Resenha 60: Esquizofrenia Intelectual (Rousas J. Rushdoony)

Resenha 60

ESQUIZOFRENIA INTELECTUAL: cultura, crise e educação

Autor: Rousas John Rushdoony

Brasília, DF: Monergismo, 2016, 204 pp.

© 1961, Intellectual Schizophrenia: culture, crisis and education.

Tradução: Fabrício Tavares de Moraes.

 

De uma maneira bem sintética, este livro  apresenta argumentos capazes de acabar com as mais utópicas expectativas dos defensores da Escola Pública. Como bem afirmou Samuel L. Blumenfeld, em sua apresentação da obra, trata-se de um chamado para retirar seus filhos das escolas públicas pagãs. Porém, é bom perceber o tom cordato expresso por Rushdoony no seu prefácio original de 1961:  “o propósito deste estudo não é criticar nem elogiar as escolas, mas compreendê-las e também sua filosofia essencial, como manifestações culturais” (p. 13). Mas à medida que suas análises apontam para o fracasso do ensino público, no sentido de prover real conhecimento ao aluno, Rushdoony nos apresenta, da perspectiva calvinista, uma alternativa nas escolas cristãs.

Rushdoony aponta que a partir de John Locke, o plano de retirar Deus do cenário público gradualmente foi sendo aplicado, pois com sua ideia da mente humana como uma folha em branco, Locke popularizou qualquer ideia inatista, afirmando ser a mente da criança uma construção social; eis um grande trunfo do Iluminismo em sua sede por apagar Deus da história humana (vã tentativa). O padrão de tábula rasa tornou-se o “ideal educacional” (p. 31).

Ele ainda apresenta o o legado negativo de Francis Bacon e empirismo e a suposta vantagem da neutralidade científica. Tal ideia que se baseia no acúmulo dos particulares e a negação prévia de qualquer universal, desconsidera o fato de que a mente do cientista já tem uma demanda universal no ato em que se propõe a realizar os particulares (e para a maioria deles, o universal envolve a inexistência de Deus).

Desta maneira, a pedagogia moderna foi afetada por estes pressupostos em suas grades curriculares, abandonando paulatinamente os métodos clássicos de ensino. Desta forma, Rushdoony não propõe uma dicotomia entre natureza e graça, mas também mantém uma postura alinhada com a proposta da soberania de esferas. Ele afirma:

A dicotomia não é entre graça e natureza, mas, sim, entre graça e pecado; assim, quando qualquer reino da natureza entre no estado da graça, ele se torna por esse ato parte da igreja visível. Definir o Reino de Deus ou a igreja visível em relação à igreja institucional é tomar a estrada para Roma em direção à subordinação de cada aspecto da vida à igreja. (p. 80).

 

O autor crê na integridade da vida e acredita que a igreja, o Estado, a família e as demais esferas sociais, todas, igualmente, estão debaixo da soberania de Deus. Neste sentido, há espaço para a escola cristã, pois ela é uma extensão da igreja e uma extensão do lar (pp. 83, 84). O politeísmo deve ser enfrentado não com o separatismo desenfreado, mas com uma boa dose de ensino autêntico sobre história, cultura e religião, à luz dos pressupostos bíblicos e da revelação geral.

A Nova Escola, com um programa de educação total para a criança e com um sistema de ensino integral apresenta um modelo social tipicamente “redentor”, que apresenta a salvação da humanidade por meio da Educação. Mas, foi justamente assim que a Coreia do Norte (comunista) promoveu uma intensa lavagem cerebral (p. 90). A Escola Cristã, por sua vez, por saber que não tem o poder integral de “redenção”, sabe que não possui responsabilidade total sobre a criança. Já a Escola Pública, envolvida com este novo modelo educacional finda tornando a programação dos futuros “cidadãos” algo de sua inteira responsabilidade (e se for preciso, passam por cima até mesmo da família para obterem a mente de nossos filhos).

A Educação Pública não tem como prioridade o ensino, mas os interesses do Estado. À medida que o poder de ingerência do Estado sobre a Escola aumenta, toda a estrutura pedagógica da Escola deve se submeter aos ditames do Estado, até porque os incentivos financeiros só serão liberados caso tais ditames sejam aceitos de maneira subserviente.

