Filme 02: Gênio Indomável (1997)

FILME (02)

Gênio Indomável (1997)

14 anos / 2 horas e 6 minutos

Good Will Hunting

Escrito por Matt Damon e Ben Affleck.

 

gênio indomável

 

Este filme foi dirigido por Gus Van Sant e possui um elenco maravilhoso, contando com Robin Williams, Ben Affleck e Matt Damon. Apresenta a história de Will Hunting (Matt Damon), um órfão, criado em condições arredias, num ambiente violento e inescrupuloso. Apesar disto, Will é um verdadeiro gênio.

A genialidade, envolta em um grande mistério, traz encanto aos que a presenciam, como se tivessem sido atingidos por um raio da revelação divina. É fascinante observar a precisão de um enxadrista em antecipar dezenas de movimentos à frente de sua jogada, um matemático resolver operações dificílimas mentalmente, um autodidata discorrer sobre diversas áreas do saber, sem embaraços, deixando embasbacados os maiores eruditos do mundo. A genialidade além de ser um fenômeno glorioso é um fenômeno humilhante, pois torna o trabalho de grandes acadêmicos em brincadeira de criança, que diante da solene manifestação do saber apenas se rendem (ou de dentes trincados ou boquiabertos).

Com sua memória fotográfica, Will possui a capacidade de revisar equações dificílimas expostas em um mural de faculdade para depois resolvê-las no espelho de sua casa, somente para trazer a resposta escrita na lousa da faculdade no dia seguinte. O professor fica impressionado pois a resposta do teorema dada pelo “matemático misterioso” estava correta.

Porém, o gênio é indomável e não controla sua ira. Possui passagens pela polícia por conta de delitos cometidos ao longo de sua juventude. Ele está em liberdade condicional, fazendo serviços prestados na universidade. O filme explora muito bem o misto de delinquência e genialidade, de verdade misturada com depravação. Eis um bom retrato do homem sem Deus. Um detalhe curioso que ocorre também em outros filmes americanos é a quantidade imensa de palavrões[i], que são atenuados na versão dublada para o português.

Um detalhe curioso é o encontro de Will com um primeiro-anista da faculdade em um bar. Este primeiro-anista assume ares de grande intelectual na tentativa de impressionar uma garota, mas Will demonstra que ele está plagiando um autor marxista. O bom humor e a inteligência de Will arrancam risos de qualquer um de nós vislumbrados com o bacharelismo e elitismo intelectual. Mesmo sendo humilhado, o primeiro-anista afirma: “mas eu tenho uma graduação e você servirá talvez fritas para os meus garotos”. Will responde da melhor forma possível: “pelo menos eu serei original”.

Vendo o talento do misterioso gênio, o professor de Matemática Lambeau procura atraí-lo para o seu grupo de pesquisadores. Will acabara de receber uma punição com fiança equivalente a 50 mil dólares. O professor Lambeau conversa com o juiz sobre a situação de Will e o juiz permite a liberação deste com duas condições: 1). Encontrar-se com o professor toda a semana para lidar sobre Matemática Avançada; 2). Will terá que fazer terapia. Mesmo relutante quanto ao terapeuta, Will aceita as condições do juiz, tendo em vista que não desejava passar o resto de seu tempo na cadeia.

Totalmente indiferente aos terapeutas, Will tenta desestabilizá-los. Chama um deles de homossexual enrustido; outro terapeuta se desaponta com Will, pois ele faz piadinhas com a técnica freudiana de hipnose. Sem desistir de ter Will em sua equipe, o professor Lambeau vai em busca de seu amigo Sean (Robin Williams), um terapeuta extremamente conceituado. Ele lembra a história de Ramanujan, um matemático indiano com um histórico de genialidade parecido com o de Will. Assim, Sean aceita Will como seu paciente.

Inicialmente afastado e distante, gradualmente passa a confiar em Sean e simultaneamente passa a namorar uma das acadêmicas da faculdade. Sean é um viúvo que, para ganhar a atenção de Will, faz um emocionante relato da morte de sua esposa:

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Você não sabe o que é acordar ao lado de uma mulher e sentir-se verdadeiramente feliz. Como Deus colocou um anjo na terra só para você que pode resgatá-lo das profundezas do inferno e amá-la mesmo em meio ao Câncer e passar dois meses no Hospital segurando suas mãos porque os médicos não podem ver o que seus olhos podem. Você não sabe o que é perda porque não consegue amar ninguém além de você mesmo. Você é um gênio, não negamos, mas não passa de um garoto.

 

O diagnóstico de Sean é certeiro. Will é um narcisista contumaz, que só possui os olhos voltados para si e por isso mesmo está cego para as coisas que estão ao seu redor. Num trabalho de analista abalizado, Sean não tem pressa em chegar à raiz do narcisismo de Will, o qual dando uma de durão em um dos encontros insiste em ficar calado, na tentativa de provar ao analista que não precisava dele para nada.

Mas, pouco a pouco Will vai se abrindo, passa a falar de sua namorada (Skyla), abrindo as portas para avanços na análise de Sean. Ao passo que o relacionamento analista-paciente é uma das tônicas do filme, por outro lado o interesse também narcísico do professor Lambeau em sua orgulhosa busca de ter o “gênio” em sua equipe. O professor quer ganhar prêmios; Sean quer a sanidade de Will. Isto fica bem nítido em um momento do diálogo:

Lambeau: “eu quero dar direção a esse garoto para que ele possa contribuir com o mundo.”

