Reflexões autobiográficas (IV): Minha mãe

Antônia

 

Minha mãe, em muitos sentidos, é uma das pessoas que mais exerceu, exerce e exercerá influência sobre a minha vida. Até hoje, suas percepções, conselhos e telefonemas me trazem intensa alegria e deixam-me bastante pensativo sobre a relação entre pais e filhos até mesmo após o casamento destes.

Minha mãe, Antônia Camurça Furtado, nasceu em 15 de junho de 1965, no interior do município de Pauini, numa família numerosa e humilde, mas cheia de amor, cumplicidade e determinação. Desde cedo, o Senhor Deus, em sua providência, livrou-a de morrer afogada, quando tinha menos de 2 anos. A casa dos meus avós ficava nas proximidades das barrancas do rio Purus. Num momento em que ninguém percebia, minha mãe desceu o girau da casa e dirigiu-se ao barranco. Desceu até próximo das águas e depois tornou a subir (conforme relato de um conhecido de minha avó que viu a minha nas margens da água). Minha avó correu e encontrou a criança já subindo novamente. Com este espírito aventureiro, debaixo da proteção divina, minha mãe “se criou”.

Na infância, aprendeu a pescar, a plantar, a trabalhar em farinhadas, cuidar dos afazeres domésticos e dos irmãos mais novos. A influência de meu avô Benigno Pinto Camurça e Maria Alves Camurça foram muito importantes para moldar o caráter de minha mãe: uma mulher trabalhadeira, amorosa, estudiosa, cuidadosa com as crianças e obediente. Meu avô lhe ensinou a cartilha do ABC e as operações matemáticas logo cedo. Outra pessoa importante na vida de minha mãe e de todos os integrantes da família Camurça foi o seu avô materno, Eliutério. Mesmo cego e já idoso, meu bisavô sempre teve muita afinidade com os netos e lhes transmitiu ricos ensinamentos sobre moral e religiosidade. Minha mãe sempre foi muito respeitosa para com ele.

Logo a família mudou-se para Boca do Acre e minha mãe teve seu primeiro contato com a vida acadêmica. Foram morar no bairro da Praia do Gado e lá estabeleceu amizades, teve grandes aprendizados práticos e desde cedo aprendeu a lidar com as oportunidades que a vida lhe proporcionou, mesmo em meio às parcas condições de sua família. Como tivesse muitos filhos, meu avô Benigno distribuiu rigorosamente o material escolar de cada um deles: não havia muito mais que um caderno, uma caneta e outros poucos materiais escolares para cada filho. Minha mãe aproveitou a oportunidade e completou o ensino primário. Como quisesse estudar mais, teve a oportunidade de fazê-lo enquanto trabalhou cuidando de Adriano, filho de dona Irene, uma antiga educadora de nossa cidade, conhecida por seu rigor, disciplina e cobranças excessivas. O militarismo que imperava no Brasil tinha traços de sua influência sobre os cidadãos em figuras como a dona Irene. A vívida busca pelo aprendizado e o fantástico mundo da educação aos poucos foram experimentados por minha mãe.

No final da década de 70, conheceu o senhor Francisco Alves Furtado, que trabalhava em uma loja próxima à casa de dona Irene. A amizade e a cortesia inicial logo se transformaram num vívido namoro, que germinou e gerou uma forte árvore de um relacionamento duradouro intitulado casamento.

Ao casar com meu pai, inicialmente foram morar na casa de meus avós paternos, e minha mãe logo ficou grávida de mim. Em nenhum momento a desesperança abateu o coração daquela bela jovem de 15 anos, mediante as dificuldades.

Em 15 de julho de 1981, finalmente minha mãe teve a doce experiência de segurar seu próprio filho em suas mãos e, em poucos dias, teve a triste sensação de quase perder o seu filho, acometido por doença respiratória. Aguerrida e cheia de vigor entregou-se a uma intensa missão de mãe, esposa dedicada, enquanto continuava sua vida de estudos e de trabalho.

Pouco tempo depois, meu pai construiu sua casa, aos fundos do quintal de meu avô, e tivemos a experiência de viver em nossa própria casa, que ficava localizada na rua Tamoatá, em homenagem a peixes típicos de nossa região.

A alegria e a esperança de ver seu filho crescer e vencer a doença respiratória tornou minha mãe ainda mais jovial e precocemente sábia e invejável em seu proceder. É certo que minha mãe não é perfeita, mas não me recordo de vê-la triste (exceto pelas tristezas que eu lhe causei); sempre esboçava um sorriso espontâneo enquanto brincava comigo e me levava pra passear e mantinha-se firme mesmo quando o passeio era de casa para uma internação hospitalar com o filho adoecido. Ah! Como eu admiro minha mãe e como sou grato a Deus por ela!

