Resenha 53: Cultura e Evangelho (Justo L. González)

Resenha 53

CULTURA E EVANGELHO: O lugar da cultura no plano de Deus.

Autor: Justo L. González.

São Paulo: Hagnos, 2011, 152 pp.

 

Título original: Culto, cultura y cultivo: apuentes teológicos em torno a las culturas.

Categoria: Cristianismo e Cultura.

Baseado em palestras no Instituto Bíblico de Lima.

Justo González é famoso como historiador eclesiástico, porém seus estudos não se restringem apenas ao estudo da História. Uma temática em voga, principalmente no meio missiológico é o impacto e a influência da cultura sobre o Evangelho e vice-versa. Nesta obra, Justo González pretende definir cultura e fazer uma abordagem bíblico-teológica de como a cultura pode se relacionar com a mensagem do Evangelho.

No capítulo 1, Justo González relaciona fé e cultura e exemplifica isto da perspectiva dos países latino-americanos, principalmente Cuba (seu país de origem). Ele relata que em Cuba há um mito de que o protestantismo ianque opressor deveria ser descartado e o catolicismo abraçado. Com base neste exemplo, González deixa claro que não podemos ser tão simplistas em nossas análises, ao ponto de deixarmos de perceber os interesses egoístas de cada cultura, mas também não podemos enfatizar uma visão muitas vezes ideológica sem consultar o histórico. Basta consultar a história dos países latino-americanos, dominados pelo catolicismo, e dos países “ianques”, dominados pelo protestantismo. Independente de qualquer apologia, a realidade dos fatos está aí: a diferença sócio-econômica e cultural é gritante! Partindo deste exemplo, González deixa claro que a relação entre fé e cultura sempre foi um tema da prática missiológica (p. 31). Tomando esse gancho, o autor cubano radicado nos Estados Unidos passa a especificar melhor sua proposta.

No capítulo 2, González relaciona a cultura com a criação. Segundo o autor, a palavra cultura deriva da raiz de cultivo (p. 38) e pressupõe a transformação do meio e não apenas coletar o que já se tem no meio. Assim, a primeira cultura (cultivo) da humanidade começa no Éden e se estende até hoje; afinal, a cultura é uma herança comum de todo grupo social (p. 39). Possui aspectos externos (fruto visível de sua relação transformadora do meio) e internos (o idioma, por exemplo – cf. p. 41). A forma como a gramática é desenvolvida demonstra muitas vezes os pressupostos de determinado povo. Por exemplo, o uso de pronomes masculinos predominantemente mesmo em se tratando de mulheres (se um homem estiver no grupo de mulheres, eles serão tratados entre si como “nosotros”. González afirma que inconscientemente a cultura vai adotando pressupostos sexistas e que com o tempo os próprios cristãos devem utilizar mecanismos para evitar o sexismo e a “opressão das mulheres”. Uma forma simples de evitar o sexismo, segundo o autor é usar a expressão “irmãos e irmãs” (p. 43). Para mim, no entanto, esta já é uma conveniência do igualitarismo sexual, uma vez que já está implícito a liderança do homem sobre a mulher desde a criação.

Ele usa a analogia do ar para apontar o fato de que é muito difícil percebermos o quão envolvidos estamos com nossa cultura. Não pensamos no ar quando respiramos ao longo do dia, mas certamente pensaremos nele se de repente formos privados de oxigênio. Da mesma forma, quando um problema ocorre no seio da igreja, é certo que a igreja será convidada a refletir e a repensar sua relação com a cultura. Cultura que se resume em duas palavras: cultivo e culto (o aspecto transcendental pelo qual a cultura explica os mistérios da existência).

No capítulo 3, González relaciona a cultura com o pecado, demonstrando que após a queda a cultura está debaixo do selo do pecado e sempre terá uma expressão pecaminosa. Ele então passa a elencar uma série de exemplo em que determinadas culturas foram opressoras sobre outras, culminando com o relato da forma como os Estados Unidos atuou na Guerra do Iraque. É lógico que devemos levar em conta o orgulho e a ganância humana; o que me estranha é que os exemplos de opressão vêm mais da cultura ocidental, sem apontar por exemplo a opressão da cultura isâmica (começo a desconfiar um tom um tanto quanto voltado pelo menos para centro-esquerdismo no autor em questão). Porém, o ponto positivo deste capítulo é que não podemos partir de uma base neutra de nossa cultura (já estamos impregnados por ela e pelas suas manifestações pecaminosas. É a partir daí que podemos lidar com o Evangelho).

