Resenha 62: Disbioética Volume I (Hélio Angotti Neto)

Resenha 62

Disbioética

Volume I: Reflexões sobre os rumos de uma estranha ética.

Autor: Hélio Angotti Neto

Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017, 100 pp.

 

Trata-se de uma coletânea de 13 artigos que versam sobre esta estranha ética que tem assolado o país: uma bioética desvirtuada dos princípios que norteiam a Medicina desde suas origens. Em outras palavras, são artigos sobre o exercício de uma medicina que tem ferido a Bioética. Utilizando uma linguagem condensada, didática e bem escrita o Dr. Hélio Angotti Neto apresenta o resultado de seus estudos em Bioética e Filosofia e primorosamente nos brinda com estas pérolas de sabedoria aplicadas à Ética Médica.

O primeiro artigo aponta o valor da Alta Cultura aplicada à Bioética. Afinal, como podemos tratar de axiologia, sem sabermos o que os Clássicos das civilizações Oriental e Ocidental versaram a respeito? Cairemos num relativismo subjetivista se negligenciarmos a Alta Cultura. Mas o que fazer se a maior parte dos médicos e cientistas, de modo geral, simplesmente menosprezam os clássicos como coisa de somenos, simplesmente por ignorarem a vasta tradição Ocidental? É mais ou menos assim: “aquilo que eu não sei não é importante! Portanto, danem-se Platão, Aristóteles, Sófocles e todos esses malditos intelectuais do passado que nada sabem dos grandes avanços científicos, sociais e psíquicos do século XXI”. Falar em estudar Filosofia e Literatura para médicos? Certamente gera risos de desprezo por parte de muitos médicos enclausurados em sua compulsão por amealhar dinheiro, status e perícia acadêmica. “Literatura?”, dizem alguns, “isso é coisa de alunos do Ensino Médio”; “Filosofia? Isto é coisa de malucos idealistas que não têm algo realmente importante para fazer”. Tal espírito anti-Humanidades e anti-intelectualista por parte de muitos médicos reflete a triste realidade e qualidade de muitos profissionais, fazendo ecoar o adágio: “quem só sabe Medicina, nem Medicina sabe”. Como diz o Dr. Hélio, tal quadro “só poderá terminar na brutalidade sem sentido” (p. 14). Reducionistas, ávidos por dinheiro e pelas conveniências políticas do momento, eles desprezam aquilo que poderia fazer deles médicos mais perspicazes, sábios e abrangentes em sua interpretação diagnóstica, prognóstica, terapêutica, sociológica, política e religiosa. Mas ainda há tempo. Comecem a ler os Clássicos!

Nos artigos 2 a 4, o Dr. Hélio apresenta a Guerra Cultural que paira sobre o campo da Bioética. O artigo 2 mostra como há uma sutil tentativa de impor novos padrões semânticos a fim de manipular os incautos e fazê-los subscrever aos seus nefastos projetos de morte; é o caso de alguns bioeticistas que, na tentativa de defender o infanticídio, inclusive em casos de recém-nascidos sem anormalidades, ao invés de infanticídio utilizam a terminologia “abortamento pós-nascimento”[i]. E qualquer um que se opor a leviandades como esta são tachados de “fundamentalistas”, retrógrados e agressivos. Porém, se nos calarmos diante destas sutis mudanças, mais facilmente os ideais eugênicos, progressistas, voltados para a manipulação de massas, o extermínio de indefesos e o comércio inescrupuloso de órgãos ganharão terreno e serão impostos a todos os médicos. É hora de denunciar seus ardis, apontar o valor irrefutável dos Universais e aplicá-los a uma prática médica cheia de perícia e amor ao próximo, divulgando isto em órgãos científicos e reafirmando valores da cultura de vida (e não de morte) que perpassa toda a arte médica desde os tempos hipocráticos, fazendo-o nos consultórios, em entrevistas, literatura médica especializada, congressos nacionais e internacionais, CFM e CRM´s. Estamos numa guerra e não podemos nos acovardar[ii]. O terceiro artigo apresenta outro método para suprimir a tradição hipocrática (a verdadeira Medicina): o assassinato de seu legado cultural: a reformulação do Juramento Hipocrático. O novo Juramento é amputado da luta contra o aborto e da luta em prol da vida. Como bem disse o Dr. Hélio: “de forma bem escancarada, não se menciona o respeito ao valor da vida ao proibir a eutanásia, o suicídio assistido e o abortamento voluntário”.[iii] No quarto artigo, o autor trabalha a partir de um termo de sua própria especialidade médica: o escotoma negativo (mancha localizada no campo da percepção, não perceptível ao paciente) e o aplica ao campo abstrativo. Um exemplo de escotoma negativo abstrativo é o do grupo pró-escolha, que só consegue ver a escolha da mulher, mas se esquece da participação do pai, do médico e do feto (o mais prejudicado). Outros exemplos de escotomas são “a abordagem historicista do Juramento de Hipócrates, as críticas governistas à medicina brasileira, as soluções simplistas e propagandistas às vésperas das eleições” (p. 29). Devemos nos limpar destas manchas para enxergarmos amplamente e perceber todas as implicações envolvidas na Bioética e não apenas os reducionismos de grupos compromissados em subverter a Verdade.

