Resenha 54: O que a Bíblia ensina sobre homossexualidade? (Kevin DeYoung)

Resenha 54

O que a Bíblia ensina sobre a homossexualidade?

Kevin DeYoung

São José dos Campos, SP: Fiel, 2015, 200 pp.

 

Categoria: Ética Cristã; homossexualidade.

Leitura realizada entre os dias 02 e 05 de janeiro de 2018.

Kevin DeYoung é um dos fenômenos literários do evangelicalismo norte-americano deste início de século. Escritor teologicamente robusto e arguto, dono de uma didática maravilhosa, com capacidade de síntese irretocável e um senso de humor muito bem equilibrado. Para ter uma noção destas qualidades basta ler Super Ocupados e Brecha em nossa Santidade. Neste livro, de temática um tanto mais controvertida, ele abandona o humor e trata o tema com a seriedade que o mesmo merece (não que não fosse sério com os demais temas, mas diante das dificuldades com o tratamento politicamente correto quase que imposto pelos ativistas LGBT, ele resolve partir para uma argumentação bíblica, tratando de responder às principais objeções dos grupos revisionistas sobre a homossexualidade.

Aliás, antes de falar sobre o que a Bíblia ensina sobre a homossexualidade, DeYoung ressalta que devemos tratar do que ela ensina acerca de tudo. Com isto o autor quer dizer que a Bíblia não é um tratado de sexualidade, mas que ela ensina sobre tudo, no desenrolar da história da redenção. Das páginas 12 a 15 ele faz um excelente resumo desta história, para em seguida explicar com minúcias o propósito de seu livro, com comentários dirigidos a vários grupos: convictos (de que a homossexualidade é um pecado), contenciosos e confusos.

Na primeira parte da obra, intitulada entendendo a Palavra de Deus, DeYoung assenta as bases exegéticas dos textos bíblicos que versam sobre a homossexualidade. Incialmente ele deixa claro que a base de Deus para a sexualidade humana é o casamento entre um homem e uma mulher (heterossexual) e complementarista, a partir de análises precisas do capítulo 2 de Gênesis. A partir daí ele passa a tratar das cidades infames (Sodoma e Gomorra). Apresenta um argumento revisionista por meio do qual tais cidades não foram destruídas por causa de pecados sexuais, mas sim por conta de injustiça social (Ezequiel 16:47-50). No entanto, o autor toma este mesmo texto e aponta aspectos precisos de que certamente a imoralidade sexual, de caráter homoafetivo está implícita, com destaque para a palavra “abominação” que nos dá a pista de que a ira divina recaiu sobre estas cidades também por conta da homossexualidade.

DeYoung ainda nos apresenta que as duas passagens que versam diretamente sobre homossexualidade em Levítico (18:22 e 20:13) devem ser levadas a sério. Aqui é colocado em foco o fato de o homossexualismo ferir o padrão natural e o princípio de continuidade da espécie. E para aqueles que insistem em dizer que os escritos mosaicos não têm vigência nem aplicabilidade hodierna é preciso fazê-los lembrar de que Levítico é amplamente citado no Novo Testamento. As palavras para “homem” e “cama” usadas em Levítico (conforme a LXX) podem ter servido de padrão para o termo arsenokoitai utilizado pelo apóstolo Paulo. A homossexualidade é descrita como “abominação” e recebe a morte como punição. Tais verdades são reiteradas no Novo Testamento. Certamente, estes dados bíblicos não podem ser menosprezados. Basta ler Romanos 1 e perceber três mudanças impostas pelo pecado humano: a glória de Deus é trocada pela tolice da idolatria, sua verdade é trocada pela mentira, e o uso natural da sexualidade é trocado pela homossexualidade. O texto nos afirma que certamente, tais homens têm morte merecida.

Mostrando destreza em lidar com as línguas originais, o autor apresenta duas passagens em que arsenokoitai (traduzido como sodomia) e malakoi (traduzido como “efeminados”) aparecem, apontando que as traduções são confiáveis e que devemos obedecer o campo semântico das palavras, tomando como chave o contexto da passagem.

