Resenha 46: Em Defesa do Preconceito (Theodore Dalrymple)

EM DEFESA DO PRECONCEITO: a necessidade de se ter ideias preconcebidas.

Autor: Theodore Dalrymple

São Paulo: É Realizações, 2015, 144 pp.

 

Título do Original: In Praise of Prejudice: The necessity of Preconceived Ideas. (Copyright © 2007)

 

Esta foi uma das mais agradáveis leituras que fiz este ano. É mais uma das obras-primas de Anthony Daniels, um psiquiatra britânico que utiliza o pseudônimo Theodore Dalrymple. Ele é um escritor aclamado, com artigos em diversos periódicos e livros celebrados por sua força retórica.

Nesta obra, Dalrymple defende a ideia de se ter preconceitos. O título é provocante e pode causar espanto aos mais desavisados, no entanto, sua tese é bem simples: é impossível não ter preconceitos, pois até mesmo os que desejam suprimi-los pretendem implantar novos preconceitos. A capa do livro é bem sugestiva com Chapeuzinho Vermelho no focinho do lobo mau e sua capa representando a boca do lobo.

O livro é escrito em forma de pequenos artigos bem-ordenados e com uma argumentação magistral bem concatenada. Isto, certamente, facilita a leitura e cria no leitor o desejo de ler o próximo capítulo. Logo de cara, ele coloca a ideia popularizada pela Intelligentsia: todo preconceito é um equívoco, um absurdo, portanto, devemos acabar com os preconceitos.

Dalrymple utiliza vários exemplos de tabloides e de artigos científicos para mostrar que as mesmas pessoas que lutam por preconceitos desejam implantar novos preconceitos. Aqueles que desejam acabar com o preconceito da imposição de paradigmas da família tradicional aos filhos, escolhendo o que eles devem fazer, pretendem implantar um novo preconceito de que os filhos são soberanos para escolher o que quiser e os pais devem ficar reféns da vontade do filho. Nas palavras do psiquiatra:

 

Uma criança ainda muito jovem, constantemente consultada sobre as suas preferências e aversões, aprende que a vida é, e deve ser, regulada conforme as suas preferências e aversões. Portanto, a criança não estará livre de preconceitos apenas porque ficou livre dos preconceitos de seus pais. Pelo contrário, ela se tornará escrava de seus próprios preconceitos. Infelizmente, eles serão prejudiciais tanto para ela, como indivíduo, quanto para a sociedade da qual ela é um membro. (p. 34).

 

 

O que nossa cultura popular incentiva é a desagregação familiar, com foco nas escolhas dos indivíduos e um favorecimento de uma pedagogia não opressora. Mas, esta mesma pedagogia é a que sutilmente vai destruindo a família, ao livrar-se dos preconceitos de fazer refeições juntos, pais disciplinadores de seus filhos, pais que catequizam seus filhos de acordo com os princípios morais e religiosos que professam. O resultado desta ruptura e o estímulo dos direitos e dos prazeres: desprezo à família, filhos extraconjugais, crianças indisciplinadas, adolescentes vulneráveis, adultos escravizados por vícios, inconstância e medo ou ojeriza a criar uma nova família.

O que os defensores do livre direito e da supressão dos preconceitos esquecem de informar é que um preconceito sempre será substituído por outro e quando um preconceito errado é incutido certamente trará efeitos cruéis para o indivíduo e a sociedade, conforme observado no parágrafo acima.

A grande base teórica desta luta pela supressão dos preconceitos vem de John Stuart Mill, em sua obra Sobre A Liberdade. Com seus pressupostos românticos e utilitaristas, em defesa da liberdade individual e de um relativismo ético, Mill implantou uma cultura de preconceito contra o preconceito (nem aqui o preconceito inexiste), trazendo efeitos nocivos para nossa sociedade que nem o próprio Mill previra. Se ele soubesse o que as pretensas “minorias” estão fazendo em nome deste utilitarismo, ele simplesmente se “reviraria” em seu túmulo (p. 73). Mas sua influência é tão forte em nossa política e cultura que Dalrymple afirma que assim como toda a filosofia ocidental constitui-se em notas de rodapé em Platão, assim também “toda a política social ocidental resume-se a uma série de notas de rodapé em Mill” (p. 58).

O Mill que nega qualquer base autoritativa para estabelecer um juízo moral, se não o indivíduo, as circunstâncias a ele inerentes e sua volição. No entanto, Mill não informa seu leitor de que ao dizer isto, ele próprio se torna autoridade para o leitor, informando-lhe que ele não deve depender de autoridade nenhuma (a não ser a de Mill). Em busca do individualismo radical, os ativistas anti-preconceito, findam gerando um autoritarismo ainda mais preconceituoso contra aqueles que que não tem as “ideias deles”. Como um verdadeiro maiêuta, Dalrymple faz o que Sócrates fazia com os escravos, demonstrando que eles mesmos podem chegar a conclusões impressionantes por meio de um simples inquérito. Ao relatar seu trabalho com alguns presos, ele conta do preconceito que eles tem contra “novatos” que chegam no presídio por motivo de crimes sexuais. Com habilidade, ele demonstra que os presidiários que lá estão são os responsáveis por tornarem seus filhos vulneráveis a pedófilos (mas não contarei sua argumentação, a fim de que você possa ir às páginas 93 e 94 do livro e descobrir por si só quão grande pensador é Dalrymple).

Ele termina demonstrando que a igualdade de oportunidades é totalitária e que não existe uma tábula rasa Lockeana, conforme sugerem implicitamente os teóricos do não-preconceito. Sua tese final é: “sem preconceito não há virtude” e o faz a partir de um silogismo admirável (que você verá quando ler o capítulo 29). Fui surpreendido por Dalrymple com um estilo culto, irônico, com uma retórica mordaz e imbatível. Faça um favor a si mesmo: leia este livro e verás que é impossível de se livrar de preconceitos. Aliás, você só precisa descobrir os “preconceitos certos”!

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