Resenha 30: Inteligência Humilhada (Jonas Madureira)

 

INTELIGÊNCIA HUMILHADA

Autor: JONAS MADUREIRA

São Paulo: Vida Nova, 2017, 336 pp.

Resenhista: Fares Camurça Furtado

Leitura realizada entre os dias 02 e 10 de julho de 2017.

 

Há alguns anos conheci alguns escritos de Jonas Madureira, conforme expostos em seu blog. Fiquei impressionado com sua erudição e ao mesmo tempo pasmo por não vê-lo palestrando e pregando nas principais conferências teológicas do Brasil. É aquela admiração típica dos encantados com os grandes eventos e com a retórica dos grandes mestres. Aquele pensamento que sonda e extasia a mente de muitos: “quem atingiu certo patamar de erudição e retórica não pode ficar recolhido no anonimato; seu valor deve ser notado”. Pensei isto de Jonas Madureira e ao mesmo tempo conjecturei se não era este o desejo de grande parte dos teólogos brasileiros para si próprios: “um dia pregarei na Fiel; o meu valor será descoberto mais cedo ou mais tarde e eu palestrarei no Consciência Cristã; um dia me descobrirão e eu poderei sentar no mesmo sofá em que sentam Augustus Nicodemus, Franklin Ferreira, Guilherme de Carvalho e Heber Carlos de Campos”. Em sua megalomania os teólogos brasileiros, em boa parte narcisistas facebookianos, projetam para si aquilo que veem nos melhores. Lutam para chegar lá e planejam suas atividades em torno do carreirismo acadêmico, na grande maioria das vezes, somente para decepcionados recolherem-se à insignificância teológica de seu pensamento e, dominados por ódio e desprezo, reservarem o máximo de seu intelecto para os repúdios envaidecidos a todos os “elitistas” e “coxinhas teológicos” que se lambuzam com o teologuismo opressor! Eis uma forma muito comum de justificar a ignorância.

Inteligências deturpadas pelo narcisismo são acometidas por nanismo teológico. Ainda bem que Deus reservou a nós a oportunidade de percebermos quão ingênuos somos em tomar como meta o “querer chegar lá sem qualquer custo”. Meia dúzia de livros lidos e alguns já regurgitam teorias mal articuladas como se seu pensamento fosse o suprassumo da teologia cristã. Deus usou pessoas como Agostinho, Tomás de Aquino, Pascal, Carl F. H. Henry, Jonathan Edwards para nos fazer perceber que “nunca chegaremos lá”. Este último raciocínio encontra-se no centro da obra “Inteligência Humilhada”, de Jonas Madureira. Ele “chegou lá” não porque buscou isto, mas porque teceu uma busca em prol da verdade, sendo que os “louros” só vieram muito depois como consequência natural do labor acadêmico e não como prêmio à bitola do “politicamente correto” do teologuês medíocre nosso de cada dia.

Seu primeiro livro é o volume que trata sobre Filosofia, do Curso Vida Nova de Teologia Básica, apresentando um viés epistemológico da história da Filosofia. Depois soube que o conceito de Inteligência Humilhada seria transformado em livro e aí começou a grande saga de seus leitores e admiradores pela publicação da obra que agora está sendo resenhada. Finalmente ela chegou, neste ano de 2017, e fico feliz pela demora, pois sei que este tempo foi necessário para amadurecê-la e torná-la apta para a degustação intelectual.

O conceito de Inteligência Humilhada não é inédito. Já estava presente principalmente nos escritos de Agostinho e Pascal. Jonas Madureira, basicamente, sistematizou o conceito e o aplicou de maneira fantástica ao homem do século XXI.

