Resenha 57: Spurgeon, uma nova biografia (Arnold Dallimore)

RESENHA 57

Spurgeon: Uma Nova Biografia

Autor: Arnold A. Dallimore

São Paulo: PES, 2008, 312 pp.

 

 

Tradução do Original: Spurgeon, A New Biography. © A. A. Dallimore, 1985.

Tradução: Odayr Olivetti

Categoria: Biografias

 

Toda vez que ouvimos falar em Spurgeon pensamos unanimemente no maior pregador do século XIX e nos lembramos das multidões atraídas por seus sermões, no vigor, coragem e ousadia deste pregador que começou a usar o púlpito aos 16 anos; vêm-nos à memória o grande Tabernáculo Metropolitano, construído sob sua liderança; dos volumes de sermões compilados e distribuídos por todo o Ocidente Protestante. Temos o relato de sua vida disponível na brilhante autobiografia do Reverendo de Londres, reunido por sua esposa Susannah, condensado em dois tomos pela The Banner of Truth Trust (The Early Years and The Full Harvest); uma avaliação mais teológica encontra-se no belíssimo livro de Iain Murray “O Spurgeon que Foi Esquecido”. Esta biografia vem suprir uma lacuna de um relato mais vívido, com uma boa fluência e uma leitura agradável, numa linguagem mais acessível, alcançando diversos públicos. Arnold Dallimore, um grande escritor e biógrafo cristão, notabilizado por seus dois tomos sobre a vida de George Whitefield, faz-nos chorar e vibrar com a vida do grande servo de Deus Charles Haddon Spurgeon.

Spurgeon se beneficiou por ter nascido em uma família de cristãos e de grandes pregadores. Seu avô e seu pai eram pastores. Ele passou parte de sua infância com o seu avô (desde os 14 meses de vida e não 14 anos como erroneamente aponta a edição da PES, na página 22). A influência d Biblioteca de seu avô e de seu pai foi de grande valor para este jovem, que desde pequeno ficava por um bom tempo observando as gravuras do livro Pilgrim´s Progress. Tinha uma inteligência sobrecomum e uma capacidade de comunicação espantosa. Devorou praticamente todos os volumes da literatura puritana ao seu dispor até os 16 anos e foi um aluno aplicado, com um forte senso de liderança.

Converteu-se ouvindo um pregador leigo expondo Isaías 45:22 e passou a ser um zeloso evangelista. Seus estudos pessoais da Escritura levaram-no a convencer-se que a forma correta de batismo era por imersão e por isso, contrariando seus pais, batizou-se em uma igreja batista. Tinha um senso de humor formidável: quando sua mãe lhe disse que vinha orando pela sua conversão e batismo, mas que lamentava que ele fosse batizado em uma igreja batista, Spurgeon redarguiu que Deus ouviu a oração de sua mãe muito além do que ela imaginava.

Iniciou sua vida de pregador em uma aldeia (Waterbeach) e logo passou a reunir multidões; não tinha papas na língua e ousadamente proclamava o Evangelho e não se intimidava diante de homem algum. Muitos entenderam esta sua atitude como orgulhosa, mas, possivelmente, um forte zelo e um caráter digno estava sendo moldado na vida daquele jovem pregador.

Sua fama não poderia deixar de correr por Londres e logo ele foi convidado para pregar na igreja de New Park Street, cujo pastorado estava vacante. Não demorou muito e foi convidado a se tornar pastor daquele rebanho e assim começa a história do grande pregador em Londres. Logo a Igreja passou a crescer assustadoramente. Multidões lotavam o templo, ao ponto de terem que se deslocar para um novo espaço a fim de ampliar as dependências da igreja. Em um destes dias, houve um tumulto no culto e algumas pessoas foram pisoteadas e mortas, gerando uma ferida na alma de Spurgeon que o acompanhou por toda a vida.

Sua esposa foi um lenitivo e um grande deleite em sua vida. Auxiliou-o em vários empreendimentos, administrou um programa de envio de livros para ajudar pastores de parca condição a se nutrirem com boa literatura.

Spurgeon foi um pregador saturado das Escrituras, seus sermões passaram a ser impressos e enviados aos milhares para boa parte da Europa e para os Estados Unidos. Sua imensa popularidade não o inibiu de falar contra questões que achasse importante: do seu púlpito, condenou os escravocratas; proferiu alguns sermões contra a Regeneração Batismal; por convidar pecadores ao arrependimento foi muito criticado por hiper-calvinistas. Mas isto não empatou a ele que era amante das doutrinas da graça deixar de pregar e convidar milhares de pessoas à conversão (sem apelações e sem mecanismos incentivadores de conversões psicológicas); na controvérsia do Alto Grau denunciou o Liberalismo e a baixa moralidade de muitos pastores de sua época. Isto rendeu-lhe a desfiliação da Associação Batista, mas não o paralisou na obra.

