O Termo Teológico “Um” em João: uma perspectiva Eclesiológica

O TERMO TEOLÓGICO “UM” EM JOÃO: UMA PERSPECTIVA ECLESIOLÓGICA.

 

ecumenismo

 

INTRODUÇÃO

 

O termo teológico “um” tem um uso amplo e variado ao longo das Escrituras. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento ele é aplicado tanto homens quanto a Deus. Em um destes uso, o apóstolo João apresenta a expressão que gerou interpretações variadas nos círculos evangélicos: “para que todos sejam um”.

 

O que está em jogo na interpretação e aplicação contemporânea deste versículo é a possibilidade ou não de uma consciência e eclesiologia ecumênica. A proposta deste trabalho é verificar como o termo “um” nesta passagem e em outras do evangelho de João se relaciona com a eclesiologia e se isto tem relação com ecumenismo. Que Deus nos abençoe ao longo deste breve estudo!

 

 

  1. O TERMO “UM”

 

Antes de adentrarmos na análise do termo “um” em João, devemos nos ater ao termo em si. No grego, trata-se de um adjetivo, que, em sua forma nominativa pode ser expresso no masculino (εἷς), feminino (μία) e neutro (ἕν). Este adjetivo em suas múltiplas formas apresenta 344 ocorrências no Novo Testamento[i].

O termo pode funcionar como um numeral: um em contraste com mais de um. Por exemplo:  ὅστις σε ἀγγαρεύσει μίλιον ἕν  – “se alguém te obrigar a andar uma milha” (Mt. 5:41); οὕτως οἱ πολλοὶ ἓν σῶμά ἐσμεν – “nós, conquanto muitos, somos um só corpo”.[ii]  Em 2 Pedro 3:8 encontramos outra ocorrência associada ao numeral: “μία ἡμέρα παρὰ κυρίῳ ὡς χίλια ἔτη καὶ χίλια ἔτη ὡς ἡμέρα μία.[iii] – “para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.”[iv] Em seu sentido usual significa “único”, “uma vez por todas”, “singular”, “um de muitos” ou “um”.[v]

Teologicamente o termo pode assumir diversos sentidos: a unicidade de Deus[vi], a solidariedade da raça em Adão, Cristo e a unidade da igreja, etc[vii]. Neste artigo, o termo “um” será explorado em sua relação eclesiológica – Cristo e a unidade da igreja. Porém, a discussão será delimitada nos termos da literatura joanina, mais precisamente o Evangelho de João.[viii] Em alguns casos destaca a atividade de um em relação a outros[ix] (“um dos dois”; “um dos seus”, etc.), e neste caso, curiosamente, está ligado aos discípulos. Em outras ocasiões está ligada a uma obra ou trabalho específico (7.21); um pai (8.41); às vezes, a expressão “um” vem sozinho e recebe o complemento pragmático “uma coisa” (9.25); também em relação a Jesus e seu rebanho, como ovelha e pastor (10.16)[x]; a relação entre Jesus e o Pai (10.30); homem (11.50); Lázaro, como um dos discípulos íntimos de Cristo (12.2); a ideia de unidade no meio da coletividade: “a fim de que todos sejam um” (17.21).

 

  • 1.1. O conceito de “um” no Antigo Testamento.

A palavra hebraica para “um” é  אֶחָֽד . Aparece cerca de 960 vezes “como substantivo, adjetivo ou advérbio, como numeral cardinal ou ordinal, frequentemente usados em um sentido distributivo”.[xi] Em geral, indica individualidade ou singularidade (Jz. 13.2; Gn. 27.38; 1 Cr. 29.1; 2 Sm. 7.23, Ez 33.24).

O aspecto de unidade no Antigo Testamento envolve o tabernáculo (Ex. 26.6,11), o casamento (Gn. 2.24), unidade étnica (Gn 34.16).[xii] O retorno à unidade nacional é visto em Ezequiel 37.17.

A passagem central que trata sobre a singularidade ou unicidade do Deus de Israel é Deuteronômio 6.4[xiii]. Há uma correlação neste verso entre a singularidade do Senhor expressa na adoração de Israel e a obrigação de Israel de amá-lo. Esta singularidade divina é manifesta num contexto escatológico, onde a idolatria será banida e somente o Senhor será reconhecido como Deus, até porque somente Ele é Deus (Zacarias 14.9).