Primeiramente, é interessante pensar sobre o processo de confecção do livro. Jonas Madureira não tirou um sabático e voltou de lá com o livro debaixo do braço. Houve um processo de maturação natural a partir do ato reflexivo iniciado através de uma palestra ministrada em 2010, que versava sobre leituras do livro X das Confissões de Agostinho. Isto foi ampliado para um curso de 10 palestras ministrado na Escola Teológica Charles Spurgeon, em Fortaleza, e por fim num curso semestral, no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos. Jonas Madureira levou aproximadamente 7 anos para transformar seus primeiros estudos sobre “inteligência humilhada”. Ideias não nascem prodigiosamente como fruto de nossas mentes férteis e autossuficientes. Livros são maturados a partir do arcabouço de informações e de conexões entre os dados acerca de um determinado assunto, numa espécie de interface entre estudo analítico e sintópico. O processo de maturação deste livro nos ensina a meditar sobre determinado assunto, pesquisando as fontes cardinais e secundárias do assunto, buscando resolver um problema atual a partir do que já foi pensado acerca do assunto, tomando o cuidado para não meramente reproduzir ideias formatadas em uma roupagem que parece ser nossa, mas que não passam de vestimentas de outrem apropriadas indebitamente por nós. Se você é um pregador, esmere-se na produção de seus sermões; se é um palestrante, procure elaborar suas palestras de maneira organizada e inteligível. Se você é um cristão, procure assimilar o conteúdo do Evangelho por meio do estudo continuado das Escrituras. Os temas e os tópicos específicos de diversas pesquisas surgirão automaticamente, clamando por uma resposta vinda de sua mente a ser transmitida de forma verbal e escrita. Você não precisa de uma cátedra para meditar, mas também não pode se dar ao luxo de receber as “ideias fresquinhas caindo do céu”. Faz-se necessária uma disciplina hercúlea, acúmulo de materiais, esforço nas pesquisas e organização para reunir o fruto de seu trabalho em um manuscrito inteligível. O livro não está pronto em nossa mente; ele é criado por um viés específico. Que isto nos estimule a perceber o valor da meditação e das pequenas tarefas acadêmicas e profissionais!

O livro é dividido em 5 capítulos extensos, mas de leitura agradável. A temática de cada capítulo forma um quiasmo: no primeiro capítulo, a inteligência humilhada só é alcançada quando se faz teologia coram Deo (diante de Deus). Esta disposição em fazer teologia leva o homem a perceber o quão limitado e insuficiente sua mente é, não apenas por questões de finitude, mas também pelos efeitos noéticos do pecado. Sem a Revelação Especial de Deus o homem não pode chegar a um conhecimento redentivo e relacional para com Deus. Se nossa teologia é constantemente feita diante de Deus, a partir de uma mente insuficiente para desfrutar o ser de Deus (por causa de nossa natureza – criatura – e de nosso estado antes da redenção – totalmente depravado), precisamos da intervenção divina para poder compreender. Esta intervenção nos aponta para a humilhação do Seu Filho – o ápice do plano redentivo (terceiro capítulo). Ao estabelecer em Deus o foco de nossa teologia, reconhecendo nossa limitação e insuficiência e tomando a pessoa, obra e exemplo de Cristo como base para o verdadeiro conhecimento (que tem seu signo e significado na pessoa de Cristo), podemos passar a nos conhecer melhor de maneira holística e não fragmentada (quarto capítulo). Por não entender isto é que muitos buscam a Deus com seus egos inflados e findam traindo a seu Criador (capítulo 5).

Poderíamos até esquematizar uma relação estrutural entre os 5 capítulos:

A). Teologia Centrada em Deus.

B). Parte da insuficiência e da incapacidade do homem caído (em desgraça).

C). Cristo se humilha (Mitte)

B´). Torna-nos aptos para uma verdadeira antropologia (holística, integral).

A´). A rejeição do Cristo humilhado leva os teólogos a uma teologia centrada no homem, traidora.

 

Assim, a Teologia Humilhada parte da relação essencial entre o homem e Deus (teologia em segunda pessoa), onde a descoberta da verdade nos põe de joelhos diante de Deus, ao reconhecermos nossa insignificância e total dependência de Deus para nos revelar o conhecimento de nossa real condição (insuficientes, pecadores, incapazes de buscar a Deus) – isto é humilhante. Mas não foi diferente com nosso Salvador. Sua humilhação nos proporcionou uma disposição em obedecer de livre vontade e de forma resoluta ao Pai, deixando-nos o arquétipo da Inteligência Humilhada. Pautados pelo exemplo de Cristo passamos a nos conhecer melhor (antropologia restaurada) e nos faz evitar o caminho dos teólogos apóstatas (que traíram a Deus por negar a necessidade de humilhação).

Feita esta síntese, podemos asseverar que Jonas Madureira preenche seus textos com ilustrações vívidas e penetrantes, capazes de expressar simbolicamente conceitos objetivos e reais. Estas ilustrações atraem a atenção do leitor, uma vez que somente podem ser compreendidas se a leitura for realizada de modo gradual. É assim que chegamos a subtítulos como “A teologia natural e o crime do chocolate” ou “o casaco de Pascal” os quais só podem ser compreendidos por aqueles que acompanharem o fluxo da argumentação de Jonas Madureira.

