A Escritura do Antigo Testamento é tão inspirada quanto a do Novo Testamento.

 A ESCRITURA DO ANTIGO TESTAMENTO É TÃO INSPIRADA QUANTO A DO NOVO TESTAMENTO

antigo e novo testamento

 

Muitos teólogos e estudiosos das Escrituras tem menosprezado as Escrituras do Antigo Testamento, afirmando que apenas aquilo que o Novo Testamento confirma a respeito do Antigo Testamento é o que realmente importa para nós. O conselho de tais estudiosos para nós é: “leia apenas o Novo Testamento; a igreja não precisa mais do Antigo Testamento”.

Entretanto, o que lemos a respeito do Antigo Testamento no próprio Novo Testamento não se parece em nada com o conselho dado por esta ênfase exclusivamente neo-testamentária:

 

Romanos 15:4 – “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.”

1 Coríntios 10:11 – “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado.”

Os dois versículos acima deixam claro que os escritos do Antigo Testamento servem de instrução, de ensino, de exemplo e de advertência para os cristãos também; o uso do Antigo Testamento não é limitado ao povo de Israel nem ao período anterior à era Cristã.

 

Entretanto, os advogados da exclusividade neo-testamentária como regra de fé e prática para a igreja afirmam que o Sermão do Monte deixa claro que as palavras de Jesus são mais inspiradas, são mais divinas que as palavras de Moisés. O contraste “ouviste que foi dito aos antigos” x “eu, porém, vos digo” parece favorecer a ideia de tais teólogos.

 

Mas, será que Jesus realmente desmereceu o Antigo Testamento? Será que Jesus colocou em descrédito as palavras de Moisés? Será que o próprio Deus falando não possui mais peso que um simples homem?

 

Vejamos, então!

 

1). O contraste é entre Jesus e a tradição rabínica. Jesus não está se colocando contra a Lei de Moisés. Em nenhum momento, nosso Senhor afirma que suas palavras estão contra as de Moisés. Ao final do sermão do Monte fica bem claro o contraste entre Jesus e os escribas – os proclamadores da tradição rabínica – cf. Mt. 7:28,29. As multidões perceberam nitidamente a diferença entre Jesus e os escribas, pela autoridade de Jesus que perpassa todo o sermão. Também é observado que Jesus retira o mérito da tradição rabínica e o coloca na aplicação correta do Antigo Testamento. Esta tradição é combatida com mais veemência em Mateus 15 e Marcos 7. Os acréscimos feitos à Lei de Moisés eram o foco de sua repreensão aos escribas e fariseus.

 

2). Jesus veio para cumprir a Lei e não para revogá-la. Se, no texto do Sermão da Montanha, Jesus estivesse se colocando acima da Lei, ele em si como a Lei Suprema e Perfeita, ao contrário da Lei de Moisés, então ele estaria se contradizendo, se o propósito de sua missão incluía “cumprir a Lei”. Se ele está se opondo à Lei de Moisés, então por que Ele viera para cumpri-la? Antes de afirmar que Jesus está revogando certos itens da lei aqui, ou colocando suas palavras como mais inspiradas que as da Lei, é preciso lidar com Mateus 5:17 e observar se este argumento não é auto refutatório.

 

3). Jesus esteve sujeito à comunicação direta do Pai. O Evangelho de João escancara as portas desta grande verdade. Conforme o esboço de John Frame, Jesus obedeceu à palavra do Pai (Jo 5:36; 8:42); tudo fez pela autoridade do Pai (Jo 10:18); falou do modo do Pai acerca daquilo que o Pai lhe deu para falar (8:28; 12:49; 15:15).[i]

 

            4). Jesus refere-se ao Antigo Testamento como “Lei” e “Profetas”. Quando cita o Antigo Testamento Jesus usa esta expressão que era a forma como os judeus se referiam ao Antigo Testamento no início do primeiro século (Mt 5:17,18; 7:12; 11:13; 12:5; 22:40; 23:23). Jesus em nenhum momento desmerece os escritos do Antigo Testamento. Pelo contrário, ele aponta para o fato de que ouvir Moisés (Lei) e os Profetas pode levar o homem ao arrependimento, livrando-o de ir para o inferno (Lc. 16:29-31). Veja que Jesus não desmerece o Antigo Testamento; pelo contrário valida-o como meio precioso de instrução.

