Resenha 59: Apóstolos (Augustus Nicodmeus Lopes)

RESENHA 59

Apóstolos: a verdade bíblica sobre o apostolado.

Autor: Augustus Nicodemus Lopes

 

São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, 360 pp.

 

 

Categoria: Apologética / Apostolado.

Leitura concluída em 29/01/2016. Segunda leitura realizada entre os dias 19 e 22 de abril de 2018.

 

Esta obra é fruto dos estudos pós-doutorais do Dr. Augustus Nicodemus no Seminário Teológico de Westminster. Ao analisar a situação do Brasil no que concerne à ordenação de apóstolos em muitas comunidades evangélicas, o Reverendo resolveu escrever algo sobre o assunto e o fez de maneira magistral.

 

O livro é dividido em 3 partes. Na primeira ele demonstra o surgimento e a explicação bíblica para o conceito de apostolado. Na segunda parte, Lopes faz apontamentos sobre aqueles que vieram depois dos 12; e por fim, na terceira parte, ele -fala da Nova Reforma apostólica, tomando um tempo ao final para refutá-la.

 

Percebe-se que o caráter do estudo é diacrônico, mas em algumas porções da obra paralelos sincrônicos são estabelecidos. Não se restringe somente aos estudos históricos e é repleto de grandes considerações exegéticas. O autor crê que apostolado não é dom, (e aqui certamente ele causa uma celeuma), mas uma função (às vezes ele chama de ofício ao longo do livro), afirmando que em Efésios 4.11, Deus deu alguns homens à igreja (e não dons); em 1 Coríntios 12:28, Lopes afirma que existem 3 tipos de pessoas levantadas por Deus como ministros (apóstolos, profetas e mestres) e em seguida aponta 5 manifestações ou dons associadas: operadores de milagres, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas (pp. 126-128). Com isto conclui que o apostolado não é um dom. Penso que utiliza isto com argumentos exegéticos de qualidade (apesar de que creio que em Efésios 4:11, o paralelo com os versículos anteriores “ele deu dons” parece correlacionar o apostolado com dom e aqui em 1 Coríntios 12:28 apesar de os três primeiros refletirem oficiais da igreja, isto não implica dizer que não seja tratado como dom. O fato de Cristo ter escolhido os 12 e depois ter chamado Paulo como comissionados para esta missão especial de proclamar a ressurreição de Cristo, em comissão direta, marcada pelo sofrimento, com um número restrito de apóstolos, não implica dizer que este número restrito não seja um dom dado à igreja do Senhor).

 

Além disto, o Dr. Nicodemus afirma que “apóstolos e profetas” em Efésios 2:20 e 3:5 diz respeito aos apóstolos do Novo Testamento e aos profetas do Antigo Testamento, dando a ideia de completude do cânon. Aqui há uma tradição de teólogos que estão em sintonia com Nicodemus. No entanto, uma fluência natural do texto mostra que apóstolos e profetas estão inseridos na era presente (cf. Efésios 2:13, 17, 3:2). Porém o texto-chave que tem grande paralelo com 2:20 é Efésios 3:5 – “O qual noutros séculos (grifos meus) não foi manifestado aos filhos dos homens [e aqui certamente fala da era anterior, que foi a era dos profetas do Antigo Testamento], como agora (grifo meu) tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas (está inferido que são os profetas do Novo Testamento)”. Isto porém, não é crucial para a argumentação, uma vez que os profetas do Antigo Testamento proclamavam a mensagem apostólica, recebida de Jesus Cristo e de seus santos apóstolos.

 

Uma explicação interessante sobre a validade do apostolado de Matias é que esta foi a única substituição apostólica. Judas foi substituído, mas Tiago não; o objetivo da primeira e única substituição foi manter o número dos 12 para a descida do Espírito Santo. A partir daí, o ministério apostólico não sofre nenhuma renovação. O único uso válido da palavra apóstolo para os nossos dias seria o correspondente de um missionário pioneiro em um determinado campo (mas quantos fazem isto?).

 

O autor escreve um longo capítulo sobre o apostolado de Paulo, muito bem escrito por sinal, mostrando o paralelo entre Paulo e Pedro e que, de fato, Paulo e os 12 estão em uma categoria única de apóstolos. Sendo Pedro, o líder dos 12 o representante do apostolado da circuncisão e Paulo, o da incircuncisão (argumento que aponta para o não apostolado universal de Pedro em relação aos demais – cf. p. 83). Além disso, a exegese de 1 Coríntios 15 aponta que ele de fato era o “último” dos apóstolos, não deixando margem para uma sucessão apostólica ou uma Nova Reforma Apostólica no século XXI. Ele é duro e incisivo quando diz: “Bastam-nos as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Elas servem de base para o trabalho dos presbíteros como líderes das igrejas locais. Não precisamos de sucessores dos apóstolos, como bispos ou papas. E nem de apóstolos modernos” (p. 196). Em capítulo posterior, Nicodemus demonstra que as demais pessoas apontadas como apóstolos não preenchem todos os requisitos do apostolado dos 12 e de Paulo e certamente recebem este nome por sua relação com os demais e pelo comissionamento para uma obra específica.

 

A peça-chave no movimento de Nova Reforma Apostólica é Peter Wagner. No caso de influência sobre Valnice Milhomens e Neuza Itioka (“apóstolas” brasileiras), a figura principal é Rony Chaves. As bases esdrúxulas vem de um retorno às práticas judaicas, com uso de jargões do tipo “chuva serôdia”, “a glória do segundo templo”, etc. Estevão Hernandes e Renê Terra Nova são homens bem influentes que alegaram pertencer a esta Nova Reforma Apostólica. Acham-se comissionados diretamente por Jesus Cristo para reformar plenamente o que a Reforma Protestante não fez, rompendo com os padrões de “religiosidade” do denominacionalismo atual. Nicodemus ainda atribui tais esquisitices por conta de tais homens serem dispensacionalistas (talvez uma alfinetada a nós, como todo bom reformado gosta de fazer). No entanto, é pelo menos curioso que a principal referência que ele utiliza para combater a Nova Reforma Apostólica, no capítulo final de seu livro também é um dispensacionalista. Refiro-me a nada mais, nada menos que John MacArthur, Jr., em sua obra Fogo Estranho (amplamente citada por Lopes).

 

O livro é bem escrito, bem documentado e trata-se de um grande alerta para a igreja atual a respeito desta falsa renovação apostólica. Finalmente lido, mas valeu muito apena. Aqui está um trabalho de erudito que possui cuidado pastoral por sua nação, a qual vacila no trôpego erro do orgulhoso desejo de ser chamado pelo nome de “apóstolo”, “paipóstolo”, “patriarca”. Daqui a pouco vão querer destronar Deus (e o senhor Peter Wagner tentou fazê-lo quando assumiu ser um teísta aberta). Eis o caminho para onde leva esta Nova Reforma apostólica: o caminho da heresia. Também pudera, seus precursores também foram os hereges gnósticos.

 

Nicodemus não poupa o chicote da sã doutrina e da apologética para desmascarar estes vigaristas. Meu desejo é similar ao de Michael Horton. Espero ver esta obra publicada em língua inglesa também. Quem sabe, além do capítulo sobre Peter C. Wagner, Augustus fizesse uma pesquisa in loco sobre os apóstolos americanos, desmascarando-os. Isto enriqueceria o livro no contexto da língua inglesa e o habilitaria a ser um best-seller em terras do Tio Sam. Recomendo com efusivos votos de aprovação!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s