Resenha 73: A Jornada Excelente (Pedro Pamplona)

Resenha 73

A Jornada Excelente: Desvendando os desafios do chamado ministerial.

Pedro Pamplona

Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2019, 192 pp.

 

 

Assinei a box Review, o clube de assinatura literário do Dois Dedos de Teologia, presidido pelo pastor Yago Martins. Um dos atrativos é que o foco seria exclusivamente nos livros (e não em adereços), além dos descontos e de sua curatela. Recebi minha caixa e tive duas boas surpresas: 1). A obra “O Senhorio de Cristo”, de Vern S. Poythress e 2). O livro “A Jornada Excelente”, do jovem pastor Pedro Pamplona, objeto desta resenha.

O pastor Pedro Pamplona mora em Fortaleza e pastoreia a Igreja Batista Filadelfia, liderando o ministério de jovens. É formado em administração de empresas, especializado em estudos teológicos pelo CPAJ – Mackenzie, além de ser mestrando em Teologia Sistemática no Instituto Aubrey Clark. Em sua descrição pessoal, na orelha posterior do livro o autor se apresenta como torcedor do Fortaleza (é sofredor, mas Deus perdoa. Não espalhem que eu sou torcedor do Botafogo – RJ), e apresenta duas de suas paixões: “Star Wars” e “O Senhor dos Anéis”. Conheço o pastor Pedro Pamplona pelos seus vídeos do Review (Canal Dois Dedos de Teologia) e por suas postagens no Facebook.  Fiquei de fato alegre e desejoso de conhecer seus dotes literários. Por isso, li com afinco o seu livro.

Este é o seu livro de estreia que se notabiliza pela linguagem direta (como ele mesmo diz, sem muitos arrodeios), pela boa didática na divisão dos capítulos e pela coragem de compartilhar sua experiência ministerial, mais precisamente no que tange ao chamado pastoral. O livro tem um tom bastante pessoal, mas sempre tomando a linha mestra das grandes obras sobre Ministério Pastoral, as quais ele cita recorrentemente ao longo da obra.

Na introdução ele delimita sua proposta, que apesar de aparentar ser bem ousada conforme expressa o subtítulo “Desvendando os desafios do chamado ministerial”, na verdade se manifesta no que poderia ser chamado de mini-manual de encorajamento e advertência para aqueles que se sentem chamados ao ministério pastoral.

Tomando como referencial literário a grande jornada de Bilbo Bolseiro, que recebeu a ajuda de Gandalf, o autor se reporta ao seu próprio chamado ministerial, advertindo que “todos estão meio perdidos no início e precisam se encontrar pelo caminho” (p. 13). Foi assim que pensando em sua jornada, desde o primeiro desejo de pregar a Palavra de Deus até a ordenação ministerial que o pastor Pedro Pamplona escreveu esta obra. Penso aqui que ele não se apresenta como um “mago”, um “decodificador” do complexo processo de compreensão da chamada ministerial. Pelo contrário, foi pensando nas próprias dificuldades pessoais e até mesmo falta de apoio, que o pastor Pamplona resolveu encorajar jovens e até mesmo obreiros já experimentados, além da própria igreja do Senhor quanto ao chamado ministerial.

No capítulo 1, ele trata do desejo pelo ministério pastoral, admitindo ser uma realidade (1 Timóteo 3:1), a saber que em algum momento todo o pastor se viu desejando pregar a sã doutrina e pastorear o rebanho de Deus. Tal desejo é excelente, mas devido às imperfeições do caráter humano, também está sujeito às tentações de fama, orgulho e falta de bom senso. Tomando-se como ponto referencial os exemplos negativos, este desejo é suprimido por muitos irmãos que no afã de ajudar, findam causando dúvidas, tristezas e desencorajamento nos jovens obreiros. Na vida de Pamplona, Deus usou os pastores John Piper e Driskoll para o estimular ao ministério (na minha usou mais precisamente Lloyd-Jones, que também é citado neste capítulo). A igreja em geral foca no custo e tende a alertar quanto a mera euforia por parte de muitos candidatos ao ministério. Pamplona neste primeiro momento traz uma palavra de ânimo para os que desejam, de advertência quanto aos custos e de sondagem do coração quanto às motivações.

