Reflexões autobiográficas VI: Minha conversão.

conversão

 

O ano era 1989. Lembro-me muito bem de alguns detalhes daquela ocasião. Já havíamos mudado de residência da rua Tamoatá para a Avenida Getúlio Vargas. Era uma bela casa feita de macacaúba. Devido à durabilidade da madeira, tinha a impressão de pensar que as casa feitas com esta madeira nunca se acabam e aquilo me trouxe segurança (apesar de ser uma falsa segurança).

Como já afirmado em artigos anteriores, nesta ocasião eu já estava imerso na cultura cristã típica dos irlandeses que fundaram o trabalho batista na cidade de Boca do Acre. Meus estudos formais iniciais ocorreram no Pré-Escolar Mary Harvey (a famosa escolinha, cuja arquitetura me fazia pensar na casa de alvenaria de um dos três porquinhos. E pensava: “bem, se o lobo soprar aqui, a estrutura não irá cair”). Já estava acostumado a ir para os cultos da Escola Bíblica Dominical. Ainda me lembro da musiquinha:

Eu estudo numa escola especial / Eu estudo numa escola sem igual / Onde aprendo mais a amar Jesus/ é na Escola Dominical.”

Ainda não amava o meu Salvador, pois o Seu amor ainda não tinha me tocado com ternura. Mas, de forma gradual, fui adquirindo conhecimento das histórias bíblicas e do plano de salvação. Posso pensar, agora, quão instrutivas eram as músicas para a mente de uma criança e como realmente tinham um efeito pedagógico. Lembro-me de uma música chamada “Este é o trem que vai” (música cantada por Patrícia no LP Pingo de Gente VI, Bompastor, 1986. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=K6XGAK9l2eo ). A música dizia que o trem ia “para um lugar diferente / onde o amor é permanente”. Oh! Como minhas esperanças eram passageiras e como meu amor por Deus era falsificado pelo mero ritual de ir aos cultos.

Mas sentia meus pecados cada vez mais intensos. Isto era notório quando brigava com meu irmão Fábio, ao desobedecer meus pais e ao maltratar pessoas que não mereciam de forma alguma o destrato que lhes causava (e eu ainda não tinha nem 8 anos – eis a herança pecaminosa atuante na prática de uma criança). Meu amor era passageiro e temporário. Apesar de todo o amor e amparo trazido a mim por meus pais, sentia que necessitava de uma casa duradoura para a minha alma e um amor perene para meu coração.

A música continuava falando da gratuidade do amor de Deus e do sacrifício amoroso de Jesus por nós – “E pra você seguir viagem / não é preciso pagar passagem / Jesus Cristo já pagou a passagem pra você / e o preço foi a cruz / basta agora você crer”.

Ficava imaginando se de fato eu estava entre os passageiros deste maravilhoso trem. Salvação pela graça, na pessoa do Filho, por meio de seu sacrifício na cruz do Calvário, apropriada por fé. Sola Gratia / Sola Fide / Solus Christus/ Substituição penal. Doutrinas profundas inclusas em uma letra que usava a metáfora de um trem.

Deus usava estas letras, que expressavam sua Santa Palavra, para implantar seu amor em minha vida.

