O Cristão e a Cultura

O CRISTÃO E A CULTURA

(Artigo preparado com muito carinho como base para uma série de palestras sobre o Cristão e a Cultura, ministrada no Acampamento de Carnaval da IBCFor/2018)

cristão

Extraído do site “Voltemos ao Evangelho”

http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/02/franklin-ferreira-o-cristao-e-a-cultura/

 

GRAÇA COMUM X A INFLUÊNCIA DO DIABO NA CULTURA

 

I . INTRODUÇÃO

“Cristianismo e Cultura” é um tema muito pertinente e gera uma série de questionamentos na maioria das vezes mais voltados para o campo das artes (música, cinema, teatro), práticas sociais (consumo de bebidas alcoólicas, tabaco, sexo antes do casamento) e apropriação da tecnologia (internet, eletroeletrônicos, robótica, etc.).

Tais questionamentos ocorrem por conta de imprecisões em definir, de fato, o que significa cultura. Alguns ao falar em cultura pensam logo em mundanismo, imoralidade e propagação midiática do pecado. Outros veem na cultura a tábua de salvação da sociedade, acreditando que as pessoas que não estiverem imersas em cultura (seja ela pop ou erudita) certamente são retrógrados e irrelevantes. Outros chamam de cultura apenas os clássicos, enquanto alguns se encharcam daquilo que é popular, atual e superficial; existem aqueles que consideram cultura apenas produções exóticas e chocantes, enquanto parte da sociedade e dos cristãos simplesmente se mantém alheios à cultura, simplesmente por acharem uma questão de somenos e coisa para intelectuais, cineastas e estilistas.

 

Mas, antes de qualquer posicionamento se faz necessário definir os termos de nosso tema geral para começarmos a trabalhar com o conceito de graça comum e influência diabólica e pecaminosa sobre a cultura.

Definamos nossos termos:

O que é ser “cristão”?

O que significa “cultura”?

Depois de tais definições devemos nos perguntar:

Como o cristão e a cultura estão relacionados?

Quais abordagens principais estão ligadas ao tema “Cristão e Cultura”?

É com base nas respostas dadas a estas perguntas que poderemos fazer qualquer avaliação da cultura e dos cristãos e dos temas envolvidos em nossa análise ético-cultural.

II . DEFININDO TERMOS

Somos cristãos e por conta de já estarmos imersos no cristianismo não nos damos conta do que de fato significa ser um cristão (Xριστιανούς – Atos 11:26). Somos chamados cristãos porque nos assemelhamos a Cristo. Um cristão é alguém que crê em e segue a Jesus Cristo[1]. Mas para fazer isto precisamos saber sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo e os mandamentos feitos por Ele a seus seguidores. Neste sentido, o Cristão crê em Jesus e crê na inspiração das Escrituras, texto por meio do qual temos o objeto e o sujeito da Revelação.

Um Cristão crê no Senhorio de Jesus sobre todo o Universo e sobre sua vinda; crê que Jesus é Deus e é o seu Deus, crê que Jesus foi humilhado e glorificado, se encarnou, viveu, exerceu seu ministério, morreu, ressuscitou dentre os mortos e que está assentado à destra do Pai. Crê que Jesus é o seu Salvador e se submete aos seus ensinos, nega-se a si mesmo e segue a Jesus. Ama a Deus e ao próximo, é o corpo de Cristo, submete-se a uma igreja local, estuda e lê a Palavra de Deus para entender melhor sua missão como discípulo de Deus, exerce sua comunhão com Deus, por meio da oração, por estar unido a Cristo, atenta para a pregação genuína da Palavra de Deus, obedece às ordenanças (batismo e ceia do Senhor), promove a evangelização e aguarda a volta bendita de Seu Salvador.

