A.O.A. (18) – Dostoiévski: um gênio no subsolo da alma humana – (Márcio Rogério)

Sobre o articulista:

Márcio Rogério Bernardo Matos é fundador e presidente do grupo CaFé com Letras, um grupo de leitura  estabelecido na cidade de Juazeiro do Norte que se reúne periodicamente para tratar de Literatura, Filosofia e Teologia. Márcio Rogério é um leitor voraz, um grande intelectual, com análises literárias precisas e cirúrgicas.

Marcio rogerio

Márcio Rogério

 Dostoiévski: um gênio no subsolo da alma humana.

Dostoiévski é um autor que penetra e escava no profundo da alma para de lá extrair aquilo que é mais intrínseco e inerente à natureza humana. É o natural, o comum, mas que nas suas personagens está quase sempre envolto em uma cortina de aparências categóricas sociais “limpas”, quando na verdade nelas estão representadas as figuras arquetípicas mais inconfessáveis ou os excluídos dos melhores salões da sociedade russa por ele denunciada. Em sua obra encontramos os viciados, os imorais, os céticos, os ingênuos, os castos e os compassivos, como o príncipe Mishikin, de O Idiota. O que salta aos olhos na obra de Dostoiévski é, sem dúvidas, a grande influência que ele carrega da religiosidade mística de sua origem ortodoxa. Mesmo não sendo um intérprete autorizado ou um clérigo dissidente da liturgia oficial, lhes são patentes o moralismo e o caráter profético de seu texto. O niilismo é o traço mais marcante de seu diálogo com Deus e está em plena consonância com essas patentes. Essa é sua espiritualidade aparentemente sorrateira; significa, por muitas vezes, um eco de Eclesiastes, um apelo às avessas pela graça de Deus.

Pode, sim, ser desconcertante, mas antes é tocante, o Eugene Peterson acerca do seu resgate vocacional movido por Dostoiévski. Peterson vê a beleza e o encantamento dos ricos enredos e personagens do autor russo. E, eles estão lá, o poético pastor de A Mensagem enxerga novas percepções, novas perspectivas sobre uma obra tão complexa quanto é a própria existência. Muitas vezes a arte é uma certa flama da graça, a literatura, a música, a pintura… são instrumentos na mão do Senhor. Elas não são o padrão usual da ação de Deus sobre a vida, mas elas são como que recursos subliminares que precedem o fulgurante irradiar do sobrenatural de Deus.

A obra de Dostoiévski é inesgotável em si, sem que se perca o sentido real da trama e se adote um relativismo textual, ela se multiplica e se dinamiza a cada nova leitura. Dostoiévski é de fato o único a rivalizar e correr próximo a Shakespeare dentre os maiores gênios da literatura.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s