A.O.A. (05) – Utopias X Distopias (Márcio Rogério Bernardo)

Sobre o articulista:

Marcio rogerio

Márcio Rogério Bernardo Matos

Márcio Rogério Bernardo Matos é fundador e presidente do grupo CaFé com Letras, um grupo de leitura  estabelecido na cidade de Juazeiro do Norte que se reúne periodicamente para tratar de Literatura, Filosofia e Teologia. Márcio Rogério é um leitor voraz, um grande intelectual, com análises literárias precisas e cirúrgicas. O resenhista é teólogo, membro da Primeira Igreja Batista da Convenção de Juazeiro do Norte. Ultimamente, tem se dedicado à Crítica Literária.

 

 

Utopia X Distopia / – Uma visão do controle das massas através das distopias literárias / Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. 

 

 

Utopia _ (não lugar, lugar não existente) /  substantivo feminino

  1. 1. lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos.
  2. 2. qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade.                                                                                         
  1. 3ext.projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia.

Distopia  _ (lugar antiforme, lugar ruim

      Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma “utopia negativa”.

As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade.

O primeiro uso conhecido da palavra ‘distopia’ apareceu num discurso ao Parlamento Britânico por Gregg Webber e John Stuart Mill, em 1868. Nesse discurso, Mill disse:

“É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos [‘dis-‘ do grego antigo δυσ, translit.dys: ‘dificuldade, dor’] ou caco-tópicos[‘caco-‘, do grego κακός, translit. kakós: ‘mau, ruim’]. O que é comumente chamado utopia,é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável.”*

Portanto, Mill se referia a um lugar mau, ao oposto de utopia.

 

A notoriedade do termo e da discussão procedente da utopia decorre sobretudo da obra do filósofo e escritor inglês Thomas More que, em 1516 escreveu uma crítica direta à Inglaterra de sua própria época e, a seguir, na mesma obra, concebe a idéia de um Estado ideal em um texto alegórico intitulado Utopia. More dirige sua crítica à corte de Henrique VIII e sua política de conquistas militares e de riquezas, bem como a manutenção de privilégios e enriquecimento tanto da aristocracia e da velha e nova nobrezas (aqueles que empunham suas espadas e vão ao campo de batalha).

 

 

Para melhor compreender a crítica de More, talvez seja necessário entender que , ao contrário do senso comum, os nobres são quem efetivamente saem de suas propriedades e travam as guerras com o fim  da defesa dessas mesmas e para conquista de espólios, ao passo que suas terras ficam aos cuidados de seus empregados; uma massa majoritária e oprimida sobre quem pesa o trabalho e a manutenção da numerosa e dispendiosa corte, do exército e de senhores abusivos. Ou seja, por mais que o nobre necessariamente se lance ao campo de batalha para a defesa de sua propriedade e de seu título nobiliário, a propriedade sempre será um bem restrito à uma casta, e os pobres jamais alçarão lugares maiores. E por fim, o governo central apenas ocupa-se de movimentar as peças no jogo de guerra.

É por oposição ao sistema de governo e de sociedade tido como instrumentos opressivos, que More recorre, ou pelo menos alude simbolicamente à proposta da República de Platão para compor ética e culturalmente um sistema e um Estado ideal, onde a instrumentalidade representativa deste (do Estado), seus órgãos e membros operadores se voltam à promoção do bem estar e a distribuição igualitária dos extratos dos bens e da produção; onde não existe a propriedade privada e o dinheiro. Ainda que exale traços da tradição republicana platônica, é necessário salientar que n’A República platônica, encontramos a regência ampla e irrestrita das leis alicerçadas na sabedoria dos filósofos; o filósofo deve-se fazer governante pois a sabedoria para Platão é superior às leis, e a sabedoria então age como uma espécie de poder moderador ou regulador da sociedade, enquanto que em Utopia, assumindo o anacronismo evidente, temos uma proposta de sociedade que faz uma espécie de paráfrase socialista legando o monopólio do controle ao Estado. Não à toa, as ideologias comunistas/socialistas de Marx, Lênin e outros, mais tarde, tomaram parte significativa desse pensamento e adaptaram para si. É latente ao ler ambas as obras o ponto que une os dois pensadores, Platão e More, quando os colocamos lado a lado como utópicos _ por mais que isso cause rejeição acadêmica _ para ambos, o fator determinante para o sucesso da sociedade e da comunhão social está na essência ontológica dos indivíduos e de como esta se aplica sobre o meio.