Talvez nem todos cheguem a articular tais palavras para dizer que são cristãos, mas certamente, o verdadeiro cristão se identifica com Cristo como seu Senhor e Salvador. Todo o Cristão sabe que a Bíblia aponta para a Pessoa de Cristo e sabe que Ele deve ser o centro de nossas vidas (somos cristocêntricos). Como em Atos 11:26 expressa, o Cristão, com letra maiúscula, é aquele que segue ao Deus-Homem, ao Filho de Deus, a Jesus Cristo. Cristianismo diz respeito a uma pessoa: Jesus Cristo. É por isso que H. Richard Niebuhr relaciona a cultura com Cristo[2], pois o Cristianismo e os Cristãos dizem respeito a Cristo!

Porém, entre nós e o período em que a Bíblia foi escrito existem vários abismos ou distanciamentos (cultural, histórico, linguístico, etc.). E quando olhamos para nossa sociedade, pensamos “em meus passos o que faria Jesus?”. Mas, em geral, subjetivismos nos dominam porque desejamos entender apenas a vontade de Deus para nossos tempos, mas não nos esforçamos para entender o nosso tempo e nossa cultura.

Mas, afinal, o que é cultura?

De uma forma simples, cultura é o fruto do esforço criativo do homem sobre a criação de Deus[3]. É preciso entender que a cultura não é fruto meramente da ação humana; o homem não faz cultura no vácuo. A cultura é uma ação co-criadora do homem na criação de Deus. Por muito tempo, o Iluminismo e os seus desdobramentos tentaram dissociar Deus do conceito de cultura. Mas se Deus criou todas as coisas, inclusive o homem, qualquer ação cultural interage com o Deus imanente.

Uma definição mais abrangente vem da pena de H. Richard Niebuhr:

 

Cultura é o meio-ambiente secundário, artificial, que o homem sobrepõe ao natural[4]. Compreende linguagem, hábitos, ideias, crenças, costumes, organizações sociais, artefatos herdados, processos técnicos e valores. Esta “herança social”, esta “realidade sui generis”, que os escritores do Novo Testamento tinham em mente quando eles falavam do “mundo”, o qual é representado de muitas maneiras mas tanto Cristãos como outros homens são inevitavelmente sujeitos a ela. É isto que queremos dizer quando falamos de cultura.[5]

 

Em suma, a cultura é fruto de uma herança social e do esforço humano, a saber o trabalho da mente e das mãos humanas.

 

III. CULTURA NA BÍBLIA

Recorramos às Escrituras Sagradas para entender melhor o que é cultura.

Gênesis 1:26-28 – “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a erra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra”.

A partir desta passagem foi esboçado o conceito de mandato cultural, onde o homem recebe uma ordenança para estabelecer uma atividade exploradora sobre a criação. Este domínio envolve explorar as potencialidades da criação e a partir da ação co-criadora exercer domínio como vice-regente divino sobre toda a criação. Mas para que isto ocorra, o elemento social (denominado pelos reformados de mandato cultural) é necessário, a união com sua mulher e a transmissão do conhecimento às futuras gerações; porém, o estabelecimento desta cultura edênica só será abençoada enquanto obediente ao mandato espiritual: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Em Gênesis 2:15, lemos que “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”. Este verso desmente a ideia de que o trabalho foi uma punição pós-queda. Não, o trabalho acompanha o homem desde a sua criação e, originalmente, um dos trabalhos primários do homem era cultivar o seu habitat (o jardim do Éden). Interessantemente, a palavra cultura é derivada da raiz da palavra “cultivo” e pressupõe a transformação do meio e não apenas uma simples coleta. Assim, a primeira cultura (cultivo) da humanidade começa no Éden e se estende até hoje, afinal, como já expresso, a cultura é uma herança comum de todo grupo social[6].

Nossa finitude e dependência de Deus, contudo, não pode ser satisfeita meramente com a criação. Nosso mundo e nossa cultura possui aspectos transcendentais que apontam para além dela. Este alguém é o próprio Deus! Deus satisfaz e preenche o coração do homem, a criação, per si, não. Este aspecto transcendental da cultura expressa o seu caráter cultual. O caráter universal da religião é uma prova deste aspecto cúltico da cultura. Isto tem sido feito de maneira distorcida. Porém, em sua origem, o objetivo da produção e consumo cultural era glorificar a Deus e manter comunhão com Ele por meio dos comportamentos, obras, criações, músicas, linguagem e outras expressões culturais da humanidade. A queda não foi capaz de suprimir este aspecto da cultura e o apóstolo Paulo captou isto muito bem em 1 Coríntios 10:31 – “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. Eis uma passagem que corrobora o conceito de cultura como culto.

