UMA ABORDAGEM HISTÓRICO-TEOLÓGICA DA PRESCIÊNCIA DIVINA

UMA ABORDAGEM HISTÓRICO-TEOLÓGICA DA PRESCIÊNCIA DIVINA

 

  1. INTRODUÇÃO.

 

O estudo dos atributos de Deus tem sido alvo de extensas pesquisas, exposições e debates ao longo da história da igreja cristã. Dentre eles, a onisciência divina tem ganhado destaque nas abordagens teológicas das últimas décadas, principalmente em face aos novos desdobramentos que a teologia do processo e o teísmo aberto deram a este atributo.

 

A definição clássica de onisciência diz que Deus conhece todas as coisas, sejam passadas, presentes ou futuras. Presciência, por sua vez, diz respeito ao conhecimento divino acerca das coisas futuras. As correntes modernas têm negado a presciência divina; alguns teólogos do século XVI e XVII aplicaram-na ao contexto soteriológico de formas diferenciadas. Muitas destas ênfases são contrárias ao estudo ortodoxo da onisciência divina e as implicações decorrentes disto vem causando grandes prejuízos, principalmente para a comunidade cristã ocidental.

 

Este trabalho tratará as diversas abordagens teológicas da presciência divina ao longo da história da igreja, procurando relacioná-las com os diversos ramos da teologia sistemática e analisar suas implicações para a ortodoxia cristã.

 

 

 

 

  1. DEFINIÇÕES PRELIMINARES.

 

O tema deste artigo é objeto de estudo da Teologia Propriamente Dita, a qual trata do ser de Deus, seus atributos e suas obras. Sendo assim, visando uma melhor compreensão, antes da descrição e análise das principais correntes que lidam com a presciência, é de suma importância estabelecer alguns conceitos pertinentes que se relacionam diretamente com a temática em discussão.

 

2.1. ATRIBUTOS DIVINOS

 

Deus é um ser singular. Ele está além e acima de toda a criação e possui qualidades ou atributos que constituem a sua essência. Um atributo divino constitui-se nas qualidades inerentes ao seu ser. De maneira mais precisa e técnica, Erickson (1998, p. 291) afirma que os atributos de Deus: “são aquelas qualidades que constituem o que Ele é, as muitas características de sua natureza”.

 

Assim, fica claro, conforme afirma Campos (2002, p. 162), que os atributos são “qualidades essenciais dele (de Deus)” [grifo do autor]. Não se refere às ações divinas, mas dizem respeito à sua natureza, seu ser e caráter.

 

Os atributos divinos são múltiplos e foram categorizados de diversas formas. Os reformados tendem a classificar os atributos em comunicáveis – que são transmitidos e compartilhados em proporções finitas com a criação – e os incomunicáveis – que não são comunicados à criação e tem a ver com o ser absoluto de Deus (CAMPOS, 2002, p. 167). Esta classificação também é adotada por Grudem (1999, p. 105), que justifica sua opção:

 

Essa classificação dos atributos de Deus em duas categorias principais é útil, e a maioria das pessoas tem uma noção de quais atributos devem ser ditos incomunicáveis e dos que devem ser ditos comunicáveis. Assim faz sentido dizer que o amor de Deus é comunicável, mas não a sua onipresença.

 

 

Geisler (2010, p. 562), classifica os atributos em absolutos e morais. Ainda existem outras classificações: “atributos negativos e positivos, imóveis e operativos; internos e externos, absolutos e relativos; imanentes e transcendentes; metafísicos e morais; primitivos e derivados” (CULVER, 2012, p. 103).

 

Entretanto, há um consenso entre a maioria dos teólogos, e principalmente os batistas, que os atributos de Deus basicamente são classificados em duas categorias: “grande” e “bom” (CULVER, 2012, p. 106) ou atributos de grandeza e de bondade (ERICKSON, 1998, p. 293). Todas as classificações têm seu valor pedagógico, mas a última proposta parece tratar o ser de Deus de maneira mais integral.

 

2.2. ONISCIÊNCIA DIVINA

 

O conhecimento de Deus como atributo é exaustivo, completo e eterno. Este atributo é classificado como sendo de grandeza e diz respeito:

àquela perfeição divina por meio da qual ele, em uma maneira completamente singular, conhece-se a si mesmo e conhece todas as coisas possíveis e reais em um ato simplíssimo e eterno (BERKHOF apud CAMPOS, 2002, p. 222).

 

 

Quando esse conhecimento é relacionado com a universalidade ou o todo dos objetos conhecidos, diz-se que Deus é onisiciente, pois abarca tudo simultaneamente (CAMPOS, 2002, p. 225).

 

Pink (1985, p. 23) apresenta um conceito de onisciência mais abrangente e aplicativo ao afirmar que Deus “sabe todas as coisas possíveis, todas as coisas reais, todos os eventos, conhece todas as criaturas, todo o passado, presente e futuro. Conhece perfeitamente todos os pormenores da vida de todos os seres (…)”.

