidade! Pessoas adúlteras, que vivem de casamento em casamento, fazendo filhos com várias mulheres e gerando desordem social são heterossexuais desordenados.

Os homossexuais masculinos, por sua vez, são provenientes do antigo gênero masculino – só se deleitam e deitam com homens. Porém, não fazem isto por sem-vergonhice como pretendem alguns, mas por natureza. Servem bem o Estado, mas gostam é de homens e só se casam por conveniência social. Veja a defesa muito bem arquitetada, apesar de ser baseada num mito criado por ele mesmo para dar vazão à sua homossexualidade, explicando a variedade de gêneros, tratando o casamento como conveniência social para manter as aparências e apresentando a homossexualidade como o  suprassumo da experiência humana em termos de amor.

A frase “eu nasci gay” não é uma construção recente. Baseia-se na teoria do determinismo sexual a qual já se encontra muito bem desenvolvida e apresentada no discurso de Aristófanes, claro que com outras palavras: “Um homem desta espécie, portanto, terá sempre de ser pederasta, e sempre enamorado da parte que lhe corresponde.” (p. 123). “e a razão disto é que assim era nossa antiga natureza, pelo fato de havermos formado anteriormente um todo único. E o amor é o desejo e a ânsia dessa completação, dessa unidade.” (p. 124).

Assim, para Aristófanes, o desejo dos homens é de ser fundido no amado e ser feito um com ele; para ele isto  não advém de uma relação a posteriori no casamento (como diz em Gênesis 2); mas de uma relação a priori da natureza dúplice do ser humano. Desta maneira, os homens deveriam seguir Eros e os deuses, em suas inclinações sexuais, para não serem castigados (perceba a completa deturpação da sexualidade humana, tornando o anti-natural em natural e o natural em anti-natural).

Um detalhe curioso no discurso de Aristófanes, deixa aberto explicitamente que PAUSÂNIAS e AGATHON eram masculinos (gays). Mas afirma que o seu discurso não visa atingi-los (apesar das evidências apontarem o contrário), mas que falava de maneira genérica sobre o gênero humano

A súmula do discurso de Aristófanes é: “Se formos piedosos para com os nossos deuses, Eros nos conduzirá ao antigo estado natural, nos há de curar e nos assegurará perfeita felicidade.” (p. 125). E ser piedoso aqui trata-se de dar livre vazão aos desejos sexuais do indivíduo. A revolução sexual já encontra prenúncios nas palavras de Aristófanes.

Após terminar Sócrates faz um breve comentário pelo que é interrompido por Fedro, que de maneira enraivecida parece apontar para uma suposta homossexualidade de Sócrates:  “Pois nada lhe agrada tanto como ter com quem dialogar, e sobretudo se o outro é um belo mancebo.” (p. 126).

 

Então, a palavra é cedida a Ágaton, o anfitrião, que profere o quinto discurso. Para ganhar vantagem entre seus antecessores afirma que nenhum deles chegou a elogiar Eros, mas apenas falou da felicidade proporcionada por ele; não falaram do autor, mas das dádivas (enalteceram mais as bênçãos de Eros que o Eros das bênçãos).

Para Ágaton, Eros é o melhor, o mais feliz e o mais belo dos deuses (p.127). Em antítese a Fedro, afirma que seus atributos decorrem do fato de ser o mais jovem dos deuses, em uma verdadeira fuga da velhice e do antigo. Ágaton desmerece a tradição de Hesíodo e aponta para a tradição Homérica. Atribui a Eros todas as boas virotes (é o mais sábio, o mais prudente, o mais belo, etc.). Ensinou estas boas virtudes aos outros deuses. Passa a descrever Eros como um poeta (uma sutileza para enaltecer sua arte), um verdadeiro pai da arte criativa e da sabedoria. Por possui estes atributos é que pode expressá-los em sua criação até porque é “impossível a qualquer pessoa doar aquilo que não tem nem ensinar aquilo que não sabe.” (p. 130).

Para demonstrar as qualidades poéticas de Ágaton (na verdade de Platão), observe como ele termina seu discurso descrevendo esplendorosamente a pessoa de Eros:

Onde ele está há doçura, desaparece a rudeza. É pródigo de bondade e avaro de ódio. Propício aos bons, admirado pelos sábios, agradável aos deuses. Objeto do desejo dos que ainda não o possuem; tesouro precioso para aqueles que o possuem; a ele cabe a paternidade das riquezas, das delícias, dos doces encantos e dos ternos desejos, das paixões. Vigia os bons e esquece os maus. Nos nossos trabalhos, nos nossos temores, nas nossas tristezas é ele o nosso conselheiro e nosso salvador. É a glória dos deuses e dos homens, o nosso mais belo e melhor guia. Todo o mortal deve segui-lo e entoar em sua honra os hinos que dirige aos deuses e aos homens. (p. 131)

 

Ágaton foi aplaudido por todos pelo seu belo discurso.