No capítulo 4, o autor relaciona a cultura com a diversidade e apresenta o aspecto positivo desta diversidade. Antes de Babel havia uma só língua e uma só cultura (p. 80). Como bom falante da língua espanhola, González se vale da versão Reina Valera das Escrituras e faz muitas citações do texto sagrado. Chegando em Babel, González afirma que esta torre representa o surgimento de novas línguas e culturas. Estas, apesar de seladas pelo pecado, não são em si meras maldições de Deus como castigo ao orgulho e à megalomania humana. Representa também a bênção da realização do propósito de Gn. 1:28 e 9:7. Graças à multiplicidade cultural pós -Babel estas ordenanças divinas puderam ser cumpridas. É lógico que há o elemento confusão e o pecado inerente às muitas culturas, mas podemos ver a manifestação da graça de Deus nas muitas culturas e Deus se importando com a diversidade cultural em Pentecostes (Atos 2), uma vez que houve a comunicação do Evangelho em muitas línguas, apesar de que aquilo também trouxe confusão e perplexidade, mas aponta para o fato de que não há um etnocentrismo judaizante na igreja, mas que a expressão do Evangelho de Deus seria manifesta em todas as línguas e povos, não só no período do Novo Testamento, nem apenas hoje, com a tradução das Escrituras para muitos idiomas, mas também na eternidade quando as línguas, povos e raças louvarão ao Senhor.

No capítulo 5, González trabalha com mais atenção a dificuldade para fazer distinção entre cultura e Evangelho, pois sempre que pregarmos o Evangelho a alguém, sem perceber nossa proclamação já estará impregnada de nossa cultura. Como ele bem afirma: “não podemos pregar nem ensinar o Evangelho à parte de uma cultura. Não podemos dizer: ‘isto é evangelho e esta outra coisa é cultura’” (p. 99).

Com isto, González não está defendendo um anarquismo cultural ou um agnosticismo evangélico-cultural, apenas ele coloca a ideia de que o verdadeiro Evangelho de fato, por mais que esteja impregnado pela cultura de seus autores, ainda assim não possui erros pois foi inspirado pelo próprio Deus, mas nossa relação com o Evangelho sempre implicará em algum erro (seja de interpretação, de atitude em realação ao texto sagrado ou de penetração inapropriada da cultura ao texto sagrado). González, por sua vez, acha válido utilizar o legado cultural e linguístico para defender a fé cristã, contraindo Tertuliano. Ele aponta para o exemplo dos apologistas que demonstraram a partir de argumentos filosóficos a divindade do “Verbo” encarnado.

No capítulo 6, González relaciona cultura e missão e aponta para a aculturação do missionário (a adaptação do missionário à cultura local, por meio do aprendizado da língua nativa e aprendizado e na medida do possível adesão de seus usos e costumes) e a enculturação (encarnação do Evangelho na cultura dos nativos). É lógico que isso requer algumas etapas e muita paciência, mas estes aspectos de contextualização devem levar os cristãos a adotarem o conceito de catolicidade (não necessariamente a católica romana), mas aquela que se utiliza da melhor forma da diversidade de perspectivas, retendo o que é bom.

Por fim, no capítulo 7, González relaciona culto e cultura, mostrando o aspecto transcendente e como os próprios elementos dos sacramentos (batismo e ceia) mostram esta relação. Por exemplo, as águas do batismo representam o natural uma vez que a água não é um elemento cultural (a não ser que seja a água mineral industrializada), pois se encontra na natureza e representa a graça de Deus em nos alcançar sem sinergismo. Já os elementos da Ceia (pão e vinho) são elementos culturais, uma vez que passam pela transformação do homem (do trigo e da uva, respectivamente). Os elementos da comunhão são fruto da ação criativa do homem, demonstrando a ação cooperativa entre os irmãos e entre Deus (“cooperadores de Deus sois vós). A partir daí, ele defende a criação de uma cultura evangélica (mas será que é possível?). A própria ideia de que haverá uma diversidade cultural na eternidade (de todas as tribos, povos e raças) dificulta a ideia de criar uma cultura evangélica, no sentido de povo, com uma língua, com costumes. A igreja não pode ser considerada uma cultura a não ser que tenha conotação nacional e política. Penso, eu Fares, que a cultura cristã só será estabelecida no milênio, com um único líder, uma lei por meio da qual regerá as nações com vara de ferro, um centro de adoração (culto), contando ainda com o cultivo (ainda múltiplo). Assim, a cultura geral cristã ainda terá a manifestação subcultural das diversidades étnicas.

Faço estas ponderações pessoais, sem desmerecer o grande valor desta obra que, rica em ilustrações, apesar do viés centro-esquerdista, certamente no enriquece com a aplicação da cultura aplicada à história da redenção. Indico a leitura da obra com a ressalva de um possível viés ideológico do autor (afirmando que posso estar equivocado e apenas ter apreendido isto de uma interpretação “ianque” [mesmo não o sendo] da coisa).

 

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