Resenha 36: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Luiz Felipe Pondé)

 

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

Autor: Luiz Felipe Pondé.

São Paulo: Leya, 2012, 232 pp.

 

Categoria: Ensaio Filosófico. Filsofia do Cotidiano.

 

O apreciador de charutos Luiz Felipe Pondé não é um mero brincante e sátiro ao longo destes ensaios. Ao observar q eu as 232 páginas envolvem também as páginas negras, senti-me ludibriado, mas ao começar a ler o livro, senti-me engrandecido e agradecido por ler esta obra. Bem, não poderia esperar algo convencional de uma obra que se propõe a ser um guia politicamente incorreto da Filosofia. Já adianto aqui que Pondé não pretende desmoralizar os filósofos e personalidades que descreve, tampouco comentar as aventuras sexuais deles. Ele tenta traçar as raízes do que denomina “praga PC” (politicamente correto) a partir de breves ensaios muito bem escritos, com sutileza, maestria e sofisticação. Ah! Pondé é um homem muito sofisticado; em um de seus vídeos ele até dá uma aula sobre charutos cubanos (apreciado por intelectuais, pessoas sofisticadas e por ricos).

Desde cedo, o leitor observa uma imagem (uma figura com vários autores) em que Pondé apresenta as principais figuras a serem avaliadas em suas teses e postuladas ao longo das mais diversas aplicações do cotidiano (o próprio Pondé se inclui).

Como exposto acima, Pondé deseja demolir o conceito de “politicamente correto”, que implica em não mexer com alguns grupos minoritários cheios de não-me-toques.

Para Pondé, “o politicamente correto é um ramo do pensamento de esquerda americano” (p. 29). E surge com a ascensão dos negros (anos 60) e gays (anos 80). É o que se chama de Nova Esquerda, onde os salvadores da Pátria não são mais os proletários, mas gays, negros, aborígenes, índios (p. 30), todos inseridos no capitalismo (e não contra ele).

A PRAGA PC implica na inclusão obrigatória destas minorias e na luta contra quem os combate, tudo regado a um bom rousseaunianismo, onde o mais fraco é melhor moralmente, com pitadas de pragmatismo (Dewey e James).

Pondé cita Ayn Rand, na obra “A Revolta de Atlas”, onde o mundo distópico criado por ela é dominando pelo socialismo, só que o bem comum e o igualitarismo destas pessoas estão a serviço do mau-caratismo, da preguiça e da nulidade” (p. 42). A ideia central de Rand é que “a maior parte da humanidade sempre viveu às custas de uma minoria mais capaz e mais inteligente” (p. 43). Assim, estas bandeiras minoritárias são levantadas para que os imbecis possam impor suas ideologias, sobrevivendo às custas dos capazes e inteligentes.

Ao falar sobre democracia, Pondé acaba com a ideia de “regime do povo”, quando afirma:

O povo é sempre opressor. Quando aparece politicamente é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da Democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com o “povo”. (p. 49)

 

 

Ele arremata bem sua crítica à democracia quando afirma:

o homem da democracia, quando quer saber algo, pergunta para a pessoa do seu lado, e o que a maioria disser, ele assume como verdade. Daí que no lugar do conhecimento, a democracia criou a opinião pública. (p. 51)

 

 

Pondé, partindo desse fio condutor, critica a filosofia da alteridade, que aceita todos, inclusive terroristas mas não percebe quão intolerantes são os terroristas; ele fala mal do ambientalismo ecocêntrico, que acredita ser tudo lindo e não percebe que a mesma natureza que faz surgir passarinhos também provoca cânceres (p. 73). As mesmas pessoas que lutam contra testes com animais em pesquisas laboratoriais sobre câncer não estariam dispostos a morrerem se pegarem cânceres (se beneficiariam do fruto das pesquisas com animais).

De uma maneira mais bem-humorada Pondé faz excelentes insights mostrando a inconsistência do feminismo, da aculturação de nossa cultura, do foco em turismo (uma facada nos novos ricos), ideologia de gênero, budismo light, literatura de autoajuda, o mito do “bom selvagem”, etc. Sobre estes dois últimos, veja que insight fantástico:

Podemos ver que a literatura de auto-ajuda para elevar nossa estima é derivada dessa mentira de Rousseau: somos bons, basta que nos seja dada a chance de assim o sermos. (p. 138)

 

Pondé continua com suas ironias ao atacar a Teologia da Libertação (TL), afirmando de maneira provocativa a base marxista desta teologia: “ninguém precisa de Nietzsche para matar Deus, basta chamar um teólogo da libertação” (p. 154).  Para a TL, o pecado é estrutural; para a praga PC, a culpa é um sentimento a ser removido; de maneira controversa, relata sobre a ditadura militar, a qual “de certa forma nos salvou do pior” (p. 179), critica o fundamentalismo-afro na Bahia, entre outras coisas.

O livro é instigante, mostra o tom aparentemente elitista de Pondé em suas ironias; mas, na verdade, escreve num estilo cuja finalidade é desmascarar o mau-caratismo esquerdista da praga-PC. Recomendo sua leitura para aqueles que não se escandalizam com uma linguagem tão direta, prática, lúcida e “esfaqueadora”.

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2 comentários sobre “Resenha 36: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Luiz Felipe Pondé)

  1. O antiesquerdismo é tão raso, parcial e manipulador quanto o esquerdismo. Esse macartismo tupiniquim atual serve apenas para desqualificar um grupo para obter todo controle e força social que este tentou manter artificialmente. Quem não consegue ver erros e acertos em ambos discursos, é apenas mais um na massa de manobra, combustível para um dos grupos.

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