A Inteligência Humilhada, desta maneira, pode ser definida como uma posição equilibrada entre fé e razão, que evita os extremos do racionalismo e do fideísmo. Nas palavras de Jonas Madureira “é a consciência ferida pela Palavra, é o coração ferido, porém grato, pela dádiva da revelação, é o intelecto estendido a ponto de encontrar Deus quando sobe aos céus e quando faz a cama no mais profundo abismo” (p. 28). Este conceito é fundamentado nos escritos de Agostinho, Anselmo, Calvino, Pascal e Dooyeweerd (p. 29).

Os ideais de glória, fama e autossuficiência presentes em muitos teólogos, de maneira não-articulada, mas evidentes em uma neurose-retroalimentada pela exposição aos grandes – pela inveja da grandeza de muitos (como o amor de Agostinho por Hiério, não por causa de Hiério em si, mas por causa de sua fama. Era o amor à fama que possivelmente não seria demonstrado à pessoa caso a fama não existisse) e por uma busca contumaz pelo sucesso, levam-nos à procuras irrealistas como aquelas apresentadas no início desta resenha. Sobre isto, Jonas Madureira afirma:

Nosso problema se origina no fato de – a despeito de nossa ignorância sobre quem somos – termos a pretensão de falar sobre Deus, ostentando um discurso do tipo: “O que você quer saber sobre Deus? Sei tudo sobre ele!”, como uma espécie de “Teólogo Mister M”, um especialista em desvendar os mistérios divinos. Quanta presunção! Mal sabemos o que precisamos saber sobre nós e já nos precipitamos a falar sobre Deus apenas contando com nossas limitadas capacidades intelectuais! Quanta arrogância! Acreditamos que podemos elaborar profundas proposições teológicas sobre Deus, quando, na verdade, ignoramos a nós mesmos (pp. 43,44).

 

Jonas também denuncia a “humildade arrogante” do inclusivismo religioso, ilustrada no conto “os cegos e os elefantes”. O conto é filosoficamente incoerente (pois pontos epistêmicos antitéticos não podem ser simultaneamente verdadeiros) e desonesto (pois esconde a premissa de que o relator possui conhecimento absoluto do elefante e que a relativização do conhecimento se dá pela cegueira e não o inverso).

A solução para o drama epistemológico do homem não está na “autonomia da capacidade racional” do homem, como pressupõe o platonismo, mas na inteligência humilhada, adquirida por meio da libertação exercida pela verdade. Assim fazemos o nexo entre o primeiro e o segundo capítulo por meio da insuficiência humana para chegar a Deus e da necessidade de Deus se manifestar ao homem (Deus somente trabalha para se dar a conhecer ao homem – monergismo) a fim de que este chegue a conhecer. Jonas toca em um ponto nevrálgico nesta busca insana do teólogo pela libertação a partir de sua própria reflexão:

Algumas pessoas pensam que o remédio para a tolice está num seminário teológico, numa faculdade de filosofia ou num laboratório de ciências. Ledo engano. O seminário, a faculdade e o laboratório podem ser mais sombrios que o fundo de uma caverna. Deus não fala a teólogos, filósofos e cientistas, mas a tolos e perdidos em si mesmos. É uma tremenda tolice esperar dos seminários de teologia, das faculdades de filosofia ou dos laboratórios de ciências aquilo que somente o confronto com a voz de Deus pode dar (p. 65).

 

No capítulo 2, Jonas trabalha o conceito de insuficiência humana a partir dos escritos de Pascal e dos estudos de Pondé em Pascal. Este conceito leva a um afastamento gradual do sinergismo soteriológico e epistemológico. O sinergismo pressupõe trabalho conjunto do homem e de Deus para aquisição do conhecimento e da salvação. Isto nega o Soli Deo Gloria.