A partir deste apanhado lexicográfico, pode-se avançar na discussão do aspecto eclesiológico do termo “um” em João, tendo em mente que o termo “um” seja no Antigo ou no Novo Testamento apresenta nuances de unidade e singularidade, cabendo ao contexto determinar o sentido que cada passagem terá.

 

  1. A PROBLEMÁTICA ECUMÊNICA EM JOÃO 17.

A delimitação mais específica deste trabalho concentrar-se-á no capítulo 17, a fim de entendermos o contexto e a explicação da famosa expressão “para que todos sejam um”. Os ecumênicos interpretam-na como uma transposição de quaisquer barreiras religiosas e/ou denominacionais, numa tentativa de combater o exclusivismo religioso dos cristãos mais conservadores.

D. Martyn Lloyd-Jones resume bem a mentalidade ecumênica ao afirmar:

O que se deseja é uma unidade visível e a junção de todos os que se chamam cristãos, em todo e qualquer sentido. A unidade significa que todos os segmentos da Igreja Cristã, com todo e qualquer elemento que se arrogue o nome de cristão, devem ter reuniões juntos, devem ter comunhão juntos, e devem trabalhar juntos, apresentando uma frente comum aos inimigos do cristianismo (…) Este considera a unidade em termos de se juntarem para formar uma espécie de “fórum” onde vários conceitos da fé cristã sejam “discutidos” e as pessoas apresentam as suas diferentes percepções, esperando que, como resultado, eventualmente cheguem a algum acordo comum.[xiv]

 

Mas será que a unidade descrita em João é sinônimo de ecumenismo religioso? Os ecumênicos em nome da unidade, deixam de lado quaisquer distinções doutrinárias (pelo menos, é o que se afirma), apesar de que isto certamente se torna numa estratégia potente para propagar um discurso em torno do “uno” a fim de favorecer o meu “diverso” (minhas doutrinas distintivas). Eles dizem: “a doutrina separa, o amor une”; “maior é o que nos une do o que nos separa”.

Além disto, em algumas ocasiões isto ocorre de uma forma sutil. Por exemplo, o evangelista norte-americano Billy Graham pregava em grandes cruzadas evangelísticas, patrocinado por pessoas de diversas denominações, agnósticos, ateus, empresários, etc. Ao passo que as reuniões ocorriam, as pessoas passaram a ver os aspectos positivos de cada denominação e, como afirma Lloyd-Jones, em sua crítica a Graham: “Creio que, de maneira muito sutil, as campanhas de Graham e outras têm tido essa espécie de influência e tem abalado as convicções das pessoas quanto a que significa exatamente ser evangélico.”[xv]

Passemos, portanto, a analisar os versos cardinais que apresentam o conceito de “um” no Evangelho de João com a finalidade de verificar se tal termo aponta para uma frouxidão doutrinária e uma ênfase na unidade amorosa, se é que isto é possível.

 

  1. O TERMO “UM” NO EVANGELHO DE JOÃO: RELAÇÃO PAI E FILHO, RELAÇÃO FILHO E IGREJA E RELAÇÃO INTERPESSOAL NA IGREJA.

 

  • 3.1. O termo “um” aplicado na relação entre o Pai e o Filho.

Antes de adentrarmos diretamente na relação entre os irmãos, precisamos observar a aplicação do termo “um” no meio da Trindade, de maneira mais específica, no relacionamento interpessoal entre o Pai e o Filho. Um texto muito polêmico e que serve de base para este tópico do trabalho é João 10:30, o qual afirma: “Eu e o Pai somos um”.[xvi]