A Comissão de Políticas Educacionais norte-americana, de 1951, intentava diminuir a influência religiosa sobre o Estado, na verdade sua pretensão era a atividade inversa, a fim de que o Estado pudesse ser servido por todos os setores, inclusive o religioso. Em um de seus documentos, eles afirmam: “Essa educação não deve ser formada a partir da miscelânea sintética de vários conceitos religiosos, mas, sim, dos valores morais e espirituais compartilhados pelos membros de todas as crenças religiosas. Essa educação possui uma profunda importância religiosa” (p. 114). Esta frase é autocontraditória, para dizer o mínimo. As palavras de Rushdoony são mais contundentes:

Eis o velho mito do núcleo religioso comum presente no coração de todas as expressões de fé. É como se disséssemos que devemos respeitar a monarquia, o fascismo, o nazismo, o comunismo, o feudalismo, o republicanismo e a democracia e crer nos valores morais e espirituais compartilhados por todos eles. Seria afirmar a crença no governo como algo moral, independentemente de seu caráter. A religião em si, pode ser verdadeira ou falsa, boa ou má, decadente ou vigorosa. Afirmar [isto] significa afirmar a irrelevância de todos os valores morais e espirituais. (p. 114).

 

A Educação nunca pode entregar ao País a tão sonhada redenção proposta por aquela. Como nos diz Rushdoony, o “Estado, infelizmente, é um Moisés que só pode conduzir o povo eleito ao deserto, jamais para fora dele.”

O projeto de manipulação de massas a partir do domínio da base da pirâmide etária, a infância, passa pela modificação do conceito de criança. Já na década de 1950, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, a criança era vista como um ser inerentemente “puro” e “inocente”. Sendo assim, ela não é passível de punição, está em construção de sua personalidade, não pode ser penalizada e requer direitos que a assegurem contra “pais opressores”. Não é à toa que a Lei da Palmada foi aprovada e a ingerência da família sobre a criança é cada vez maior. Aliás, recentemente na Noruega, pais perderam a guarda de seus filhos por causa de sua inclinação religiosa cristã na Educação[i]. Perceba que o Estado e o Poder ampliados cada vez mais diminuem a liberdade religiosa e familiar. No Brasil, não estamos muito longe de chegar a este quadro.

Mas Rushdoony, não considera nocivos apenas os efeitos da Escola Pública sobre a formação da criança. Em sua época (talvez na nossa também), ele considerava a Escola Bíblica Dominical mais nociva do que abençoadora. Ele atribui isto ao caráter meramente moralista de algumas classes de E.B.D. Segundo ele, mais do que aprender a desenhar a Arca de Noé e a funda de Davi e a saber listas do que se deve fazer e do que não se deve fazer, a criança deveria aprender sua real condição de pecadora e não de “moralista” (que poderia cumprir bem seu papel social se frequentasse semanalmente a E.B.D.). Na verdade, muitos pais creem nisto, inconscientemente, quando enviam seus filhos para a E.B.D. não para que estes adquiram real conhecimento de Deus, mas para que se tornem melhores cidadãos. E, em parte, este argumento é defendido por muitos professores de E.B.D., afinal o efeito utilitário não deve ser menosprezado; o problema é quando a E.B.D. restringe-se somente a isto.

Mas, afinal, porque o título do livro é “Esquizofrenia Intelectual”? Porque a Escola Moderna dicotomizou razão e emoção tal qual um esquizofrênico que busca a unidade na fantasia (de sua própria mente) e nega a unidade na realidade (que aí se apresenta). A Escola atual nega a realidade de que crianças são responsáveis por suas atitudes, que a cognição exige padrões objetivos de moralidade, cognoscibilidade e beleza. É lógico que o Q.I. tomado como único parâmetro de medida da inteligência consiste em um reducionismo, mas o que não se percebe é que a negação deste (por meio da defesa de outros parâmetros como o Q.E., dentre outros) consiste num desprezo ao intelecto e à boa formação cognitiva do aluno. Sendo assim, ela separa o intelecto das emoções, negando a necessidade de apreensão de conceitos mais complexos, o que finda por vulnerabilizar e idiotizar as “massas escolares”, o que proporciona o altíssimo índice de analfabetismo na Escola Pública e nas Universidades.