 

A definição de Geisler (2010, p. 703) engloba a categoria daquilo que não é conhecido, pois sobre onisciência ele afirma que “Deus conhece tudo – passado, presente e futuro. Ele conhece o real e o possível; só o impossível (o contraditório) está fora do conhecimento de Deus”. Assim observa-se que o objeto do conhecimento divino diz respeito à realidade e à possibilidade; ao seu próprio ser (auto-conhecimento) e ao que é externo a si; ao eterno e ao temporal; a natureza de tal conhecimento é infinita e nada foge dele por ser abrangente e total.

 

 

 

2.3. PRESCIÊNCIA DIVINA

 

A presciência divina é um aspecto de sua onisciência o qual trata do conhecimento que Deus possui das coisas futuras. Conforme assevera Craig (1999, p. 25), por presciência entende-se “que Deus possui conhecimento completo de todos os eventos futuros”.

 

Quando se usa o termo presciência tem-se em vista mais especificamente a humanidade. A abordagem de Campos (2002, p. 228) caminha nesta direção, posto que para ele a presciência divina é “o conhecimento antecipado que Deus tem de todas as ações livres dos homens, que são ações futuras”.

 

Pink (1985, p. 38) especifica este atributo de maneira a correlacioná-lo diretamente com o decreto divino e a soteriologia, quando relata que “Deus não somente conheceu o fim desde o princípio. E, como a causa está ligada ao efeito, assim o propósito de Deus é o fundamento da Sua presciência”. Para Pink, a base da presciência divina é o seu decreto, e aqui ele está ligando diretamente presciência com eleição, uma vez que somente ocorrerá aquilo que foi decretado.

 

Se Deus conhece todos os eventos futuros com base em seu decreto, isto cria uma tensão com a liberdade humana. Em outras palavras, Deus não apenas conhece todas as coisas futuras, mas decretou tudo o que ocorrerá. Se tudo já está predeterminado (tanto por decreto quanto por presciência) onde fica a liberdade da humanidade? Quando se fala em presciência, o que está sendo levado em conta é tanto a eleição divina quanto a liberdade humana.

 

No próximo capítulo, serão descritas as passagens bíblicas que tratam da presciência divina e analisadas as diferentes abordagens teológicas da presciência ao longo da história, tanto no que diz respeito à epistemologia (o conhecimento de Deus), antropologia (a liberdade humana) quanto à soteriologia (a eleição divina).

 

 

 

 

  1. BASE BÍBLICA PARA A ONISCIÊNCIA E PRESCIÊNCIA.

 

Os atributos de Deus não foram definidos com bases primárias em argumentações filosóficas, psicológicas ou sociológicas. A Bíblia está repleta de passagens que tratam do conhecimento de Deus e especificamente da sua presciência. Sendo assim, partindo de um pressuposto teísta e cristão, a fonte de onde se deriva nossa compreensão deste atributo deve partir primariamente das Escrituras Sagradas. Portanto, antes de analisar as diversas correntes que lidam com a presciência divina, deve-se entender o que a própria Bíblia fala sobre onisciência e presciência.

 

3.1. PASSAGENS QUE TRATAM DA ONISCIÊNCIA.

 

A palavra onisciência não ocorre na Bíblia, mas conforme definida acima (vide seção 2.2), o seu significado pode ser evocado e retirado de várias passagens das Escrituras. Alguns aspectos da onisciência são revelados nas passagens que seguem abaixo.

 

3.1.1. Imensurável: O conhecimento de Deus abarca todas as coisas e, por ser infinito, de forma alguma pode ser medido. Salmos 147:5 afirma que “Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir”.

 

3.1.2. Inescapável: Por inescapável, pretende-se comunicar que nenhuma ação humana pode fugir do raio de ação do conhecimento divino, mesmo aquelas processadas apenas em sua consciência, ou aspecto de sua criação.  Provérbios 15:3 afirma que “os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons”.

 

3.1.3. Minucioso: Deus conhece os pormenores e detalhes de sua criação. Mateus 10:30 assevera que “e quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. Outra passagem que demonstra expressamente esse conhecimento detalhado é Isaías 40:26, a qual assevera: “Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar”. (grifo do autor)

 

3.1.4. Incompreensível. Nenhuma criatura pode compreender o ser de Deus e o seu conhecimento. Por melhor que seja sistematizado, o conhecimento de Deus não pode ser compreendido ou sondado pela humanidade. Nenhuma passagem expressa este aspecto tão bem quanto Romanos 11:33 – “ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria quanto do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!”

 

3.1.5. Auto-conhecimento. A onisciência divina também inclui o conhecimento que Deus possui de si mesmo. Um ser pessoal possui auto-conhecimento e no caso da pessoa necessária esta faculdade também está presente. Observa-se tal aspecto em 1 Coríntios 2:11 – “porque qual dos homens sabe as coisas dos homens, senão o seu próprio espírito que nele está? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.

 

Ao comentar a passagem supracitada, Campos (2002, p. 224) afirma:

 

Ainda que o ser humano tenha conhecimento de si próprio, este é não somente incompleto, mas incorreto. Isso deve-se não somente à finitude de seu conhecimento mas também por causa dos efeitos do pecado sobre sua mente no presente estado. Mesmo quando a redenção se completar, o conhecimento que o homem venha a ter de si será incompleto, porque somente Deus conhece tudo completamente. Assim como ele conhece todas as realidades de maneira completa, somente Deus pode conhecer-se perfeita e completamente como nenhum outro ser pode.

