R.O.A. (05) – Alison Aquino. Obra: A Revolução dos bichos.

 

Sobre o autor da resenha:

Francisco Alison Silva Aquino é graduando de Letras-Inglês pela Univesidade Estadual do Ceará. Possui interesses em teologia, linguística, literatura e política. Atualmente está congregando na primeira igreja batista de Russas.

Alison

Alison Aquino

 

 

R.O.A. ()5): A Revolução dos Bichos

Autor: George Orwell

revolução dos bichos

 

 

O livro A Revolução dos Bichos, de autoria de Eric Arthur Blair (mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, 1903-1950), publicado em Português pela editora Companhia das Letras, apresenta uma dura crítica política ao fim levado pela Revolução Russa de 1917. A marca deixada por esta obra não é devido uma linguagem ou narrativa inovadora, mas exatamente por sua crítica não só à revolução Russa, mas a todas as revoluções que terminam com uma nova elite tomando o poder. Sua narrativa, simples e concisa, se desenvolve por meio das falas dos animais, sendo estes bichos, metáforas políticas.

Na narrativa A revolução dos bichos, a tentativa de tomada de poder, tendo em vista defender o princípio do igualitarismo, não traz bons resultados. As personagens, principalmente os porcos, demonstram que, na sociedade, dentre os “iguais”, alguns são mais iguais que outros. Isto significa que mesmo aqueles que defendem o princípio do “Comum a todos” ou igualitarismo, no fim, se voltam contra esse princípio, movidos pela ganância.

            Sr. Jones e outros homens presentes na narrativa representam a burguesia. O homem é descrito por Major, porco idealista da revolução dos bichos, como um inimigo e fonte de toda miséria, problemas sociais e econômicos. Assim ele o descreve: “O homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o homem, e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá” (ORWELL, 2000, p.10). Ele ainda acrescenta em seu discurso diante dos outros bichos que “O homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o suficiente para alcançar uma lebre. Mesmo assim, é o Senhor de todos os animais” (ORWELL, 2000, p.10).

Em outras palavras, o burguês, o proprietário, é visto como fonte de todos os problemas. Se não tivéssemos o homem, segundo o porco Major, não haveria sobrecarga de trabalho para o proletário e, além disso, este não seria explorado e receberia o produto do seu trabalho de forma igualitária em relação aos demais.

O líder da revolução parece ser tão convicto a respeito dos perigos que o homem pode trazer que ele não se cansa de afirmar que este é de fato um grande inimigo:

Pouco mais tenho a dizer. Repito apenas: lembrai-vos sempre do vosso dever de inimizade para com o homem e todos os seus desígnios. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo, qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vos também de que na luta contra o homem não devemos assemelhar-nos a ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai seus vícios. (ORWELL, 2000, p.14)

 

Os bichos não devem nem mesmo imitar os hábitos dos homens, pois “todos os hábitos do homem são maus” (ORWELL, 2000, p.14). Da mesma forma, “Jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Todos os animais são iguais” (ORWELL, 2000, p.14). Isso significa que aqueles que agora são dominados não devem agir como os dominantes fazem, pois todos são iguais. Mas, perguntamos: será que é isso que de fato ocorre no decorrer da narrativa? O “comum a todos” de fato funciona?

Logo no início da narrativa vemos uma fala do personagem Major que revela a problemática da luta de classes:

Nascemos, recebemos o mínimo salário de alimento necessário para continuar respirando e os que podem trabalhar são forçados a fazê-lo até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade (ORWELL, 2000, p.9).

O proletariado, aqui representado pelos animais, são os trabalhadores, aqueles que formavam o nível mais baixo, o estrato mais profundo da sociedade. Assim, os porcos, cavalos, cachorros e outros animais presentes na narrativa, isto é, a classe dominada, compõem o proletariado.

Ao continuar a leitura, começamos a compreender melhor quais são os objetivos dos animais da Granja do Solar. Eles não podem aceitar mais o domínio de alguém sobre eles, uma vez que Sr. Jones se apropria de grande parte da renda obtida pelo trabalho exercido por eles, retendo a maior parte para si e concedendo o mínimo possível para os bichos. É exatamente essa a indignação de Major: “Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos.” (ORWELL, 2000, p.10). E ele prossegue: “Põe-nos a trabalhar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante” (ORWELL, 2000, p.11)

Aqui percebemos claramente o conceito de “mais-valia” proposto por Marx e Engels (1998). O princípio de que o empregador (Sr. Jones) paga ao trabalhador um montante muito menor do que o devido. Esta problemática se torna ainda mais clara à medida que lemos o discurso de Major:

As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido este ano? E que aconteceu a esse leite, que deveria estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram este ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice? Foram vendidos com a idade de um ano — nunca você tornará a vê-los Como paga pelos seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia? (ORWELL, 2000, p.11)

 

Desta forma, Major não admite mais o fato de que a maior parte da renda proveniente do trabalho produzido pelos bichos da Granja do Solar (proletários) seja destinada ao Sr. Jones, proprietário da granja. Os bichos querem agora que toda produção seja dividida igualmente entre eles. Uma revolução está prestes a acontecer, Sr. Jones será destronado e a ditadura do proletariado instaurada. Porém, veremos se ela de fato é a solução para os problemas enfrentados pelos bichos.