Ainda me lembro de uma música baseada no Salmo 23, intitulada “Nada temerei” e numa fita K-7 intitulada “Vinte minutos é só”. Em uma das letras que também passava a ideia de segurança e que trazia uma ritmação animada eu me deleitava, pensando que Deus poderia me ajudar a não temer quando faltasse luz (naquela época os geradores de energia da cidade eram menores e frequentemente entravam em pane. Cantava-se uma musiquinha: “Boca do Acre, terra que não produz / de dia falta água, de noite falta luz.”). Eu não me dava conta, mas minha alma estava imersa em completo breu espiritual e numa inatividade bem maior que a de minha cidade. Pelo menos os geradores funcionavam vez por outra. Passavam mais tempo funcionando do que esculhambados. Mas nenhuma energia ou vitalidade espiritual conseguia trazer luz à minha alma. A outra música falava de uma catástrofe que estava para se implantar, uma catástrofe cósmica que sacudiria o planeta. Na música, a menininha pergunta à mãe, diante da iminência da explosão: “Será que não dá tempo pra fugir / pra algum lugar seguro longe daqui / algum lugar, mamãe, aonde ir/ sem bombas pra nos atingir?”. Eu escutava aquela composição e vivenciava o drama da menininha e ficava pensando: “e se fosse comigo? E se esta bomba estourasse aqui em nossa cidade?”. A resposta aparentemente amargurada apontava para um não escape. A destruição era certa. Mas havia uma ponta de esperança na resposta da mãe: “não há onde esconder, não tem jeito / é tarde demais, o mal já está feito / mas há um mundo melhor além daqui / ao seguir, segure-se em mim”. E aos soluços, muitas vezes, eu ouvia a fala do pai para a sua filha: “menininha, nossa hora chegou / para irmos a um mundo melhor / me dê a mão e vamos a Jesus orar / e breve estaremos lá”. Neste mesmo CD lembro-me de músicas como “apreço e afeição”, “Haverá um mundo melhor para uma garotinha”, dentre outras. Mas para aquele garotinho de 7 anos chamado Fares Camurça Furtado ainda não havia nem um mundo melhor, nem esperanças eternas, nem salvação além de uma casa de macacauba.

Meus pais também compraram fitas VHS da série Kid-Viddy. Aquelas músicas me fazem lembrar de meu irmão Fábio. Nós não cansávamos de ouvir aquelas canções: “Ria de você mesmo”, “Jesus, entra no meu coração”, “Oh! Anjo da Guarda” (que na verdade não me guardava em nada), “Se você der amor”, “Sinos do Natal”, “Linda vela de natal”, “Pode ouvir o que eu ouço?”, “O Natal está no ar”, “Viva o amor”, “Árvores a dançar”, “Temos um novo irmãozinho”, “Crescer”, “Maneiras, boas maneiras”, etc. À medida que escrevo, uma certa nostalgia me invade daqueles velhos tempos de infância que só não é maior que a alegria que sinto por Deus em sua providência ter usado estes meios para me levar até sua Palavra, entendendo o plano de salvação e me rendendo aos pés de Jesus. A tristeza pode bater profunda na alma de uma criança desde cedo. Sorrisos podem simular angústias profundas e o ato de cantar músicas não tem poder redentivo sobre a vida daquele que ainda não aceitou Jesus.

Em 1989, fomos para o Acampamento da Igreja Evangélica Batista de Boca do Acre, onde participava desde cedo de algumas programações: culto de oração, culto de louvor no domingo à noite, E.B.D., algumas Escolas Bíblicas de Férias, dentre outras atividades.

Naquele acampamento, fomos em um trator. O trator do irmão Valdir. A estrada ainda não era asfaltada e nossa ida até o Km 15, a antiga COMARA, nas proximidades do Aeroporto, foi lenta, mas bem animada. Eu ainda me recordo de uma música entoada. “Oh! Eu amo a Cristo”. O grupo perguntava a alguém. “Fulano, ama a Cristo?” e ele respondia: “Sim, amo a Cristo”. Perguntavam novamente: “Por que ama a Cristo?” e a resposta final era: “Porque Ele morreu por mim, aleluia!”. Eu respondi e cantei esta canção, mas ainda não amava a Cristo. Nunca é cedo pra amar nosso Salvador e nunca é tarde pra obedecer os seus preceitos. Quantos entoam músicas que expressam a salvação, mas seus corações nunca foram alcançados pelo verdadeiro evangelho?

Naquele acampamento, lembro-me de participar de algumas das atividades entre os adultos e creio ter memorizado Romanos 8:1. Este foi um dos primeiros versículos que eu aprendi: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Eu aprendi ali que sem Jesus eu estava condenado. Eu descobri que Ele morreu pelos meus pecados. Pagou o preço para me transformar e por amor a mim entregou sua vida a fim de que eu cresse em Seu nome, tivesse a vida eterna, demonstrada por meio de novidade de vida, um viver transformado.

