A.O.A. (13): “Gosto não se discute” – André Venâncio

Sobre o articulista:

É mestre em física aplicada pela USP. Desde 2007 escreve em seu blog “Retratos por escrito” sobre uma variedade de temas ligados à cosmovisão cristã. Possui um blog maravilhoso em conjunto com sua esposa, intitulado “Tamos Lendo”, que faz um apanhado geral de suas leituras. Mais recentemente criou em conjunto com sua esposa e amigos o blog “Literatura e Redenção” (veja lá a maneira bem humorada como ele se apresenta). É casado com Norma Braga Venâncio e reside atualmente em Natal. É membro da Igreja Presbiteriana do Pirangi.

andré venâncio

André Venâncio

 

“Gosto não se discute”

“Gosto não se discute”, diz a nossa bonachona e pacificadora sabedoria popular. (“Apenas se lamenta”, podem acrescentar os mal-humorados.) Essa frase pode significar uma de duas coisas completamente diferentes: ou o reconhecimento da diversidade irredutível entre seres humanos ou a tese de que discutir certos assuntos é intrinsecamente inútil ou improdutivo. Nesse segundo caso, é grande a variedade de assuntos considerados indiscutíveis: religião, política, futebol, gosto musical (ou, de modo geral, juízos estéticos), orientação sexual, padrões de conduta moral.

Felizmente, ninguém até hoje afirmou que não se discute a lista dos itens que devem ou não devem ser discutidos. Por isso, venho defender a tese escandalosa de que é possível, em princípio, discutir produtivamente sobre qualquer coisa. Apontam-se muitos motivos pelos quais pode ser inútil, desagradável ou até antiético discutir um determinado assunto: que não há padrões objetivos, que a ciência não se pronunciou sobre o assunto, que o resultado só pode ser a inimizade e a guerra de egos, que as convicções mais sagradas do outro devem ser respeitadas etc. Mas não considero boas essas razões.

Longe de mim sustentar que é possível ou desejável discutir qualquer coisa com qualquer pessoa em qualquer circunstância. Apenas me parece que quem diz que tal assunto “não se discute” está querendo dizer outra coisa ou se enganando quanto à natureza da dificuldade. Sem a intenção de fornecer uma lista exaustiva, posso dizer que as discussões frutíferas podem ser impedidas por nove fatores:

1. Não há interesse suficiente no assunto.

2. Não há conhecimento ou familiaridade suficientes na maioria das pessoas que discutem o assunto. Muita gente acha inútil discutir um assunto simplesmente porque nunca viu uma discussão de qualidade sobre ele.

3. Não há disposição para reconhecer a própria ignorância do assunto. Permanecer na ignorância é mais cômodo, pois dá a ilusão de que sua opinião sobre o assunto é tão boa quanto qualquer outra.

4. Não há motivação para tentar alterar a opinião de outras pessoas sobre o assunto ou despertar o interesse por ele.

5. A posição adotada em relação ao assunto produz satisfação e quem quiser demover alguém dela tende a ser repelido como estraga-prazeres.

6. As pessoas estão satisfeitas com o consenso predominante em sua cultura e não têm muita disposição para refletir seriamente sobre posições minoritárias. A pressão social torna uma saída fácil tratá-las como ridículas ou imorais.

7. A maioria das pessoas tem dificuldade de discutir o assunto sem se alterar emocionalmente.

8. A maioria das pessoas considera o tema delicado e não se dispõe a discuti-lo com qualquer um, isto é, sem que haja uma atmosfera de confiança, acolhimento e amizade.

9. Um autoritarismo velado pelo qual alguns se sentem no direito de decidir em nome da humanidade o que deve ser discutido ou não e impor sem discussão suas próprias opiniões.

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