Viajava por centenas de cidades ao longo da Europa e sempre que podia ia a uma região da França para gozar seus sabáticos. Seus múltiplos projetos e realizações são notórios: asilo, orfanato, Escola de Pastores, grupo de Colportores, trabalhos em Missões, publicações de livros (destaque para The Treasury of David) e a edição de uma revista mensal intitulada The Sword and the Trowel (A Espada e a Pá), uma vida de leituras, aconselhamentos, pregações, reuniões e atividades diversas. Atividades como esta tão notórias na Inglaterra, Europa e Estados Unidos não poderiam deixar de causar inveja a muitas pessoas. Ele foi perseguido por muitos jornalistas, pastores e opositores que o pintaram com as tintas mais tenebrosas, como se Spurgeon fosse um farsante, um ator, um oportunista e um sofista. Certamente, a continuidade do seu ministério e o seu apego às Escrituras o pouparam de se envolver e de se deixar dominar por embates secundários.

Tamanhas atividades certamente não deixaram de trazer consequências para sua saúde. Além de ser um obreiro que estava no sobrepeso (pra evitar aquela outra palavra tão inconveniente), Spurgeon sofria de Gota, com múltiplas crises e vários episódios depressivos ao longo do seu ministério. Todos estes transtornos de saúde e alguns episódios mais polêmicos e hilários, como o uso de tabaco e bebidas alcoólicas são bem documentados e apresentados com habilidade por Dallimore.

Ele nos apresenta a influência e o impacto do ministério de Spurgeon (que nos fascina até hoje), seu caráter cristocêntrico, seu amor pelas almas perdidas, seu amor pelo seu rebanho do Metropolitan Tabernacle, seu carinho e amor por Susannah (que também tinha uma constituição enferma), sua forte liderança e seu zelo pela sã doutrina com tamanha maestria que é impossível não chorar ao longo do relato. Não é tanto que se deseje a fama e os louros do grande pregador inglês, mas é gloriar-se em Deus que decidiu usar tal homem para Sua Glória e para a edificação de sua igreja. A sua influência foi notada entre os principais pregadores e teólogos de sua época e durante as cerimônias fúnebres muitos clérigos e pregadores (inclusive Moody) pregaram e louvaram a Deus por sua vida.

Em uma época em que pastores são considerados ladrões (tristemente pela má conduta de muitos falsos obreiros) e que a igreja do Senhor tem sido perseguida, louvo a Deus pela vida de outros evangelistas e pastores que permanecem fiéis ao longo do século XX e no início do século XXI. Louvo a Deus também pela vida de Billy Graham que recentemente foi para a glória do Senhor, aos 99 anos, mas com uma vida e um testemunho ilibado e um fervor espiritual e capacidade retórica e evangelística sem precedentes no século XX e, à semelhança de Spurgeon, foi reconhecido pelo presidente dos Estados Unidos e por cristãos do mundo inteiro. Que o Senhor continue levantando obreiros zelosos, habilidosos, amorosos, dedicados, que à semelhança de Spurgeon possam impactar seu povo e sua cidade com a poderosa proclamação da Palavra de Deus. Este é um livro muito tocante e motivador. Recomendo sua leitura a todos os públicos possíveis, com ênfase para pastores e obreiros que se encontram desanimados e descontentes com os aparentes frutos de seu ministério. Deixo abaixo algumas lições que aprendi com a leitura deste livro:

1). Nutra seus filhos com boa literatura. Perceba o impacto que os livros fizeram e têm feito em sua vida e o quanto foram úteis a Spurgeon.

2). Não despreze os pregadores leigos e os menos afortunados intelectualmente. Foi pela pregação de um desses que Spurgeon olhou para o Senhor e alcançou salvação para sua alma.

3). Deus pode usar obreiros que nunca estudaram em Seminários. Mas, lembre-se que isto aconteceu com homens como Spurgeon e Lloyd-Jones (se você pretende ser obreiro e pensa nisto, saibas de antemão que eles tinham domínio da Teologia tanto quanto ou mais ainda que os clérigos de sua época). Lembrar-se que mesmo não sendo um seminário em molde acadêmico, Spurgeon tinha sua própria escola de pastores.

4). Os acadêmicos não se esqueçam da necessidade de equilíbrio entre piedade e erudição. Spurgeon era um homem de grandiloquência, memória invejável, conhecimento enciclopédico e de vasta leitura analisada em profundidade. Não foi por isso, entretanto, que menosprezou a vida de oração, santidade e amor ao próximo.

5). Não se esqueça que todos os grandes são tão humanos quanto a gente e passam pelos mesmos dramas inerentes à humanidade (sofrimentos, abatimento físico, tristezas, decepções). Faça com maestria, na esfera de atuação que Deus te deu, o trabalho que Ele designou para ser feito por você em sua igreja e comunidade. Não se compare com os grandes do passado e nem ache que precisa experimentar os mesmos arroubos de oratória e crescimento vertiginoso deles (ou até mesmo dos vultos atuais). Alegre-se com o crescimento dos outros e seja beneficiado com os múltiplos ensinos da vida destes homens (Spurgeon, Lloyd-Jones, Billy Graham, Stott, Macarthur, Piper, Tim Keller, Paul Washer), mas deleite-se mais ainda com o que Deus tem feito em sua vida e anime-se para trabalhar na seara do Senhor, visando o Reino Eterno e não as medalhas e conquistas diante dos homens. Amém!

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