Além da “cachoeira” onde tomávamos banho, da comunhão com os irmãos de Sena Madureira, das gincanas, das peças e de tantos outros atrativos, a Palavra de Deus começava a operar em meu coração. Mas ainda não havia chegado o momento de Deus me salvar.

Voltamos daquele acampamento e todo o arcabouço de leituras da Bíblia, de uma série de volumes da Bíblia Ilustrada, dos cânticos, das histórias missionárias e bíblicas, das pregações que eu já passava a assimilar me fizeram desejoso de me render aos pés de Jesus Cristo.

Em determinada sexta-feira do meio do ano, penso que o mês era julho, fomos ao culto de oração. Ouvi a pregação do Pr. Pedro Morais e entendi que Jesus era o meu salvador. Vi a alegria brotar em minha alma, mas não revelei nada a ninguém durante o culto. Quando cheguei em casa, corri até minha mãe e disse algo do tipo: “mamãe, eu entendi o Evangelho, eu sei que Jesus morreu por mim, de verdade. Eu quero entregar minha vida a  Jesus.” Lágrimas de alegria brotavam de minha face. Minha mãe orou comigo e naquele instante o amor de Jesus foi manifesto em minha vida e eu pude amá-lO finalmente. Eu agora podia enxergar e mesmo que o medo do escuro físico me abatesse ainda algumas vezes depois daquela data, a certeza da salvação brotou em meu ser e as trevas do pecado foram dissipadas. Arrependi-me dos meus pecados, confessei-os e já não havia peso algum. Como diz Álvaro Tito: “Deus transforma tua vida / Deus transforma a escuridão em luz / pelo sangue, pelo sangue de Jesus”. Fui regenerado, deixei o caminho dos mortos porque Cristo me deu vida. Nenhuma condenação havia mais sobre mim. Fui convertido, meu andar era outro. Passei a viver a vida de Cristo, e como vivi (e como Ele ainda vive, e sempre viverá em mim). Arrependi-me, minha mente foi mudada e tive fé em Jesus. Uma fé inabalável, a mim outorgada por Ele. A casa da minha alma não mais ruiria, a escuridão de minha mente foi invadida pela luz de Cristo, as ameaças de bombas, guerras, como a guerra do Golfo (que estava ocorrendo na época) não seriam capazes de destruir ou afastar o amor de Deus sobre minha vida.

Termino dizendo que aquela sexta-feira trouxe um brilho, que vez por outra foi ofuscado pelo pecado, mas que nunca, jamais, foi apagado. Foi o dia mais feliz da minha vida. Estava seguro, tinha luz, tinha salvação. Ainda me lembro de minha mãe cantando e recitando o Salmo 27:1 – “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?”

Caro leitor, não há alegria desta esfera terrena que suplante ou que pelo menos chegue perto do vislumbre da alegria de Cristo trazida por meio da salvação. Aqueles que já têm Cristo como Salvador sabem do que estou falando. Se você ainda não experimentou esta alegria, saibas que estás condenado e necessitas desesperadamente de Jesus, o Único Salvador. Sua esperança não está no dinheiro, em comidas e bebidas, prazeres carnais, viagens, vitórias acadêmicas ou numa carreira brilhante. Só Jesus é a esperança para te libertar da hostilidade. Leia a Bíblia, reconheça o centro de sua mensagem: Jesus Cristo salva e transforma vidas. Entregue tua vida a Ele como teu Senhor e Salvador e alcançarás perfeita felicidade e satisfação! Amém!

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2 comentários sobre “Reflexões autobiográficas VI: Minha conversão.

  1. Que clareza na comunicação! Sempre fico tocado com testemunhos de conversão! A forma como Deus abre os nossos olhos para o seu maravilhoso amor é Linda! Deus abencabençoe irmão Fares!

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