O QUE A BÍBLIA FALA SOBRE APOLOGÉTICA A PARTIR DO SERMÃO DE PAULO NO AREÓPAGO.

O QUE A BÍBLIA FALA SOBRE APOLOGÉTICA A PARTIR DO SERMÃO DE PAULO NO AREÓPAGO.

 

areopago

INTRODUÇÃO

O sermão de Paulo no Areópago, descrito em Atos 17:16-34 é uma das mais belas peças literárias do Novo Testamento. Em meados do século I, o apóstolo dos gentios chega à cidade de Atenas, que apesar de não ser mais um centro político, ainda ostentava-se como um dos maiores centros culturais do mundo. Num ambiente de miscelânea religiosa, que variava desde a sinagoga até as maiores expressões de idolatria, com uma população que efervescia em polêmicas, novidades e futilidades dentro de uma conjuntura sócio-mercadológico (a ágora), também se encontravam as principais escolas filosóficas da época. É neste contexto religioso, profano (secular) e acadêmico[i] que Paulo apresenta o Evangelho ao povo de Atenas.

 

Neste sentido, este trabalho apresenta a proposta de articular a apresentação da fundação da igreja, marcada não só como elemento transicional, mas que ao longo de sua narrativa, certamente apresenta ensinos de caráter normativo para a igreja de todos os tempos (a igreja universal, católica, mística, seja qual for a terminologia utilizada pelas sistematizações do somatório de salvos entre Pentecostes e o arrebatamento), com elementos instrutivos para os apologetas da igreja de hoje. Observaremos, como em seus primórdios, a igreja do Senhor já manifestava a multiforme proclamação do Evangelho do Senhor. Aqui, entra em questão a apologética, a contextualização missiológica e a atuação da igreja em ambientes similares. Focaremos na Apologética, não como disciplina acadêmica, uma vez que no primeiro século da Era Cristã tal disciplina ainda não havia sido categorizada; certamente, pensar desta maneira nos faria incorrer em anacronismo. Mas, falamos do uso apologético, no sentido de defesa da fé cristã, aproveitando os mais diversos ambientes a partir deste magnânimo sermão proferido pelo apóstolo Paulo.

 

 

I. Plano de Fundo

 

A análise do texto bíblico revela que a ocasião do sermão não foi previamente marcada, tampouco se observa que Paulo foi realizar uma viagem de turismo em Atenas. Na verdade, lá chegara, fugindo da perseguição dos judeus de Tessalônica, levado por alguns irmãos de Bereia. Enquanto esperava por Silas e Timóteo, Paulo passou a proclamar as verdades do Evangelho em Atenas.

 

De grande significação para o entendimento da passagem são a ágora e o areópago. A ágora representava o centro da vida social ateniense e funcionava como um mercado, ficando ao norte da Acrópole (BRUCE, 1992, p. 330). O areópago literalmente significa “colina de Áries” que seria o correspondente grego de Marte, o deus da guerra (STOTT, 2003, p. 318). O areópago ficava ao lado da acrópole; no período áureo de Atenas serviu como local de reuniões do senado. No século I, o areópago também era uma denominação aplicada aos conselheiros que deliberavam o que poderia ser ensinado em Atenas. Lá também se reuniam os grandes filósofos, com destaque para os estóicos e os epicureus.

 

Para alguns, o sermão de Paulo no Areópago fugiu da mensagem bíblica e incluiu elementos sincréticos ao relacionar o “deus desconhecido” com o Deus de Israel. Entretanto, observando-se a passagem, percebe-se que Paulo buscou um ponto de contato que contribuísse para o entendimento dos gregos, já que não tinham conhecimento do Antigo Testamento (pelo menos a maioria deles). Paulo apropria-se de um dos deuses do panteão grego, não para construir sua teologia, mas para a partir daí demonstrar a ignorância dos gregos e apresentar o genuíno evangelho, sem subterfúgios e comprometimento das doutrinas essenciais da fé cristã. Este recurso apologético, extraído de um ponto de contato entre a cultura e as Escrituras, constrói uma ponte entre dois polos separados por um abismo: a mensagem cristã e o mundo pagão[ii]. Eis aqui uma ampla demonstração de como as Escrituras (seus autores por assim dizer) fazem uso da Apologética, conforme explicado na introdução.

