Resenha 38: A vocação espiritual do pastor (Eugene Peterson)

PETERSON, Eugene. A vocação Espiritual do Pastor: redescobrindo o chamado ministerial. Título original: Under the unpredictable plant: an exploration in vocational holiness. ©1992 (by Eerdmans). Tradução: Carlos Osvaldo C. Pinto. São Paulo: Mundo Cristão, 2006, 176 pp.

 

Categoria: Espiritualidade.

Data da Resenha: 22/02/2012.

Eugene Peterson, conforme suas próprias palavras, é um pastor e escritor; esta é a sua vocação. Com altas insígnias acadêmicas, ele teve passagem pela Universidade John Hopkins, Seminário de Nova York e Regent College (Canadá). Seus escritos possuem um estilo vívido e criativo e podem chocar os ultra-ortodoxos. Por exemplo, ele não tem certeza quanto à historicidade de Jonas (p. 19).

 

Após algumas decepções em seu pastorado, Peterson encontrou refúgio e deleite no livro de Jonas. A obra em questão é uma alegoria do livro de Jonas aplicada à teologia pastoral, a partir da experiência particular do autor.

 

No primeiro capítulo, é-nos apresentado o episódio da compra da passagem para Társis. Jonas foi um profeta duplamente “fracassado”: na desobediência não chegou a Társis, na obediência não conseguiu o cumprimento da profecia da destruição de Nínive. O projeto religioso de Jonas fracassou. Interessantemente, pessoas foram salvos nos dois episódios: os marinheiros e os ninivitas. A vocação de Jonas saiu vitoriosa.

 

A ideia é de que Deus nos dá uma missão que aos nossos olhos é árdua. Então, respondemos: “seremos pastores, mas não em Nínive, faça o favor!” (p. 26). Assim, passamos a escolher nosso destino e idealizamos nosso ministério como um paraíso distante em Társis e iniciamos a viagem, em total escapismo. Após intensa análise ele passou a admirar a quarta norma evangélica, estabelecida por São Benedito: voto de estabilidade.

 

No capítulo 2, intitulado Fugindo da Tempestade, demonstra o momento em que o autor cai em si e percebe que sua viagem para Társis é uma fuga desobediente. Isto ocorreu diante da sua incapacidade de administrar corretamente família e ministério, o que culminou no seu pedido de demissão ministerial. Neste capítulo ele parece aprovar o “ministério pastoral” de sua mãe (pp. 48, 49). À semelhança de Platão em A República, Peterson reconhece a importância essencial da música e das histórias para moldar o caráter de alguém. O que é mais curioso e interessante neste capítulo é que o autor encontrou no escritor russo Dostoievsky seu conselheiro vocacional. Nos escritos deste homem, Peterson encontrou Deus e paixão. (p. 54). Dostoievsky tinha grande conhecimento bíblico e isto se deu pelo fato de que enquanto esteve na prisão ele lia o Novo Testamento.

Em breve, devo ler Dostoievsky, pois Craig o acha melhor escritor que Lewis; Eugene Peterson o coloca na posição de mentor vocacional. Um outro dado curioso deste capítulo é que uma tradição judaica dizia que no navio que ia para Társis havia representantes das 70 nações do mundo (p. 71).

 

No capítulo 3, intitulado No Ventre do Peixe, vemos a importância da oração, através da prática da askesis, a necessidade de meditação, contemplação, em um lugar e um tempo apropriado (p. 94), onde sem muros físicos necessitamos achar um tempo devocional, experimentarmos o ventre escuro e fétido de um peixe, para desenvolvermos humildade, dependência e adoração a Deus. Interessantemente Jonas não ora a partir de seus próprios pensamentos. Sua oração é repleta de alusões aos escritos dos Salmos, do início ao final. Jonas, no ventre do peixe, conseguiu utilizar o conhecimento bíblico não meramente para pedir, mas exprimiu sua adoração a Deus a partir dos salmos decorados. Ele ainda discorre sobre o pecado institucional (p. 78); aponta as três condições onde se desenvolve a vocação: instituição, congregação, ego. Para que a askesis seja de fato desenvolvida é necessário o entendimento de que disciplina espiritual não é técnica ou fórmula (p. 89).

 

No capítulo 4, intitulado À Procura do Caminho para Nínive, o autor nos mostra como é dolorosa e ao mesmo tempo necessária a retomada do caminho de nossa vocação original, a saber nossa viagem a Nínive. Nesse sentido, os pastores que ele conheceu na infância e adolescência foram maus exemplos (p. 113) e observa que os mercenários fazem do pastorado um bico para complementar a renda (p. 114). Enquanto ainda estava incerto quanto a detalhes de sua vocação, a leitura do romance Ulisses, de James Joyce ajudou-o a repensar sua prática pastoral (p. 116, 117). Peterson passou a ver a importância particular de cada membro de sua congregação e não apenas passar um tempinho com cada um deles. Aprendeu, então, que quando desprezamos o lugar onde estamos (matéria) nos tornamos gnósticos. Não podemos acreditar que os congressos, conferências e workshops lá fora sejam mais importantes que nossa igreja local. Ele não poderia deixar de fazer uma crítica ao “cristianismo sem religião” de Bonhoeffer (p. 129).

 

No quinto e último capítulo, intitulado Brigando com Deus sob a Planta Imprevisível, a ideia do autor é mostrar que nossos programas e projetos religiosos não representam a realização da vontade de Deus e que não devemos questionar a manifestação da vontade do Senhor, mesmo quando nossos projetos são contrariados. Desta maneira, é necessário entender a realidade e a cosmovisão de cada cristão e não querer moldá-lo no buril de nossos paradigmas. Devemos entender a igreja não como um lugar onde colocamos em prática nossos programas, mas um lugar em que adoramos e conclamamos o povo a adorar também. Devemos fugir dos estereótipos de “médicos” quando as pessoas estão doentes e “gerentes” (tentando ganhar adeptos aos nossos projetos) quando estão saudáveis. Leitura indispensável para qualquer pastor, este livro é criativo e nos convida à reflexão.

 

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