 

3.1.6. Conhecimento das coisas passadas. Por ter um conhecimento eterno e infinito, Deus, por sua onisciência conhece as coisas do passado. Isso indica que Deus não sofre de amnésia e conhece muito bem cada evento que já se processou na história. Sua memória das coisas ocorridas é eternamente preservada. Uma evidência disto pode ser observada no Salmo 90:4 – “pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite”. Referindo-se a esta passagem, Grudem (1999, p. 118) afirmou:

A expressão “mil anos” não subentende que Deus esquece as coisas após 1100 ou 1200 anos, mas antes exprime um tempo tão longo quanto se possa imaginar, fica evidente que Deus enxerga toda a história passada com grande clareza e realismo.

 

 

3.1.7. Conhecimento das coisas presentes. Hebreus 4:13 afirma: “e não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daqueles a quem temos de prestar contas.” Percebe-se que Deus tem acessibilidade a todas as informações do presente; nenhuma criatura consegue esconder algo de Deus, nem mesmo seus pensamentos mais secretos. O texto ainda reforça a ideia de memória, uma vez que todos prestarão contas com Deus daquilo que fizeram e isto só pode ocorrer se Deus tiver conhecimento exaustivo do passado.

 

3.2. PASSAGENS QUE TRATAM DA PRESCIÊNCIA

 

Esta divisão é somente para fins didáticos, uma vez que o foco do presente artigo é mais especificamente abordar a presciência; faz-se necessário dizer que a presciência também faz parte da onisciência; sendo assim, alguns textos da onisciência estarão aqui inclusos.

 

Uma passagem central é Isaías 46: 9,10, que afirma:

 

Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade.

 

 

Este trecho das Escrituras aponta que a presciência divina é eterna, tem como objeto todas as coisas futuras[i] e é determinada pelo seu conselho, ou seja o que determina previamente as coisas futuras é a vontade divina, estabelecida por meio de seu decreto. Deus não passa a conhecer apenas depois que decreta; na verdade, Deus conhece até o que não decretou (os outros mundos possíveis), o conhecimento dos contrafactuais ou de contingências. Mas quando se utiliza a linguagem acomodativa em termos de presciência leva-se em conta aquilo que já foi decretado.

Outra passagem clássica que envolve a presciência divina é o Salmo 139. Abaixo estão listadas alguns de seus excertos:

 

  1. 4. Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda.
  2. 16. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.

 

 

O verso 4 aponta claramente para a presciência de Deus quanto aos nossos pensamentos, mas as implicações mais profundas desta presciência, uma vez estudado todo o Salmo 139 é que a presciência tem como base os decretos divinos. O atributo presciência possui grande relação com o seu conselho ou decreto.

A palavra utilizada para “determinado” no verso 16 é transliderada por yatsar, que no hebraico traz a ideia de decreto ou desígnio. Desta forma todos os dias de um homem são previamente conhecidos com base no yatsar (decreto) divino (vide nota de rodapé número 1). Outras passagens podem ser utilizadas para expressar o decreto divino no Antigo Testamento. Abaixo segue uma lista de tais termos utilizada por Erickson (1998, p. 373):

 

Outro termo hebraico comum é ya´ats, é usado por Isaías muitas vezes (14:24,26,27; 19:12,17; 23:19) e por Jeremias (49:20; 50:45). Seus substantivos derivados ´etsah são ao mesmo tempo comuns e precisos (Jó 38:2; 42:3; Sl. 33:11; 106:13; 107:11; Pv. 19:21; Is. 5:19; 14:26; 19:17; 46:10,11; Jr. 32:19; 49:20; Mq. 4:12). (…) Existem outros termos menos frequentes e alguns que se referem aos decretos particulares concernentes à salvação e ao relacionamento com Deus.

 

 

No Novo Testamento, muitos termos gregos são utilizados para se referir à presciência divina. Abaixo segue uma lista deles.

 

a). προορίζω – é a principal palavra para os planos de Deus. É encontrado em Atos 4:28; 1 Co 2:7; Efésios 1:5,11; porém, o texto clássico que utiliza esta palavra relacionada com o decreto divino é Romanos 8:28, que afirma – “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” A palavra propósito é a tradução de προορίζω (em sua forma declinável).

 

b). προτεταγμενους – “(…)havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação” (Atos 17:26). A palavra aqui expressa a natureza do tempo e indica a existência do mesmo antes mesmo de ele se processar na história. Neste sentido, na mente de Deus os tempos da história universal sempre existiram, com base no seu decreto (“fixado os tempos”).

 

c). προθεσισ – é a palavra utilizada em Efésios 3:11 – “segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor.” O propósito de Deus é eterno; aquilo que ele estabelece previamente teve um ato em que se processou em algum lugar da eternidade, mas na mente de Deus, sempre houve ciência daquilo que ele colocaria a cabo na história. Ao passo que a análise dos vocábulos do Novo Testamento vai sendo realizada, observa-se a interconexão entre o decreto de Deus e a presciência divina. Isto pode ser percebido nos próximos termos.

