A.O.A. (08) – Rubens de Oliveira Rodrigues – Desmitologizando Bultmann.

Desmitologizando Bultmann:

Alguns apontamentos e contribuições

 

Por: Rubens de Oliveira Rodrigues[1]

 

RESUMO

O teólogo alemão Rudolf Bultmann foi tão genial quanto controverso. Suas obras deixaram marcas para todas as gerações de teólogos. O presente artigo objetiva uma breve análise da teologia bultmanniana, especialmente sobre o seu método hermenêutico da desmitologização. Além disso, pretende-se apontar as principais contribuições do teólogo de Marburg para à teologia ortodoxa.

 

Palavras-chave: Desmitologização. Teologia. Hermenêutica. Liberalismo. Neo-ortodoxia.

 

INTRODUÇÃO

Rudolf Bultmann nasceu em 20 de agosto de 1884 em Wiefelstede, província de Oldenburg, no norte da Alemanha. Seu pai, Arthur Bultmann, fora um pastor luterano e o seu avô, missionário de tradição pietista. Ele cursou teologia em Tübingen, Berlim e Marburg, onde se tornou professor de Novo Testamento de 1921 até se aposentar em 1951. Em Marburg, interessou-se pela teologia dialética, influenciado por Søren Kierkegaard e, em especial, pelo filósofo Martin Heidegger. Essa influência ocorreu em detrimento de haver estudado aos pés de Herman Gunkel e Adolph Von Harnack, de fama liberal e orientação histórico-crítica.

A principal preocupação de Bultmann como teólogo era a de tornar a fé cristã compreensível ao pensamento moderno. Para tanto, influenciado pelo existencialismo, via a mensagem bíblica como a Palavra de Deus dirigida ao indivíduo e pedindo uma resposta de fé também do indivíduo. Ele não via grande diferença entre a exegese e a teologia sistemática, pois, em sua concepção, ambas têm o papel de explicar a existência humana em relação a Deus ao ouvir a Sua Palavra, a qual é dirigida ao indivíduo através do Novo Testamento.

O teólogo de Marburg insistia que uma das principais funções da teologia em todas as épocas é entender o kerygma, isto é, a mensagem revelada, e traduzi-lo para uma “linguagem” cada vez mais atual para quem a ouve. Bultmann também fizera uma distinção entre conteúdo essencial e forma estrutural, na mensagem cristã. O conteúdo essencial seria aquilo que permanece imutável e a forma estrutural pode variar de geração para geração. Esta última pode ser tríplice: mítica, metafísica e científica. Mas, para ser compreensível tem de corresponder à mentalidade da geração a que a mensagem está sendo endereçada. Segundo ele, a mentalidade dos cristãos do primeiro século era mítico-metafísica. Portanto, a expressão que deram a mensagem de Cristo era mítica e metafísica. Para compreender a mensagem da Palavra é necessário desmitologizar, ou seja, despir o Novo Testamento dos mitos com que a igreja primitiva envolveu os escritos.

Diante de tudo isso, Bultmann tem se destacado por sua genialidade e, ao mesmo tempo, pela controvérsia quanto a elaboração da crítica da forma no Novo Testamento. No presente artigo, portanto, faremos uma breve análise do pensamento do teólogo de Marburg, bem como, apontamentos em algumas de suas obras. Por último, pretende-se esboçar  as principais contribuições da sua teoria de desmitologização para a ortodoxia cristã.

1 – A TEOLOGIA DE BULTMANN

bultmann1

Rudolf Bultmann

Como mencionado na parte introdutória, Bultmann deu origem a crítica da forma no Novo Testamento. Segundo Elwell (2009), a crítica da forma é uma das várias abordagens da Alta Crítica, o estudo das Escrituras do ponto de vista da literatura. Elwell afirma que a crítica da forma encoraja o reconhecimento das unidades literárias segundo as suas formas. Por exemplo, ela é útil no estudo das parábolas, milagres e ditos de Cristo, ou no reconhecimento de que o quarto evangelho é escrito na forma de uma tábua babilónica antiga, completa com o título, o texto e o colofão (ELWELL, 2009, p. 50).

Percebe-se que a crítica da forma procura analisar o texto sagrado como qualquer outro tipo de literatura. Enns, ao avaliar Bultmann, diz que os “críticos da forma abordam a Bíblia como qualquer outra peça da literatura, dissecando-a de um ponto de vista puramente subjetivo (ENNS, 2014, p. 701). Lopes (2005) identifica Bultmann como um adepto do método histórico-crítico, outra expressão da Alta Crítica.             Proponentes do método histórico-crítico são conhecidos como teólogos liberais. Para eles, desde os tempos da igreja primitiva o mundo passou por diversas e sucessivas alterações culturais, razão pela qual as terminologias bíblicas e outras declarações de fé contidas em credos são dificilmente compreensíveis na atualidade. Por isso o cristianismo, segundo eles, tem buscado adaptar a sua linguagem às diferentes situações culturais (COSTANZA, 2005).