Com o apogeu da Revolução Industrial e a partir de todas as transformações culturais e sociais ocorridas no mundo, tais como, transferência da mão de obra artesanal  para a produção em maior escala através de novas máquinas, migração de grandes contingentes populacionais do campo para a cidade, crescimento desordenado das cidades e conseqüentes tensões, surgimento do sindicalismo, entre outras, surgiram novas concepções de coletividade e Estado. No início do século XX, já grassava em vários lugares do mundo nos círculos intelectuais dessa época, uma expressiva corrente de pensadores social-comunistas que atuavam fortemente nos jornais, nos sindicatos, universidades e entidades de classes altas, infundindo ideias e estratégias de tomada de poder nacionais e transnacionais.

É em 1917, com a Revolução Russa e a extinção da família e do regime do Czar Nicolau II, que esses ideólogos e revolucionários têm seu maior triunfo e alcançam o controle de todos os instrumentos de controle social, passando a por em prática suas idealizadas concepções e formas de Estado Comunal e restaurador. A realidade praticada entretanto, se mostrou o avesso de toda a pregação e propaganda: Vladimir Lênin instaurou um regime de terror, com a supressão completa das liberdades, confisco de propriedades que serviram apenas aos interesses individuais do corpo burocrático e militar dos comunistas, aumento da pobreza, fome e caos social. Esse foi através dos tempos um padrão repetido onde o Socialismo, o Comunismo e o Nazismo alcançaram projeção e o poder.

Os intelectuais é verdade, como classe pensante e doutrinadora sobre a  Cidade possuem na sua conta tanto a ideia da utopia e de suas devastadoras conseqüências, como tem também a crítica e os alertas dos perigos que as ideias podem gerar. Ou seja, é da lavra e do poder de influência dos intelectuais que brotam o conceito, a ação e a reação dentro de uma sociedade, como exortou Oscar Wilde, “A literatura sempre antecipa a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios”. Assim, é salutar ao leitor e aprendiz da literatura ser criterioso e até mesmo duvidar dela em certa medida, e, escolher antes de tudo, se se  quer uma intelectualidade dos fins ou dos meios.

A literatura desde o Iluminismo sempre foi muito pródiga em oferecer conteúdo utópico, revolucionário e de fomento às lutas entre sistemas de tomada de poder e governo, e, excepcionalmente dispôs de refutações que alcançassem um raio de influência equivalentes. Isso sobretudo desde a formulação programada da chamada Intelligetnsia, aqueles grupos de intelectuais agrupados para desenvolver e transmissão de uma cultura, nacional ou mundial.

 

                                           “A história é escrita pelo poder, a partir do poder, a serviço do poder. Romances servem para questioná-la.”

Tomás Eloy Martínez, jornalista e escritor argentino.

 

 

Há entretanto, algo que creio, deve ser pontuado quando consideramos historicamente as tentativas de implantação de modelos utópicos de sociedade; todas elas sem exceção, resultaram em regimes autoritários de poder e controle social, expressos  na supressão de direitos e liberdades individuais e numa concepção tirânica e totalitária da face do Estado. A Revolução Francesa, a Revolução Russa, O Nazismo (este com singularidades e símbolos peculiares), a Revolução Cultural Proletária de Mao Tsé Tung, dentre tantas outras, quando finalmente levadas a termo pelos líderes revolucionários que as defendiam, mostraram sua face real, violenta e devastadora outrora escondida sob uma máscara de purificação do mal e da distribuição igualitária  das esferas materiais e conceituais do Estado. Ressalte-se que, essa violência não foi projetada apenas sobre quem se mostrasse em oposição aos regimes ora implantados, e, a devastação que se produziu atingiu toda a sociedade e cultura da mesma, valores e alicerces construídos através de séculos.

As utopias então, apesar de toda uma estrutura conceitual atraente e que desperta a paixão sobretudo da juventude, não são nocivas apenas por representarem atrasos no processo histórico da civilização, por serem inaplicáveis como propostas realizáveis e por serem fomentadoras da violência contra o semelhante, mas, porque também elas têm como seus ideólogos ou timoneiros, pessoas patologicamente más, tiranos de espírito auto reverentes e que possuem antecipadamente a clara consciência do mal que têm por meio de purificação social, como nos exorta Leo Strauss: “Ora, a tirania exibe abertamente, com evidência para que todos vejam, as posses que se consideram ter muito valor. Mas também aquilo que é desagradável bem escondido na alma dos tiranos, onde a felicidade e infelicidade humanas estão guardadas (in, Da Tirania).  destaco aqui as falas de alguns desses falsos profetas que com suas ideias e lutas assolaram o mundo:

             Rousseau, apesar de toda  ênfase que deu à “vontade geral”, deixou às elites o papel exclusivo de interpretar essa “vontade geral”. Ele via as massas como algo parecido a um “estúpido e pusilânime inválido”… Karl Marx disse: “ou a classe trabalhadora se faz revolucionária, ou não é nada”. Em outras palavras, para esses intelectuais, milhões de seres humanos só tinham qualquer importância se adotassem a visão deles. O socialista Fabiano George Bernard Shaw incluía a classe trabalhadora entre os tipos “detestáveis”, pessoas que não têm “direito de viver”. Ele completava: “Ficaria desesperado caso não soubesse que todos fatalmente morrerão e não há necessidade alguma que justifique a permanência deles neste mundo”.

Thomas Sowell, in, Os Intelectuais e a sociedade.

 

As utopias finalmente, foram, são ou serão historicamente parcialmente uma expressão análoga daquilo que encontramos na literatura nas chamadas distopias, ou seja, conceitos de regimes de Estado e sociedade que na prática sempre se mostraram dissonantes da teoria apresentada para conquistar e inflamar adeptos no processo de instauração e transformação social. E, as distopias literárias mais relevantes e filosoficamente perturbadoras devem nos chamar à atenção, pois são como tubos de ensaio de realidades futuras.

Um passo antes entretanto, de entrarmos no universo das distopias literárias e levianamente querer estabelecer comparações ou equivalências definitivas entre as mesmas (utopias e distopias), é necessário expor de forma evidente, as duas maiores distinções conceituais e de instrumentalidade entre elas:

_ Na utopia, a Razão, ou racionalismo, é utilizado como alicerce no projeto de construção  de uma sociedade ideal ou perfeita e igualitária, enquanto que na distopia, a razão ou racionalismo, é utilizado para criação e manutenção de desigualdades através de meios coercitivos como a privação das liberdades, violência e o controle social.

 

Distopia _ Tirania / Totalitarismo                    

“O Wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O   brave new word,/ That has such people in’t”

                                            The tempest, by William Shakespeare     

 

Aldous Huxley foi um escritor inglês nascido em Godalming, pequena cidade do condado de Surrey, em 26 de julho de 1894. Escreveu diversas obras, romances, contos e ensaios  e, através delas lançou grande influência no meio literário onde circulava; influências filosóficas, políticas e estéticas. Huxley foi um grande adepto do uso de drogas como estímulo para processos extáticos e de expansão da mente; em 1954 com a publicação do livro ‘As portas da percepção’, alcançou grande projeção sobre a juventude, especialmente nos artistas e adeptos da ‘Beat Generation’ e  da geração ‘Flower Power’; ambos movimentos caracterizados pelo desapego material, pelo pacifismo, sexualidade aberta e diversa e, pelo livre consumo  de drogas bem como tantos outros de caráter revolucionário e ativista. Sua obra mais prestigiada entretanto é “Admirável Mundo Novo”, escrito em 1931 e publicada no ano seguinte, um romance de ficção científica carregado de presságios que refletem de forma perturbadora conteúdos políticos e ideológico dos debates da época.

Huxley era de família ilustre e que transitava os círculos intelectuais mais altos; teve no curso da vida e no desenvolvimento de sua personalidade ideias e atuações controversas. Nele residiram um misto de anarquismo e socialismo marxista viveu parte dos anos 20 na Itália onde grassava o Fascismo de Benito Mussolini e isso serviu para florescer ainda mais seu espírito libertário e sua oposição ao autoritarismo, que é a maior crítica presente em Admirável Mundo Novo. Mas, aqui é importante pontuar a confusão nem sempre honesta que se faz de autoritarismo (poder que se opõe ao direito) e do conceito legítimo de autoridade (poder derivado de direito) que tantas vezes é criticado pelos artistas e intelectuais, em Admirável Mundo Novo o que encontramos é o antítipo de regimes como Comunismo, Fascismo e Nazismo; contemplamos  os ditames e metodologia próprios dos regimes de exceção, e isso, não pode jamais ser identificado com tipificações legítimas do Estado que eram igualmente combatidos e resistidos por Huxley em sua vida e atuação literária com apaixonado ativismo. Algo merece nota a fim de que não sejamos tomados de assombro com a quantidade de prognósticos acertados que o livro projeta para um futuro relativamente próximo, Aldous Huxley assim como outros autores de romances distópicos compartilhava do ambiente onde a literatura era utilizada como ferramenta de propaganda política e onde se pactuava a formação da sociedade idealizada, então, ainda que um ou outro intelectual não fosse integralmente associado com essas ideologias, eles tiveram acesso a documentos, debates e publicidade destes.