Nos artigos 5 e 6, o autor faz menção ao livro 1984, de George Orwell[iv], onde a personagem Emmanuel Goldstein serve como bode expiatório das mazelas ocorridas na sociedade inglesa. O quinto artigo então afirma que o médico é o Goldenstein do PT. E foi exatamente isto que o PT fez com a classe médica, denegrindo-a para poder suprimi-la; falando em amor aos médicos cubanos, mas usando de subterfúgios para enriquecer ainda mais a ditadura castrista e diminuir as oportunidades para os médicos brasileiros, negando-lhes um plano adequado de cargos, carreira e salário e colocando-os como elitistas, desumanos, racistas, capitalistas selvagens que não gostam do interior do país, diferente dos seus colegas cubanos (um grande engodo desmascarado abertamente por todos os que estudaram o assunto minimamente). A classe médica foi o bode expiatório do governo petista e continua sendo do governo Temer. O governo, por não ter como justificar sua má-gestão de recursos aplicados à saúde, se utiliza de técnica nazista para atribuir aos médicos a culpa a ele (o governo) pertencente. No artigo 6 nós vemos a profecia moderna de George Orwell da expansão do Partido até o nível totalitarista. Todas as estruturas que impedem o Partido de ser adorado (religião, família, tradição judaico-cristã, conservadorismo) devem ser expurgadas da sociedade. Para isso contradições óbvias do duplipensar e da novilínuga são expostas crassamente: O Estado que se diz laico persegue o Cristianismo mas dá ampla mobilidade e apoio às religiões africanas e ao Islamismo; não quer a pena de morte mas a aplica aos nascituros; prega a igualdade de direitos mas favorece certas minorias em detrimento da ala maior da população (heterossexual e amparada na família tradicional). Todos pensam estar melhorando por meio das promessas do paraíso futuro como já pertencentes ao presente. Os inocentes úteis de hoje, como diz o Dr. Hélio, “são nossos intelectuais de segunda ordem, professores, atores da TV, com cérebro de geleia, e sociólogos, que acham fazer um bem ao pregar suas ideologias ultrapassadas.” (p. 41).

No artigo 7, ele fala da teologia de Polemarco (ajudar os amigos e prejudicar os inimigos), personagem da República. Tal teologia é aplicada de maneira mais severa por Maquiavel, às vezes com um requinte maior de crueldade, prejudicando inclusive alguns amigos, que porventura estejam empatando nosso domínio absoluto sobre a população. Esta Teologia maligna é expressa nos escritos de Leonardo Boff, que usando de linguagem “cristã” apregoa o ódio aos inimigos (conservadores, defensores do grande capital) e o amor aos amigos (esquerdistas, crentes no Grande Partido que num futuro próximo (quando todos estiverem mortos e subjugados) trará a igualdade social.

O artigo oitavo apresenta a dignidade médica sob ataque, pois estão querendo nos obrigar a agir contrariamente às nossas consciências. O Dr. Hélio apresenta o caso de médicos canadenses que têm sido “convencidos” pelo governo a praticar a eutanásia. Eles querem que o médico mate seus pacientes, sem o direito de objetar à objeção feita pelo governo ao direito de integridade de consciência do médico.

No artigo nono, o autor faz uma excelente réplica a um artigo de Alta Charo (defensora do abortamento e da manipulação científica e comercial de tecidos fetais). Percebe-se nitidamente a ira manifesta por tais autores progressistas contra conservadores e proponentes pró-vida. O Dr. Hélio apresenta as falácias de Charo, mostrando que ela cria espantalhos dos não-abortistas e que se baseia em projeções não-realistas para defender a manipulação de fetos indevidamente. Como bioeticista ela deveria saber que “não há razões para melindres a respeito de expectativas futuras se houver razões para melindres a respeito de falhas éticas graves no presente.” (p. 63).