Após lidar com a natureza humana caída, abordando a insuficiência da Teologia Natural, Jonas Madureira trata razoavelmente sobre o problema do mal (capítulo 3) e dialoga com Cheung e Clark. Para estes o conceito de “mistério” é irracional (aliás, não seria a negação do mistério uma espécie de racionalismo sofisticado?). Jonas aponta que o conceito transcende mentes finitas e insuficientes e apresenta o “mistério” como suprarracional e não como irracional. Mas Jonas não apenas fica na defensiva quanto a Gordon Clark e explica como o sistema de Clark necessariamente implica em nestorianismo (p. 124).[i]

Para mim, os pontos áureos do capítulo 3 são a Kenosis e a Phronesis de Cristo. Na Kenosis (humilhação), Jesus nos deu o grande exemplo de humildade. Não se trata de uma humildade passiva acomodada aos ditames dos homens, tampouco uma humildade secularizada (novamente voltamos às questões do elitismo religioso). Jonas Madureira refuta o conceito de “secularização na Kenosis”, defendido por Vattimo, por meio de uma exegese robusta de Filipenses 2:5-11. A Kenosis não é a realidade última de Cristo. Sua exaltação demonstra que Ele é Senhor e não se submete à secularização. Já a Phronesis é definida por Jonas como uma “combinação da atitude correta com a consciência correta e a vontade correta” (p. 150). Em Cristo, a prhonesis implica em uma obediência absoluta, desejosa, satisfeita.[ii]

No capítulo 4, um dos mais controversos, Jonas Madureira, trata do autoconhecimento do homem. Destaco aqui a abordagem holística da antropologia feita por Jonas Madureira. Tomando como base os estudos teológicos de Anthony Hoekema e os estudos vétero-testamentários de Hans Wolff, Jonas procura refutar a ideia de uma divisão tripartite ou bipartite (tricotomia e dicotomia) do homem. Para o autor, não é que tenha duas ou três substâncias, mas que os verbetes bíblicos apontam aspectos distintos de sua essência, mas que estão necessariamente conectados, sem cortes. Ao tratar de nefesh, a Bíblia não expressa a “alma” do homem em distinção do corpo, mas expressa seu aspecto desejante. O verbete lev (coração) aponta para o homem deliberante. Basar (carne) trata do homem contingente; espírito (ruah), por sua vez, trata do homem vivente.[iii]

Por fim, no quinto capítulo, Jonas Madureira apresenta o teólogo como o pesquisador autônomo sem a teorreferência, fazendo teologia em terceira pessoa, mas tomando como pressuposto o enviesamento de sua pessoa, a PRIMEIRA pessoa, o HOMEM como o ser que descobre a divindade, a partir de sua SUFICIÊNCIA. Sem levar Deus em conta, o homem deturpou e traiu a Deus. Com um poder de síntese maravilhoso, Jonas Madureira e como a partir do Liberalismo, o Secularismo foi a culminância desta traição. Tomando Carl F. H. Henry como estudo de caso, Jonas Madureira apresenta o tipo de teólogo equilibrado, um teólogo público que soube repensar em sua época a herança da disputa entre o Liberalismo Teológico e o Fundamentalismo. Após as intensas disputas, que na publicação de “The Fundamentals” e “Cristianismo e Liberalismo” demonstraram a força dos teólogos conservadores, finalmente em meados do século XX, o evangelicalismo foi a posição de equilíbrio entre o separatismo e segregacionismo de alguns fundamentalistas e as heresias do Liberalismo Teológico. Com extremo zelo, vigor e equilíbrio, Carl Henry conseguiu demonstrar a necessidade de ser relevante social e culturalmente ao mesmo tempo em que se alicerçava numa teologia robusta.[iv]

Jonas Madureira termina orando ao Pai, em consonância com a prática da teologia em segunda pessoa. Na verdade, ao longo de todo o livro percebe-se a preocupação de Jonas em levar o homem a crescer em seu intelecto sem deixar de depender de Deus (em certo sentido, mesmo sem referenciar o “Tu” para Deus, logicamente se está fazendo verdadeira teologia para Deus, a fim de que o intelecto seja humilhado e os joelhos sejam dobrados diante da Suprema Inteligência.

Não poderia fugir da famosa frase de Jonas Madureira. Inteligência Humilhada é uma daquelas obras que “você não pode passar desta vida para a outra sem ler”. É de uma riqueza teológica, com intenso cuidado pastoral. Como verdadeiro teólogo público que é, Jonas Madureira, seguindo a tradição de Henry e Vanhoozer passa a influenciar uma geração de teólogos que necessitam beber na fonte das preciosas doutrinas das Sagradas Escrituras ao passo em que dialogam e apresentam o Evangelho de forma inteligente e criativa, inseridos em seu contexto sócio-acadêmico (perceba, por exemplo, a influência que Jonas Madureira possui no cenário acadêmico não somente como Doutor em Filosofia, mas como professor de Teologia e pastor, ao ponto de interagir com nomes como Martim Vasques da Cunha, Pondé, Laurentino Gomes, entre outros, sem contar as inúmeras palestras proferidas em várias esferas da sociedade, em concordância com um dos teóricos destacados por ele nesta obra).