Estamos imersos na cultura e, independente do posicionamento adotado por nós, não podemos fugir dela. Estamos tão acostumados com nossa cultura que acreditamos estar imunes aos seus mais sutis engodos.  No entanto, a cultura é semelhante ao ar. Não pensamos no ar quando respiramos ao longo do dia, mas certamente, pensaremos nele se repentinamente formos privados de oxigênio. Da mesma forma, quando um problema ocorre no seio da igreja, é certo que a igreja será convidada a refletir e a repensar sua relação com a cultura, como vem fazendo ao longo de quase 2000 anos.

Mas, após a queda a cultura ficou debaixo do pecado. Por conta do pecado original e das digitais do pecado presentes na humanidade, por mínimo que seja, não podemos vivenciar uma cultura eminentemente alheia ao pecado. Não podemos partir de uma base neutra em nossa cultura (já estamos impregnados por ela e por suas manifestações pecaminosas). É a partir daí que podemos lidar melhor com o Evangelho[7]. Algumas páginas adiante, em Babel (Gênesis 11), encontramos o aspecto multicultural tomando um formato mais explícito. Antes de Babel havia uma só língua e uma só cultura. Porém, a torre foi construída em oposição ao mandato cultural de Deus, reafirmado em Gênesis 9. Lá temos o surgimento de novas línguas e novas culturas. Estas, apesar de seladas pelo pecado, não são em si meras maldições de Deus como castigo ao orgulho e à megalomania humana. Babel também representa a bênção da realização do propósito de Gn. 1:28 e 9:7. Graças à multiplicidade cultural pós-Babel, Deus deu prosseguimento ao cumprimento de seu mandato cultural.

É lógico que há o elemento confusão e o pecado inerente às muitas culturas, mas podemos ver a manifestação da graça de Deus, se importando com a diversidade cultural em Pentecostes (Atos 2), uma vez que houve a comunicação do Evangelho em muitas línguas, apesar de que aquilo também trouxe confusão e perplexidade, mas aponta para o fato de que não há um etnocentrismo judaizante na igreja, pelo contrário, a expressão do Evangelho de Deus seria manifesta em todas as línguas e povos, não só no período do Novo Testamento, nem apenas hoje, com a tradução das Escrituras para muitos idiomas, mas também na eternidade quando pessoas de todas as línguas, povos e raças louvarão ao Senhor[8].

Até aqui já vimos o que é um cristão, um discípulo de Cristo; já percebemos vários aspectos teóricos de cultura como: herança social, cocriação (elemento criativo do homem sobre a criação de Deus), cultivo e culto. Fizemos uma abordagem bíblica do conceito de cultura, enfatizando como Deus se manifesta na cultura, inclusive após a queda, levando em conta que o multiculturalismo, mesmo com um início pecaminoso foi designado por Deus para fins proveitosos, não somente hoje, mas também na eternidade. Cavemos mais fundo!

 

  1. CAVANDO MAIS FUNDO

Para o filósofo Olavo de Carvalho, a herança cultural de um povo se manifesta principalmente por meio da língua, religião e das grandes criações da imaginação e da inteligência[9]. Faz-se necessário dizer que o conceito de cultura meramente como herança social, de valores, hábitos, costumes, normas e padrões é, por excelência, antropológico. É explicado por sua imanência e visa manter o conceito de neutralidade axiológica (ou valorativa). Sendo assim, os costumes de determinado povo (infanticídio entre os índios, sati entre os hindus, pederastia na Grécia, etc) não são julgados, mas descritos. Fugindo do juízo dos valores e adequando-se ao “politicamente correto”, a cultura, tomado em seu viés antropológico, não é julgada de maneira axiológica.