 

Em tais circunstâncias, Paulo “sabia que tinha de confrontar os filósofos atenienses com os ensinamentos de Cristo numa apresentação que devia ser inteligível e direta.” (KISTEMAKER, 2006, p. 177). Foi isto o que fez de maneira bela, criativa e doutrinária.

 

No início da igreja, em plena efervescência missionária, nem sempre alavancada por arroubos de volição humana, mas em geral acelerada pela boa mão do Senhor, que sempre criava uma situação particular, em muitos casos a perseguição, para implantar sua igreja à luz da grande comissão, ali estava o apóstolo Paulo na capital cultural do mundo. Sua atitude revela para a igreja de todos os tempos as marcas de um verdadeiro evangelista, de um homem que não se importou meramente com os incautos, mas que procurou atingir os homens mais cultos da sociedade ateniense. Este sermão é paradigmático para a igreja moderna em sua relação com ambientes acadêmicos e outros aspectos proeminentes em nossa cultura. A análise coerente e sensata mostrará o valor deste sermão, não meramente em sua construção literária, mas na contextualização da proclamação da mensagem do Senhor a ambientes acadêmicos, onde ocorre a possibilidade de se dialogar com a Alta Cultura. Em outras palavras a Apologética é exercida neste domínio como uma ferramenta pré-evangelizadora, preparando o terreno cultural, a partir de um ponto de contato, para a apresentação do Evangelho.

 

 

I.A.  Paulo na sinagoga (Atos 17:16, 17a)

Um dos elementos motivadores da persuasão nos debates de Paulo na sinagoga e na ágora já é revelado no verso 16: “o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade”. Paulo não ficou anestesiado nem acomodado diante daquela situação; sua resposta não foi agressiva nem provocante, mas consistiu no debate de ideias em âmbito religioso e profano.

 

Paulo usa do método dialético ao discutir o evangelho com os judeus na sinagoga. A palavra utilizada é παρωξυνετο e indica o debate e o confronto de ideias. Ele estabelece primeiramente o contato com pessoas de seu vínculo cultural mais próximo. A sinagoga como lugar de reflexão, leitura do Antigo Testamento era um local ideal para Paulo iniciar seus trabalhos e a partir daí apresentar Cristo aos seus ouvintes (cf. Romanos 1:16), que consistia de judeus e de gentios piedosos, os quais poderiam ser homens tementes a Deus ou até mesmo prosélitos do judaísmo.

 

I.B. Paulo na praça (Atos 17:17b -18)

Paulo não se confinou à sinagoga. Aproveitou o ambiente movimentado e pluralista da ágora para anunciar o evangelho de Cristo diariamente na praça. Com a revolta interior causada pela idolatria, Paulo não se cala, mas passa a disputar suas ideias de maneira audaciosa, expondo sem subterfúgios o que de fato representava o Evangelho. O verbo utilizado no verso 18 é συνεβαλλον e indica uma confrontação mais acirrada na ágora do que na sinagoga.

Percebe-se aqui, tomando-se em consideração a motivação do apóstolo Paulo, conforme exposta ao longo do livro de Atos e de suas cartas, que o objetivo da Apologética não é expor conhecimento, buscar títulos acadêmicos, escrever tratados extensos ou coisas do gênero. Se tais coisas ocorrem, advém de um genuíno desejo de glorificar a Deus por meio da proclamação da sã doutrina de maneira plena e eficaz.

Diante de sua manifestação, o apóstolo foi considerado um “σπερμολογος” (um tagarela), palavra que originalmente refere-se a um pássaro que catava sementes e que pode ser aplicada a indivíduos que semeavam suas palavras, muitas vezes coligidas sem critério algum, para as despejarem entre os seus interlocutores, porém de maneira superficial, leviana e inapropriada. Possivelmente, o que os levou a tal conclusão foi a forma ousada e incisiva como Paulo discutia e a novidade das ideias apresentadas pelo apóstolo.

 

O entendimento que eles tiveram do objeto da proclamação de Paulo foi o de duas supostas divindades: Jesus e sua correspondente feminina αναστασιν (ressurreição). Até aqui, fica claro que Paulo não escondeu dos atenienses a ênfase cristocêntrica do Evangelho e não se intimidou ao falar da temática da ressurreição. Não é um subterfúgio retórico de laçar ao seu público uma argumentação atraente para posteriormente expor suas reais intenções. A sutileza de sua argumentação não implica necessariamente neste artifício retórico, mas para utilizar uma nomenclatura atual, suas pressuposições eram colocadas à mesa, à medida em que mostrava a racionalidade, coerência e autoridade de sua crença.  Antes de avançar, faz-se necessário caracterizar as duas principais escolas cujos discípulos estavam espalhados pela ágora.