Sean: “direção é uma coisa, manipulação é outra.”

Sean tenta alertar Lambeau que talvez Will não queira participar de um time de matemáticos. E não seria sua manipulação e insistência coercitiva que faria de Will exatamente aquilo que Lambeau queria que ele fosse. Isto serve de grande lição para cada um de nós em nossa tentativa de colocar as pessoas no molde de nossos desejos. Mas será que elas querem? Aliás, estamos querendo o bem das pessoas ou estamos tentando manipulá-las a fim de que sejam inseridas em nossos projetos.

Um dilema final leva o filme ao clímax: a namorada de Will está saindo de Boston e indo para a Califórnia, Eles têm uma grande discussão e chegam à beira de uma separação.

Além da tensão com a namorada, Will enfrenta um grande duelo com o professor e algumas frases são dignas de nossa reflexão:

Will (sobre sua genialidade): “você não sabe o quanto isso é fácil para mim. E eu sinto muito se para você não é fácil. Para mim é uma piada.”

Professor (sobre a loucura de Will em largar a equipe): “Eu não entendo como você vai jogar tudo isso fora?”

Você já ouviu algo assim sobre alguém ou sobre você mesmo quando se deparou com o desafio entre largar uma oportunidade única que lhe faria extremamente rico para fazer aquilo que realmente lhe satisfaz?

Will (sobre confiança nas pessoas): “Eu não acredito em ninguém porque as pessoas que mais eram para cuidar de mim me abandonaram.” (aqui está a raiz do problema).

Ao longo do processo de resolver o problema do Will, Sean e Lambeau trocam farpas quanto às reais intenções de cada um deles para com o garoto: um estava querendo manipulá-lo para fazer sucesso e obter medalhas às custas do garoto e o outro é acusado de querer apenas resolver mais um caso complexo para a Análise. Isto nos faz pensar inclusive em nossas reais motivações em nos relacionarmos com alguém, seja na área afetiva, profissional, religiosa, acadêmica, comercial. Como vemos as pessoas: como alguém que pode ser um consumidor em potencial de nossos produtos intelectuais? Como alguém que precisa comprar a nossa ideia para que seja digna de nossa confiança; alguém que precise ser totalmente moldada ao nosso projeto para poder ser valorizada pelo grupo? Como você e eu temos visto as pessoas com as quais nos relacionamos? Meros joguetes descartáveis à medida em que cumpriram o seu papel para nos alavancar na vida?

Por fim, um momento do filme (não vou contar o final, pode deixar, apesar de eu saber que quase todas as pessoas que chegaram até aqui já assistiriam ao filme) crucial é a fala de Sean para Will, quando este chora copiosamente. Sean fala: “não é sua culpa” (um pouco de behaviorismo skynneriano). E eles se abraçam como se pela primeira vez Will abraçasse um pai.

Eis aqui o típico exemplo de um diagnóstico correto, mas com a causa errada: “não é a sua culpa”; “você foi determinado socialmente para ser assim”. “A partir de agora vamos mudar isso”. Não, a solução está exatamente na antítese: “é minha culpa”. Foi culpa de Will sim cada um dos crimes por ele praticados e o padrão esquizofrênico de seu caráter e temperamento só poderão ser devidamente tratados quando Will tiver a consciência da realidade de sua responsabilidade por cada ato praticado e não jogar tudo na sociedade (o grande bode expiatório de nossa geração “mimizenta”). A terapia final dita por Sean é extremamente nociva: “se você fizer o que está em seu coração você estará bem”. É justamente por fazer o que está em um coração narcísico, pecador e ególatra que o homem tem tomado as piores escolhas possíveis. Tal terapêutica pode massagear nosso ego e nos fazer acordar para um problema momentâneo e nos dar alívio por alguns segundos, mas não libertará o coração de homem algum das terríveis cadeias da culpa e da falta de sabedoria intrínseca para resolver problemas e idealizar projetos de vida. A boa vontade (good will) de Will só pode ser encontrada quando a raiz do seu problema for encontrada por ele mesmo e o filme passa longe de achar esta raiz, até porque sabemos que não existem “bons rebeldes”. Uma coisa importante em relacionamentos, entretanto, que o próprio exemplo de Sean e Will deixa transparecer é que a profundidade e a intimidade do relacionamento, mesmo que com diagnósticos errados pode causar efeitos tremendos e maravilhosos sobre a vida das pessoas. Pais, conversem mais com seus filhos; ouçam-nos; brinquem. Precisamos de abraços, beijos, passeios, duelos, brincadeiras, sorrisos, choros, idas ao cinema, idas à igreja, caminhadas, trilhas, etc. Precisamos de tato, contato e não de um mero contrato. O final deixo com vocês. Apenas adianto a bela trilha sonora de “Afternoon Delight”, de Starland Vocal Band (1976).

 

 

 

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[i] Principalmente um que começa com a letra “f” (eles o repetem do começo ao fim do filme).

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