 

d). βουλη e προγνωσει – estes dois vocábulos podem ser estudados juntos, uma vez que aparecem em Atos 2:23. Βουλη diz respeito a “conselho” e προγνωσει a “presciência”. O versículo em sua primeira parte afirma que “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus(…)”. As expressões em conjunto aparentemente parecem apontar para o fato de que a presciência determina o decreto. Tratando da sintaxe grega e da não-aplicabilidade da regra de Granville-Sharp em Atos 2:23, Daniel Wallace (2009, p. 288) afirma:

 

se “presciência” define “determinação”, isso abre a porta para que (…) o decreto de Deus seja dependente de sua onisciência. Porém, se os termos forem distintos, a relação pode ser inversa, a saber, onisciência é dependente do decreto eterno. (…) O significado menos atestado da construção impessoal é o ter idêntico referencial. (…) Assim, “presciência” é parte do “plano predeterminado”, pois um dos focos do capítulo é: o plano divino em relação à morte e à ressurreição do messias. Desse modo, o decreto de Deus não está baseado sobre o fato dele simplesmente conhecer de antemão o que os seres humanos farão; mas sim, que as ações da humanidade estão baseadas na presciência no plano predeterminado de Deus.

 

 

Gradualmente, fica claro que a presciência divina é uma categoria observada geralmente em sua relação derivada do decreto divino e aponta para a soberania divina em todos os aspectos da criação, inclusive em suas escolhas e atos.

Outros termos poderiam ser utilizados e estudados, mas dadas as proporções deste trabalho, que não possui finalidades exegéticas, mas busca uma análise da construção sistemática da presciência, o autor restringe sua análise aos termos supramencionados.

 

 

  1. ABORDAGENS TEOLÓGICAS DA PRESCIÊNCIA.

 

Uma vez estudadas as bases bíblicas para uma compreensão mais precisas do que vem a ser presciência, e tendo em vista a autoridade das Escrituras, a seguir serão apresentadas e criticadas as principais abordagens teológicas ao longo da história que tratam da presciência divina.

 

Uma análise comparada das categorias teontológicas, epistemológicas e soteriológicas das diversas abordagens históricas feitas no que concerne à presciência divina é difícil de ser encontrada nos manuais de teologia. Este trabalho propõe-se a suprir esta lacuna em língua portuguesa[ii] na medida em que analisa e compara as diversas correntes em vários aspectos no que tange à presciência de Deus.

 

Não se pode, porém, levar em conta todas as nuanças teológicas sobre a presciência. Para fins de delimitação, uma abordagem mais abrangente será efetuada, levando-se em conta grandes escolas de pensamento teológico.

 

4.1. O ENSINO CONSERVADOR DOS PAIS DA IGREJA.

 

Ao utilizar o termo conservador, têm-se como referência a conservação dos padrões bíblicos nos escritos dos pais apostólicos. Tendo como padrões bíblicos o que foi apresentado no capítulo anterior, abaixo segue uma lista de pais e suas declarações sobre a trindade[iii]. Com isso, o autor não pretende afirmar que todos os aspectos do ensino dos pais da igreja eram conservadores, mas que pelo menos no que tange aos pais abaixo citados, no que se refere à onisciência eles conservaram os padrões sã doutrina.

 

4.1.1. Justino Mártir (c. 100-165 d.C.) – afirmou que: “Deus conhece de antemão as pessoas que serão salvas pelo arrependimento, algumas que nem mesmo ainda nasceram” (GEISLER, 2010, p. 707).

 

4.1.2. Taciano (120-173 d.C.) – atribuiu a presciência de Deus como causa de sua conversão: “eu fui levado a por a fé nestes pela […] presciência mostrada acerca dos eventos futuros.” (GEISLER, 2010, p. 707).

 

4.1.3. Cipriano (200-258 d.C.) – “disse que a presciência de Deus pelo Espírito Santo através dos apóstolos serve a Igreja para ensinar como viver por Cristo” (GEISLER, 2010, p. 707).

 

4.1.4. Irineu de Leão (c. 120-202 d.C.) – Ele afirmou:

“Deus, sabendo o número dos que não crerão, visto que Ele prevê todas as coisas, os entregou à incredulidade, e desviou a face dos homens deste tipo, deixando-os na escuridão que eles mesmos escolheram para si” (GEISLER, 2010, p. 708).

 

4.1.5. Tertuliano (c. 155-225 a.C.) – “foi por este mesmo atributo que Ele previu todas as coisas quando as designou aos seus lugares, e as designou aos seus lugares quando Ele as previu.” (GEISLER, 2010, p. 708).

 

 

Uma gama de outros pais referiram-se ao atributo da presciência divina. Eram conservadores quanto a crer que Deus tinha conhecimento de coisas futuras (presciência); não negaram nem limitaram a presciência divina. Apenas tiveram enfoques diferentes quanto a relação dessa presciência com a doutrina da eleição.[iv]

 

Franklin Ferreira (2007, p. 709), falando sobre os pais, assevera:

A atitude dos pais gregos sobre o problema do livre-arbítrio era diferente da atitude dos pais latinos. Aqueles partiam do intelecto, ao qual a vontade está subordinada e por meio do qual opera. O que o homem pensa poderá fazer. Por isso, os pais gregos consideravam que o homem opera o começo de sua salvação, onde, depois, Deus cooperaria com a graça. Os pais latinos, pelo contrário, concedem à vontade uma posição autônoma. Estes, por causa da ênfase na doutrina do pecado original, enfatizaram que Deus começa a obra, e, depois, o homem cooperaria com sua vontade, enfatizando muito fortemente as obras da graça, ainda que não exclusiva.

