Carta aos cristãos (2): aos jovens feios

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Caro jovem feio, é com imensa satisfação que me dirijo a você com a finalidade pura e simples de glorificar a Deus por meio de algumas poucas palavras relativas à feiura. A estética seja ela voltada para a face ou para o corpo como um todo chama bastante a atenção de jovens em diversas faixas etárias, mas ela não é determinante para um bom casamento e nem é sinônimo de um casamento feliz. Se fosse por esta lógica, crente feio seria fadado ao fracasso e à infelicidade.

É bem possível que você esteja incomodado em saber que é o destinatário desta carta, mas por gentileza, não fique chateado comigo. Falo como alguém que já sentiu na pele sua atual condição, de jovem [e aqui delimito jovem como indivíduo ainda não casado] feio. Hoje sou um casado feliz, que, pela misericórdia de Deus, aprendeu a suplantar qualquer trama relacionado à feiura. Se este motivo não é suficiente para lhe convencer de minha boa intenção em te ajudar, pense, então, em seu amigo “mais feio que você” e perceba que se há possibilidades de real satisfação matrimonial para ele, pense em como as implicações deste texto podem ser úteis para ele. E, de tabela, sem que você perceba, já estarás afetado pelo texto. Por outro lado, se você é a pessoa “mais feia que você conhece” não perca as esperanças: isto não te diminui em nada e nem te impossibilita de ter um casamento feliz.

Em primeiro lugar, preciso dizer francamente que caso tenhas algum trauma quanto à sua estética, você só conseguirá superá-lo quando realmente encarares este problema dentro dos parâmetros da realidade. Ora, se no parágrafo anterior você se sentiu incomodado, tentando negar que “é feio” ou que sua feiura é algo que não deve ser levada em consideração por terceiros, posso lhe assegurar que você é um sério candidato a ter sérios problemas quanto a isto. Quanto mais você negar que é, mais longe de lidar com este “adendo” multiuso a ti outorgado por Deus. Não é que você sairá por aí falando para o mundo ouvir: “eu sou feio, graças a Deus! Deus me fez assim e eu sou criado à imagem e semelhança dEle, logo eu sou lindo em meu ser.” De fato, é mais ou menor por aí. Sua sentença é verdadeira. Mas, deixa eu te contar um segredo: não precisa contar para ninguém. Conte para você mesmo e se convença disto: da perspectiva estética ocidental do século XX, eu sou feio. Talvez na do século XXI, você seja considerado muito bonito (mas, prefiro que fique com a do século XX).

Em segundo lugar, ao se convencer de sua feiura, mesmo que tenha sido objeto de chacota ao longo de sua infância, adolescência, ou até mesmo nos dias de hoje (tendo sido comparados com animais pequenos ou grandes, com objetos os mais diversos possíveis, desde ossos até superfícies metálicas ou esféricas, bem como seres alienígenas das formas mais variadas possíveis e toda a gama de aberrações visuais contidas no imaginário das histórias em quadrinhos, cinema e literatura imaginativa), saibas que foi Deus quem te deu esta forma física. Entenda que o pacote providencial de Deus para sua vida não inclui apenas as porções exteriores de teu corpo, inclui o aparato intelectual, a força, a memória, as sensações. Imagine a perfeição de seu corpo, mesmo que limitado ou mesmo que possua alguma deficiência, mas quanto às partes funcionantes, perceba a beleza de sua funcionalidade, os arranjos anatômicos em perfeita harmonia para gerar o movimento, a estrutura gastrintestinal perfeitamente preparada para receber os alimentos; o sistema urinário perfeitamente habilitado para eliminar excretas nitrogenadas, sua visão hábil para contemplar as maravilhas do Criador (inclusive você mesmo diante de um espelho), seu paladar hábil para degustar cada uma das guloseimas, pratos simples e sofisticados à sua disposição; suas pernas habilidosas para andar e correr (principalmente quando um cachorro valente está por perto); seus dedos e sua coordenação motora hábil para pintar, desenhar, escrever e fazer os mais diversos serviços e trabalhos; seu olfato que apreende os mais delicados odores (e também os mais indesejados), bem como sua audição que capta sons maravilhosos, como o barulho de uma cascata, o canto dos pássaros, o leve e apreciável zunido das “carapanãs” (muriçocas), a voz suave de sua mãe te chamando para arrumar o quarto e a Nona de Beethoven. O ato de sorrir é uma bênção e o prazer de estudar e acompanhar bons sermões é uma das grandes maravilhas a nós outorgadas. Você tem todo este aparato outorgado a você, que faz de você, você, mas às vezes só consegue olhar para sua estética, para o invólucro e perder a bênção de desfrutar da “beleza” que tens à tua disposição: você mesmo, um ser criado à imagem e semelhança de Deus. Não culpe Deus por sua aparência. Seja grato a Deus por você inteiro, com sua aparência, que te individualiza aos demais como “você”.