Na parte 2, DeYoung responde algumas objeções revisionistas. A primeira objeção deles é que “a Bíblia quase nunca menciona homossexualidade” e que uma prática não pode ser condenada meramente por causa de 12 pequenos textos. DeYoung responde deixando claro que esta controvérsia não foi criada por cristãos evangélicos e que a Bíblia fala pouco sobre esta temática porque este não era um pecado corriqueiro e problemático no meio da comunidade judaica nem na comunidade cristã. Mas se esta lógica for aplicada, então também a bestialidade não deveria ser tão recriminada, já que não é tão citada nas Escrituras.

Outra objeção revisionista é que a homossexualidade condenada na época das Escrituras não era “esse tipo de homossexualidade de hoje”. Segundo eles, o que está em jogo nos relatos bíblicos são apenas atividades pederastas (adulto-rapaz) e relações opressoras entre senhores e escravos. Porém, para o autor, este é o tipo de argumento baseado meramente no silêncio. Porém, se olharmos a vasta bibliografia sobre o assunto da homossexualidade, veremos que vários tipos de homossexualidade entre adultos, inclusive o lesbianismo era comum na época do Antigo e Novo Testamentos (cf. Thomas K. Hubbard, no livro Homossexuality in Greece and Rome; William Loader, no livro The New Testamento on Sexuality, a obra de uma senhora que já foi lésbica, Bernadette Brooten e os escritos e vídeos de N. T. Wright).

Quando não se veem mais com possibilidade de argumentar, então apelam para algo do tipo: “Ah! Você fala tanto de imoralidade sexual, mas eu só darei ouvidos a você quando você tratar com a mesma seriedade a glutonaria e o divórcio. Sobre a glutonaria, ainda pesa mais pois consta na lista dos sete pecados mortais (elencados por Evágrio do Ponto). Porém, perceba que o Antigo e o Novo Testamento estão cheios de banquetes e o próprio Senhor Jesus deu mais atenção a pecados sexuais do que a pecados de glutonaria. Além do que, na literatura paulina, a ideia geral de um glutão está associada aos vadios, festeiros e libertinos. A réplica sobre o divórcio é que este admite exceções (Mt. 5; Mt. 19; 1 Co 7), porém nas Escrituras a homossexualidade sempre é pecaminosa. Em suma, o fato de termos pecados de glutonaria e divórcio na igreja não gera abertura para tolerar a homossexualidade.

Além destas, DeYoung ainda elenca mais algumas objeções dos revisionistas: “a igreja deve ser um lugar para pessoas caídas”, ao que replica que a igreja é um lugar de pecadores arrependidos e a graça de Deus não é uma graça barata, advertindo que “pecado sexual persistente e impenitente leva pessoas para o inferno” (p. 125).

O progressismo de muitos homossexuais afirmam que estamos do lado errado da história e que à medida que a humanidade avançar a prática homossexual finalmente será respeitada e os pensamentos retrógrados e errôneos da igreja serão abandonados; ao que replica com fartas evidências de mitos sobre erros históricos da igreja. Na verdade, os segregadores são “eles”. Sobre ideias do tipo “eu nasci assim”, DeYoung apresenta evidências das principais associações psiquiátricas e psicológicas da América, afirmando que não é possível relacionar a origem da prática com caracteres genéticos. O Jesus de amor que “eles” apresentam também é um Jesus justo e intolerante.

Ele termina apresentando alguns apêndices sobre o casamento homossexual, lidando com os desejos homossexuais (uma abordagem muito madura) e uma declaração de 10 compromissos da igreja no que tange à homossexualidade (imperdível).

Kevin DeYoung sempre é muito persuasivo e cativante em seus escritos. Não poderia ser diferente neste. Um tema que para muitos talvez fosse escrito de maneira indigesta, na pena do autor se torna um tema palatável (apesar de não tolerável). Como diz a quarta capa: “um livro que deve ser lido!”

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