 

I.B.1. Os epicureus – escola filosófica fundada por Epicuro que buscava uma forma de hedonismo refinado e rejeitava ideias deterministas, criando um espectro de ação amplo para a liberdade humana. Não criam na imanência da divindade na natureza e por isso não tinham ressalvas religiosas para exercer suas práticas que visavam o prazer otimizado. (SPROUL, 2002, p. 55)

 

I.B.2. Os estóicos – escola filosófica fundada por Zenão de Eleia. A escola é assim chamada porque os discípulos de Zenão se reuniam na στοα (pórtico). Eram panteístas, ao crerem que cada indivíduo possuía uma faísca do divino em si. Sua busca era pela ataraxia, a saber, a tranquilidade da alma, numa atitude que não se perturbava com as contingências. (SPROUL, 2002, p. 54)

 

I.C. Paulo no areópago (Atos 17:19-34).

As ideias de Paulo, estranhas aos ouvidos dos atenienses, causaram tamanha repercussão entre os circunstantes da ágora, que o apóstolo foi apresentado aos conselheiros do Areópago para manifestar de forma mais clara e direta seus ensinamentos. O público ali representado era “intelectualizado, cético e gentio” (CARSON; MOO; MORRIS, 1997, p. 207).

 

Nesta altura, é necessário afirmar que existem polêmicas entre os comentaristas se de fato o termo areópago se referia à colina em si ou aos conselheiros do tribunal do areópago. Neste debate, há maior plausibilidade nas ideias de Bruce (2003, p. 230), quando afirma:

 

Esse órgão [o tribunal do areópago], a mais venerada das instituições de Atenas, que remontava ao meio da sua antiguidade legendária, tinha, em tempos idos, exercido as funções de um senado. Com o crescimento da democracia em Atenas, seus primeiros poderes ficaram mais reduzidos, mas ele mantinha prestígio considerável e continuava a exercer responsabilidade no campo da religião, da moral e de homicídios. Seu nome derivava do fato de que seu lugar de reunião original era no Areópago, o monte a oeste da Acrópole; no tempo dos romanos, porém, a maioria das suas reuniões era realizada no Pórtico Real (…) na ágora.

 

 

Possivelmente, Paulo não foi até a Acrópole propriamente dita, mas apresentou-se diante do tribunal da acrópole, no sopé da colina de Marte, com a finalidade de expor seus ensinos com maior clareza, pois sobre ele pesava a acusação de ensinar “coisas estranhas”. Paulo, diante da corrente curiosidade dos atenienses em ouvir ideias novas, assume o privilégio de proclamar o Evangelho entre os “sábios deste mundo”, prova de que suas palavras causaram grande efeito entre os atenienses; agora, causariam entre os acadêmicos![iii]

 

II. Análise do sermão (Atos 17:22-31)

Ao contrário do que se pensa, o apóstolo Paulo dominava as técnicas de retórica e oratória de sua época. Isto é evidenciado pela sua habilidade para citar poetas e estudiosos da época, bem como pelas fórmulas e recursos estilísticos utilizados. A saudação introdutória “Homens de Atenas” era típica do grande orador Demóstenes e isto despertou a atenção dos acadêmicos para o objeto da mensagem paulina (KISTEMAKER, 2006, p. 184).

 

Em seguida, ele faz menção ao ambiente idólatra de Atenas por meio de uma expressão que sugere um elogio (δεισιδαιμονεστερους). Positivamente, tal palavra indica que os atenienses eram excessivamente religiosos. Mas é possível ver um elemento de ironia no discurso de Paulo, visto que negativamente apresenta o sentido de “supersticiosos” (MARSHALL, 2008, p. 269).

 

Paulo, como bom observador que era, percebeu um altar cuja inscrição era: “Ao Deus desconhecido” e a partir deste elemento que salienta a “religiosidade-supersticiosidade” dos atenienses, demonstra que tal divindade evocada era justamente o que ele trazia a tona em seu discurso, só que não a partir de descrições do panteão grego, mas a partir do Deus transcendente que se fez conhecido em Cristo Jesus. Por causa desta declaração Paulo foi acusado de não pregar a mensagem da cruz, mas um relato antigo aponta o contrário.