O contexto pode lançar pistas muito úteis no que tange ao entendimento desta unidade entre o Pai e o Filho. Ao longo de todo o Evangelho de João percebe-se uma relação direta entre Jesus e o Pai no cumprimento de sua missão: o Filho realiza a obra de seu Pai, e os dois a fazem conjuntamente (5.17,18); o Filho está em dependência direta e obedece tudo aquilo que o Pai determinou que fosse feito (5.19); a base desta relação de obediência é o amor entre o Pai e o Filho (5.20); há uma sinergia entre o Pai e o Filho na obra de redenção: ambos ressuscitam (5.21), ambos são honrados (5.23); ambos têm vida em si mesmos (5.26); os homens devem crer em ambos (5.24; 5.38); mediante esta relação de unidade tanto missional quanto ontológica (1.1; 1.14, 1.18) é que o Pai confiou ao Filho o julgamento (5.22,27; 9.39); o Filho foi enviado pelo Pai (3.16; 5.37; 7.29); o Pai confiou alguns homens ao Filho de maneira (5.37); o Filho revela o Pai (14.9); a crença no Pai está atrelada necessariamente à crença no Filho (8.19); Jesus é o “Eu Sou”, assim como o Pai é Javé (Ex. 3.14; Jo. 8.58).

Poderíamos citar tantas outras passagens, mas estas são suficientes antes do contexto do capítulo 10. Percebe-se nitidamente uma relação metafísica entre o Pai e o Filho, bem como uma unidade missiológica: a redenção e o juízo efetuado por meio do Filho, através da autoridade do Pai. No capítulo 10, esta relação continua a partir da relação de conhecimento mútuo e recíproco entre o Filho e o Pai (10.15); mas na ligação direta com o verso 14, o Filho estende esta unidade relacional entre o Filho e o Pai à relação entre o Filho e as ovelhas; de forma, que o relacionamento entre as ovelhas e o Filho deve expressar a relação de intimidade entre o Filho e o Pai. De um certo modo, a unidade missional e de identidade submissa do Filho para com o Pai deve ser o modelo que guia a missão das ovelhas em submissão ao Filho, o qual é o pastor delas (10.14,15).

Jesus explica que a autoridade do Pai expressa em suas obras era um testemunho autenticador do Pai em favor das obras de Cristo (10.25). Neste sentido, a unidade possui um aspecto autenticador também. Portanto, quando se chega na unidade entre o Filho e o Pai expressa em 10.30, notoriamente deve-se levar em conta a missão do Filho para com as ovelhas e o sinergismo de Pai e Filho na aplicação desta missão. É somente depois disto que o versículo “Eu e o Pai somos um” é alocado.

O texto não aponta para o unitarianismo, uma vez que em 1.1 há uma distinção entre Pai e Filho e aqui a palavra para “um” está no gênero neutro (ἕν) e não no masculino; portanto, além do contrassenso que seria Jesus orar de si para si mesmo (isto seria um absurdo), o texto em si com o termo “um” no neutro afasta a hipótese de uma unipersonalidade do Pai e do Filho. O compartilhamento da missão, conforme mostrado acima em múltiplas passagens, deixa claro que estamos tratando de duas pessoas diferentes.

Mas seria esta unidade, expressa em 10.30, meramente missiológica ou tem algo a ver com a mesma essência divina que Pai e Filho possuem? Carson, após argumentar em torno de cinco pontos, traz a seguinte resposta para esta pergunta:

Embora as palavras Eu e o Pai somos um não afirmem completa identidade, no contexto desse livro, elas certamente sugerem mais que o fato de que a vontade de Jesus estava em harmonia com a vontade de seu Pai, pelo menos no fraco sentido de que um ser humano pode, às vezes, regular sua própria vontade e atos pela vontade de Deus. Se, em lugar disso, a vontade de Jesus é exaustivamente uma com a vontade de seu Pai, algum tipo de unidade metafísica é pressuposta, mesmo se não articulada. Embora, o foco seja o compromisso comum de Pai e Filho de manifestar poder protetor para o que eles possuem em comum (17.10), o desenvolvimento da cristologia de João até esse ponto exige que alguma unidade mais essencial seja pressuposta, bem de acordo com o primeiro versículo do evangelho.[xvii]

 

Esta unidade entre o Pai e o Filho tanto metafísica (pressuposta) quanto ontológica só é possível por causa da singularidade de Deus. Isto está expresso no shemá (Dt. 6.4), nos escritos proféticos, nos sinópticos e também no Evangelho de João; em João 17.3, a unicidade ou singularidade de Deus é o pressuposto para a relação ontológico-missional entre o Pai e o Filho – “o único Deus verdadeiro”[xviii]

 

  • 3.2. A relação Filho e Igreja.