No capítulo 2, o autor trata do chamado ministerial em si e utiliza dois termos-chaves: fator indicador (chamado interno, que se expressa já no desejo apresentado no capítulo 1) e fator confirmador (chamado externo, manifestado pela aprovação da igreja em ver determinado irmão como qualificado para o ministério). Estes fatores apresentados na boa literatura dos Puritanos, mas bem enfatizado ao meu ver na obra Pregação e Pregadores de Lloyd-Jones certamente são bons guias no encaminhamento de um obreiro para o sagrado ministério pastoral.

No capítulo 3, ele nos apresenta de maneira simples, didática e bem escrita os qualificativos para o ministério pastoral, que certamente será expresso por meio do amor por Jesus, pelo ministério e pela igreja. Para isto, o obreiro precisa ter um caráter santo, um coração de pastor e a qualificação para o ensino e ministério de pregação pública. Expondo 1 Timóteo 3, o autor nos brinda com tais qualificativos. Um ponto que sempre me chama a atenção é a necessidade de saber pregar. Mesmo que ninguém nasça sabendo pregar, uma hora ou outra o verdadeiro obreiro aprenderá a comunicar a sã doutrina de forma pública e particular. O que causa espanto é ver muitos púlpitos com sutis substitutos (utilizando uma expressão de Lloyd-Jones) da Palavra de Deus (política, cultura pop, marketing, coaching, etc.) e outros tantos com obreiros (pasmem) incapazes de se fazer entendidos. Além de todos os qualificativos, um obreiro deve saber falar, se comunicar e pregar. Deve fazê-lo com boa doutrina, amor e mansidão pelos ouvintes. Agradeço ao pastor Pamplona por me fazer repensar todo o ministério pastoral (agora do lado de fora do exercício). Além disso, posso falar como alguém que colheu alguns frutos amargos por negligência e pecado dentro do próprio ministério. O pecado não se dá em um instante, mas surge das motivações interiores, que muitas vezes, mesmo que inconscientes, há anos vêm manifestando uma mentalidade revolucionária, que na maioria das vezes trará destruição ao obreiro e ao rebanho. Nobres leitores que aspiram ao ministério, reflitam profundamente nesta advertência do autor: “Nenhum pastor experiente confia em jovens rebeldes, difíceis e metidos a revolucionários. O coração pastoral é melhor e maior que isso.” (p. 68).

No capítulo 4, o autor nos apresenta as fases e as dificuldades da jornada ministerial. Contendo um tom bem pessoal, Pamplona nos dá grandes insights do processo de chamamento, que ele classifica didaticamente e não de forma arbitrária em: descoberta, empolgação, dúvida, renovação e consolidação. Muitos desistem na fase da dúvida, outros se mantém empolgados demais por muito tempo; muitos se renovam mas nunca chegam ao processo de consolidação, posto que a empolgação e outros focos que não a glória de Cristo o dirigem para longe da excelência do chamado. Mas graças a Deus por outros tantos que se consolidam no ministério e podem edificar nossas vidas pela beleza expressa numa vocação bem sucedida que sempre nos aponta para a conformação à imagem de Cristo.