Infelizmente para os parâmetros educacionais modernos, educar não significa levar ao aprendizado (é impressionante a tentativa de romper com a categoria “mestre” ou “professor”, adotando-se nomenclaturas esdrúxulas como “facilitador”; isto leva o indivíduo a tomar como universal educacional o seu próprio ser; e cria-se a fantasia de universalizar o particular, pela supressão de parâmetros objetivos de ensino e de informações cognitivas necessárias ministradas por um ente que além de atividades que estimulem o imaginário e o valor individual, apresente dados sistematizados de maneira concreta para uma coletividade que após se especializar poderá, aí sim, começar a questionar tais valores à luz da realidade e não das fantasiosas ilusões de um imaginário Bobiano[ii] (atitude que está mais para boba).

Porém, apesar de seu caráter anticristão, a Escola possui um misticismo religioso altamente aflorado, que se baseia na autorrealização, pois para os padrões da Escola Moderna, a realização individual é o que mais se busca (inclusive entre cristãos). Porém, à medida que a Escola Estadista é atacada em seus falsos pressupostos pela educação domiciliar e pela Escola Cristã, ela irá se opor a estas entidades. (p. 150). Assim, a Escola Pública desumaniza cada vez mais o homem. Nas palavras de Rushdoony:

Os homens antes viviam para trabalhar, e agora trabalham para se divertirem, para buscar um escape da responsabilidade e da procura por sentido. Desse modo, o homem perde por completo tudo que faz dele homem – tudo o que o caracteriza como ser criado à imagem de Deus. (p. 160)

 

 

Desta forma, diante da ameaça da Escola Pública, Rushdoony não propõe evasivamente um confinamento religioso e um ascetismo extra-mundano. Ele desafia cada cristão a se engajar nesta era por meio de uma intervenção coerente, cheia de destreza e capacidade. Assim, sua proposta não é fugir da influência social, mas continuar influenciando por meio da Escola Cristã. Ele apresenta seis apêndices ao final do livro para corroborar melhor sua proposta de Escolas Cristãs. Rushdoony é ousado, corajoso e equilibrado. Já sabe que não será capaz de redimir a nação pela Educação, mas nem por isso, se afasta do dever de continuar influenciando a sociedade com padrões educacionais objetivos. É uma leitura muito estimulante que pode ser complementada por um livro mais atualizado intitulado “Quem controla a Escola Governa o Mundo”, de Gary DeMar.

 

[i] Confira: https://padrepauloricardo.org/blog/pais-perdem-guarda-dos-filhos-por-serem-muito-cristaos . Acesso em 23/05/2018.

 

[ii] Do “Fantástico Mundo de Bob”.

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4 comentários sobre “Resenha 60: Esquizofrenia Intelectual (Rousas J. Rushdoony)

    • Muito obrigado, minha amiga. Sinto-me lisonjeado em ter uma leitora de sua envergadura. Isto me anima a continuar. A estima e o respeito que tenho por sua pessoa, atrelada à sua manifestação aqui neste blog, são lenitivos que me estimulam a continuar. Saudações fraternas, de seu amigo Fares.

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  1. Traduzi alguns livros do Rushdoony.
    Se tiver interesse em adquiri em Ebook (PDF) é só falar.
    Boa noite!

    Uma Palavra na Temporada VOL 1-7 Ensaios Compilados
    Ser como Deus: um estudo do pensamento moderno
    desde Marquês de Sade
    Revolta Contra a Maturidade
    Por Qual Padrão?
    O homem moderno e o problema do conhecimento
    Nossa Liberdade Ameaçada
    LEI E LIBERDADE
    Infalibilidade – Um Conceito Inescapável
    Furto no coração – a economia de Satanás e o estado inflacionário
    A MORTE DO SIGNIFICADO
    A Filosofia Bíblica da História
    NIILISMO – A Raiz da Revolução – Serafim Rose

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