Porém, até para que possamos progredir, devemos ter elementos analíticos no que tange ao conceito de cultura. A descrição serve para nos mostrar o contexto e as particularidades de cada etnia, mas ela sozinha não sustenta uma busca sincera e fiel de avaliar a cultura em qualquer sentido que seja, uma vez que meras descrições quando não levam em conta a realidade ulterior abrem um leque para interpretar os fenômenos culturais ao bel prazer do indivíduo. É neste sentido que urge um conceito de cultura tomando em consideração os valores universais. Aqui necessitamos de uma cultura no sentido pedagógico, intelectual e espiritual[10] que expresse os três transcendentais: o verdadeiro, o bom e o belo. Podemos falar, assim, em uma cultura universal. Nas palavras de Olavo:

os produtos do estrato superior da cultura (…) nem se explicam inteiramente por suas raízes locais nem são de maneira alguma intransportáveis, mas, ao contrário, são a própria voz que intercomunica as culturas locais no grande diálogo da cultura humana, por cima das diferenças de tempo e lugar.[11]

 

Esta cultura universal perpassa todas a história e pode ser encontrado na Filosofia Grega, no Direito Romano e nos alicerces da cultura judaico-cristã, das obras artísticas de escritores, pintores, músicos, cineastas, dramaturgos do mundo ocidental e oriental. Retomar esta grande tradição cultural de aspecto universal aponta para o que se chama de cultura clássica ou alta cultura, que em certo sentido ultrapassa as meras manifestações populares ou aquelas inerentes a um determinado momento, voltado para um público mais genérico, sem ligações necessárias com o grande aparato cultural clássico. Podemos falar aqui de cultura popular e alta cultura. O popular tende a achar que sua cultura é o suprassumo da cultura mundial. Como bem disse C. S. Lewis, fazendo uma crítica pesada à cultura popular ou pop:

Alguém que tenha morado em vários lugares tem menos probabilidade de ser enganado pelos erros locais da vila onde nasceu. O intelectual viveu em muitas épocas e por isso, em algum grau, é imune à grande catarata do nonsense, da falta de sentido, que jorra da imprensa e dos microfones de sua própria época.[12]

 

Este apego ao novo, este “isentismo” axiológico, este apego ao que é “nosso” e a tendência de tratar cultura meramente no campo étnico está patente em nossa Constituição Federal de 1988[13], que em seu artigo 216 afirma:

Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I –  as formas de expressão;

II –  os modos de criar, fazer e viver;

III –  as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV –  as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V –  os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

 

Tomado assim qualquer manifestação ou expressão de um indivíduo, de um conjunto, seja em que grupo for de nossa brasilidade é tida como “patrimônio cultural brasileiro”. Quantas vezes não vimos muitas pessoas se referindo a “lixos culturais” como tal patrimônio. Pois bem, mas é o que texto da Constituição está dizendo. Ele impossibilita o recurso de hierarquização cultural. Como bem falou Olavo de Carvalho, isto coloca em pé de igualdade “a música de Pixinguinha e a de Villa-Lobos, a literatura de Danusa Leão e a de Machado de Assis, o pensamento político de Vicentinho e o de Miguel Reale”[14]. Poderíamos fazer outras comparações, tais como Chimbinha e o pianista João Carlos Martins, Waleska Popozuda e Elis Regina; Belo e Tom Jobim, Jojo Toddynho e Carmen Miranda. VSem hierarquização de valores não há sentido nenhum em pensar em cultura. Mas, afinal, como hierarquizar? Que abordagem podemos usar para fazer esta comparação de nossa cultura com os valores cristãos?

Vejamos!

  1. ABORDAGENS COMPARATIVAS ENTRE CULTURA E CRISTIANISMO.

Aqui nos valemos de Niebuhr[15], especificando que não são abordagens definitivas e independentes, antes cada uma dessas abordagens pode ser utilizada de acordo com a circunstância.