 

 

Franklin Ferreira mostra que a ênfase dos pais latinos era nos dons da graça e a dos pais gregos, na responsabilidade humana. Isto demonstra uma análise diferente da de Geisler, mas que apresenta como ponto de contato a ideia sinergistíca. Ferreira ainda cita John Gill, um teólogo batista reformado, que busca “demonstrar que Agostinho não criou a controvérsia sobre eleição e predestinação, mas meramente sintetizou e sistematizou a opinião comum da Igreja que o procedeu” (FERREIRA; MYATT, 2007, p. 709).

 

Em síntese, pode-se afirmar que os pais da igreja não eram unânimes quanto à predestinação em sua relação com a presciência, mas que criam na presciência divina em sua total extensão, sem limitações. No sentido teontológico, Deus é onisciente e presciente, sem restrições; no sentido epistemológico, Deus possui conhecimento simples (não divisível) das coisas e soteriologicamente, em geral eram sinergistas, com uma leve diferença entre os pais orientais (de inclinação para a eleição pela presciência) e os pais romanos (com foco na soberania divina).

 

 

 

4.2. A ESCOLA TOMISTA

Agostinho não será analisado previamente, tendo em vista que seu sistema monergista em muito se assemelha ao sistema calvinista. Desta forma, a única escola medieval a ser estudada será a decorrente do Doutor Angelical, Tomás de Aquino (1225-1274), uma vez que apresenta uma sistematização epistemológica da onisciência divina.

 

4.2.1. Presciência quanto à teontologia – Tomás de Aquino não negou nenhum aspecto da onisciência divina, pelo contrário deu sólidos argumentos para comprová-la. Ao falar sobre o conhecimento divino da perspectiva tomista, Geisler (2010, pp. 710, 711) afirma que:

para Tomás de Aquino, o conhecimento de Deus é idêntico à sua essência (…) o conhecimento de Deus não é apenas do real; Ele também conhece o potencial – Ele conhece o que é e o que poderia ser. Deus pode conhecer tudo que é de qualquer forma real que possa ser conhecido.

 

 

4.2.2. Presciência quanto à epistemologia – Aquino fez uma divisão epistemológica no conhecimento de Deus, afirmando que Deus possui um tipo de conhecimento chamado de Inteligência simples, onde conhece todas as coisas possíveis, tudo o que poderia ocorrer; além disso deus possui outro tipo de conhecimento, chamado conhecimento de visão, o saber o conhecimento de tudo o que ocorrerá (FURTADO, 2012, pp. 9,10).

 

4.2.3. Presciência quanto à soteriologia – Aquino desenvolveu um sistema baseado na Teologia Natural, em que o homem não perdeu totalmente sua autonomia; ele ainda possui uma autonomia em seu intelecto de tal forma que pode chegar à verdade racional sobre Deus, apenas pela argumentação racional, sem necessariamente precisar da obra interior do Espírito Santo.

 

Com isto ele não negou a necessidade da Revelação Especial, mas mostrou que a partir da teologia natural pode-se afirmar uma consistência entre fé e razão. Muito se debate sobre a posição soteriológica de Aquino, mas o fato é que sua inclinação à filosofia aristotélica, baseada nas evidências, mostrou que ele adotou uma abordagem filosófica em relação à fé; fé relacionada com proposições sobre Deus; relacionou fé com evidências (MCGRATH, 2005, pp. 289, 290). As evidências apontam que seu modelo era mais sinergista e que assentia com o semi-pelagianismo medieval.

 

4.3. O ARMINIANISMO

 

Esse nome foi dado ao sistema em homenagem ao seu precursor, Tiago Armínio (1560-1609). Porém, vale ressaltar que o que se conhece hoje como arminianismo foi formulado pelos seguidores de Armínio, após a sua morte, a partir de um manifesto que ficou conhecido como Remonstrancia (1610), por insatisfação com as asserções doutrinárias da soteriologia calvinista dos reformados holandeses. Neste documento, os discípulos de Armínio formularam seus 5 pontos: livre-arbítrio, eleição pela presciência, expiação universal, graça resistível e perda da salvação.

 

Como bem salienta McGrath (2005, p. 535), “a ideia de predestinação é assim mantida; entretanto, seu referencial é radicalmente alterado”. A herança arminiana foi adotada na teologia de John Wesley e na de seus seguidores e influenciou em muitos aspectos o pentecostalismo clássico e neopentecostalismo.

