Resenha 68: O Mestre dos Mestres (Augusto Cury)

Resenha 68

O Mestre dos Mestres: Jesus, o maior educador da história.

Coleção Análise da Inteligência de Cristo Volume 1.

Rio de Janeiro: Sextante, 2012, 160 pp.

Autor: Augusto Cury

 

 

O Psiquiatra Augusto Jorge Cury, amado pelo grande público, criticado pela Academia e odiado por não poucos, é conhecido por sua teoria da inteligência multifocal[i]. Tomando como base as teorias de Howard Gardner e Daniel Goleman, Cury afirma que a inteligência abrange o processo de construção de pensamentos; o processo de organização da consciência existencial e da estruturação do eu; os papéis conscientes e inconscientes da memória e a formação da história intrapsíquica; o processo de transformação da emoção; o processo de interpretação e de formação de pensadores.

A análise de Cury não se compromete teológica ou religiosamente; apenas procura trazer para o século XXI os elementos da inteligência de Cristo negligenciados pela Academia. Para Cury, Jesus “foi o personagem mais complexo e enigmático que transitou neste misterioso teatro existencial.” (p. 10).

Cury percebe algumas características intrigantes na inteligência de Cristo: “Ele cresceu sem se submeter à cultura clássica do seu tempo” (p. 14); “Ele foi tolerante e dócil para com todos” (p. 14); “informava pouco, porém educava muito” (p. 19); “a arte de ouvir era uma joia intelectual para ele” (p. 23). Não podemos deixar de notar a insatisfação de Cury com o que ele chama de “cultura clássica” da época de Cristo. De antemão, porém, afirmamos que mesmo não se submetendo a nenhum dos segmentos religiosos de sua época, Jesus os conhecia muito bem e tinha domínio do Antigo Testamento, o texto clássico por excelência do judaísmo. Ele poderia não se submeter ao padrão clássico, mas o conhecia como ninguém. E conhecimento não nasce de meras conversas, diálogos e reflexões aleatórias. Envolve, isto sim, disciplina, muito estudo e dedicação. Além disso, a tolerância e dulçor de Cristo em muitas circunstâncias não excluem sua intolerância contra o pecado, o mercado religioso, a hipocrisia, etc. Sobre pouca informação e muita educação, vale ressaltar que nem todos os discursos de Cristo foram registrados, e os muitos que foram registrados não contém poucas informações. Observe, por exemplo, o Sermão da Montanha. Apesar de saber ouvir muito bem as pessoas, não era um ouvinte passivo. Digo isto, para demonstrar que tais frases salientadas por Cury, quando investigadas ao longo das páginas dos 4 Evangelhos, certamente não são elementos suficientes para desmerecer a “educação clássica”.

O Dr. Cury crê que Jesus foi um personagem real e não imaginário. Aponta como evidências o fato de os próprios escritores falarem mal de si mesmos, de não esconderem a dor de Cristo, além do que as diferenças nas biografias depõem ainda mais a favor de que os textos não foram orquestrados para inventar um “Jesus perfeito e harmônico nos relatos a seu respeito”. Muitos estudos apologéticos demonstram isso (Geisler e Craig, só para citar dois grandes nomes).

Porém, para Cury, a ciência negligenciou Jesus, fazendo promessas de progresso e gerando muita frustração. O aumento do conhecimento trouxe muita miséria psicossocial. Em sua autossuficiência poderiam ter tido melhor êxito se tivessem estudado a brilhante inteligência de Cristo. Um exemplo de sua acurada inteligência foi ter falado de ansiedade e gerência de pensamentos antes mesmo da Psiquiatria e Psicologia. Jesus sabia que a memória tinha uma grande relação com a inteligência e as emoções, antes mesmo de Goleman.

Utilizando a imaginação, de maneira similar a Peter Kreeft, Cury projeta supostas relações de Jesus com Psiquiatria e a Psicologia Moderna, Política e Medicina. Quanto à Psiquiatria e Psicologia, certamente a intrepidez e o discurso do prazer pleno trariam algum abalo e desconforto aos profissionais do século XXI. Ele simula a aparição de Jesus em um congresso de Psiquiatria, com foco nos laboratórios e venda de fármacos. Jesus assumiria uma postura de proferir a plena satisfação por meio da crença nEle, afirmaria que os homens sabem “tratar”, mas não sabem prevenir. Ele demonstraria que estão errados aqueles que somente atuam no campo de medicações antidepressivas.

Sua fidelidade à consciência, atrelada ao desejo de produzir uma revolução no interior do ser humano, traria uma perturbação enorme ao sistema político. O Politicamente Correto da Síndrome de Pilatos, pelo contrário, foi infiel à sua própria consciência, pois se escondeu no ato de lavar as mãos, sendo fraco e omisso, entregando Cristo à condenação, mesmo sabendo que Ele era inocente. Os políticos e religiosos da época invejavam tanto Jesus porque nunca naquela região um homem fora tão seguido (chegou a arrebanhar cinco mil homens de uma só vez). Aliás, se vivesse hoje, não conseguiria se esconder e seu número seria bem maior.