Bultmann, como vimos, mantinha uma crença semelhante. Em sua concepção a mensagem da Bíblia possuía uma certa dificuldade de compreensão. Mas isso ocorre porque o Novo Testamento emprega uma linguagem mitológica de sua época (BULTMANN, 1999). Ainda, uma vez que o homem moderno nunca vê a história como sendo regida sobrenaturalmente por Deus, é necessária a desmitologização, que “não se propõe eliminar os enunciados mitológicos, senão interpretá-los” (Idem, 2000, p. 16). Por esta razão, não se pode aceitar as concepções mitológicas da Bíblia, pois o homem moderno está imerso no pensamento científico. Enquanto o Evangelho for apresentado nos moldes pré-científicos, seguirá sendo um distorcido (ALLEN; SPRINGESTED, 2010).

De acordo com Mondin , o teólogo de Marburg enfrentou três grandes momentos no decorrer do desenvolvimento da sua teologia, relacionados à hermenêutica: 1) passagem da teologia liberal para a teologia dialética; 2) passagem da teologia dialética para a teologia existencialista; e 3) o momento da demitização (MONDIN, 1979-1980, p. 125). O último já fora mencionado.

No primeiro momento, embora tenha aprendido bastante com liberais, Bultmann envolveu-se numa polêmica com a escola liberal e desenvolveu o método histórico-morfológico que, embora conserve alguns elementos do método histórico-crítico dos liberais, possui novos elementos. No método histórico-morfológico, Cristo é investigado da maneira como ele era representado pelos cristãos primitivos. Para isso, era preciso fazer uma análise dos Evangelhos, identificar as diversas representações de Cristo e estabelecer qual era a tradição da igreja primitiva.

Ao aderir à filosofia existencialista de Heidegger, Bultmann protestou contra o método histórico-morfológico, bem como de qualquer outro tipo de exegese. Em sua perspectiva, para compreender as Escrituras era necessária uma pré-compreensão existencial (Ibid, p. 126). Nesse segundo momento, o autor de Jesus Cristo e Mitologia afirma que toda interpretação que visa compreender, deve ter uma disposição de pesquisa, de alguém que está disposto a interrogar e ouvir. É isso que ele chama de pré-compreensão, que por sua vez tem um caráter existencial. O texto trata de mim e, portanto, é algo pessoal. O encontro com a Palavra de Deus deve ser existencial e, através desse encontro, o indivíduo deve decidir além de si mesmo sobre si mesmo (Ibid, p. 127).

Ante o exposto, embora assemelhe-se ou até mesmo seja identificado por alguns teólogos como um liberal[2], Bultmann é melhor relacionado, conforme Grenz e Olson (2013), à escola neo-ortodoxa. “A despeito de certas diferenças entre eles, Bultmann se considerava um aliado de Karl Barth no desafio neo-ortodoxo ao liberalismo” (GRENZ; OLSON, 2013, p. 100). É importante mencionar que, assim como Karl Barth [“pai” da neo-ortodoxia], Bultmann fora influenciado por Søren Kierkegaard [“avô” da neo-ortodoxia] (ENNS, 2014, p. 699).

2 – A desmitologização como um método hermenêutico

O teólogo da desmitologização afirma que a sua teoria é, na verdade, um método hermenêutico, ou seja, um método de interpretar ou de se fazer uma exegese (BULTMANN, 1999, p. 69). Bultmann afirma que a exegese sempre é feita com base em pressupostos, ainda que o intérprete seja inconsciente disso. Segundo o teólogo de Marburg, “fica evidente que cada intérprete enceta seu trabalho portando certas concepções, sejam idealistas ou psicológicas, que se convertem em pressupostos de sua exegese, na maioria das vezes de modo inconsciente” (Ibid, p. 71).