 

Teontologicamente, os arminianos continuaram com a tradição conservadora e criam que Deus possuía conhecimento exaustivo de todas as coisas, passadas, presentes e futuras; epistemologicamente, os arminianos creem que deve haver uma compatibilização entre a soberania divina e a liberdade humana e esta liberdade é considerada em termos de liberdade libertária, que se define como “a crença de que pessoas apenas exercitam livre escolha ou liberdade de decisão e ação quando eles podem ter a opção de fazer a escolha contrária” (OLSON in WARE, 2008, p. 150); soteriologicamente, os arminianos não negam a eleição divina, mas a condicionam à presciência divina. Pelas divergências com os calvinistas, em geral ocorrem acusações de que os arminianos não creem na doutrina da eleição, mas conforme Olson (2013, p.333), que é um dos maiores defensores do arminianismo na atualidade, a predestinação:

 

é um conceito bíblico; o arminianismo clássico a interpreta de maneira diferente dos calvinistas, mas sem negá-la. É o decreto soberano de Deus em eleger crentes em Jesus Cristo e inclui a presciência de Deus da fé destes crentes.

4.4. O MOLINISMO

Luís de Molina (1535-1600) foi um jesuíta espanhol que desenvolveu seu sistema teológico em reação à forte ênfase predestinacionista dos escritos de Lutero e Calvino. Percebendo a fraqueza do sistema semi-pelagiano quanto à soberania divina, Molina propôs um sistema que conciliasse o Deus Soberano com o homem livre. Com este propósito em mente ele escreveu sua opus magnum: “Concordia liberi arbitrii cum gratiae donis[v].

 

4.4.1. Presciência quanto à teontologia – nesta obra, Luís de Molina fez uma defesa consistente da presciência divina, afirmando o conhecimento de Deus de todas as coisas, quer sejam passadas, presentes ou futuras, bem como seu conhecimento das categorias extra-temporais, além do conhecimento das contingências, ou seja dos mundos possíveis com base em contrafactuais[vi].

 

4.4.2. Presciência quanto à epistemologia – Molina modificou as categorias epistemológicas de Tomás de Aquino[vii]. Molina chamou a Inteligência simples de conhecimento natural e o conhecimento de visão de conhecimento livre. Além disto criou uma categoria intermediária entre o conhecimento de todas as possibilidades (conhecimento livre) e o conhecimento decretivo (conhecimento do que será), nomeando-o de conhecimento médio (conhecimento de todas as possibilidades viáveis). A tabela abaixo traz um belo resumo da epistemologia quanto à presciência esboçada por Luís de Molina.

molinismo

4.4.3. Presciência quanto à soteriologia – enquanto que no sistema arminiano a eleição é efetuada com base na presciência divina de uma maneira genérica; no sistema molinista, tendo em vista a uma elaboração mais pormenorizada, Deus legitima a eleição com base no conhecimento médio, ou seja Deus sabe o que o homem faria em todos os mundos possíveis quanto à sua rejeição ou não caso fosse exposto ao Evangelho.

 

4.5. O CALVINISMO CLÁSSICO

Quando se fala em Calvinismo, tem-se como foco o monergismo, a ideia de que Deus trabalha sozinho na obra de salvação, sem nenhuma participação do homem (cf Ef. 2:8,9). Nestes princípios monergistas podemos citar antes de Calvino, os nomes de Agostinho e Lutero. Agostinho enfatizou o monergismo na sua disputa contra o monge Pelágio. Seus escritos influenciaram em muito a vida de outro monge de uma ordem agostiniana, Martinho Lutero.

Calvino tinha uma visão da majestade de Deus e do seu domínio soberano sobre todas as áreas da criação, inclusive sobre a mente e vontade do homem. Discorrendo sobre a vontade do homem, Calvino apud Sproul (2001, p. 120), afirmou:

Quando a vontade está acorrentada como escrava do pecado, ela não pode fazer um movimento em direção à bondade, muito menos aspirá-la firmemente. Esse movimento, que na Escritura é inteiramente atribuído à graça divina, é o primeiro passo na conversão a Deus…Todavia, ainda permanece uma vontade que se inclina e apressa, com a mais forte afeição, rumo ao pecado.

 

 

 

Os discípulos de Calvino trataram de sistematizar ainda mais os escritos do mestre. Assim, Francis Turretin, sucessor de Calvino em Genebra escreveu sua Institutas da Elenctica teológica. No século XVII, o calvinismo proliferou na Europa, com uma soteriologia desenvolvida nos chamados 5 pontos do Calvinismo (estabelecidos em Dort, no ano de 1619): depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos (TULIP). Muitas confissões subscreveam ao TULIP (Confissão de Fé de Westminster, Confissão Batista de 1689, entre outras).

 

Teontologicamente, o calvinismo afirma a soberania de Deus, mostrando sua onisciência e desenvolvendo um visão da presciência com base nos decretos divinos e não o contrário, conforme sugerem os arminianos; epistemologicamente, o calvinismo apresenta o conhecimento de Deus sendo o determinador de todas as coisas; os calvinistas são deterministas; entretanto, existem pessoas que se intitulam calvinistas, que negam a liberdade human (deterministas radicais), existem calvinistas que compatibilizam a liberdade do homem com o decreto soberano de Deus (determinismo compatibilista); soteriologicamente, os calvinistas creem na eleição incondicional, alguns, à semelhança de Calvino, enfatizam a dupla predestinação. Observe esta citação de Calvino: “predestinação é o meio pelo qual Deus adota alguém para a esperança da vida e sentencia outros para a morte eterna, no que se entende por supralapsarianismo (CALVINO apud HELM in WARE, 2008, p. 19); outros por sua vez creem que Deus predestinou pressupondo a queda, assim a predestinação é apenas para a salvação, enquanto os demais permanecem no estado anterior, condenados (infralapsarianismo).

