Resenha 34: O Futuro do Pensamento Brasileiro (Olavo de Carvalho)

O FUTURO DO PENSAMENTO BRASILEIRO: estudos sobre o nosso lugar no mundo

Autor: Olavo de Carvalho

Quarta Edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016, 240 pp.

Leitura realizada entre os dias 09 e 12/09/2016

Categoria: Crítica Cultural/ Pensamento Brasileiro

 

Olavo de Carvalho é um gênio do pensamento brasileiro. Sua mente aguçada sempre nos desafia a melhorarmos como pensadores ou pelo menos a começarmos a pensar embrionariamente (que é o meu caso).

Esta obra é dividida em quatro partes e aponta para uma coletânea de argumentos e premissas de cuja congruência resulta o futuro ou não-futuro do pensamento brasileiro. Na parte I ele apresenta o conceito de cultura conforme disposto em nossa constituição de 1988 e a partir daí demonstra sua própria explicação para o conceito de cultura e como esta se processa em nosso país. Na parte II, Olavo de Carvalho apresenta os extratos de uma palestra proferida na UNESCO, em Paris, e outra na Romênia. Em síntese, ele retoma a necessidade de lermos os “mortos” a partir de seus escritos originais e não a partir do que a crítica disse sobre eles; um objetivo secundário e velado é combater o relativismo, mostrando a ascensão e queda da consciência; termina com uma entrevista cedida à jornalista romena Monica Grigorescu. Na parte III, ele nos apresenta a vida e o pensamento de Otto Maria Carpeaux; por fim, na parte IV, temos descrita a vida e o pensamento de Mário Ferreira dos Santos.

Na parte I, Olavo combate o conceito de “homem de sua época”, pois se o indivíduo produziu algo de valor, certamente isto se insere e se transpõe dentro e fora de sua época; fala da universalidade do homem, de maneira mais apropriada refere-se ao seu intelecto. Por não levar isso em conta é que as revoluções ceifaram milhões de almas.

O Brasil e suas Universidades tendem a desvalorizar os grandes intelectos. Não se traduzem vultos como Platão e Aristóteles em sua integralidade para o Brasil; o que ainda temos de valor literário é Machado de Assis, um homem universal no sentido intelectual: “é que Machado, para além de sua raiz local, acabou por se vincular à tradição universal da arte literária” (p. 41).

No restante da parte I, Olavo tenta (e consegue) desconstruir o edifício do conceito de Patrimônio Cultural emitido pela Constituição de 1988, que afirma serem “o conjunto das leis de qualquer natureza que tragam referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (p. 37); só que tal assertiva impede a hierarquização de valores culturais, sendo que, por meio desta definição, grandes intelectuais são colocados ao de compositores e escritores medíocres, em nome do igualitarismo e relativismo, em nome da ruptura do conceito de Verdade Absoluta. Ele afirma que cultura deve ser mantida em torno da língua, da religião (defende a cultura católica) e de gênios individuais (elenca quatro: Gilberto Freyre, Miguel Reale, Otto Maria Carpeaux e Mário Ferreira dos Santos). Para Olavo, a estabilidade da língua e a difusão do pensamento destes quatro vultos em nossas universidades poderia melhorar e muito o padrão cultural brasileiro.

Na parte II, tratando dos excluídos, Olavo fala dos mortos como os mais excluídos dentre nós, porque além de não serem lidos, muitas vezes sequer são citados e quando muito são referenciados por pessoas que se dizem especialistas na filosofia ou pensamento de alguém, mas que não inserem o aluno e o leitor no diálogo com o vulto morto (e aqui principalmente trata dos grandes pensadores da Filosofia Ocidental). Isto é fruto do Relativismo, que nega a objetividade da verdade exposta por estes vultos. A grande sacada de Olavo foi nos mostrar não a importância de ter a capacidade de interpretar Tomás de Aquino, por exemplo, mas de deixar Tomás nos julgar a partir de seus próprios escritos. É isto que culturas e religiões guiadas por livros “sagrados” fazem. Algo do tipo: “o que Jesus faria se estivesse em meu lugar, hoje?”.

Ele afirma que a consciência individual está se perdendo na bestialização do pensamento no que tem sido cunhado como “consciência coletiva”. De Sócrates a Cristo, a consciência individual teve o seu auge; com a cristalização dogmática, tal consciência ficou engessada e com a relativização consensual passou para a prateleira de “objetos extintos”.

Nas partes III e IV, Otto Maria Carpeaux e Mário Ferreira dos Santos são tratados como heróis esquecidos, que estão vindo à tona novamente por meio de esforços de pensadores como Olavo de Carvalho. Leia esta obra provocadora e necessária ao pensamento brasileiro.

 

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