Esta relação é expressa em 17.23 “eu neles” e em 27.26 – “e eu neles esteja”. O que temos aqui é a expressão de uma doutrina intitulada “União com Cristo”, muito bem explorada por João e pelo apóstolo Paulo. Nossa posição é “em Cristo”; nossa salvação e prática é “em Cristo”; nossa justificação é “em Cristo”; nossa consumação é “em Cristo”. De maneira que pelo fato de estarmos unidos a Cristo por meio de sua morte e de sua ressurreição e de termos o seu Parácleto, na pessoa do Espírito Santo, nos conduz firmes na missão.

Tal união com Cristo nos levará a um aperfeiçoamento (τετελειωμένο), o qual nos capacitará a suportar os sofrimentos à medida em que nos engajamos na missão de Cristo. Andreas Köstenberger é preciso ao explicar esta passagem:

 

A unidade dos crentes não é auto-gerada nem um fim em si mesmo (…). A “completa” unidade dos crentes resulta de serem colocados em união com Cristo, e, uma vez unidos, os crentes serão aptos para dar testemunho da verdadeira identidade de Jesus como o Envaido de Deus. A menos que eles sejam unificados, como eles podem esperar dar um testemunho autêntico e digno de credibilidade ao Pai, o qual está unido com o Filho e o Espírito em reveler a si mesmo e sua salvação em Cristo? Seguros no amor do Pai, o mesmo amor com o qual Ele amou Sei Filho, os crentes serão aptos para expresser e proclamar o amor do Pai a um mundo tenebroso e hostil.[xix]

 

  • 3.3. O termo “um” e a relação entre os membros da igreja.

 

Estamos agora bastante resguardados para adentrarmos no real objeto de nossa pesquisa: a significação da expressão “para que todos sejam um”. Ela ocorre de forma modificada em 17.11 – “para que eles sejam um”. E é repetida em 17.21,22 – “’a fim de que todos sejam um”[xx] e “para que sejam um”[xxi]

 

A Igreja Católica, em seus concílios mais importantes, assume que esta unidade eclesiológica é estabelecida a partir de um modelo organizacional, centrado na figura da Igreja Católica Apostólica Romana. Dal Pozzo, por sua vez, afirma que este modelo organizacional não corresponde à estrutura orgânica tão bem concatenada da oração sumo sacerdotal de Jesus. Ele sugere que a aproximação dialógica entre católicos e protestantes e o diálogo religioso com outras religiões sem a linguagem “exclusivista” da doutrina são aplicações ecumênicas bem viáveis derivadas de João 17.20-26.[xxii] Ele arremata sua dissertação com 10 pontos derivados da verdadeira ecumenicidade: 1). Os ensinos de Cristo transcendem a igreja em particular/denominação; 2). Nenhuma comunidade pode se intitular a perfeita igreja de Cristo; 3). Nossos pontos de unidade devem ser maiores do que aquilo que nos separa; 4). Todas as igrejas cristãs que estão separadas devem refletir sobre a unidade que possuem; 5). O ecumenismo sugere que todas as religiões têm algo bom a oferecer; 6). O amor deve ser demonstrado por meio do diálogo constante entre as denominações; 7). O verdadeiro caminho para a unidade entre as comunidades cristãs é estarem unidas a Cristo; 8). As igrejas devem permitir momentos de reconciliação com outras igrejas; 9). A fé não precisa ser expressa de uma única forma para expressar a união com Cristo; 10). A unidade deve ser um dom a ser oferecido.[xxiii]

 

Esta é a posição de um ecumenista. Passemos agora a observar o texto de João 17. O texto retrata a famosa oração sumo-sacerdotal feita por Jesus ao Pai. Esta oração é dividida em quatro partes: 1). Jesus ora por sua glorificação (vv. 1-5); 2). Jesus ora por seus discípulos (vv. 6-19); 3). Jesus ora por aqueles que ainda crerão (vv. 20-23); 4). Jesus ora para que todos os crentes sejam aperfeiçoados a fim de que venha a glória dele.[xxiv]

 

  • João 17.11

“Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai Santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós.”

 

Jesus prenuncia sua morte e retorno para o Pai e pede pelos discípulos, a fim de que tenham unidade tal qual o Pai e o Filho possuem. Afinal, que unidade é esta?