Igualmente digno de nota é o livro “A Conspiração Aberta – Diagramas para uma revolução mundial ” do escritor britânico e membro proeminente da Sociedade Fabiana H. G. Wells, obra onde estão propostos esquematicamente os planos para a composição de uma nova comunidade global utópica administrada por um sistema de controle* soberano, um protótipo da ideia do Globalismo  moderno e onde se preconiza nas palavras do próprio Wells, “… uma coisa é bastante evidente para a maioria de nós, que está acordando para a necessidade de viver a própria vida de uma nova maneira e reformar o Estado, que é a estrutura de nossas vidas, para que atenda as novas demandas que lhe são feitas: precisamos colocar nossas mentes em ordem”.  A Conspiração Aberta é um rígido esquema pactuado  por organizações distintas e independentes, de meios de penetração na sociedade diversos que se encontram e se abraçam num fim ideal.

*Uma grande contradição que encontramos na voz daqueles que pregam a total

   reforma do Estado, é a objeção ao conceito e representação da autoridade, em

   proveito do controle total.

 

Tudo isso, entretanto, não apaga a riqueza de textos tão férteis e que despertam grandes questionamentos acerca de nosso modelo de sociedade e o papel da arte, a literatura especificamente como instrumento de propaganda; não podemos desprezar autores como Huxley, Ray Bradbury, George Orwell, Anthony Burgess e outros, uma vez que já às suas épocas anteciparam aspectos  dominantes do futuro e tornaram-se tão profundamente representados e ecoados positiva ou negativamente no meio que ora compartilhamos como comunidade

 

                                                                                                                                                   O livro

O admirável Mundo Novo de Huxley que sai das páginas do livro que chegou a ser classificado entre 0s 100 principais do século XX, tem como palco principal uma espécie de Londres pós-guerra que poderíamos enquadrar em meados dos anos 70 se levarmos em conta a maneira como algumas referências culturais e estéticas se refletiram de fato na história. Mas essa nova Londres que ressurge do conflito…conhecido como “a guerra dos nove anos” não tem como traços mais marcantes um cenário físico de hecatombe ou algo que se a assemelhe; eis que das ruínas da grande batalha que devastou e aboliu a chamada cultura antiga e seus idealizadores fez-se ressurgir uma nova e real civilização onde todos os referenciais do passado foram extintos ou completamente invertidos. No Novo Mundo ordenado e meticulosamente planejado não existe mais o cristianismo ou qualquer outra religião que guarde semelhança de sentido transcendental ou messiânico; agora o culto de referência moral e apologética é dirigido a Ford, ou “nosso Ford” como em muitas vezes, e, ainda, “nosso Freud” em outras ocorrências apontando alusivamente a Henry Ford e Sigmund Freud respectivamente, sendo eles algo como espécies de novas potentades ou arautos que em um passado próximo proclamaram e definiram os conceitos de renovação e purificação do Novo Mundo. Nele encontramos culto e adoração; igualmente dogmas templos e êxtase são presentes à vida das pessoas. As propostas apologéticas da Nova religião são o consumismo e libertinagem sexual (“orgia-bugia nos traz alegria”).  A alusão de divindade dirigida a Henry Ford principalmente, é simbolizada visualmente por um T _ uma relação com os automóveis Ford Model T que Ford produziu em larga escala e revolucionaram a indústria_, que tomou o lugar  da cruz cristã e a mensagem anunciada é a do consumismo impositivo, numa clara ironia crítica ao Capitalismo, ainda que Ford seja igualmente louvado dentre os intelectuais que conceberam a Nova civilização porque nesse mesmo processo de aprimoramento de tentativa e erro pelo qual ele chegou ao protótipo do modelo ideal de carro, ele um eugenista declarado, ele é o mestre que ensinou que o projeto humano pode ser igualmente assim adaptado. O humano que deve sobreviver é o melhor indivíduo geneticamente aprimorado, e aqueles inferiores, ou serão colocados em castas baixas para funções menos dignos dentro da engrenagem, ou mesmo serão descartados. A outra referência que se faz nesse Novo projeto religioso é a do abandono do valor e da instituição da família e a sua substituição pela promiscuidade sexual como símbolo de virtude e saúde reprodutiva, pois agora todas as crianças são agora concebidas por inseminação artificial de maneira planejada e industrial; são concebidos e criados como que em grandes berçários mecanizados de proveta.

