A.O.A. (06) – O grande pecado: a guerra interna de todo homem (Ercácio Nunes)

O GRANDE PECADO: A GUERRA INTERNA DE TODO HOMEM[i]

Ercácio Nunes de Oliveira[ii]

ercácio

Sobre o autor: Ercácio Nunes de Oliveira possui graduação incompleta em Direito (FAP-Juazeiro do Norte); é graduando em Teologia (FBC-Crato); tem atuado como presidente e palestrante do Grupo de Apologética Cristã do SBC/FBC – AXIOMA; auxilia o trabalho na IBR em Vacaria e é membro da Primeira Igreja Batista Regular de Farias Brito.

 

 

O GRANDE PECADO: A GUERRA INTERNA DE TODO HOMEM[i]

Uma das obras mais conhecidas do Cristianismo moderno e pós-moderno é o clássico livro “Cristianismo Puro e Simples”. Ele foi escrito por C.S. Lewis (1898 – 1963) durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), quando a BBC de Londres o convidou a ministrar algumas palestras pelo rádio com o propósito de levar ao povo oprimido pela sangrenta guerra um pouco de esperança, e aos soldados e demais ouvintes naquele contexto um motivo para retornarem à vida com a uma fé reavivada (eles já haviam perdido quase toda).

Na obra ele fala sobre vários temas como o amor, a fé, caridade, amizade, transformação de caráter e muitos outros, dentre eles a humildade (A Grande Virtude), todos necessários para que qualquer homem ou mulher estejam dispostos a se tornarem seres humanos melhores, independente da denominação que seguia ou passaria a seguir (ele era anglicano!).

Apesar de considerar altamente relevantes todos os temas tradados por Lewis no livro, o propósito do presente escrito é refletir sobre o orgulho (O Grande Pecado) mediante uma análise na seção que trata sobre o “Grande Pecado”. O curioso é que C.S. Lewis não busca defini-lo de modo abrangente, mas, com o seu modo cativante ele explora o assunto com afirmações do que seria e o que não seria o orgulho, levando-nos a entender algo sobre a definição ou conceituação que ele pretende trabalhar.

Pois bem, o breve percurso que seguiremos tem como base a própria estrutura do autor, onde trabalharemos o que seria o orgulho, o que não seria, um modo de identifica-lo, e após isto, faremos algumas considerações importantes.

lewis

C.S. Lewis

Em primeiro lugar, precisamos destacar que o orgulho na perspectiva de Lewis, só é possível com a existência de Deus. Quando chegamos no “Grande Pecado”, ele já tem desenvolvido uma base considerável que dá sustentação ao conceito de orgulho como algo mal, especialmente a ideia de que certo e errado são conceitos inerentes ao gênero humano (o que ele chama de Lei Natural), só sendo possível se houver um Ser que transcenda a raça humana para reger esse fenômeno tão basilar para a ética cristã. Sobre isso ele diz o seguinte: “Se o universo não é governado por um Bem absoluto, todos os nossos esforços estão fadados ao insucesso a longo prazo. ” (LEWIS, p. 42)

Lewis foi um ateu ferrenho durante boa parte de sua vida, homem muito inteligente que acabou caindo frente ao argumento da moralidade universal; ele até relata um breve testemunho sobre isso: “Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tiraria essa ideia de justo e injusto? ”. (LEWIS, p. 51) Nancy Pearcey ainda mais enfatiza a crítica a este ponto no seu livro Verdade Absoluta, quando observou que as claras evidências mostram que sociedade alguma jamais teve sucesso em ensinar moralidade sem religião. ” (PEARCEY, p. 67)

O orgulho é algo que todos possuem, porém, apenas os cristãos têm o potencial dado por Deus para assumirem tão grande desventura. Algo bem curioso é que os descrentes geralmente não reconhecem que são orgulhosos, nem toleram as pessoas que são. (LEWIS, p. 161) Nese prisma, segundo Lewis, o centro da moral cristã acaba sendo a humildade, ou o não-orgulho.

Lewis também nomeia o orgulho de mal supremo. Este suplanta consideravelmente a devassidão, ira, cobiça, embriaguez, e muitos outros males. Na verdade, o orgulho leva a todos esses outros males. (LEWIS, p. 162) Nancy Pearcey, interpretando Agostinho na obra Cidade de Deus, afirma que: “Ajudamos a construir a Cidade de Deus quando nossas ações são inspiradas e dirigidas pelo amor de Deus, sendo oferecidas ao seu serviço. Construímos a Cidade do Homem sempre que nossas ações são incentivadas por amor-próprio e servem de propósitos pecaminosos. ” (PEARCEY, p. 43) Vale lembrar que Agostinho escreveu esta obra para defender os cristãos das acusações de que os mesmos eram responsáveis pelo declínio do Império Romano, e mostrar os reais motivos para tal fenômeno, entre eles está o orgulho dos homens (o que é chamado de amor-próprio).