Terceiro, é verdade que a língua de certas pessoas será implacável e muito criativa em exaltar teus dotes estéticos. Certamente, você já ouviu alguém dizendo algo do tipo: “fulano é tão legal, mas o bichinho é ‘feinho’ que dói”. Talvez você, sem querer, descobriu alguém usando estas mesmas palavras referindo-se a você. Uma dor lancinante atingiu sua alma e você saiu de cena, de maneira bem sorrateira, sem manifestar que estivera ali. E neste momento de dor em que os pensamentos alheios te são revelados, para você é como se a casa tivesse caído e todas aquelas belas construções e ideais que tinhas em mente te fizeram recolher-se em amargura clamando de maneira crudelíssima: “se é assim, também, não quero mais saber de amizades com ninguém, tampouco, confiarei mais no próximo”. Ei, rapaz, não é hora de entregar os pontos. Tal pessoa apenas revelou um pensamento que você mesmo já teve para com pessoas mais feias que você, apesar de não tê-los explicitado. O comentário alheio, que é real, e apenas aponta para a hiper-realidade da beleza humana, como elemento central e determinante da “verdadeira humanidade” (e está errado). Você sabe que este comentário também pode ter sido feito em tom realista mesmo, ou seja: “ele é feio mesmo e por mais que tenha outras qualidades e belezas muito atraentes, sua feiura fala mais alto”. Pronto! Isto é o que esta pessoa pensa, mas não implica dizer que seja o pensamento das demais (talvez 1 entre 1.000.000 pense diferente. Tá vendo? Existe esperança). O pensamento de tal pessoa não suprime a realidade do que falei no parágrafo anterior. Apegue-se a Ele e apegue-se à suficiência de Deus, ao que Deus fez por você: criando-o, provendo-lhe de bens e meios para sua manutenção, crescimento e desenvolvimento de habilidades; pense no que Deus fez por você, trazendo real alegria ao teu coração, desde o dia em que você reconheceu Jesus como seu Salvador.

Quarto, alegre-se e deleite-se em seu Deus e lembre-se de Provérbios 15:13 a “o coração alegre aformoseia o rosto”. Eu sei que você compreende figuras de linguagem e de forma alguma interpretou este texto ipsis literis, como se a alegria do coração transformasse as feições faciais de uma “Fera” ou de um “corcunda de Notre Dame” em um “Leonardo DiCaprio” ou um “George Clooney”. A alegria do coração não é um “abracadabra esteticista” que transforma dragão em princesa, sapo em príncipe. A ideia é que, de fato, o sorriso expresso na face de alguém que de fato vivencia alegria no coração, e tal alegria que nos surpreende, só pode advir de Cristo, torna-nos mais simpáticos, mais atraentes e mais toleráveis socialmente. O signo ou a representação emitida por sua face pode ter outra nuance quando você sorri; muito melhor que qualquer cosmético, escova progressiva, maquiagem da Mary Kay ou produtos da Jequiti. Em outras palavras, antes dos adereços e dos enfeites, saiba que o sorriso e o coração alegre são potentes agentes cosméticos para você. Em outras palavras, se você é feio e vive carrancudo, já sabe que isso não te ajudará muito. Preciso aqui também dizer que não é de grande artifício aquela ideia de “o que vale é a beleza interna” e a carranca demonstra um interior cheio de insatisfações, então aí, certamente, o seu interior acresce feiura àquela já existente. Muitos dos que apontam para o argumento da beleza interior são tão cheios de remorsos, ressentimentos, intrigas e insatisfações com os jovens de sua igreja e amigos da escola ou faculdade ou trabalho que findam exteriorizando mais feiura ainda. As maiores batalhas são travadas não diante de um espelho ou de uma fotografia sua, mas diante do espelho de sua consciência e de sua alma. Quando o ressentimento e a raiva por ter sido “considerada feia ou feio” ou ter sido objeto de chacota social forem extirpados, as conveniências estéticas poderão ser lidadas com muita tranquilidade. Seu maior inimigo não é o espelho, sua aparência, Deus, ou aqueles que depreciam seus dotes físicos. Seu maior inimigo é sua carne e ela se manifesta neste vitimismo esteticista. Fuja disso.