Eis ai talvez o aspecto mais perturbador desse Novo Mundo. O erotismo e as paixões da carne não foram extintos, mas a monogamia, casamento ou fidelidade nos relacionamentos são coisas que despertam constrangimento e mesmo repugnância por parte das pessoas. Isso, porque desde que foram gerados artificialmente, as crianças são doutrinadas dia e noite através de adágios morais – os Versos hipnopédicos -, que são produtos despudoradamente de doutrinação, repetidos a exaustão por meio de caixas alto falantes espalhadas pelos espaços comuns e por mestres educadores. Os versos hipnopédicos apregoam a essência dos valores e a  moral da civilização e funcionam como mecanismo de transformação da consciência dos indivíduos, e sua presença permanente no consciente coletivo – condicionam a mente e até outras áreas sensoriais de todos para o prazer ou para a repulsa com relação as coisas possíveis nas suas experiências humanas. A rebelião dentro desse sistema é garantida ainda mais pelo uso de drogas (o S.O.M.A) que provocam o prazer e potencializam a volúpia das paixões hedonistas de cada um. Ou seja,       a felicidade ainda que artificial é usada como um contraceptivo ao primeiro sinal de instabilidade.

Daí, são por outro lado, exemplos de instituições e símbolos que despertam e provocam a repulsa dos indivíduos: a família, a velhice, a individualidade e a sensibilidade às volições artísticas. São por sua vez, axiomas inquestionáveis das sociedade: “Sem estabilidade não há sociedade”, “Sem estabilidade individual não há estabilidade social, “Cada um pertence a todos: cada um trabalha para todos, nada podemos fazer sem os outros”, todos estes, embasados em um Lema do Estado Mundial_ COMUNIDADE- IDENTIDADE- ESTABILIDADE.

Huxley que estava ciente dos debates e projetos de revolução social que permeavam os altos escalões intelectuais, faz em seu livro alusão direta aos senhores que defendem e agem meticulosamente para transformar o mundo de então, eles estão representados em alguns dos principais personagens da trama, e são claramente os construtores do mundo ideal, realizado em Admirável Mundo Novo, e inclusive, eles representam o padrão de nomeação para todos os indivíduos. Alguns deles são: Bernard Marx (George Bernard Shaw e Karl Marx), Lenina (Vladimir Lênin), Henry Foster (Henry Ford) e Darwin Bonaparte (Charles Darwin) e Thomas Malthus (Cujo nome faz referência ao Cinto Malthusiano usado como contraceptivo pelas mulheres e faz alusão a Thomas Malthus, economista britânico que elaborou uma teoria de controle do crescimento populacional ).

O elemento desestabilizador e que ascende à trama na segunda parte do livro surge exatamente quando Lenina e Bernard Marx fazem uma viagem para um lugar distante , ironicamente chamado de Malpais, que guarda vestígios da velha civilização, onde vivem indivíduos não civilizados, algo tratado como indígenas, e deparam-se com o Selvagem John, que é filho de uma gravidez ocorrida no Novo Mundo civilizado e foi banida para esse mundo bárbaro e antiquado como punição pelo ato vergonhoso e de sedição. O Sr. Selvagem desperta o interesse de Bernard para levá-lo à civilização como uma espécie de atração de “show de horrores” (Freak Shows), e, cativa o interesse erótico de Lenina, que o quer como um mero troféu para acrescer o número estatístico de parceiros sexuais. Ao chegarem os três no Novo Mundo é que começam os embates e questionamentos morais contraditórios provocados pelo Selvagem, pois ao fim de tudo, ele é dentro dessa Nova sociedade o único que mereceria ser chamado de civilizado. O Sr. Selvagem é defensor de velhos valores e crenças antigas, tais como fé no transcendente, família, liberdade e amor; ele é um indivíduo que teve acesso às Obras completas de William Shakespeare, um dos tantos livros proibidos, e neles encontrou todo a apologia da sociedade cristã descritos em seu auge.

Então é esse o substrato que vai guiar a disputa de ideias entre o que conhecemos como a tradição do ocidente e o que é Admirável (Brave) idealizado pelos intelectuais que Huxley coloca como modeladores de admirável Mundo Novo (Brave New World). O livro de Huxley coloca em lados opostos a liberdade guiada pelo que é moral e um utilitarismo de viés totalitário, algo muito presente em nosso cotidiano e que é alardeado por um número cada vez mais crescente de pessoas e tem tornado nossos espaços comuns polarizados e intolerantes.

 

 

* Fonte: Wikipedia

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