No artigo de número 10, Hélio Angotti Neto é incisivo em desmascarar os engodos do Novo Código de Ética Médica, que, estrategicamente, trocou a imagem de Hipócrates pelo de Jano (Jânus), o Deus Romano de duas faces que representa a transição do passado para um novo tempo. E o Novo Código prevê realmente mudança, ou melhor, quebra do paradigma hipocrático. Afirma-se que “o mundo e o homem mudaram”, como se não houvesse nenhuma relação de continuidade com o passado. Por maior que seja a mudança, há uma unidade inerente à humanidade que é imutável: o sofrimento, o medo da morte, o anseio pela mão caridosa de um médico amigo (e não a má consciência de um profissional que defende o aborto e a eutanásia). A reformulação sutil do novo Código de Ética Médica só pode ser percebida por quem está a par da tradição hipocrática e da subversão da mesma ao longo da História da Medicina, a qual em nome do progresso da humanidade propaga a morte de certos espécimes da humanidade para o bem geral da nação (e viva Augusto Comte, Darwin e Karl Marx).

No artigo 11, o Dr. Hélio aborda os grandes desafios do médico que não se encontram na frase simplista “salvar vidas”. Pois antes de salvar vidas, o médico precisa diagnosticar doenças, realizar um prognóstico adequado e estabelecer o tratamento. Mas, além disso, ele precisa ter a coragem de lutar pela vida de seu paciente como Rob de Jong lutou por um bebê inscrito no Protocolo de Groningen[v]. Mesmo sem prognóstico nenhum pelo que determinava o referido protocolo, o Dr. Rob de Jong resolveu operar uma criança, que sobreviveu. Sem a coragem, o amor e a perícia, médicos não poderão romper barreiras terapêuticas, como as vencidas por Bem Carson, Rob de Jong, dentre outros.

O artigo 12, que versa sobre o médico filósofo, aponta o valor do conhecimento de Humanidades pelos profissionais da área médica (coadunando-se com o que já fora dito no artigo de número 1). Uma bela sugestão dada pelo Dr. Hélio, que estou tentando aplicar (porém ainda muito lentamente, apesar de já ver progresso), é:

Antes de cobrar das pessoas incapazes que lotam as cadeiras ministeriais e suas parvas e numerosas assessorias – estupidificadas pela atitude de bajulação dos poderosos -, por que não compramos uns bons quinhentos livros de clássicos da literatura e da filosofia cada um e dedicamos uns dez anos de estudos para nos qualificarmos? (p. 83)

 

No último artigo, o autor demonstra que a Bioética está em favor da elite política, empresarial e midiática, bem como da maioria da classe universitária, os quais já estão “enojados” de quaisquer manifestações conservadoras que apontem a nulidade (nihilismo) de suas escolhas ideológicas. Usam os artistas de TV (endeusados pela grande massa) para fazer a “cabeça” das massas em prol do aborto; usam os professores para subverter a religião; usam os escritores de cabeceira (Marcuse e Jorge Amado) para exaltar a marginalidade e usam o estratagema da infiltração gramsciana, dia-após-dia, incansavelmente e não sossegarão enquanto não aniquilarem a estes (nós) que empatamos-lhes a passagem do rolo compressor totalitarista. O que fazer, então? Seguir o exemplo de Hélio Angotti Neto e fazer nossa parte no exercício da Medicina, buscando a Alta Cultura, pautando-se pela tradição judaico-cristã, produzindo em nome da Verdade e do Amor. E se formos massacrados? Que o sejamos na luta entrincheirada contra a manipulação e o engodo, semelhantemente a Sócrates. Pois melhor é morrer por ideais justos do que se entregar ao barbarismo, desprovido de consciência, em nome da ganância e do status, pagando o preço da vil servidão ao Estado. Mas a luta ainda não acabou. Continuemos firmes!

 

 

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Notas de fim:

 

[i] Termo risível e contraditório.

 

[ii] Esta tosca tentativa de manipulação semântica foi apresentada à comunidade científica no seguinte artigo: GIUBILINI, A; MINERVA, F. “After-birth abortion: why should the Baby live?”. Journal of Medical Ethics, vol. 39, 2013, p. 261-3. O Dr. Hélio Angotti Neto faz uma análise acurada e arrasadora deste artigo em seu livro: “A Morte da Medicina” (Campinas,SP: VIDE Editorial, 2014).

 

[iii] Para entender melhor o valor deste precioso documento, consulte a obra “A Tradição da Medicina” (Brasília,DF: Monergismo, 2016) também de autoria do Dr. Hélio Angotti Neto. Minha resenha desta magnífica obra está disponível em: https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2017/06/04/resenha-21-a-tradicao-da-medicina-helio-angotti-neto/ .

 

[iv] Como diria o Dr. Jonas Madureira, você não pode passar desta vida para a outra sem ler este livro.

 

[v] Protocolo de Eutanásia Infantil para crianças sem prognóstico.

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