V.1. Cristo contra a Cultura – Em geral, os integrantes desta abordagem acreditam ser a cultura nociva e totalmente dominada pelo pecado, de maneira que o crente fiel a Deus se manterá afastado da cultura. Expoentes: Tertuliano, Beneditinos, Tolstoy.

V.2. Cristo da Cultura – formado por aqueles que acreditam que Cristo está em plena harmonia na cultura e certamente é expresso por meio dela. Expoentes: gnósticos, Abelardo e Ritschil.

V.3. Cristo acima da Cultura – Cristo não é contra a cultura, mas usa os seus melhores produtos como instrumentos no seu trabalho de aperfeiçoar o homem naquilo que ele não pode produzir pelos seus próprios esforços. Tem em Tomás de Aquino um grande sintetizador. Como cristão, ele rejeitou o mundo secular, mas é monge da igreja que se tornou guardiã da cultura. Sintetizou os monges e os cristãos seculares, Cristo e Aristóteles, os reformadores e os conservadores. Aquino é um cristão aristotélico que desenvolveu um argumento demonstrando a superioridade da vida contemplativa do que a prática. Esta superioridade está mais evidente no NT do que em Aristóteles (daí o Cristo acima da cultura).[16]

Críticas: Tendência a relativizar o absoluto e tratar o eterno em termos finitos. Os sintetizadores tendem a ver uma cultura sempre em processo e nunca chegam a uma solução (e quem chegou?). O esforço por sintetizar leva a uma institucionalização de Cristo e do Evangelho.

Representantes: Clemente; Tomás de Aquino; Joseph Butler; Igreja de Centro.

V.4. Cristo e Cultura em Paradoxo – representado por pensadores existenciais, travam como principal drama o conflito entre Deus e nós (sua justiça e nossa justiça própria). Toda a cultura está corrompida, inclusive o esforço humano de fazer Teologia e ajudar o próximo. Dois paradoxos são de importância principal para eles: a “lei e a graça” e “a ira e a misericórdia divinas”. Ex.: Paulo, Marcião, Lutero.

V.5. Cristo transforma a cultura (conversionista) – creem na queda radical do homem. No caso de Agostinho, ele apresentou esta abordagem conversionista em sua própria vida (inclusive outros, de outras abordagens: Tertuliano, Tolstoy, Aquino, etc.).

Ex.: Quarto Evangelho, Agostinho.

 

 

  1. O DIABO NA CULTURA,

            No entanto, não podemos deixar de perceber a influência diabólica sobre a cultura. Ele utiliza o coração do homem entregue ao pecado, seduzindo-o por meio do mundo, a fim de que impregne a cultura com elementos anti-cristãos e, em muitas ocasiões, blasfemos. Ex.: sistemas idolátricos do paganismo, ocultismo, ideologias anti-cristianismo, manifestações artísticas anti-cristãs, suspensão da consciência individual pela suposta consciência coletiva. Muitos sistemas foram influenciados pelo diabo: Positivismo, Marxismo, Pragmatismo, Psicanálise.

Não podemos negar que Satanás usa a cultura para colocar em ação seus planos anti-eclesiásticos. Algumas passagens sugerem isto de maneira bem evidente (e são muito usadas por pessoas que em geral se afinam com uma abordagem “Cristo contra a Cultura”:

1 João 2:15-17 – Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora. O mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.

2 Tm 4:10 – Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica.

            Tg. 4:4 – Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus. Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.

            Cl 3:1-3 – (…) Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra (…).

 

            Mas mundo ou coisas da terra, nestas passagens não estão relacionadas com a cultura necessariamente, mas com o sistema anti-Deus, presidido por Satanás. Neste caso, as coisas do mundo em 1 João 2:15-17 são desejos interiores malignos do próprio homem e não a criação ou a cultura; Demas amou o presente século não por ter se submetido a um tipo de música, literatura ou festejo da época, mas porque se deixou levar por este sistema anti-Deus que surge das coisas interiores e é potencializado pelas exteriores; Amigo do mundo em Tiago 4:4 não envolve assistir filmes do Woody Allen ou o seriado Dr. House na Netflix, mas envolve uma atitude de soberba, orgulho e insubmissão a Deus (que de fato é bem retratada em alguns destes personagens, o que não nos impossibilita de assistir). Em Colossenses 3:1-3, as coisas da terra não são um “Ovomaltine” no Bobs, ou um BigMac, um Boeing, um transatlântico, uma esfirra do Habib´s ou uma sessão de Cinema. O texto seguinte nos diz o que são estas coisas

Colossenses 3:5,6 – Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência].