Insatisfeitos com a situação na qual se encontravam, como já descrevemos, os bichos dão início a uma revolução. Sr. Jones agora não mais podia se apropriar dos bens produzidos pelos bichos: “[…] os bichos haviam posto Jones e os peões para fora da granja, fechando atrás deles a porteira das cinco barras. E assim, antes de perceberem o que sucedera, a revolução estava feita. Jones fora expulso e a Granja do Solar era deles” (ORWELL, 2000, p.23).

O desenvolvimento da consciência da classe dominada, os bichos, aliada à exploração do Sr, Jones davam a eles, aparentemente, a condição de ser a única classe social com a capacidade de reverter a situação. Para isso, eles deveriam tomar o poder através de uma revolução e implantar um regime do proletariado a fim de minimizar as diferenças sociais e proporcionar o bem-estar coletivo. Por fim, é instaurada então a Ditadura do Proletariado, ou seja, dos bichos.

Vale ressaltar que toda a narrativa é uma crítica à tentativa bem sucedida de implantação da Ditadura do Proletariado em 1917 com a Revolução Russa. Naquela ocasião, os trabalhadores tomaram o poder do tradicional regime czarista e instalaram um governo socialista através do líder Lênin. A formação da União Soviética estabeleceu um regime socialista que teve Stalin como seu líder até o início da década de 1950, governando com a rigidez de uma Ditadura do Proletariado. Porém, ela funcionou? Vejamos o que aconteceu depois que os bichos tomaram o poder.

Os bichos se alegraram porque “tudo quanto enxergavam era deles!” (ORWELL, 2000, p.24). Não havia mais nenhuma “Granja do Solar”, mas “Granja dos Bichos”. Os princípios do “Animalismo”, agora bem definidos, “constituiriam a lei inalterável pela qual a Granja dos Bichos deveria reger sua vida a partir daquele instante, para sempre” (ORWELL, 2000, p.27).

Agora os Bichos podiam produzir em menos tempo do que Jones e seus homens. Porém, algo diferente chama a atenção. O leite tirado das vacas desaparece (mistério que logo depois é desvendado), é misturado à ração dos porcos sob o pretexto de não falhar na missão. Além disso,

os bichos tinham como certo que as frutas deveriam ser distribuídas equitativamente; certo dia, porém, chegou a ordem para que todas as frutas caídas fossem recolhidas e levadas ao depósito das ferramentas, para consumo dos porcos (ORWELL, 2000, p.38).

Estes passam então a dominar o território com sutileza, tendo além do leite, as maçãs reservadas para si, o que os outros animais aceitaram sem questionar, pois afinal, nenhum deles queria Sr. Jones de volta à granja.

Tudo parecia perfeito. A comida agora era realmente deles, “produzida por eles e para eles, em vez de distribuída em pequenas quantidades por um dono cheio de má vontade” (ORWELL, 2000, p.31). Eram movidos pela ideia de igualdade, e era isso que de fato importava.

Problemas começam a aparecer quando começa uma disputa entre Bola de Neve e Napoleão, os dois porcos que comandam o levante dos animais contra Sr. Jones, a respeito da construção de um moinho de vento. Em uma das reuniões, Napoleão dá um guincho estridente e nove cães saltam sobre Bola de Neve, expulsando-o da granja. Ele então toma o comando e inicia-se uma ditadura, agora os bichos não têm mais reuniões, nem votações ou debates, apenas ouvem as ordens e as cumprem sem reclamar, o não cumprimento das ordens de Napoleão ou a rebeldia passam a ser duramente castigados, até mesmo com a morte aos considerados traidores.

Napoleão, sagazmente, afirma que não é por motivos egoístas que eles, os porcos, faziam isso, mas pelo bem de todos os bichos, pois a liderança é um fardo. No entanto, o que percebemos é que todas as regras e mandamentos estabelecidos após a revolução pelos bichos acabaram sendo quebrados e transformados em prol do bem estar dos porcos.

Instala-se então um sistema terrível onde os animais já não têm mais direitos, apenas devem trabalhar, agora muito mais que antes, estão escravizados e nem se dão conta disto, pois já não lembram mais dos tempos de outrora. A miséria toma conta da granja, os sonhos já estão esquecidos, os porcos agora mandam e os outros animais apenas obedecem sem coragem de contra argumentar.