Já no capítulo 5, excelentes dicas sobre o estudo e o preparo do obreiro em Seminários. É lógico que existem exceções, como ele bem explica, mas a história da igreja e a nossa experiência recente tem cada vez mais consolidado a importância da formação ministerial em seminários. Antes disso, porém o candidato é alertado a começar estudando em casa (muitas vezes, penso eu, com a tutoria de seu pastor). Um alerta também é dado quanto àqueles que de maneira romântica, sem a consolidação adequada do chamado, abandonam suas graduações (e usualmente também abandonam o ministério) para “mergulhar” no estudo teológico formal. O alerta de Pamplona: se está em uma graduação, termine-a antes de entrar no Seminário (enquanto isto, vá lendo sua Bíblia e bons livros de teologia). Um diferencial pra mim neste capítulo foi a apresentação dos quatro tipos de seminários: presencial internato (modalidade disponível no Seminário estudei: o SBC), presencial normal (é o caso do SIBIMA), semipresencial (penso que o Martin Bucer dispõe de uma modalidade assim) e o curso à distância (EAD do CPAJ, por exemplo). O autor apresenta sua predileção pelo presencial normal pela facilidade de estar próximo de sua igreja local, além de poder continuar trabalhando externamente. Um item que pode ser acrescentado a esta lista são os múltiplos institutos teológicos presentes em muitas igrejas que podem ser um pontapé inicial na jornada ministerial de muitos irmãos (é o caso das igrejas do Pr. Rômulo e do Pr. Roque, só para citar duas).

No capítulo 6, a ênfase recai sobre o ministério da pregação (sobre o qual já dei algumas pinceladas acima). O autor nos dá dicas excelentes sobre Homilética, motivação para pregar e possibilidade de aprender e melhorar nossas pregações, além de excelentes indicações teológicas sobre o assunto. Um capítulo realmente muito bom.

No capítulo 7, a dica de ouro é dada quanto à esposa do obreiro. Ela deve ser uma mulher que ama a Jesus, a Igreja e o Ministério Pastoral. Ela não precisa se engajar em cada um dos departamentos da igreja, mas não pode ser apática e fria quanto à dinâmica da vida eclesiástica. Se o candidato é solteiro, às vezes é preciso sacrificar um namoro, cuja continuidade só traria tristeza, desânimo e talvez até separação, caso a jovem não desejasse casar com um pastor. Ele conta sua experiência e adverte de maneira peremptória: “termine se ela não quiser ser mulher de pastor”.

No capítulo 8, por fim, Pamplona trabalha o caráter santo do obreiro e nos desafia quanto a algumas tentações: ganância (cita o exemplo digno de nota de Mark Driskoll). Este tópico me chamou a atenção, principalmente porque comento e gosto de publicar sobre temas variados no Facebook. Nas palavras de Pamplona: “Publicações em excesso opinando sobre tudo e um tom muito crítico podem revelar um coração desejoso por autoridade e fama.” (p. 165). Ele ainda trata sobre os melindrosos temas da pornografia e do adultério.

À semelhança de Kevin Vanhoozer no livro “O Pastor como Teólogo Pùblico”, Pedro Pamplona intercala os capítulos de seu livro com palavras de outros pastores (entrevistas, na verdade). Uma que me tocou bastante foi a do pastor Valberth Veras. Sintam só o drama de sua admoestação neste breve excerto de sua entrevista:

tem muita gente muito boa nos estudos, mas muito arrogante. E tem muita gente humilde, mas preguiçosa. Gente que não está disposta a ralar pesado para se preparar melhor para o pastorado.

Quando falo de compromisso intenso com a Palavra de Deus, também me refiro a coragem de romper com a própria denominação quando a tradição de homens se torna maior que a Palavra. Mas não espero que um seminarista faça isso logo no começo. Espero que ele esteja preparado quando for o momento disso na sua vida pastoral. (pp. 142,143).

 

 

Pamplona nos mostra que um jovem escritor, mesmo sem muitos anos de experiência pastoral pode nos edificar por meio de seus escritos, assim como o faz por meio de suas pregações. Indico o livro e parabenizo o seu escritor pela iniciativa de publicar um livro desta natureza.