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Nancy Pearcey

Obviamente, para Lewis o problema não é de se ter amor ou sentir prazer por si mesmo ou por algumas coisas, mas, o desejo de “somente (…) ter mais que a pessoa ao lado. ” (LEWIS, p. 163) A questão é: Qual a nossa motivação em querer o que nós queremos ou de buscar o que nós buscamos? Para ele, o fato de querermos as coisas para exceder o outro, trata-se de uma das “facetas” do orgulho.

O que vimos acima são apenas alguns indícios que apontam para um conceito bem geral do que seja o “Grande Pecado”, ou seja, o orgulho na perspectiva de Lewis. No entanto, algo digno de destaque é que ele dedica praticamente metade do capítulo para dizer o que não é orgulho, pois, segundo o modo como desenvolve o tema, deixa evidente que nem todo orgulho é pecaminoso, por exemplo, o prazer de ser elogiado. Ficaria mais no campo do contentamento. Precisa haver o deleite no elogio, não em nós como um fim em si mesmo. Ele explica: “O problema começa quando você deixa de pensar ‘Eu agradei: tudo está bem’, e substitui esse pensamento por outro: ‘Eu sou mesmo uma pessoa magnífica por ter feito isso. ’” (LEWIS, p. 167)

Tem o outro lado dessa situação, quando não nos importamos com o que os outros acham, não por acreditarmos que a opinião de Deus é a mais importante, mas, porque desprezamos os outros e achamos que a opinião deles não vale de nada. Já somos “o Tal” (p. 169).

O homem, também, não é orgulhoso por ter orgulho de algo (ex.: do seu filho, de seu pai, de sua escola, etc. Isto significa, “ter uma calorosa admiração por algo ou alguém” (p. 169). Ainda assim, se essa admiração é simplesmente por que te eleva para um patamar acima dos outros, é orgulho no sentido pecaminoso. Precisa ser algo que nos eleve e eleve o outro por conta da dignidade que o outro possui, não o oposto.

Claro que em certo sentido, o orgulho ofende a Deus. Deus não é orgulhoso no mal sentido e nem sua humildade compactua com o orgulho. Pelo contrário, quando nos aproximamos dEle seremos despidos da falsa visão que temos de nós mesmos e passaremos a ser mais humildes por estarmos em contato com Ele; a suprema humilde. E certamente, O verdadeiro humilde, não é o humilde que hoje falam. Não é alguém sempre passivo e bajulador que sempre diz que não significa nada. Possivelmente, na maioria dos casos o verdadeiro humilde será alguém animado e inteligente que se interessou por você e pelo que você tem a lhe dizer. Ele não ficará pensando em ser humilde o tempo todo, nem pensando em si mesmo.

Para descobrirmos se somos orgulhosos ou não, não parece ser algo muito difícil. Basta observarmos o nosso procedimento para com os outros, e fazermos algumas perguntas a nós mesmos, como as que Lewis destaca: “Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: ‘Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem a minha presença, (…) ou se exibam na minha frente’? ” (LEWIS, p. 162)

Não são as virtudes de uma pessoa que constituem o orgulho, mas a comparação que torna ela orgulhosa, ou o prazer de estar acima do restante dos homens. Viktor E. Frankl no seu livro Em busca de Sentido, reconheceu essa verdade ainda no campo de concentração de Auschwitz quando falava da inveja que nutriam da condição dos próprios colegas de “sofrimento”: “Mesmo entre nós, que tínhamos que trabalhar em grupos de trabalho externo, podia ser que aquele destacado para um comando pior invejasse outro justamente por este não ter a infelicidade de ficar doze horas por dia descarregando as vagonetas de uma linha rural, numa encosta íngreme, com o barro até os joelhos. ” (FRANKL, p. 65)

 

Devemos lembrar neste ponto que C.S. Lewis está proclamando estas palestras para o povo participante da Segunda Guerra. Os seus ouvintes ou os que teriam acesso as palestras, possivelmente são os arrogantes opressores (os nazistas) e os oprimidos invejosos (não desprezando o sofrimento dos mesmos).

Por conta disto, e esta é minha tese básica, acredito que não é sem motivo que o capítulo anterior ao do “Grande Pecado” trate sobre perdão e o seguinte sobre a caridade, porque além de ser uma virtude necessária a ser falada no Cristianismo, serviria para:

1) fazer os oprimidos reconhecerem que em Jesus Cristo até os nazistas poderiam ser perdoados (Lc 17.4-5);

2) conduzi-los ao amor pelo próximo, quer seja inimigo ou não (Mt 5.43-46);

3) reconhecerem que não eram superiores aos nazistas, pois, todos portavam, tanto uns como os outros, a imagem de Deus (Gn 1.27; Tg 3.9);

4) levar os soldados a reconsiderarem as suas condutas frente aos oprimidos;

5) entenderem que todas as virtudes trazidas a luz nas palestras, faziam todo o sentido pela existência de Deus;

6) e que seria possível retroceder das suas más ações (orgulhosas), pois havia perdão e amor disponíveis em Deus.