            O diabo está envolvido na cultura? Sim, é lógico, mas isto não implica dizer que todas as coisas que são fruto da cultura humana e divina não possam mais ser admiradas! Mas, não se engane, ele está pronto a te tragar cada vez que você se deixa dominar por um seriado compulsivamente, toda vez que os sorvetes e chocolates são consumidos vorazmente, abrindo janelas para a partir da cultura (que per si não é pecaminosa) você seja conduzido ao pecado.

Antes, porém, de darmos diretrizes para lidar com a cultura, devemos entender que em meio à natureza pecaminosa do homem, à depravação total e à influência satânica na cultura, por meio do que chamamos de “mundo” (sistema e não coisas), Deus pode usar esta cultura para o benefício da humanidade, inclusive dos cristãos. Isto pode ser melhor explicado por meio da graça comum.

VII. GRAÇA COMUM

            Mesmo em um mundo pecaminoso tomado pelo pecado, Deus pode manifestar sua graça sobre justos e injustos, sobre salvos e não-salvos. A esta manifestação da graça de Deus, levando qualquer homem, independente de sua condição espiritual, a realizar feitos que espelhem a sua imagem, chamamos de graça comum.

Calvino cria nitidamente nesse conceito. Observemos três citações dele:

Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus. Ora, ao menos prezarmos os dons do Espírito, desprezamos e afrontamos o próprio Espírito (Institutas 2.2.15).

 

então? Negaremos que a verdade se manifestou nos antigos jurisconsultos, os quais, com equidade tão eminente, plasmaram a ordem política e a instituição jurídica? Diremos que os filósofos foram cegos, tanto nesta apurada contemplação da natureza, quanto em sua engenhosa descrição? Diremos que careciam de inteligência esses que, estabelecida a arte de arrazoar, a nós nos ensinaram a falar com razoabilidade? Diremos que foram insanos esses que, forjando a medicina, nos dedicaram sua diligência? O que dizer de todas as ciências matemáticas? Porventura as julgaremos delírios de dementes? Pelo contrário, certamente não poderemos ler sem grande admiração os escritos dos antigos acerca dessas coisas. Mas os admiraremos porque seremos obrigados a reconhecer seu profundo preparo… se esses homens, a quem a Escritura chama homens naturais, [1 Co 2.14], que não tinham outra ajuda além da luz da natureza, foram tão engenhosos na inteligência das coisas deste mundo, tais exemplos devem ensinar-nos quantos são os dons e graças que o Senhor tem deixado à natureza humana, mesmo depois de ser despojada do verdadeiro e sumo bem.” (Institutas, ibid.)

 

só que esta graça não purifica o interior (4.20.8)

 

 

Tiago 1:17, Mateus 5:45 nos apontam que a graça comum de Deus se manifesta mesmo em homens não regenerados. Isto nos dá uma pista de que podemos sim nos beneficiar legitimamente das obras de tais pessoas. Hoje estamos aqui confortavelmente, porque Deus em sua graça comum levou os homens à descoberta da energia elétrica, porque Deus em sua graça comum levou os homens a fabricarem carros, nos comunicamos por conta que Deus usou o conhecimento intelectual de ímpios (e nem por isso nossos telefones são pecaminosos). O mesmo vale para i-pads, tablets, notebooks, internet, entre outras coisas.

 

 

 

 

VII. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Algumas perguntas norteadoras[17]:

– Nossa apreciação cultural leva-nos a adorar a Deus? Depois de ler o que lemos ou de assistir ao que assistimos, nosso primeiro impulso é querer agradecer a Deus por isso? Ou nos encontramos tímida e medrosamente escondidos atrás de uma árvore, esperando que a nuvem de glória não passe por ali em seu passeio noturno?