 

 

II.A. “O deus desconhecido” – o ponto de contato.

A suposição de que Paulo foi sincrético ao fazer uso de um altar grego dedicado “Ao Deus Desconhecido” pode ser resolvida pela análise de relatos e tradições inclusos em uma das obras de Diógenes Laércio, autor grego do século III d.C. Segundo Richardson (1986, pp. 9-22), por volta do século VI a.C., Atenas foi sacudida por uma praga. Mesmo em meio aos sacrifícios aos deuses, a praga não cessava. Uma pitonisa alertou que somente um homem teria a revelação para resolver o problema local. Este homem, conforme o registro, foi Epimênides, poeta cretense, que alegava ignorância dos homens quanto ao Deus verdadeiro, associação de um sacrifício em circunstâncias adversas e cessação da praga mediante a adoração ao Deus cujo nome não fora revelado. Foram construídos altares em homenagem a este Deus com a epígrafe: “Ao Deus desconhecido.” Este Deus desconhecido que possuía altares, não poderia ser adorado verdadeiramente até que uma revelação posterior o tornasse cognoscível. E cerca de seis séculos após a vida de Epimênides, Paulo, portador de uma revelação especial deste mesmo Deus, agora tira a ignorância daqueles que se consideravam “conhecedores”.

 

É certo que Epimênides era conhecido de todos os presentes e com esta correlação, Paulo passa a apresentar os principais aspectos doutrinários de seu sermão e a devida refutação com argumentos anti-ídolos, anti-estóicos e anti-epicuristas.

 

II.B. As doutrinas

 

Como já foi mencionado, o apóstolo Paulo não planejou previamente o discurso, mas é certo que sua estrutura central pode ter sido desenvolvida ao longo dos dias que passou previamente em Atenas e no caminho rumo à corte do Areópago[iv]. Sua linha é clara e direta.

 

Primeiramente, Paulo aborda a doutrina da criação (v. 24) ao citar o “Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe”. Paulo começa a descontruir a argumentação epicurista de cunho naturalista e a estóica, de cunho panteísta (STOTT, 2003, p. 321). Um Deus pessoal criou o Universo. A ironia Paulina começa a “ferir” a consciência dos sábios que supunham albergar seus deuses em santuários construídos por homens. O argumento de Paulo vividamente destrói a pretensão idólatra de criar um altar para um deus que criou não somente os homens, mas também todos os materiais existentes na face da terra, inclusive os altares. Se o próprio Deus advertiu a Davi que não habitava em templos feitos por mãos humanas quanto maior não deveria ser a advertência paulina a homens que em ritos imorais e idólatras insinuavam adorar suas divindades?

 

Em segundo lugar, o apóstolo Paulo trata da doutrina da providência (v. 25). O Universo não é criado pelo acaso nem sustentado num sistema atomista fechado; tampouco, é fruto de emanação panteísta. Deus sustenta a vida, estabelece as estações e controla todos os aspectos de sua criação. Paulo utiliza-se de argumentos que usou em Atos 14 que demonstram amplamente a providência em consonância com outros princípios bíblicos (Gênesis 50:20; Salmos 104; Hebreus 1:3).

 

Em terceiro lugar, Deus é o governador do concursus das raças, da história e da geografia (v. 26). Estabelecendo a origem humana em Adão, a partir do qual surgiram as demais raças, no concursus divino não há espaço para superioridade étnica entre os homens, como os atenienses reivindicavam isto para si; todos têm a mesma origem em Adão e inclusive as nações levantadas, o desdobramento histórico e as conquistas territoriais todos são determinadas por Deus. Ele tem controle absoluto sobre a história porque a determinou. Não existe o acaso nem a liberdade humana para frustrar os desígnios divinos (cf. Jó 42:2). Supõe-se que a cada ponto de sua exposição, o apóstolo atraía ainda mais a atenção de seus ouvintes, em sua maioria revoltados por verem suas cosmovisões sendo refutadas com muita propriedade por um judeu recém-chegado.

 

Em quarto lugar, Paulo trata da imanência divina na criação associada à impossibilidade do homem em buscá-lO (vv. 27 e 28). O argumento é simples: se o Deus que fez o mundo não habita em santuários humanos nem necessita do homem, também não pode ser achado pelo homem em sua busca idólatra. Mas Paulo, apaga a ideia de um total transcendentalismo de Deus com a expressão “bem que não está longe de cada um de nós” e ao mesmo tempo assevera que a imanência divina atuando na criação não torna o homem apto para a salvação, como é observado no excerto “se, porventura, tateando, o possam achar”. Mais uma vez Paulo refuta argumentos epicureus e estóicos. No verso 28, Paulo cita Epimênides e Aratos para contextualizar sua argumentação com os atenienses.