 

Então, porque suas palavras no Sermão da Montanha parecem ir contra o Antigo Testamento? Como item inicial desta resposta, creio serem válidas as palavras de Frame:

 

(…) Jesus cita passagens do Antigo Testamento como palavras autoritativas de Deus. A autoridade do que chamamos de Antigo Testamento era comumente aceita entre os judeus dos dias de Jesus. E isso representa o que havia de comum entre Jesus e seus oponentes judeus. Porém, Jesus não se acomodou, simplesmente, à visão deles. Ele não hesitou em discordar das tradições judaicas quando considerou necessário. Mas nunca questionou o entendimento que os judeus tinham da autoridade da Escritura. Não há uma partícula de evidência de que ele tenha sustentado uma concepção pessoal da Escritura que diferisse da deles.[ii]

 

5). Jesus discorda da interpretação rabínica dos dez mandamentos e não dos dez mandamentos em si. Na página anterior, observamos uma explicação desta realidade. Ao usar a expressão “ouvistes que foi dito”, o senhor Jesus não diminui a autoridade do mandamento; o que Ele faz aqui é criticar a interpretação dos mestres judeus em suas análises superficiais e formalistas, as quais não podem observar a profundidade e a abrangência aplicativa do mandamento.

6). A crença nos escritos de Moisés é um pré-requisito para se crer em Jesus. Se o Senhor Jesus estivesse dizendo que os escritos de Moisés eram inferiores a suas palavras (no sentido de que eram divinas ou revelacionais), então porque ele autenticou os escritos de Moisés? Nós lemos em João 5:45-47:

 Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?

 

É fantástico como este texto demonstra o apreço que Jesus tinha pelo Antigo Testamento, na medida em que as Escrituras de Moisés tinham relação com o plano redentivo de Deus, que culminaria na pessoa dEle (do Senhor Jesus). De maneira, que Moisés (a Lei) é um meio de acusação junto ao Pai; a crença em Cristo implica na crença em Moisés, uma vez que Moisés apontou para a vinda de Cristo. Agora, é lógico que em termos da progressividade da Revelação, Jesus está citando um argumento a fortiori (do menor para o maior). Se você não crê nos escritos de Moisés (que em termos revelacionais são menores que Cristo) como crerão nas palavras de Jesus (que são a maior revelação)?

 

7). Não confunda superioridade da Revelação com graus de inspiração. É lógico que Cristo é superior a Moisés (Mt. 18:15). A maior das revelações consiste no Filho de Deus (Hb 1:1,2). O que estamos questionando aqui não é a superioridade da Revelação na pessoa do Filho, mas o fato de afirmar que o Novo Testamento é mais Palavra de Deus que o Antigo Testamento; não! O que queremos afirmar aqui é que o Antigo Testamento é tão Palavra de Deus quanto o Novo Testamento (“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino…”). O Senhor Jesus Cristo tratou a Lei de Moisés como Palavra de Deus e a expressou como cumprindo-se nEle. O registro das palavras de Jesus é tão inspirado quanto o registro dos escritos de Moisés; agora, em termos de Revelação, as palavras e a pessoa de Cristo consistem na maior das Revelações, que não contradizem o Antigo Testamento, mas que o cumprem.

Agora, note que mesmo que Cristo seja a maior revelação, isto não se restringe ao seu ministério terreno. A ação de Cristo continua após seu ministério terreno no livro de Atos, que poderia muito bem se chamar Atos de Cristo (leia com atenção Atos 1:1). De maneira que mesmo o que Cristo ensinou em seu ministério terreno, em termos de progresso da Revelação não trazem todos os detalhes que posteriormente são descortinados pelas cartas paulinas, gerais e pelo livro de Apocalipse. Jesus continua a falar ao longo da igreja primitiva por meio de seus apóstolos. A Revelação de Cristo não se restringe ao ministério terreno de Cristo e se aplica a nós por meio da doutrina dos apóstolos e dos profetas, que se encerrou naquilo que recebemos como Antigo Testamento. Hebreus 1:1 (acima mencionado) afirma que o Filho é o meio de Revelação para nós ainda hoje.

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[i] FRAME, J. M. A doutrina da Palavra de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 115.

[ii] FRAME, idem.

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