Porém, fora muito genérico e esquivou-se de falar do objeto do amor. Por tal motivo, Sócrates passa a inquirir Agaton. Pergunta se Eros deseja o objeto de seu amor e Agaton diz que sim. Sócrates afirma que só se ama aquilo que se falta em si, mas como Eros é amor à beleza e não à fealdade, logo Eros não possui beleza. A partir de seu método maiêtico Sócates apresenta a contradição no discurso de Ágaton – uma verdadeira desconstrução do edifício meramente esteticista). Assim, o Eros de Ágaton não é belo. Veja que belas palavras não imprimem verdade ao discurso. Em seguida, Sócrates aponta que um deus sem beleza não possui bondade, pois: “Ora, se a Eros falta beleza, e se o que é belo também é bom, segue-se que a Eros também falta bondade.” (p. 136)

Tomando como base o que já fora falado e as contradições do discurso de Ágaton, Sócrates passa a tratar de um diálogo que teve com Diotima (uma mulher, que segundo o revisor é uma criação do próprio Sócrates para ensinar modéstia aos seus colegas), iniciando o sexto discurso do qual se depreende as seguintes ideias que ele aprendeu com a sábia Diotima (imbatível em debates, esta aplicou o método maiêutico no próprio Sócrates):

  • Alguém pode estar certo sem ser tolo ou sábio (meio-termo);
  • Eros por não ser bom e não ser belo não possui a qualidade dos deuses. Logo não é Deus;
  • Mas não é deus nem mortal, é um meio-termo entre um deus e um mortal. É um gênio (um mediador entre deus e ser mortal). Por ser um mediador é graças à ele que existe a profecia e os sacrifícios sacerdotais. Eros é um dos gênios (não queira ver aqui prenúncios de Cristo, pois Cristo é divino-humano, também é bom e belo).

 

Com estes pressupostos determinados, Sócrates passa a apresentar sua própria versão da Cosmogonia erótica (o nascimento de Eros). No nascimento de Afrodite (de Zeus) foi dado um banquete. Compareceram Poros, Prudência e chegou-se Penia (pobreza). Penia deitou-se perto de Poros e dele teve Eros. Eros tornou-se servidor de Afrodite, pois foi concebido no dia de seu nascimento. Eros é pobre e feio, um grande feiticeiro, mago e sofista. Por ser poroso, o objeto de sua busca logo passa. Então não fica por muito tempo na opulência e nem na miséria.

Uma vez ciente dos atributos de Eros (o que destoa totalmente de Ágaton), é-nos apresentada a premissa de que “nem sábios nem tolos filosofam”.

Quem são os que filosofam, então? Quem está entre um e outro e destes fazem parte Eros.

Quem ama o belo e o bom (que não possui) deseja felicidade.

Certamente vamos encontrar ecos desta porção do diálogo entre Sócrates e Diotima em Agostinho, no que tange ao desejo pela felicidade:

 

“Diotima: – Mas, essa vontade e esse amor, não crês que sejam comuns a todos os homens? Não te parece que todos desejam possuir o que é bom? Qual é a tua opinião a esse respeito? (p. 142)

Sócrates – De fato, creio também que é sentimento comum a todos os homens.”

“e não só possuir, mas possuir sempre” (p. 143).

 

Sócrates parece criar termos e lendas somente para refutar seus colegas que o antecederam. Ninguém ama a sua metade, nem o que é seu, mas ama-se aquilo que é bom. Com isto em mente, Sócrates chega à definição de amor que consiste em “desejo de possuir sempre o que é bom”. Mas para alcançar esse amor os homens devem criar beleza, segundo o corpo e segundo o espírito. É por isso, então, que os homens possuem o desejo de procriação no que é belo. Como o amor também é desejo de imortalidade, esta também é buscada por meio da procriação.

Só que este indivíduo que tanto busca a imortalidade está sempre se modificando tanto no corpo quanto no espírito. Assim, as pessoas fazem grandes feitos por causa do desejo de imprimir mortalidade às suas memórias (Aquiles, Admeto). Uma vez que seu ser morrerá, elas continuam vivas nas memórias de seus grandes atos.

Ocorre que a alma é mais fecunda que o corpo, por isso as práticas da alma devem ser priorizadas às do corpo. Levando-se em conta que a beleza é a mesma nos diversos corpos e de que não existem diversas belezas, apenas uma beleza repartida entre os corpos, de degrau a degrau, o homem chegará ao conhecimento da beleza em Si. Uma vez encontrada esta beleza, tal homem nunca mais desejará dinheiro, mulher, ou outras coisas materiais.

Ao término do seu discurso, Sócrates foi grandemente aplaudido.