 

Após apontar a futilidade dos ídolos (v. 29) e demonstrar a relação entre juízo e revelação (v. 30), Paulo notifica seu quinto ponto, ao apresentar Cristo como juiz futuro que haverá de julgar o mundo (v. 31). Paulo convida os atenienses ao arrependimento, pois já que agora lhes fora revelado o deus outrora desconhecido, em seu caráter justo, só poderiam reconhecer sua dependência dele e a necessidade de submissão ao varão que haveria de julgar todos eles. O discurso não é finalizado, como acontece com muitos dos sermões descritos por Lucas, posto que a ideia de ressurreição do corpo era desprezível para os gregos. Criam, isto sim, num estado posterior de existência da alma, mas à parte do corpo.

 

III. A reação ao sermão

O sermão de Paulo em Atenas teve duas reações por parte de seu público:

 

III.A. Rejeição – Dentre os que rejeitaram, houve aqueles que por conta da ideia de ressurreição de mortos escarneceram Paulo, em uma atitude de zombaria e desprezo. Outros, porém, mais polidos disseram educadamente que posteriormente o ouviriam quanto à ressurreição. É lógico que não desejavam mais ser expostos ao ensino de Paulo.

 

III.B. Aceitação – Apesar da maioria rejeitar a proposta de Paulo em seu sermão, Lucas relata que alguns se “apegaram a ele e creram”. Não foram apenas Dionísio e Dâmaris mas também outras pessoas. O sermão de Paulo não foi infrutífero nem seu método antibíblico.

 

 

Considerações finais

 

As críticas ao sermão de Paulo partem de liberais, à semelhança de Dibelius, os quais afirmam que o Paulo pintado por Lucas não é o mesmo Paulo das epístolas, mas uma criação de Lucas para servir aos seus anseios literários; as críticas também surgem de evangélicos de caráter recluso, os quais veem com maus olhos o diálogo entre filosofia e teologia, à semelhança de Tertuliano. Porém, o que se pode observar na leitura de Atos 17 é que os aspectos doutrinários e estilísticos bem como os dados de um orador afinado com o conhecimento da literatura grega e do Antigo Testamento se coadunam muito bem com as próprias cartas de origem paulina.

 

Para nossa tristeza, porém, existem ortodoxos de linha anti-intelectualista que  negam a viabilidade do sermão do areópago para os nossos dias. Por conveniência apontam pragmaticamente para o resultado, que foi pequeno, mediante a conversão de poucas pessoas[v]. Nisto fica claro o descompromisso destes para com um rigoroso estudo da Palavra de Deus e para o fato de que Deus seleciona homens preparados para ocasiões como estas. Não foi Pedro tampouco André ou João que apresentaram o Evangelho aos filósofos e acadêmicos da alta cultura grega. Foi Paulo! Oportunidades de palestrar ou debater sobre Cosmologia, Cosmogonia e origem do Universo não serão dadas a todos os obreiros cristãos, mas àqueles que Deus reservou para isto. No entanto, não é mero “intelectualismo”. É intelectualidade em serviço do Reino; intelectualidade que se indigna com teorias e ensinamentos ilógicos e arrogantes que ocorrem nas universidades; intelectualidade que se indigna com o misticismo que acomete os mais sábios dentre os “intelectuais ateístas”; um desejo santo em proclamar a Cristo entre os universitários e filósofos, de forma criativa, não para ostentar palavrórios e realizar discursos estilisticamente perfeitos per si, mas para utilizar a inteligência de forma criativa e bela para estabelecer um ponto de contato e apregoar o Evangelho entre os “sábios deste mundo”.