A pergunta que se faz é: Quais os pressupostos ou concepções adequadas? Bultmann responde alertando que a exegese deve ser desprovida de pressupostos sobre os resultados de nossa análise. Não se pode saber com antecedência qual o sentido do texto. A exegese não pode pressupor resultados que reafirmem uma doutrina que o exegeta defende (Ibid, p. 72). Bultmann afirma que o primeiro pressuposto de qualquer exegese, é “que nossa própria relação com o assunto ou causa provoca a pergunta que formulamos ao texto e também suscita a resposta que dele obtemos” (Ibid, p. 73). Ele não rejeita os métodos da pesquisa histórica, mas enfatiza que o interesse do intérprete deve estar centrado em escutar o que as Escrituras têm a dizer para a atualidade. Ocorre que há um conflito entre as concepções mitológicas do mundo presentes na Bíblia e as concepções modernas do pensamento científico. Por essa razão, tornou-se necessário o empreendimento de desmitologizar.

Portanto, a desmitologização ou demitologização é o método hermenêutico de Bultmann, pela qual pretende-se interpretar a Bíblia buscando extrair o significado mais profundo das concepções mitológicas, libertando a mensagem de uma cosmovisão já superada: a cosmovisão da igreja primitiva. “Ele não queria livrar os textos de seus elementos míticos, mas sim, compreender esses elementos corretamente, isto é, de acordo com o seu significado existencial fundamental” (GRENZ; OLSON, 2013, p. 105). A desmitologização é facilita, segundo a concepção bultmanniana, a tarefa do evangelho de falar às pessoas hoje.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um dos legados deixados por Rudolf Bultmann foi acerca da necessidade de apresentar a mensagem cristã numa linguagem que seja adequada à contemporaneidade e ao homem moderno. O desafio da ortodoxia é, portanto, proclamar o Evangelho de maneira que seja compreensível aos indivíduos imersos no pensamento científico, sem que seja necessário abrir mão do contexto histórico e gramatical do texto bíblico.

Outro ponto relevante que se pode destacar em Bultmann é a necessidade de um método para a compreensão bíblica. Embora revestido de controvérsias, a sua desmitologização traz consigo uma contribuição significativa para à hermenêutica protestante: não se pode entender as Escrituras sem engajar-se em um método. O seu questionamento aos vários métodos exegéticos também nos leva a refletir sobre a importância de questionar a diversidade de métodos que há na atualidade. “Quais deles são coerentes?” Talvez essa pergunta dificilmente seja feita, no entanto, ela é necessária.

Por fim, destacamos a importância do estudo escriturístico despojando-se de pressupostos que leva o intérprete da Bíblia a obter os resultados pretendidos por ele, não pelo escritor inspirado. Como se pôde notar, o teólogo de Marburg acreditava que não se deve empreender o estudo exegético com ideias pré-concebidas a fim de simplesmente “encontrar” ou defender um dogma pessoal. A genialidade e, ao mesmo tempo, o caráter controverso de Bultmann, fizeram dele um dos teólogos neo-ortodoxos mais citados no campo da crítica da forma. Ainda assim, ele deve ser “desmitologizado”, ou seja, compreendido como um teólogo que, apesar de tudo, trouxe contribuições significativas para a hermenêutica bíblica.


 

REFERÊNCIAS

ALLEN, Diogenes; SPRINGSTED, Eric O. Filosofia para entender teologia. Santo André: Academia Cristã; Paulus, 2014.

BULTMANN, Rudolf. Demitologização: coletânea de ensaios. São Leopoldo: Sinodal, 1999.

_________. Jesus Cristo e mitologia. São Paulo: Novo Século, 2000.

COSTANZA, José Roberto da Silva. As raízes históricas do liberalismo teológico. Fides Reformata. São Paulo, v. 10, nº 1, p. 79-99, 2005.

ELWELL, Walter A. Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009.

ENNS, Paul. Manual de teologia Moody. São Paulo: Editora Batista Regular, 2014.

GEISLER, Norman. Teologia sistemática. Vol 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E. A teologia do século 20 e os anos críticos do século 21: Deus e o mundo numa era líquida. 2.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.

LOPES, Augustus Nicodemus. O dilema do método histórico-crítico na interpretação bíblica. Fides Reformata. São Paulo, v. 10, nº 1, p. 115-138, 2005.

MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do século vinte: os teólogos protestantes e ortodoxos. Vol. 2. São Paulo: Edições Paulinas, 1979-1980.

 

 

 

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Ruben

Rubens de Oliveira Rodrigues. Estudou teologia no Seminário Batista do Cariri e Faculdade Batista do Cariri (2013-2016), Crato/CE. Atualmente é pastor da Igreja Batista Regular do Catolé em Campina Grande/PB. E-mail: rubenstocaviolao@hotmail.com

[1] Bacharel em Teologia pelo Seminário Batista do Cariri e Faculdade Batista do Cariri em Crato – CE.

[2] Como exemplo, ver GEISLER, 2010, p.317-320.

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