 

4.6. CALVINISMO MODIFICADO

O termo calvinismo modificado não diz respeito a calvismo moderado ou amrialdianismo. Estes estão inclusos dentro de um padrão tolerável dentro do calvinismo, mas que para o calvinismo clássico não passa de semi-pelagianismo. Por Calvinismo modificado, deseja-se enfatizar os 5 pontos do calvinismo ao mesmo tempo em que se adota a epistemologia molinista (o conhecimento médio). Os expoentes atuais deste sistema são Bruce Ware e Terrance Tiessen.

 

Teontologicametne, tais autores creem na onisciência divina; seria até incoerente para alguém que se considera calvinista, mesmo que modificado, negar a presciência divina. Epistemologicamente, os calvinistas modificados afirmam que Deus permite o mal (mas tem dificuldades quanto a ideia de determinar o mal); além disso, eles creem num determinismo compatibilista do conhecimento médio. Onde conhecimento médio é uma visão de conhecimento de contrafactuais sem no entanto adotar a liberdade libertária molinistas. Ocorre, entretanto, que tal abordagem ao faze a disjunção entre molinismo e conhecimento médio está tomando um termo carregado de conceitos libertários e aplicando ao calvinismo. Conforme Paul Helm in Ware (2008, p. 45), “não existe uma ´versão molinista´ do conhecimento médio. Molinismo é a doutrina do conhecimento médio”.

Soteriologicamente, apesar de tentar defender um alto conceito de soberania divina na eleição, o que ocorre é que os calvinistas modificados de maneira não tão clara parecem negar a eleição soberana, mas a colocam no âmbito do conhecimento médio de Deus, que ao ver deles não destrói o conceito de eleição incondicional, mas que além de fazer isto respeita a liberdade humana. Para isto Ware, por exemplo, aponta uma série de passagens em que Deus apresenta conhecimento de contingências, mas deve-se tomar cuidado para não incorrer em falácia lógica do tipo: “se há conhecimento médio, logo há conhecimento de contrafacutais”, então “se há conhecimento de contrafactuais logo há conhecimento médio”. Não se pode equiparar como iguais conhecimento médio com conhecimento de contrafactuais. O primeiro implica no segundo, mas o segundo não necessariamente implica no primeiro.

 

4.7. TEÍSMO ABERTO

 

A visão do teísmo aberto propõe uma abertura do ser de Deus. Para eles, Deus não está fechado com relação à sua criação, mas por amor e por ser lógico com o princípio da liberdade humana, resolve limitar seu conhecimento e seu poder de ação. O alvo desta limitação é o perfeito relacionamento de evolução entre Deus e homem, daí que também é conhecido como teologia relacional. Pode-se perceber a forte base humanista no teísmo aberto, bem como a ideia de um arminianismo levado às suas últimas consequências.

 

Teontologicamente, Deus limita sua onisciência, praticamente a perde, uma vez que não consegue saber o que ocorrerá no futuro. Ele se arrisca junto com a humanidade. Segundo os teístas abertas

 

a liberdade genuína das criaturas e a onisciência de Deus só podem ser reconciliadas (…) quando reconhecermos que existem algumas coisas que até mesmo um Deus onisciente simplesmente não pode saber (PIPER; TAYLOR; HELSETH, 2006, p. 343).

 

Epistemologicamente Deus limita sua onisciência. O método deles é baseado na argumentação de que a teologia patrística interagiu com a filosofia grega e agora, contemporaneizando, eles interagem com a cultura moderna. Deus limita o seu conhecimento. Deus é o Deus do possível, ele pode mudar se quiser. Epistemologicamente, Deus restringe sua onisciência, ao passo que abre margens para se desenvolver com a criação, arriscando-se num relacionamento amoroso, ao mesmo tempo em que aparentemente soluciona-se o problema do mal. Porém, esta visão é excessivamente pragmática, não se pauta por um método exegético sólido e convenientemente finda por negar a onisciência divina.

 

Soteriologicamente, os teístas abertas afirmam que “referências bíblicas sobre pessoas como objeto da presciência de Deus ou da predestinação são mais de eleição corporativa. Não se referem a salvação pessoal” (TIESSEN, 2000, p. 87). O destino da igreja como um todo está seguro, mas o dos homens em específico não. Tratando da salvação de Deus relacionada com o seu decreto, a base do teísmo aberto é o que segue abaixo:

Até quanto à salvação, os planos de Deus não são sempre cumpridos. Ele sempre deseja que todos se arrependam (2 Pe 3:9) e ele deseja que todos sejam salvos (1 Tm 2:4; Tt 2:11), mas a vontade de Deus não garante o cumprimento do que ele deseja. Ele fez tudo o que podia para assegurar a prosperidade de seu povo escolhido, mas ele foi amargamente desapontado.