Se observarmos, é ao Pai Santo que Jesus ora em favor de seus discípulos, isto em preparação para a santificação que o Pai Santo fará aos discípulos (17.17). Aqui o nome de Deus manifesta tanto o seu caráter quanto o seu poder; poder, que neste caso, é manifesto na proteção dos discípulos. O Filho recebeu poder do Pai e este mesmo poder manifesto no Filho é o poder expresso na guarda dos discípulos. Este ato de guardar é feito em fidelidade à revelação que o próprio Jesus já expressara aos discípulos e denota um propósito: que eles (os discípulos) sejam um.

Sobre esta unidade dos discípulos, Carson assevera que:

 

Eles não podem ser um assim como Jesus e o Pai são um, a menos que sejam guardados no nome de Deus, isto é, em leal fidelidade a sua graciosa auto-revelação na pessoa de seu Filho. Um padrão semelhante prevalece nos versículos 17-19: a persistência na verdade é o pré-requisito para a participação na santificação de Jesus.[xxv]

 

 

 

Sendo assim, esta unidade entre os discípulos não é algo que transponha barreiras doutrinárias, mas que por estar embasada na lealdade à Revelação do Pai na pessoa do Filho, mantém-se firme à medida em que se santifica e coaduna-se com a verdadeira doutrina. Para Köstenberg, esta unidade “está além da habilidade humana e é resultado e dom da graça divina”.[xxvi] E aqui, econtra-se em íntima relação com a missão dos discípulos ao mundo (17.20-26), a qual somente é possível pela unidade garantida na fidelidade dos discípulos à Revelação dada pelo Filho, resultante de um processo de santificação e de permanência na verdade.

 

  • João 17.21-22

“a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos.”

 

A oração de Jesus é feita em favor dos discípulos e de todos os que vierem a crer. Parte da controvérsia ecumenista seria resolvida se o contexto imediato da expressão “a fim de que todos sejam um” fosse lido. Refiro-me ao verso 20, que diz: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra.”

A base da unidade eclesiástica é a fé na pessoa do Filho, mediada por meio dos ensinamentos da Palavra de Deus. Aqui temos uma base da unidade cristã alicerçada em dois princípios básicos da Reforma Protestante: Sola Fide (crer em mim) e Sola Scriptura (por intermédio da sua palavra). Não é tanto uma questão de unidade a qualquer custo, como um fim em si mesmo, mas uma unidade baseada na Revelação Especial de Deus, a partir da fé em Jesus.

O verso 21 também aponta que a base da unidade dos discípulos é a unidade entre o Pai e o Filho. O Pai e o Filho são pessoas distintas, mas ao mesmo tempo são um só (cf. discussão no tópico João 10.30). Como afirma Carson: “da mesma forma, os crentes, ainda distintos, devem ser um em propósito, em amor, em ação empreendida com todos e uns pelos outros, unidos na submissão à revelação recebida.”[xxvii] Hendriksen afirma que, neste caso, a unidade é de uma “natureza espiritualmente definida”.[xxviii] Assim como Pai, Filho e Espírito Santo são um em essência, os crentes, por sua vez, são um em mente, esforço e propósito.

 

Esta unidade em fidelidade ao padrão revelacional de Deus, manifesta na crença adequada na pessoa do Filho será um potente testemunho ao mundo da real natureza da missão do Redentor (“para que o mundo creia que tu me enviaste”). Esta fidelidade manifesta no amor entre os crentes é a base para o testemunho: verdade amorosa e amor verdadeiro. A dissociação entre estes dois elementos gera os excessos do legalismo e do antinomismo; do sectarismo e do ecumenismo. A verdade manifesta em amor. Em 1 João 2:5,6 é-nos apresentado o padrão do aperfeiçoamento do amor na vida do cristão: a verdade aplicada numa vida de obediência aos mandamentos de Cristo. Ou seja, o amor verdadeiro da unidade cristã é um amor que segue o padrão doutrinário determinado por Cristo nas páginas do Novo Testamento (Hebreus 1.1,2). Sendo assim, o extremo ecumenista começa a ruir suas bases, posto que não possuem suporte exegético em João 17.