Depois, engravidou de meu irmão Fábio e, nem por isso deixou de estudar e trabalhar. Sua vida de casada ia muito bem. Meu pai fora contratado para trabalhar no Banco do Estado do Amazonas, enquanto ela se dedicava ao lar, ao trabalho e aos estudos. Minha mãe começou seus trabalhos na Educação como faxineira e fazia o seu serviço com zelo e amor.

Enquanto crescíamos, eu e meu irmão, lembro-me de suas palavras sábias de aconselhamento a nós dois e de sua dedicação em nos alfabetizar. Livros não faltavam em nosso lar e o desfrute de amizades saudáveis com vizinhos, primos e outros colegas nos tornaram mais sociáveis.

Neste momento da narrativa é importante dizer que minha mãe sempre fora muito religiosa. Arraigada em um lar católico, conhecia as rezas, os encômios e celebrações. Tomada de intenso vigor, pedia a bênção dos pais e ensinou esta prática entre os filhos, rezava às 18 horas e participava das missas, batizados e festejos católicos. Eu mesmo fui batizado e lembro-me de uma fotografia na qual eu estava sorridente e minha mãe radiante. Meus padrinhos foram o senhor Luís e sua esposa, dona “Bibita”. Aquela relação de amizade e senso de responsabilidade para com as crianças levou minha mãe e meu pai a também atuarem como padrinhos de muitas crianças. Estávamos crescendo, eu e meu irmão, e minha mãe nem imaginava a reviravolta religiosa que sua vida tomaria.

Como morávamos nas proximidades da Igreja Batista, que meu pai ajudou a construir como auxiliar nos serviços, minha mãe sempre era convidada por Antônia, a esposa do pastor Pedro Morais, a participar das atividades da Igreja Batista. Estes convites se intensificaram na época em que minha mãe passou a trabalhar na Escola Mary Harvey, como professora auxiliar de alfabetização. Aos poucos, minha mãe não só passou a frequentar alguns dos cultos, como deixava eu ir para as Escolas Dominicais e outras atividades infantis da Igreja Batista. Naquele tempo, o progresso acadêmico de minha mãe que estava cursando Magistério e exercendo atividades acadêmicas em estágio como professora. Foi evangelizada por meio do contato com as Escrituras e, de tabela, eu ainda sem conhecer as Escrituras contava-lhe as lições que aprendia na igreja. Minha mãe aos poucos começava a abrir o coração para o Evangelho.

Ela sempre diz que fui eu quem a evangelizei, mas foi exatamente o contrário. Deus me usou ainda não cristão para contar-lhe histórias da Bíblia e incentivá-la a participar das atividades da igreja. Aos poucos, minha mãe começou a participar dos cultos e a ler as Escrituras Sagradas. Vi minha mãe convertida, levando-nos a mim e o meu irmão para os cultos e instruindo-nos no Caminho Eterno. Cantava, recitava versículos e nos dedicava o tempo que fosse preciso para ensinar sobre Jesus Cristo. Eu fui evangelizado por minha mãe e senti a doce influência de sua piedade, assim como Agostinho sentiu a de Mônica.

Minha mãe desejava ter uma filha, orou ao Senhor e então engravidou pela terceira vez. A história de Ana foi como um bálsamo em sua vida. Confiante estava que seria mãe de uma menina. De maneira, que nasceu a menina e foi chamada de Ana. Eu complementei seu nome com Flávia. Chamou-se, por fim, Ana Flávia.

Educou-nos com muito esmero e logo passou a atuar como professora. Lembro-me que ela foi professora na Escola Estadual Barão de Boca do Acre e recordo-me de sua alegria em ir para a escola, dar aulas de reforço para meus primos e outras crianças, bem como ajudar seus alunos mais carentes.

Matriculou-nos nas melhores escolas da cidade e nos deu suporte à tarde, cobrando-nos a lição e nos disciplinando com a vara quando era preciso. A vida familiar era muito boa. Minha mãe e meu pai não mediam esforços em nos alimentar, nos vestir e nos dar o melhor ensino que estivesse ao alcance deles.

Ela continuou progredindo nos estudos; fez o curso Normal Superior e realizou estudos em Psicopedagogia. Com estes avanços, teve a oportunidade de assumir a direção de uma escola e foi muito bem-sucedida. Enquanto isto, assumia atividades de ensino na igreja e sempre se mostrou muito atuante na Sociedade Auxiliadora Feminina local.

Quando meu pai foi demitido do BEA, minha mãe auxiliou meu pai de uma maneira tão cuidadosa, demonstrando o verdadeiro espírito de uma auxiliadora, consoladora e mulher. Os assuntos matrimoniais de meus pais nunca foram discutidos em nossa frente. Minha mãe nunca disse a nenhum de nós de suas dificuldades financeiras ou brigou com meu pai diante de nós. Proteção, sabedoria e educação era a tríade que caracterizava sua relação com os filhos. Amor, fidelidade e dedicação é a tríade que a caracterizava como esposa. Temor, alegria e devoção é a tríade que a caracteriza como filha de Deus.