– Para onde o nosso gosto cultural nos empurra: sequidão ou florescimento e expansão.

– Nossa apreciação cultural nos endurece como pedras ou nos faz mais ternos?

– As coisas que cultivo e que consumo da cultura são inerentemente pecaminosas por conta dos pecados de seus idealizadores ou não? Estão envoltas numa ideologia tão anti-cristã que não podem ser adotadas por nenhum cristão? As argumentações contrárias às exposições culturais pautam-se por uma sólida base teológico-bíblica ou por preferências particulares (seja para aprovar ou reprovar)?

Sentenças finais:

– O cristão já está inserido em sua cultura e não pode estar alheio à mesma. Mesmo em meio à sua cultura ele não pode aderir aos aspectos pecaminosos desta cultura. Portanto, nem a mera confinação “extra-mundana” e nem a assimilação cultural irrestrita “intra-mundana”. Este tema nos chama a uma reflexão que dois milênios de análise não podem bater o martelo, pois a cultura é volátil, mutável e ainda apresenta as digitais do pecado.~

– Devemos entender a cultura como a ação do homem na criação de Deus e por mais que ajam artefatos, não podemos deixar de reconhecer os elementos de beleza, verdade e bondade expressos na cultura, desde a pagã até a cristã.

– Estabelecer uma Teologia Bíblica da Cultura demanda tempo, reflexão e muito estudo. Mas enquanto não temos algo mais sólido precisamos entender que os judeus estavam inseridos nos elementos culturais da cultura judaica (danças, instrumentos musicais, edificações, lavoura, lazer, palmas, recitações, vestimentas específicas, bebidas alcoólicas, festas, participação na política, etc.). O Novo Testamento também aponta o Evangelho atingindo comerciantes, homens de posses, religiosos, tribunos, militares, magos, coletores de impostos, etc. Em nenhum momento a Bíblia aponta para o abandono de uma prática cultural específica, a não ser que seja pecaminosa.

– O aspecto de culto da cultura deve nos impulsionar a ver o transcendental e nos fazer desejar mais Deus por causa daquele elemento da criatividade humana. Assim, por meio disto podemos fazer um melhor juízo da cultura que está ao nosso redor, pois apesar de todas as relativizações sabemos que entre um Pablo Vittá e um Pavarotti existe muita diferença cultural.

– As 5 abordagens de Niebuhr não devem ser tomadas de maneira absoluta, mas utilizadas e adaptadas para facilitar nossa análise inicial de determinada prática cultural.

– É lógico que Satanás é o Príncipe deste Século, mas isto não quer dizer que todos os elementos culturais devam ser abandonados. Por esta ótica, não iríamos para a Europa, nem de navio ou de avião; não comeríamos pizzas, tampouco usaríamos gravatas ou tocaríamos piano e poderíamos viver neste século. O foco do mundanismo é a disposição mental do homem, em sua natureza pecaminosa, e não as coisas criadas. Uma TV pode ser usada para edificar pessoas e pode ser usada em secreto para assistir pornografia. A internet é uma bênção para nossa comunicação, mas pode ser um laço para nossa espiritualidade.

“Na verdade, não ficaremos sem ler nada, quer na Igreja, quer no fronte: se não lermos bons livros, leremos livros ruins. Se não continuarmos pensando de forma racional, continuaremos a pensar de forma irracional. Se rejeitarmos os prazeres estéticos, cairemos nos prazeres sensuais.” (C.S.L. In: A busca do saber em tempo de guerra, p. 55).

 

– O conceito de graça comum deve nos fazer agradecidos a Deus por ter levantado homens como Platão, Aristóteles, Hipócrates, Agostinho, Churchill, Bach, Mozart, Bill Gates, Villa-Lobos (o Chimbinha não), Carson (Lucinho não), Mário Ferreira dos Santos, Gilberto Freyre, etc.