 

Você acha que se os oprimidos pudessem, eles se tornariam opressores dos nazistas? Por qual motivo tudo aquilo aconteceu com os oprimidos? Por qual motivo os homens amam tanto o poder? É, segundo Lewis, para sentir-se superior aos outros. Isto é a atitude de um orgulhoso. Destarte, sempre que existirem pessoas mais belas, mais ricas, mais inteligentes e mais poderosas que nós, elas geralmente serão nossas inimigas. (LEWIS, p. 164)

Sobre esse assunto, outro fato interessante acerca dos oprimidos na Segunda Guerra, era a forma como eles curavam a falta de sentido para viver por meio da autoestima (em muitos casos: o orgulho com um nome mais requintado). Viktor E. Frankl, que fez parte do campo de concentração, afirma que o homem perde o sentido da vida quando se depara com o sofrimento, a culpa e a finitude da vida, o que ele chama de “Tríade Trágica”. Então, o homem para “viver” precisa de algo que faça com que ele tenha novamente um sentido para o viver.

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Viktor E. Frankl

Ele chama esta solução de “Otimismo Trágico”, que em linha gerais, poderíamos afirmar que não levando Deus em consideração pode se tornar uma forma orgulhosa de buscar sentido na vida, perceba na sua própria fala: “otimismo trágico, isto é, um otimismo diante da tragédia e tendo em vista o potencial humano que, nos seus melhores aspectos, sempre permite: 1. Transformar o sofrimento numa conquista e numa realização humana; 2. Extrair da culpa a oportunidade de mudar a si mesmo para melhor; 3. Fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis. ” (FRANKL, p. 161)

Percebem como poderia ser tratada a falta de sentido dos oprimidos na Guerra? Por este motivo, tomando agora as palavras de Lewis, o orgulho é algo que o diabo pode até (e faz isso) usá-lo para curar outros pecados. Já ouviram conselhos para vencerem a covardia, a luxúria ou o mau humor, com a ideia de uma dignidade mais elevada? Em outras palavras, vencer pelo orgulho. Nessa ótica, é como se você vencesse uma febre com um câncer, pois “o orgulho é um câncer espiritual”. (LEWIS, p. 167). Lewis declara: “No momento em que possuímos um ego, temos a possibilidade de nos colocar em primeiro lugar – de querer ser o centro de tudo – de querer, na verdade, ser Deus. Esse foi o pecado de Satanás, e foi esse o pecado que ele ensinou a raça humana. ” (LEWIS, p. 65)

Nós não podemos tratar de nenhum pecado com o orgulho (por hora o chamaremos de autoestima). Timothy Keller, falando como tem sido tratado a baixa autoestima no contexto pós-moderno, diz no seu livro “Ego Transformado” o seguinte: “eis o que diriam: ‘Decida quem você quer ser e seja, pois, o que realmente interessa é como você se enxerga’. (…) a sociedade moderna conhece apenas uma forma de lidar com a baixa autoestima. E o remédio é a autoestima elevada. (…) Hitler talvez tivesse a consciência limpa, mas isso não significa que ele era inocente. ” (KELLER, p. 28,29)

Não podemos usar métodos que excluam Deus para curar o nosso orgulho. Ele é o fundamento das nossas ações e decisões. Ele deve ser sempre a nossa “Teo-Referência”, como afirma o teólogo presbiteriano Davi Charles Gomes. É desta forma que devemos tratar o Grande Pecado.

Como, então, podemos vencer o grande pecado?

Primeiro, reconhecendo a malignidade do orgulho. O orgulho é um pecado tão terrível que, sempre causa inimizades entre um homem e outro, e entre o homem e Deus. (LEWIS, p. 165)

Segundo, esquecendo-nos de nós mesmos, porque “a verdadeira prova de que estamos na presença de Deus é que nos esquecemos completamente de nós mesmos ou então nos vemos como objetos pequenos e sujos. ” (LEWIS, p. 166)

Terceiro, reconhecer o orgulho que habita em nós. “Se você acha que não é presunçoso, isso significa que você é presunçoso demais. ” (LEWIS, p. 171)

Quarto, eliminar a competição que há em nós para com o nosso próximo. Se queremos o avanço do Reino de Deus e o bem comum dos homens, não olhemos para os outros como nossos adversários, mas como nossos aliados. “Se a competição for eliminada, vai-se o orgulho”. (p. 163)

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Timothy Keller

Quinto e último, ore a Deus. Não considere a oração algo sem importância nessa luta. Pelo contrário, ela é a arma mais importante. “Ore pedindo que Deus lhe dê o necessário para desenvolver a humildade que vem do evangelho e conquistar a liberdade resultante do auto esquecimento. ” (KELLER, p. 48)

Portanto, “a humildade (…) brota do evangelho e traz a verdadeira alegria”. (Timothy Keller) Que Deus nos ajude a vencer tão intensa guerra. Amém!

 

BIBLIOGRAFIA

FRANKL, V.E. Em busca de Sentido. 35 edição. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2014.

KELLER, T. Ego transformado: a humildade que brota do evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2014.

LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. 3 edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

PEARCEY, N. Verdade absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

 

 

_________________________________________________________________

[i] Palestra ministrada no ano de 2016 em um evento que tinha como tema a luta contra o orgulho.

[ii] Graduando em Teologia pela Faculdade Batista do Cariri (FBC) e atual presidente do Grupo de Apologética Cristã AXIOMA (SBC/FBC).

 

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