Donald Arthur Carson resume o argumento do parágrafo anterior da seguinte maneira:

 

Embora a unidade vista neste capítulo não seja institucional, essa frase no fim do versículo 21 propositalmente mostra, sem qualquer dúvida, que a unidade é algo para ser observado. Ela não se realiza pela busca desenfreada do mínimo denominador comum teológico, e sim pela adesão conjunta ao evangelho apostólico, pelo amor que com alegria se sacrifica, por um compromisso destemido com os objetivos compartilhados da missão que aos seguidores de Jesus foi incumbida, por uma consciente dependência de Deus no que diz respeito à vida e à frutificação.[xxix]

 

 

 

Além do que foi tratado até aqui, o termo teológico “um” em João apresenta um aspecto adicional: a unidade dos discípulos também tem relação direta com a glória. A unidade é assegurada pela transmissão da glória do Pai aos discípulos. Que glória é esta? Carson diz que Jesus deu a glória do Pai aos discípulos no sentido de que “ele completou sua tarefa reveladora”.[xxx] Então, a glória de Deus manifesta na revelação de seu Filho é a base da unidade dos discípulos. Neste sentido, é vã a tarefa do ecumenista que deseja por exemplo se unir com grupos que negam a ressurreição de Jesus Cristo (bultmanianos), pois neste sentido, a oração de João 17 é ilógica.

 

Os 10 pontos do ecumenista Dal Pazzo entram em choque com 9 pontos de D. Martyn Lloyd-Jones[xxxi], no que tange à sua análise da questão da unidade da igreja. Creio que dos 9 pontos seguintes de Lloyd-Jones, 8 deles são bíblicos e entram em plena concordância com a exposição feita neste trabalho. Os pontos são os seguintes: 1). Não se deve isolar unidade, ou considera-la como possuindo valor inerente (isto foi tratado com ênfase ao longo deste trabalho); 2). Nunca se deve colocar a unidade em primeiro lugar. Em Atos 2:42, a doutrina dos apóstolos vem antes da comunhão.[xxxii]; 3). Não devemos partir de uma instituição, mas da verdade, que produz unidade; 4). O ponto de partida no estudo da unidade deve ser a regeneração e a fé na verdade; 5). Uma unidade não baseada na proposição do ponto 4 é mentirosa e falsa; 6). Manter uma unidade de fachada institucional é desonesto e pecaminoso.[xxxiii]; 7). Colocar em discussão ou fórum questões essenciais da fé com membros de igrejas que não os aceitam (como por exemplo, unitarianos, adeptos do liberalismo teológico, etc.) gerará mais confusão, pois nem este cederá, crendo nos pontos essenciais da fé cristã e, se nós abrirmos mãos pelo menos de uma doutrina essencial, estaremos apostatando da fé; 8). Não se deve pensar a unidade em termos numéricos, como se uma organização poderosa e com grande número de membros tenha alcançado o status de unidade por conta disto; 9). Novo derramar do Espírito Santo, por meio de avivamentos.[xxxiv]

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Este trabalho veio suprir uma lacuna em meus estudos joaninos no que tange à compreensão da unidade expressa em João 17. Percebe-se que o termo “um” nem sempre é utilizado meramente como numeral, mas na grande maioria de suas ocorrências tem implicações teológicas riquíssimas, principalmente relacionadas com a singularidade de Deus, expressa no Antigo Testamento (TM e LXX) e a unidade entre o Pai e o Filho, bem como a unidade eclesiástica.

 

Em João observa-se que a unidade entre o Pai e o Filho só é possível porque Deus é singular e incomparável. Em João 10.30, observou-se que a unidade entre Pai e Filho não é algo meramente funcional, no que tange à sinergia missiológica, mas que pressupõe, isto sim, uma unidade metafísica, conforme exposto ao longo da teologia joanina (João 1.1; 1.14, 10.30).

 

Este modelo de unidade deve permear o seio da igreja cristã, sendo que a análise do termo teológico “um” em João aponta para uma relação de verdade e amor entre os membros desta comunidade, com base doutrinária adequada aos padrões neotestamentários, numa nítida expressão de Sola Scriptura e Sola Fide.

 

Além disto, a unidade cristã ocorre por meio da transmissão da glória de Deus à igreja, a partir da completude da obra de Cristo aplicada à igreja e mediada numa relação de permanência na doutrina e no amor cristão.