– Brincadeiras à parte, devemos tomar cuidado com o elitismo cultural:

“Rejeito de imediato a ideia que persiste na mente de algumas pessoas modernas de que as atividades culturais são de direito espirituais e meritórias – como se poetas e intelectuais fossem intrinsecamente mais agradáveis a Deus que os catadores de lixo e os engraxates (…) A obra de um Beethoven e o trabalho de uma faxineira são espirituais, exatamente na mesma condição, a de ser ofertas a Deus, de ser feitos com humildade ‘como para o Senhor’” “Os únicos que alcançam muito são os que desejam tão intensamente o conhecimento que o procuram enquanto as condições ainda são desfavoráveis.” (C.S. Lewis, In: A busca do saber em tempo de guerra, p 58).

 

– “Quando o kuyperismo, ramo da teologia reformada europeia, torna-se a estrutura intelectual em que baseamos esforços de influenciar a cultura, mas por outro lado abandona a piedade, por exemplo, da Confissão de Heidelberg, o preço é um fim repentino” (D. A. Carson, In: O Cristão e a Cultura).

 

– Devemos tomar cuidado com a entrega total ao País ou a uma causa externa:

“Um homem pode ter de morrer por nosso país, mas ninguém deve, em qualquer sentido exclusivo, viver para seu país. Quem se entrega sem reservas às exigências temporais de uma nação, ou de um partido, ou de uma classe, está dando a César aquilo que, de todas as coisas mais enfaticamente pertence a Deus: ele próprio.”

 

 

Os únicos que alcançam muito são os que desejam tão intensamente o conhecimento que o procuram enquanto as condições ainda são desfavoráveis.”

C.S. Lewis, In: A busca do saber em tempo de guerra, p. 56,57).

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[1] ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 36.

[2] NIEBUHR, H. Richard. Christ & Culture. New York, NY: HarperOne, 2001.

[3] RIGNEY, Joe. As coisas da terra. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017, p. 160.

 

[4] Como disse Henry Van Til, cultura é o ambiente secundário que se sobrepõe à natureza pelo esforço criativo do homem.

[5] NIEBUHR, H. Richard. Christ & Culture.   New York, NY: HarperCollins, 2001.

 

[6] GONZÁLEZ, Justo L. Cultura e Evangelho: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011, pp. 38, 39 e 41.

[7] https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2018/01/04/resenha-53-cultura-e-evangelho-justo-l-gonzalez/. Acesso em: 27/01/2018.

[8] https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2018/01/04/resenha-53-cultura-e-evangelho-justo-l-gonzalez/. Acesso em: 27/01/2018.

[9] CARVALHO, Olavo de. O Futuro do Pensamento Brasileiro: estudos sobre o nosso lugar no mundo. 4ª Ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016, p. 40.

[10] CARVALHO, Ibidem.

[11] CARVALHO, Op. cit., p. 41.

[12] LEWIS, C.S. A busca do saber em tempo de guerra. IN: LEWIS, C.S. O Peso de Glória: agora em edição completa com 9 artigos. São Paulo: Editora Vida, 2008, p. 61.

[13] https://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_216_.asp. Acesso em: 28/01/2018.

[14] CARVALHO, Op. Cit., p. 36.

[15] Carson critica o modelo quíntuplo de abordagem cultural de Niebuhr, acreditando ser ele reducionista (cf. CARSON, D.A. Cristo e Cultura: uma releitura. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 10). Porém, em uma introdução revelada postumamente por um dos filhos de Niebuhr temos o relato de que sua abordagem não é determinativa, mas de correlação. Ou seja, Niebuhr não reduz o seu método a estes 5 modelos, mas os utiliza a fim de correlacionar as principais abordagens em determinado contexto e momento histórico, mas isto não implica dizer que estes modelos sejam absolutos (cf. NIEBUHR, H. Richard. Christ & Culture.   New York, NY: HarperCollins, 2001, xxxviii).

[16] NIEBUHR, H. Richard. Christ & Culture.   New York, NY: HarperCollins, 2001, p. 132.

[17] Extraídas de: RIGNEY, Joe. As coisas da terra. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017, p. 176.

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