Quando meus pais resolveram abrir uma Padaria, minha irmã foi homenageada e a Panificadora Ana Flávia prosperou em épocas de instabilidade. Suas inúmeras habilidades não poderiam ficar escondidas; excelente confeiteira, os bolos de minha mãe eram os mais procurados em aniversários e casamentos de nossa cidade. Corria o ano de 1996, eu tinha ido estudar o Ensino Médio em Rio Branco, mas minha mãe sempre soube se fazer muito presente em minha vida, por meio de suas orações incessantes, de seus telefonemas e de suas viagens para acompanhar o meu rendimento escolar.

Quando terminei o Ensino Médio e passei no Vestibular para Direito e também para Medicina, parecia que a soberba estava me assediando por todos os lados; então, minha mãe mesmo me elogiando alertou-me quanto aos perigos do orgulho e da vanglória. No momento, achei que suas palavras foram duras, mas hoje sei do valor dos conselhos de minha mãe.

Em meio à Faculdade de Medicina, eu me comunicava por meio de cartas e telefonemas com minha mãe. A saudade era muito grande e sempre que podia, visitava meus pais durante as férias, na amada cidade de Boca do Acre. Ela me apoiou juntamente com meu pai, nos momentos em que mais precisei. Em uma época de extrema crise espiritual, minha mãe me apoiou e deu-me novamente seu colo enquanto eu soluçava em lágrimas.

Porém, uma das cenas mais tristes que me recordo de minha mãe, relato aqui para demonstrar a continuidade da natureza pecaminosa na vida do crente e a presença perdoadora de uma mãe temente a Deus. Em um momento da faculdade, tive certas dificuldades acadêmicas e afetivas e tratei de extravasar toda a minha raiva, descontando em minha mãe. Vi suas lágrimas escorrendo pelo rosto, o olhar triste e a decepção notória. Abalei-me profundamente e chorei pedindo perdão (tal qual choro agora, enquanto escrevo este texto). Como uma mulher tão generosa, uma mãe que realizou imensos sacrifícios, poderia ouvir tamanhas palavras de afronta e raiva? Arrependido, pedi perdão, mas as lágrimas de minha mãe nunca me esquecerei.

Lágrimas de amor que entregaram minha vida nas mãos do Senhor. As orações de minha mãe têm me sustentado todos estes anos. Uma mãe de tantas lágrimas não poderia ver o filho cair em desespero e rebeldia e entregar-se ao desespero. Minha mãe orou, animou, ajudou, incentivou, repreendeu, chorou, sorriu e reacendeu em mim muitas esperanças que o pecado estava tentando apagar. Minha mãe me mostrou a suficiência de Cristo e Nele aqui estou!

Deus agraciou minha mãe com muitas bênçãos materiais, espirituais e familiares. Minha mãe foi coordenadora regional da Educação de nosso município por muitos anos e teve grandes honrarias ao longo de sua gestão. Minha mãe tem visto seus netos crescendo no temor do Senhor e vejo no seu amor e carinhos para com os netos a oportunidade de carregar de novo nos braços o filho que já cresceu, mas que é refletido nos netos, sua prole tão amada. Minha mãe evangelizou muitas crianças, muitos alunos, colegas e amigas e tem visto os frutos do Evangelho começarem a crescer.

Minha amada mãe, hoje já bem mais experiente, continua jovem na aparência, sábia no proceder e mais madura no Evangelho. Tenho nela um grande referencial de mulher, mãe, avó, professora, filha que honra seus pais, carismatismo, mas acima de tudo vejo na “dona Antônia” (como diz o meu irmão Fábio) a face de Cristo. Eu vejo Cristo na vida de minha mãe.

Estas breves palavras representam o coração sincero de um filho que tanto a ama e que deseja ver Cristo realizando nela a plena satisfação de um coração grato e contente com a obra de salvação efetuada em sua vida.

 

Poema a Antônia

 

Antônia, vigor resplendente;

Coragem que nos surpreende;

Amor que nunca se esvai

Graça da qual não recai

 

Cheia de afetos, recebe-os dobrados

Os seus honorários contabilizados

Recebe-os de Deus e também dos seus

A honra devida ao que foi realizado

 

Antônia é presente dos mais adornados

Adorno que cobre o precioso tesouro

De uma vida entregue nas mãos do Senhor

O Reino é seu prêmio, os céus seu tesouro.

 

Caminha, feliz, encantando a nós,

Sem apego ao terrenal valor,

Recebe o alento que alivia a dor

De Cristo, Seu Guia, o Seu Salvador!

 

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