Sua transcendência sobre a Medicina e a Ciência como um todo dar-se-ia porque estas disciplinas não conseguem romper com a crise existencial gerada pelo fim do espetáculo da vida. Mas Cristo discutiu sobre a imortalidade com uma segurança incrível. Porém, mesmo de forma não articulada, percebe-se o desespero da Medicina em tentar aliviar a dor e prolongar a vida. O desenvolvimento da Medicina é a prova viva de que o homem deseja prolongar a vida. Mas Jesus falou de uma vida eterna, que está e é Ele mesmo, que transcende a qualquer esforço neste prisma terreno apenas. Nesta parte do texto, Cury dá indícios de que não vê problemas no aspecto que transcende à simples humanidade de Cristo, posto que ninguém que é meramente mortal pode afirmar que possui a eternidade. Ainda assim, isto não fica bem claro!

Jesus não quis melhorar o ser humano, mas sua natureza intrínseca e escolheu os mais inusitados ambientes para apresentar seus ensinamentos (e não apenas uma sala de aula): deserto, beira-mar, sinagogas, montes, jantares, festas, etc. Cristo era um excelente mestre porque ele trazia mais que o conteúdo pronto; ele aguçava a inteligência de seus alunos. Para isto, ele investiu nos princípios da matemática emocional: ter não é ser. Nas palavras de Cury: “só os sábios aprendem a viver com dignidade nos invernos existenciais.” (p. 101). Ele nunca perdeu seu estímulo, sua didática e seus alunos por ter poucos recursos. Cristo era feliz, sereno e não se abatia diante das dificuldades da vida. Ele foi o Mestre dos Mestres numa escola onde muitos intelectuais se mostram como fracos alunos.

Cury o considera “Mestre dos mestres” porque sabia utilizar como ninguém a arte da pergunta e da dúvida. Em um certo sentido, num primeiro momento, a dúvida é mais importante que a resposta[ii]. Jesus também era um excelente contador de histórias, por meio das quais estimulava a memória e o aprendizado. Mesmo os seus opositores sempre estavam por perto (para ouvi-lo). Era um poeta da inteligência que utilizava com grande habilidade o fenômeno RAM (registro automático da memória) . Os seus gestos, palavras, parábolas, perguntas e curas ficaram registrados para sempre na memória dos discípulos. Ele não era de se dirigir por conveniências sociais, como bem retratou o príncipe Mishkin. Jesus sempre surpreendia num jantar na casa de um leproso, de um publicano ou até mesmo conversando com mulheres e dando atenção a prostitutas.

Um outro mecanismo de bom uso da inteligência foi não deixá-la ser abafada pelo confinamento e solidão. Ele se muniu contra isso fazendo boas amizades. Novamente, neste momento de sua obra, Cury parece estar de acordo com a misteriosa origem de Cristo (com material genético exclusivo de Maria), uma vez que ele tenta explicar isto correlacionando a origem de Cristo com os procedimentos de clonagem atual. O Cristo que reivindicou ser Deus e viveu como homem pleno procurou amigos e não servos. Cury acredita que se Jesus vivesse hoje, certamente, seria amigo dos portadores de HIV. Um último segredo de sua inteligência relacionada ao ensino foi a arte de preservar a unidade e de amar. Ele almejava que seus discípulos fossem unidos na essência intrínseca do ser deles. As disputas deveriam ser abortadas. Este senso de unidade foi tão intenso A esfera que se tratavam como irmãos, fazendo parte de uma família. Na prática do amor, Cristo foi além de qualquer um, amando até mesmo seus inimigos.  Ele não excluiu os excluídos sociais.

Neste primeiro volume, Cury traz alguns insights interessantes da inteligência de Cristo. Minhas críticas ao que Cury chama de “padrão clássico” estão no terceiro parágrafo desta resenha. No mais, indico esta obra como uma boa ferramenta para retirar o preconceito de que Cristo foi um marginalizado inculto e utópico.

 

 

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Notas de fim:

[i] Para minhas visões pessoais sobre duas obras de Cury previamente resenhadas em meu blog, confira: https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2017/01/18/resenha-03-o-colecionador-de-lagrimas-holocausto-nunca-mais-augusto-cury/ e https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2017/07/01/resenha-28-em-busca-do-sentido-da-vida-augusto-cury/ .

 

[ii] Para uma importante obra que trata sobre o valor da dúvida, favor consultar: BERGER, P; ZIJDERVELD, A. Em favor da dúvida: como ter convicções sem se tornar um fanático. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, 174 pp.

 

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2 comentários sobre “Resenha 68: O Mestre dos Mestres (Augusto Cury)

  1. Excelente resenha meu grande amigo, pastor e doutor Fares Camurça. Destaco o parágrafo onde Cury disse, que Jesus seria amigo dos portadores de HIV. Que bela forma de amor.

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