Em pouco tempo, os porcos começam a agir como os seres humanos: bebem, fumam, dormem em camas, vestem roupas e passam a andar sobre as patas traseiras, tendo chicotes nas patas dianteiras para controlar e manter a ordem entre os outros animais. Não era mais possível distinguir quem era porco e quem era homem.

A conclusão não poderia ser diferente: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” (ORWELL, 2000, p.135). Em outras palavras, a busca pelo “comum a todos” é uma utopia. Como podemos constatar, a partir de então, os porcos passam a comandar com suas regalias, enquanto os outros animais estão na miséria. Não é mais uma questão de distribuição da riqueza, mas de distribuição da pobreza.

As pessoas que são obcecadas pela igualdade econômica tendem a fazer coisas estranhas. Um exemplo disso é que elas se tornam invejosas, passando a cobiçar aquilo que é dos outros. Para isso, elas gastam mais tempo tentando derrubar alguém bem sucedido em vez de se esforçar para se aprimorar e subir na vida.

Não é basicamente isso o que acontece com os porcos? Onde está a igualdade proposta pelos próprios bichos desde o início? Não são de fato uns mais iguais que outros? O que aconteceu foi que “parecia como se a Granja se houvesse tornado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido — exceto, é claro, os porcos e os cachorros” (ORWELL, 2000, p.130). No final, aqueles que tanto pregam o igualitarismo, percebem que isto não acontece, pois o homem é ambicioso e sempre cobiçará o que não é seu. Basta olhar o episódio em que os porcos se apropriam das maças e do leite, como já mencionado.

Lawrence W. Reed (2014) citando Thomas Sowell e Milton Friedman afirma que as tentativas de se equalizar os resultados econômicos produzem na verdade desigualdades maiores e mais perigosas. Além disso, uma sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade terminará sem as duas. Desta forma, usar a força com o objetivo de alcançar a igualdade terminará nas mãos de pessoas que irão utilizá-la com o intuito de promover seus próprios interesses.

A posição que os porcos passaram a ocupar ilustra tal prerrogativa. Eles pareciam inocentes, mas a verdade é que havia uma semelhança tão grande com os homens que não era possível fazer qualquer distinção entre eles.

Este foi o fim alcançado pelos bichos. Em nome do igualitarismo, eles acabaram se encontrando numa situação em que, não a riqueza era distribuída de acordo com o trabalho produzido por eles, mas a pobreza era distribuída igualmente entre os menos iguais, enquanto os porcos ficavam com a maior parte do que era produzido pelos outros animais.

A leitura de A revolução dos Bichos, do escritor George Orwell, é de grande importância para uma compreensão das perspectivas políticas presentes na obra, assim como para uma reflexão dos princípios propostos pelo sistema Socialista. Para quem gosta de ler obras literárias com um pano de fundo político, A revolução dos Bichos é ideal.

 

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2 comentários sobre “R.O.A. (05) – Alison Aquino. Obra: A Revolução dos bichos.

  1. Excelente resenha, meu amado irmão Alison Aquino. Certamente o igualitarismo e a mais-valia marxistas levaram milhões de soviéticos à miséria; o tão sonhado paraíso do proletariado tornou-se em um vívido e real “inferno totalitarista”.
    Algumas breves observações pessoais sobre a leitura da obra:
    – Simplificações de ideias complexas para poder massificá-las: “quatro pernas bom, duas pernas ruim” (p. 32).
    – “Humano bom é humano morto” (p. 39). Você lembrou de quem?
    – “Napoleão tem sempre razão” (p. 49). Você lembrou de quem?
    – Na ausência de provas escritas, o líder não é condenado (p. 56). Você lembrou de quem?
    – p. 93 – As ovelhas representam o “grito eufórico e baderneiro das massas para calar os opositores”.
    – A reunião dos porcos com os dois fazendeiros é uma alusão ao encontro de Teerã (Stalin – Roosevelt – Churchill).
    – A Inteligentzia inglesa não permitia criticar a URSS (por ser aliada). Por isso o livro teve sua publicação negada por vários editores, inclusive por T.S. Eliot.
    – George Orwell era trotskista e ansiava por uma real revolução que seguisse os princípios do marxismo. Seu socialismo idealizado na revolução dos bichos não leva em conta a natureza pecaminosa do homem. Se Trotsky tivesse assumido a URSS, vocês acham que ele implantaria o socialismo “igualiatarista, onde todos de fato fossem iguais”?
    – Apesar de tudo, a leitura é muito agradável e esta fábula moderna com fundo político pode ser aplicada a qualquer regime socialista.

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