Resenha 44: Apologética Cristã no século XXI (Alister McGrath)

Apologética Cristã no Século XXI – Ciência e Arte com Integridade

Autor: Alister Mcgrath

Tradução: Emirson Justino e Antivan Guimarães. São Paulo: Editora Vida, 2008, 368 pp.

Título da Edição original em inglês: Bridge-Building (1992), pela InterVarsity Press.

Categoria: Apologética.

 

Trata-se de uma excelente obra, escrita pelo erudito anglicano e professor de Oxford, Dr. Alister Mcgrath, abordando a temática da apologética com um enfoque voltado para o indivíduo. Escrito em linguagem fácil, acessível e sem grandes pretensões acadêmicas, a obra tenta dinamizar as perspectivas apologéticas, que até então possuíam uma abordagem extremamente teorética.

 

A modificação do título na tradução para o português, apesar de uma defasagem de 16 anos, certamente é válida e resume bem a proposta central do livro, mas a idéia de “construir pontes” (tradução mais correta) ainda me soa mais atraente e mais realista, porém não teria o mesmo efeito mercadológico.

 

A tese central do livro é que existem pontos de contato entre a humanidade e Deus, os quais devem ser usados pelo apologeta para unir a teoria à situação real do indivíduo, otimizando a atividade evangelística. O papel do apologeta é unir o lado científico com o artístico, a partir do ponto de contato, visando não meramente ganhar uma disputa, mas sim as almas perdidas.

A influência de uma grande autoridade apologética é percebida na tese e no desenvolvimento de toda obra. Refiro-me a alguém que também foi destaque em Oxford, o senhor C.S. Lewis.

O autor faz questão de mostrar que a idéia de pontos de contato na apologética está muito bem documentada na tradição reformada e pauta-se por um bom equilíbrio entre as doutrinas da criação e da redenção. O pressuposicionalismo apologético de Cornelius Van Til é colocado em xeque; porém aqui vale apena ler com cautela o volume I das Instituas, pois McGrath faz ampla citação das Instituas, tentando refutar o pressuposicionalismo, apontando aspectos aparentemente mais evidencialistas em Calvino. Se fizermos, porém, uma leitura mais acurada desta grande obra perceberemos que não dá pra se refutar o pressuposicionalismo meramente fazendo uma leitura das Institutas, pois apesar de aspectos evidencialistas mostrando Deus se revelando na criação (o brilho do conhecimento de Deus expresso na obra da criação – I.V) é necessário reconhecer a cegueira humana diante da revelação (I.V.11) e a insuficiência da manifestação de Deus na ordem natural (I.V.14)[i]. A abordagem de McGrath é a apologética criativa, a qual é desenvolvida a partir do princípio de que ao passar pelo prisma teológico, muitas possibilidades evangelísticas são criadas.

Mcgrath deixa um alerta contínuo ao longo de seu trabalho: conheça o seu público. Antes de discutir qualquer assunto com alguém é necessário saber sua realidade social, é preciso ouvi-lo, deve-se ter base teológica e conhecimento dos pontos de contato. Dentre estes, os principais são: sensação de desejo insatisfeito, racionalidade, angústia existencial e reconhecimento de finitude.

Contudo, é necessário entender que a apologética não pode criar a fé, sendo limitada em sua ação. Uma vez estabelecida de maneira adequada pode criar um ambiente favorável à fé, mas nunca produzi-la. O autor ainda relaciona, mesmo que de maneira remota, o salto de fé kierkegaardiano com a verdadeira fé cristã. O conhecimento teológico só pode ser apresentado posteriormente com a finalidade de não confundir a mente do evangelizando.

Muito interessante é abordagem, segundo a percepção do autor, daquilo que impede as pessoas de se tornarem cristãs e frisa que isto deve ser descoberto, com a finalidade de direcionar melhor o evangelismo. As principais barreiras à fé são: intelectuais, associações históricas, o problema da integridade pessoal e a fome pela certeza absoluta.

Além de mostrar o panorama das barreiras intelectuais à fé, o autor também se preocupa em refutar as principais cosmovisões da atualidade: o racionalismo iluminista, o marxismo, o materialismo científico, o feminismo, o pós-modernismo e a Nova Era.

O autor conclui direcionando para a necessidade de diálogo e não de monólogo; uma busca real pela compreensão do outro com a finalidade de otimizar a prática apologética. Ao final, ainda encontram-se sugestões valiosas para palestrantes em suas respostas às inquirições de uma platéia “devoradora”.

O livro é consistente com sua tese e fácil de ser compreendido, porém o leitor deve ter cautela, pois a proposta de Mcgrath soa um tanto quanto sinergista. Ao ler sua abordagem, tive a impressão de que ele utiliza-se de um calvinismo que usa a prática evangelística arminiana por amor à alma evangelizada, para só depois mostrar que na realidade era calvinista. Por que não assumir o calvinismo logo no início? Segundo Mcgrath, o evangelizando ainda não conseguiria assimilar e compreender a real dimensão teológica da doutrina da predestinação. Outro aspecto que me chamou a atenção é que Mcgrath não fez questão de dizer que o princípio da identificação de Deus como Pai é eterna e que Jesus Cristo foi encarnado em forma masculina; seu texto apresenta uma abordagem irenista até demais diante do público feminino (confira as pp. 300 e 302). Ressalvas à parte, o livro está à altura acadêmica de seu escritor.

________________________________________________________________

[i][i] Devo esta percepção sobre uma malversação das Institutas por MacGrath ao professor de Apologética do Seminário Batista do Cariri, o professor Msc. Carlos Alberto Bezerra.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s