Deixo aqui uma palavra sobre jovens escritores. Boa parte dos grandes teólogos iniciam sua jornada como escritores depois de muitos anos de experiência pastoral (e/ou acadêmica). Neste processo, a prudente sugestão de homens como Jonas Madureira, Olavo de Carvalho (para citar um protestante e um católico) é de muito estudo, dedicação e foco ao longo de alguns anos e publicações numa fase já amadurecida e consolidada de sua vocação. Esta é a regra! Mas não sejamos rápidos em nossos julgamentos, pois alguns irmãos podem despertar mais precocemente seus dotes literários. Mas não nos enganemos: só houve um Calvino no século XVI, um John Owen no século XVII, um Jonathan Edwards no século XVIII, um Spurgeon, no século XIX e um Lloyd-Jones no século XX. Homens que souberam dosar bem seus sermões e escritos. Mas o processo de iniciação aos escritos não foi o mesmo na vida de nenhum deles e o sucesso literário de tais homens não impossibilitou o surgimento de tantos outros (seja na fase precoce ou tardia de seus ministérios).

Quero pensar nos benefícios de começar a escrever cedo: uma teologia em formação pode ser construída e melhor organizada nas fases posteriores se você já tiver muitos escritos (mesmo que não publicados) numa fase inicial. Por outro lado, se você pensar em escrever somente em uma fase tardia, como diz o Dr. Roque Albuquerque, talvez lhe falte o ânimo e a dedicação para escrever depois dos 40 ou 50. É lógico que aqui é preciso distinguir escritos publicados e não-publicados. O importante é começar a coligir materiais de seus sermões, palestras, teses, dissertações, monografias, temas específicos sobre os quais se debruçou, artigos em jornais que você publicou e, dependendo de seu foco, você pode desenvolver e aprimorar ainda mais sua teologia. Veja o caso de teólogos como Frame (que começou a escrever cedo e que graças a isto tem nos ajudado por meio de sua boa literatura).

Quanto ao material publicado, o escritor deve ter o que meu professor Roque chama de “couro de jacaré” para absorver as críticas e as “facadas” daqueles que irão ler seu material. Nenhum “coro de jacaré” porém é duro o suficiente para não nos deixar entristecidos com algumas críticas mais severas; mas quem publica deve aprender a convier com críticas (e elas virão também até mesmo para quem não publica). Egos amaciados demais podem se desmotivar completamente por meio de críticas severas; egos inflados podem exercer um ministério de escrita de reação e réplicas excessivas (mas não desmereço tais iniciativas, uma vez que o debate público exige isto. Minha advertência é quanto às motivações daquele que debate. E aqui falo por mim, que de maneira modesta vou publicando textos neste blog e recebo o feedback de alguns leitores).

Com estas palavras, quero deixar os leitores cientes das duas realidades: alguns serão escritores estilo Timothy Keller (que publicarão numa fase tardia de suas pesquisas); outros publicarão numa fase intermediária de seus ministérios e outros começarão a publicar suas pesquisas iniciais (e terão uma oportunidade melhor de desenvolver seus escritos em edições posteriores, ampliadas, revisadas, podendo modificar suas opiniões ao longo da trajetória). A escolha de publicar ou não publicar é pessoal! As consequências certamente virão! Eis as opções. Espero que a pena de Pedro Pamplona, muito bem articulada por sinal, colocada em exercício público de maneira precoce continue nos trazendo bons escritos teológicos. Que este seja o primeiro de tantos outros bons livros deste amado irmão! E você também pode começar a escrever. Teste estilos diversos, leia bons romances, desenvolva seu imaginário, amplie suas pesquisas, escreva e reescreva suas ideias, leia os seus escritos para escritores mais experientes, publique seu material em um blog e aguarde os resultados disto. Se houver a oportunidade e o incentivo adequado: publique! Recebeu críticas duras? Reavalie seu material e em uma possível segunda edição amplie a discussão levando em consideração as críticas recebidas (John Macarthur faz isso muito bem em muitos de seus livros), mas faça isto para a glória de Deus! Amém!

 

 

 

Anúncios

2 comentários sobre “Resenha 73: A Jornada Excelente (Pedro Pamplona)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s