 

Assim, a análise exegética da oração sumo sacerdotal de Jesus nos revela padrões totalmente contrários ao ecumenismo religioso e nos estimula a um compromisso doutrinário cada vez maior, expresso através do amor por toda a comunidade, a fim de que todos sejam amadurecidos no amor de Deus, sendo que tal expressão desta unidade prático-doutrinário culminará num testemunho poderoso ao mundo, através da manifestação da glória de Deus, quando houver fidelidade revelacional e manifestação disto em amor coletivo. A expressão deste amor para com os membros não pertencentes à comunidade eclesiástica fiel aos padrões doutrinários do Novo Testamento deve ser feita por meio da evangelização (ensino da sã doutrina aos não alcançados) e não por meio da supressão doutrinária em nome da união. Quem prega o ecumenismo presta um desserviço à real missão da igreja de Cristo. Isto fica bem claro quando se examina a oração sumo-sacerdotal de Jesus, em João 17.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

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BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2ª ed. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

 

CARSON, D.A. O Comentário de João. São Paulo: Shedd, 2007.

 

DAL POZZO, E.L. “Para que todos sejam um”: estudo exegético-teológico de João 17,20-26. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo: EST, 2006. Material disponível em: http://www3.est.edu.br/biblioteca/btd/Textos/Mestre/dalpozzo_el_tm147.pdf.

 

HARRIS, R.L.; ARCHER,JR., G.L.; WALTKE, B. K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.

 

HENDRIKSEN, W., & KISTEMAKER, S. J. (1953–2001). Exposition of the Gospel According to John (Vol. 2). Grand Rapids: Baker Book House.

 

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KITTEL, G., FRIEDRICH, G., & BROMILEY, G. W. Theological Dictionary of the New Testament. Grand Rapids, MI: W.B. Eerdmans, 1985.

 

KÖSTENBERGER, A. J. John. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2004.

LLOYD-JONES, D.M. Discernindo os Tempos: palestras proferidas entre 1942 e 1977. São Paulo: PES, 1994.

LOUW-NIDA. Greek-English Lexicon of the New Testament. Disponibilizado em: BibleWorks 9©.

 

MOUNCE, W.D. Fundamentos do Grego Bíblico: livro de gramática. São Paulo: Vida, 2009.

 

 

Notas de fim:

___________________________________________________________________________________ 

[i]  MOUNCE, W.D. Fundamentos do Grego Bíblico: livro de gramática. São Paulo: Vida, 2009, p. 103.

 

[ii] LOUW-NIDA. Greek-English Lexicon of the New Testament. 60.10. Disponibilizado em: BibleWorks 9©.

 

[iii] Aland, K., Aland, B., Karavidopoulos, J., Martini, C. M., & Metzger, B. M. (2012). Novum Testamentum Graece (28th Edition., 2Pe 3.8). Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft.

 

[iv] Note que a expressão para “um” está no feminino para combinar com a palavra “dia”, que é feminina.

 

[v] Kittel, G., Friedrich, G., & Bromiley, G. W. (1985). Theological Dictionary of the New Testament (p. 214). Grand Rapids, MI: W.B. Eerdmans.

 

[vi] Um termo mais preciso para a unicidade de Deus é: μόνου θεοῦ (João 5:44).

 

[vii] Kittel, G., Bromiley, G. W., & Friedrich, G. (Orgs.). (1964–). Theological dictionary of the New Testament (electronic ed., Vol. 2, p. 434–442). Grand Rapids, MI: Eerdmans.

 

[viii] No Evangelho de João, o termo “um” aparece em 1.40 (εἷς); 6.8 (εἷς); 6.70 (εἷς); 6.71 (εἷς); 7.21 (ἓν); 7.50 (εἷς); 8.9 (εἷς – 2 vezes); 8.41 (ἕνα); 9.25 (ἓν); 10.16 (2 vezes: μία e εἷς); 10.30 (ἓν); 11.49 (εἷς); 11.50 (εἷς); 11.52 (ἓν); 12.2 (εἷς); 12.4 (εἷς); 13.21 (εἷς); 13.23 (εἷς); 17.11 (ἓν); 17.21 (ἓν); 17.22 (ἓν – 2 vezes); 17.23 (ἓν); 18.14 (ἕνα); 18.22 (εἷς); 18.26 (εἷς); 18.39 (ἕνα); 19.34 (εἷς); 20.12 (ἕνα – 2 vezes); 20.24 (εἷς). Um total aproximado de 33 ocorências no Evangelho de João. Dados obtidos a partir do software BibleWorks 9©.