Quinto, lembre-se que as coisas podem melhorar com o tempo (ou piorar). Por isso, não se apegue a isto como âncora para sua vida. Estude, deleite-se, busque agradar a Deus, sorria, lembre-se do ponto 2, entenda que a manifestação da graça de Deus, em dependência dEle poderá te ajudar na escolha e no processo de espera pelo namorado, pelo noivo e pelo marido ou namorada, noiva e esposa. Mas, não se apegar a 1 Samuel 16:7 como amuleto – “porque o senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém, o Senhor, o coração.” Este texto não fala necessariamente de feiura ou de beleza. Se assim o fosse, pelo texto deveríamos considerar que Davi era um jovem feio. Mas, 1 Samuel 16:12 nos diz que Davi era “ruivo, de belos olhos e boa aparência.” Você já tinha observado este detalhe no texto. Veja ainda 1 Samuel 16:18 e perceberá que Davi não era feio, mas que não tinha o aparato militar que seus irmãos, uma vez que a função que exercia era a de pastor de ovelhas. Agora, isto não quer dizer que você vá ficar no borralho esperando logo surgir uma fada madrinha com sapatinhos cintilantes. Lembre-se que a gata borralheira era bonita e que Betty, a feia, também já era bonita, só que a forma como se vestia encobria sua beleza. Isto nos faz pensar que suas vestimentas e seus ornamentos, mesmo que feitos de maneira moderada e recatada, devem contribuir para ornar, mas não isto apenas, mas um espírito piedoso diante do Senhor, que se satisfaz nEle, que se contenta nEle, e que espera nEle pelo cônjuge. Lembre-se que a mulher virtuosa se vestia bem, era satisfeita em sua casa; lembre-se que o povo de Israel, como representante da noiva de Deus no Antigo Testamento (Ezequiel 16) foi ornada e embelezada com aparatos exteriores pelo próprio Deus. Há espaço para embelezamento. Se até as belas ficam mais belas quando passam por um “salão de beleza”, há espaço para que as feias fiquem menos feias quando presentes nos mesmos “salões”; e, até mesmo, em tempo oportuno, você sabe que por experiência conhece pessoas que há 20 anos eram tidas como muito feias, mas que hoje são tidas como pessoas que têm um certo charme. Mas não se confie nisso. Pois, de repente, você pode ser um daqueles sortudos que ficarão mais feios ainda, depois da meia-idade.  Bom, detalhes estéticos à parte, há espaço para feios e bonitos no reino dos céus e há espaço para feios e bonitos no casamento. Um bonito casar com uma feia e fazê-la feliz, de maneira que esta não fique com aquela pulga atrás da orelha: “será que ama mesmo”. Ora, até pessoas bonitas sofrem traições, de maneira que o fator determinante para o “amor” não é tanto a estética, mas o indivíduo per si; aliás, nem tanto, o indivíduo como objeto do amor, mas o indivíduo como agente do amor. E sua aparência, adocicada por um coração alegre e aperfeiçoada pela alegria de Cristo, manifesta num viver santo e piedoso e num embelezamento adequado e não extravagante, culminará em demonstrar pelo signo, o sinal de sua face e de seu corpo, para aquele ou aquela que aos poucos vai te conhecendo melhor, alguém de fato bonito ou bonita. Ao te olhar, teu marido verá em ti beleza, pois esta não se restringe à aparência, mas carrega no signo estético a representação de tudo o que seu ser de fato é, mesmo que você convencionalmente seja tido aos olhos humanos como “feio”. Bem, isto não é um tratado de Estética, aliás, são apenas palavras que tentam mostrar o aspecto transcendental da mera estética facial humana.

Caro irmão ou irmã, jovem, feio, ou feia, que estas palavras te consolem e te animem.

Em Cristo,

Um ex-jovem feio,

Fares Camurça Furtado.

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