 

 

Abaixo, será apresentada uma tabela que compara os diversos sistemas até aqui apresentados. Outros poderiam ter sido inclusos, mas o autor crê que estes sejam relevantes para abarcar o maior número possível de correntes teológicas.

molinismo 2

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Não há dúvidas que o teísmo aberto é tão heterodoxo que chega a ser herético. Dos demais sistemas, aquele que melhor se relaciona com o conceito bíblico de presciência é o calvinismo clássico.

Aqueles que desejam e anseiam pelo ensino e interpretação correta das Escrituras devem manter um conceito de onisciência total, onde Deus não precisa se valer do conhecimento de variáveis ou contingências humanas para cumprir o seu propósito eterno. Tudo depende do seu eterno conselho. A presciência divina é determinada pelo decreto divino e garante a fidelidade e a eleição dos filhos de Deus. Deus não muda, ele é perfeito, não pode melhorar nem piorar; Deus conhece tudo, não pode conhecer nem mais nem menos! Amém!

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

CAMPOS, Heber Carlos de. O ser de Deus e os seus atributos. 2ª Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

 

CULVER, Robert D. Teologia Sistemática: Bíblica e Histórica. São Paulo: Shedd Publicações, 2012.

 

ERICKSON, Millard J. Christian Theology. 2ª Ed. Grand Rapids: Baker, 1998.

 

FERREIRA, F.; MYATT, A. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

 

FURTADO, Fares C. Uma introdução ao Molinismo. Trabalho apresentado no I Congresso de Música e Teologia do Seminário Batista do Cariri. Crato: 2012 (não publicado).

 

GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Volume 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

 

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999.

 

KEATHLEY, K. Salvation and the Sovereignty: A molinist approach. Nashville: B & H, 2010.

 

MCGRATH, Alister E. Teologia sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

 

MORELAND, J.P.; CRAIG, W.L. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005.

 

OLSON, Roger E. Teologia arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.

 

PINK, A.W. Os Atributos de Deus. São Paulo: PES, 1985.

 

PIPER, J.; TAYLOR, J.; HELSETH, P.K. Teísmo aberto: uma teologia além dos limites bíblicos. São Paulo: Vida, 2006.

 

SCHAEFFER, F. A morte da razão. São Paulo: ABU Editora, 2007.

 

SPROUL, R.C. Sola Gratia: a controvérsia sobre o livre-arbítrio na história. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

 

TIESSEN, T. Providence & Prayer: how does God work in the World? Downers Grove: InterVarsity Press, 2000.

 

WALLACE, Daniel B. Gramática grega: uma sintaxe exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular, 2009.

WARE, Bruce. Perspectives on the doctrine of God: 4 views. Nashville: B & H Academic, 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 Notas de fim.

[i] A ideia de temporalidade se faz necessária por causa da limitação do conhecimento das criaturas. Como os seres humanos são limitados e restritos ao tempo, Deus acomoda sua linguagem para que o homem entenda a extensão e a grandeza do conhecimento divino. A mente de Deus vive num eterno presente; para Deus não há um antes ou depois. Neste sentido, a presciência é um termo que tem como referente a criação, pois do ponto de vista de Deus, o conhecimento é eterno e transcende as categorias temporais.

 

[ii] Análises da presciência rigorosamente realizadas em língua portuguesa são ignoradas pelo autor. Em língua inglesa, chamam a atenção as seguintes obras: TIESSEN, Terrance. Providence & Prayer: How does God Works in the World? Downers Grove: InterVarsity Press, 2000; Ware, Bruce. Perspectives on the doctrine of God: 4 views. Nashville: B & H Academic, 2008.

 

[iii] Devo bastante a Norman Geisler na citação do que os pais falaram sobre onisciência divina. Cf. GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Volume 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, pp. 707-711.

 

[iv] Vale ressaltar que os pais aqui foram citados a partir dos escritos de Norman Geisler, que se auto-intitula calvinista moderado, negando apenas a expiação limitada da TULIP. Entretanto, apresenta uma abordagem que tende a negar a eleição incondicional e assimilar a eleição pela presciência (cf. GEISLER, N. Eleitos, mas livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. São Paulo: Vida, 2001). Uma análise mais rigorosa e detalhada da Patrística é digna de consideração naquilo que os pais se referiram à presciência. Isto é assunto para outro trabalho e foge aos propósitos da presente pesquisa. Por ora, é necessário dizer que outros teólogos tiveram enfoques diferentes quanto à ideia de que os pais eram sinergistas, contrariando a pressuposição de Geisler.

 

[v] A parte dessa obra que trata da presciência pode ser encontrada em língua inglesa: MOLINA, L. On Divine Foreknowledge:  part IV of the Concordia. Translated, with an introduction and notes, by Alfred J. Freddoso.  Ithaca: Cornell Paperbacks, 2004.

 

[vi] Contrafactuais “são declarações condicionais no modo subjuntivo (…) são assim chamadas porque o antecedente e o consequente do condicional são contrários ao fato” (MORELAND; CRAIG, 2005, p. 76).

 

[vii] De acordo com a declaração de Schaeffer que “Tomás de Aquino transformou o mundo de modo muito real” (SCHAEFFER, 2007, p. 9), estas implicações findaram atingindo a teologia também. Logo, como o sistema de Aquino abriu margem para a autonomia do intelecto não demorou para que Molina de maneira críptica consentisse na autonomia da vontade humana.

 

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