 

[ix] O verbete mais específico para a relação de reciprocidade entre pessoas (“um ao outro”) é ἀλλήλους.

 

[x] A palavra para rebanho e para pastor é a mesma; o que determina o significado é o gênero: ovelha está no feminino e pastor no masculino.

 

[xi] HARRIS, R.L.; ARCHER,JR., G.L.; WALTKE, B. K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 47.

 

[xii] HARRIS, R.L., et. al. Op. Cit., p. 48.

 

[xiii]   שְׁמַ֖ע יִשְׂרָאֵ֑ל יְהוָ֥ה אֱלֹהֵ֖ינוּ יְהוָ֥ה׀ אֶחָֽד׃

 

[xiv] LLOYD-JONES, D.M. Discernindo os Tempos: palestras proferidas entre 1942 e 1977. São Paul: PES, 1994, p. 133.

 

[xv] LLOYD-JONES, D.M. Op. Cit., p. 327.

 

[xvi] No grego: ἐγὼ καὶ ὁ πατὴρ ἕν ἐσμεν.

 

[xvii] CARSON, D.A. O Comentário de João. São Paulo: Shedd, 2007, p. 396.

 

[xviii] No grego: μόνον ἀληθινὸν θεὸν. Na continuidade do verso, o fato de o Filho ser enviado do Pai indica que Ele procede desta mesma deidade, que é singular e veraz.

 

[xix] Köstenberger, A. J. (2004). John (p. 498–499). Grand Rapids, MI: Baker Academic.

 

[xx] No grego, ἵνα πάντες ἓν ὦσιν.

 

[xxi] No grego, ἵνα ὦσιν ἓν

 

[xxii] DAL POZZO, E.L. “Para que todos sejam um”: estudo exegético-teológico de João 17,20-26. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo: EST, 2006, pp. 121-128. Material disponível em: http://www3.est.edu.br/biblioteca/btd/Textos/Mestre/dalpozzo_el_tm147.pdf.

 

 

[xxiii] DAL POZZO, Op. Cit., pp. 130-131.

 

[xxiv] Divisão efetuada por D. A. Carson, Op. Cit., pp. 554-572.

 

[xxv] CARSON, D.A. Op. Cit., p. 564.

 

[xxvi] Köstenberger, A. J. (2004). John (p. 493–494). Grand Rapids, MI: Baker Academic.

 

[xxvii] CARSON, D.A. Op. Cit., p. 569.

 

[xxviii] Hendriksen, W., & Kistemaker, S. J. (1953–2001). Exposition of the Gospel According to John (Vol. 2, p. 364). Grand Rapids: Baker Book House.

 

[xxix] CARSON, D.A. Op. Cit., p. 570.

 

[xxx] CARSON, ibidem.

 

[xxxi] LLOYD-JONES, Op. Cit., pp. 173-178.

 

[xxxii] Em 1 João 1:3b é estabelecida a base correta da comunhão cristã – a doutrina correta da encarnação do Filho e da sua relação com o Pai. “Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.” Perceba que o apóstolo do amor não foi ecumênico ao lidar com aqueles que negaram a doutrina da encarnação de Jesus. Seria ecumênica tal declaração: “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho” (2 João 1:9). Amor não é sinônimo de frouxidão teológica. Mas teologia acurada exige uma prática condizente com o amor de Deus expresso em nossas declarações – “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.” (1 João 4:20).

 

[xxxiii] Pense por exemplo na miscelânea religiosa manifesta em cultos ecumênicos. Em nome da unidade nega-se a verdade. Isto é vergonhoso e abominável diante de Deus.

 

[xxxiv] O ponto de Lloyd-Jones é que ao invés de ficar discutindo sobre como podemos ser mais unidos interdenominacionalmente, devemos isto sim, orar por avivamento. É lógico que a base deste ponto está alicerçada numa ideia de um batismo do Espírito Santo como segunda bênção. Quanto a isto, manifestamos a nossa discordância. No entanto, creio que devamos, sim, orar por reavivamento, como aconteceu na Reforma e nos Estados Unidos, no século XVIII.

 

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