Quanto a nós, devemos continuar firmes, reconhecendo nossa vocação e realizando com zelo aquilo para o qual fomos chamados, estabelecendo metas e projetos acadêmicos coram Deo. É bem possível que a maioria de nós não terá o destaque que gostaríamos de ter. Mas não fomos chamados para sermos famosos e conhecidos! Fomos chamados para exercer a inteligência dada por Deus, crescer no conhecimento das Escrituras e para influenciar a sociedade por meio do Evangelho. Que esta obra nos ajude a sair do ócio, da masmorra da amargura vocacional e nos eleve a um patamar de adoração e contrição diante de Deus, que nos faça produzir pra Ele e diante dEle. Que o fruto do nosso labor seja para glorificÁ-lo e que nossas pesquisas diligentes, refletindo 2 Timóteo 2:7, redundem em uma manifestação de humilhação kenótica a Cristo, numa obediência pacífica, desejosa e phronética. Que abandonemos o ritmo frenético da produção alterreferente e descansemos numa produção teorreferente. Se assim fizermos, talvez tenhamos ministérios discretos como Tom Carson, mas a aquisição de uma Inteligência Humilhada, centrada em Deus, nos dará plena satisfação no serviço.

 

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Notas de fim:

[i] Uma breve correção feita por Tiago Sousa. Na página 124, ao citar Gordon Clark, na verdade Jonas Madureira está citando John W. Robbins. Mas isto não traz nenhuma implicação importante, uma vez que Robbins possui forte afinidade com a teologia Clarkeana.

 

[ii] A exposição de Phronesis é expressa em uma ideia ou um conceito construído a partir de múltiplas referências (Aristóteles, Novo Testamento, Vanhoozer). Se foi um conceito estabelecido, Phronesis é definida não apenas a partir de uma abordagem lexicográfica, mas leva em conta também o contexto. Neste sentido, Phronesis é tudo o que Jonas Madureira expressou. Mas se por Phronesis estamos pensando apenas no verbete expresso em Filipenses, então ouve uma transferência totalitária indevida dos significados em outros textos potencializados em único texto (creio que não é isto que Jonas Madureira faz, mas deixo este alerta apenas à guisa de metodologia exegética).

 

[iii] Esta talvez seja a parte mais chocante da descoberta da teologia madureirense para os debatedores de plantão (dicotomistas x tricotomistas). Porém, entendam que Jonas Madureira, neste sentido, está em concordância com Hoekema. É bem possível, também, que tenha muita afinidade com o conceito de unidade condicional defendido por Millard J. Erickson Erickson e Franklin Ferreira. Alguns teólogos replicam que desconsiderar este aspecto dicotomista envolve uma percepção sensorial do atual prisma de nossa existência e por isto os que negam a dualidade não conseguem entender o homem com porções essenciais distintas, mas ao se considerar a existência após a morte, o que é impossível fazer da perspectiva sensorial, é aí que se pode perceber a distinção. O fato é que a exposição de Jonas Madureira foi muito convincente e bem fundamentada exegeticamente. Para uma defesa do dicotomismo, cf.: GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999, pp. 388-402.

 

[iv] Aqui é necessário observar que nem todos os herdeiros do Fundamentalismo norte-americano apresentam uma postura de “ermitões” ou “eremitas” teológicos do século XXI. Há um afluxo de bons teólogos que dialogam com a cultura e a política em arraiais dispensacionalistas, por exemplo. Mas reconheço que os herdeiros do fundamentalismo clássico ainda são muito influentes no meio dispensacionalista. Nota-se isto pela ênfase de muitos nas discussões sobre práticas litúrgicas, sem levar em conta a necessidade de posicionamentos importantes do cristão sobre a política e a justiça social. A influência de bons teólogos evangelicais como Piper, Carson, Keller, dentre outros e o surgimento de bons teólogos dispensacionalistas, como Darrell Bock, Michael J. Vlach e no Brasil Carlos Osvado Pinto (falecido), Marcos Granconato, Helder Cardin, Roque Albuquerque, Almir Marcolino, Rômulo Monteiro, só para citar alguns, trouxe um novo frescor para o que se tem chamado de fundamentalistas na atualidade. Este termo, com um certo anacronismo, poderia ser substituído pelas inclinações e chaves hermenêuticas assumidas pelo movimento do polo-mais-inclinado-ao-separatismo.

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