Neste momento, chega Alcibíades, embriagado, para homenagear Ágaton e isto causa um riso geral entre os presentes. Ágaton o convida para reclinar-se com eles e Alcibíades se posiciona entre Ágaton e Sócrates. Ao tomar ciência de que Sócrates lá está, fica surpreso. Sócrates deixa claro que sua atitude de espanto era uma clara demonstração de ciúmes, uma vez que Sócrates (querido por Alcibíades) estava ao lado do jovem anfitrião Ágaton. Esta parte do texto parece apontar para a homoafetividade de Sócrates.

Erixímaco propôs que Alcibíades falasse sobre o amor, mas Alcibíades resolve fazer um elogio a Sócrates (visando atacá-los por meio de um elogio fingido).

Alcibíades compara Sócrates aos silenos, com feia aparência eterna, mas quando aberto, cheio de ricos tesouros. Aponta para a capacidade de musicista e de orador que Sócrates possuía, ao ponto de hipnotizar todos com o seu discurso.

Na “Apologia de Sócrates” vimos muitos paralelos entre Sócrates e Jesus. Aqui, temos outro, encontrado na frase dos soldados, referindo-se a Jesus, “ninguém nunca falou como este homem”. Alcibíades, ao referir-se a Sócrates, diz:

 Quando se ouve um discurso, mesmo de um grande orador, ninguém presta muita atenção; mas quando ouvimos a tua voz, ou se ouve a recitação de um discurso teu, feita por outro – mesmo que este seja fraco em retórica -, todos, homens, mulheres, jovens, ficam absorvidos e entusiasmados. (p. 155)

 

Os efeitos dos discursos voltados para a virtude foram muito intensos na vida de Alcibíades. Era político e não se dedicava tanto à Filosofia e  por isso começou a criticar Sócrates. Mas o motivo da crítica é a tentativa de fuga de sua vergonha em não cumprir sua palavra, pois havia prometido a Sócrates que nunca mais se envolveria com política, mas não o conseguiu (p. 156).

Aqui temos uma possível visão de Alcibíades, pela qual Sócrates já tinha suplantado seus desejos por mancebos e agora se deliciava apenas com os desejos superiores da Filosofia. Por mais que insistisse em seus galanteios para alcançar o amor de Sócrates, Alcibíades.

Alcibíades relata quantas investidas intentou contra Sócrates: convidou-o para a ginástica e Sócrates não quis nada; certa vez, ficou a sós com Sócrates, mas este negou o amor erótico a Alcibíades. Alcibíades ofereceu dinheiro a Sócrates, mas este novamente recusou. O máximo que Alcibíades conseguiu foi dormir abraçado com Sócrates. É a fala de um apaixonado, tomado pelos excessos discutidos anteriormente e que simbolicamente aponta para o desprezo de Sócrates às paixões baixas.

O livro fala da busca pelo virtuoso, tentando mostrar que o amor é esta busca pela felicidade, que reside na contemplação de coisas superiores, mesmo que primeiramente vislumbrado a partir de uma plataforma homoafetiva; porém, verdadeiramente vislumbrado no que transcende o amor de um ancião por um mancebo.

Este aspecto da elevação das virtudes, da busca pelas coisas superiores, pelo equilíbrio e fuga dos excessos é notável na obra, mas o uso de uma plataforma homoafetiva apenas mostra a deturpação da cultura grega, berço e nascedouro das múltiplas ideias que fomentam o movimento LGBT e as diversas revoluções sexuais existentes em nossa sociedade atual. Tais princípios seriam perfeitamente aplicáveis no casamento heterossexual (aliás, o único tipo de casamento) como figuras das verdades eternas a serem desfrutadas pela igreja no convívio com o seu eterno deleite: o Senhor Jesus Cristo.

A descrição de Eros, como um Deus que busca estas virtudes faltantes em si, mais uma vez apontam para a criação de um deus a imagem dos homens e não de um Deus completo em si, belo, bom, verdadeiro, autossuficiente, nada-faltante! Que as riquezas literárias, culturais, históricas e mitológicas nos façam perceber que a Filosofia Grega com todas as suas contribuições, sem a revelação proveniente das Escrituras não conseguiu ver o que Paulo viu em Romanos 1 nem o que os judeus viram no Pentateuco: a negação de qualquer plataforma homossexual como tipificadora do amor, o antítipo destas relações primárias. Não. O modelo bíblico é o de Gênesis 2, por meio do qual o amor, o deleite e a completude entre o homem e a mulher apontam para uma satisfação e uma felicidade que transcende a realidade do casamento: a salvação em Cristo Jesus, aquele que é Amor!

 

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[i] Para detalhes introdutórios sobre os diálogos de Sócrates, consulte minha resenha da obra Apologia de Sócrates, disponível em: https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2017/02/15/resenha-07-apologia-de-socrates-platao/

[ii] SCRUTON, Roger. Beleza. São Paulo: É Realizações, 2013, p. 50.

[iii] SCRUTON, Roger, Op. cit., p. 51.

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