 

Além disto, a alegação de que a “teologia da cruz” está ausente no sermão de Paulo é equivocada e sugere que os opositores evangélicos do sermão do Areópago nunca analisaram diligentemente o texto de Atos 17. Deve-se observar que Lucas resume o sermão de Paulo e enfatiza os detalhes relacionados ao ponto de contato. Outro aspecto a ser observado é que Paulo utilizou-se da apologética tal qual Pedro em Atos 2, só que neste caso Pedro defendeu a ressurreição de Cristo diante de judeus e por isto citou o Antigo Testamento; Paulo, por sua vez, defendeu a ressurreição de Cristo diante de atenienses que não conheciam o Antigo Testamento e por isso citou os seus filósofos, mas o cerne da mensagem paulina é a mesma de Pedro, até porque o juiz acreditado por Deus através da ressurreição só o fez por meio da crucificação.[vi]

 

Críticas à parte, Paulo ensina aos cristãos do século XXI a necessidade de uma visão integral de evangelismo em diversos setores sociais. Sejam estes de cunho religioso, em ambientes carregados de misticismo e idolatria ou entre os maiores eruditos, o cristão deve estar preparado para dar razão de sua esperança de maneira criativa e ao mesmo tempo fiel à mensagem do Evangelho. Paulo contextualizou sua mensagem e nos mostra o valor do preparo acadêmico e devocional para os embates travados contra o sistema mundano. Este modelo de sermão e engajamento sociocultural dos primórdios da igreja tem muito a nos ensinar como crentes, pastores e acadêmicos do século XXI. Eis um dos aspectos da Apologética das Escrituras, exemplificada neste excerto da atuação de Paulo em Atenas.

 

 

 

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

BRUCE, F.F. Paulo: o apóstolo da graça. Sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd publicações, 2003.

___________.  The New International Commentary on the New Testament. The Book of the Acts. Revised Edition. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1992.

CARSON, D.A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

FUDGE, Edward. Paul´s apostolic self-consciousness at Athens. In: JETS, 14/3 (Summer, 1971). Arquivo disponível em: www.edwardfudge.com/JETS_Paul_Athens.pdf. Acesso em 28/11/2012, às 05:00 h.

KIRSCHNER, Estevan F. A sinagoga, a praça e a academia: o evangelho em diálogo com o religioso, o profano e o erudito. Reflexões a partir de Atos 17:16-34. In: Vox Scripturae – Revista Teológica Brasileira, volume XVIII, número 1. São Bento do Sul/SC: FLT/Editora União Cristã, 2010, pp. 65-76.

KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Atos. Volume 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

MARSHALL, I. Howard. Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008.

McGRATH, Alister E. Apologética crista no século XXI: ciência e arte com integridade. São Paulo: Vida, 2008.

___________________. Apologetics to the Greeks: part 3 of 4 parts of “Biblical Models for Apologetics”. In: BIBLIOTHECA SACRA 155 (July-September 1998): 259-65.

RICHARDSON, Don. O fator Melquisedeque: o testemunho de Deus nas culturas através do mundo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1986.

SPROUL, R.C. Filosofia para Iniciantes. São Paulo: Vida Nova, 2002.

STOTT, JOHN R. W. A mensagem de Atos: até os confins da terra. São Paulo: ABU Editora, 2003.

 

 

________________________________________________________________________________

Notas de fim:

[i] Tríade tomada de empréstimo de KIRSCHNER (2010).

 

[ii] Para maiores detalhes sobre a ideia de “ponto de contato” e “construção de pontes”, consultar: McGrath (2008, pp. 19-66). Para McGrath, um ponto de contato é “um ponto de apoio dado por Deus para a ato-revelação divina, É um catalisador, mas não um substituto da revelação divina.” (p. 22).

 

[iii] Cabe aqui uma breve nota na Apologética e Evangelização de Paulo. Perceba que o simples fato de seus ensinos serem considerados estranhos já denota o caráter proclamador de sua prédica e discurso diante dos atenienses. Ele não estava em Atenas para ganhar ares de erudito, mas utilizou sua vasta erudição para apresentar o Evangelho no contexto dos atenienses. Na intricada luta para suprimir o ego, o apóstolo Paulo sabia que antes importava apresentar a Cristo e se utilizou do conhecimento da cultura greco-romana para estabelecer um ponto de contato apropriado (uma contextualização lícita), que o possibilitou expor com mais clareza a mensagem do Evangelho. Eis o pano de fundo que se vislumbra na forma de os servos de Deus, conforme exposto nas Escrituras, fazerem Apologética.

 

[iv] Sempre há uma flexibilização na forma de apresentar o Evangelho e fazer Apologética, desde que as mensagens centrais e as doutrinas essenciais da fé cristã não sejam suprimidas.

 

[v] Se este for o critério (quantidade de pessoas salvas), o que dizer dos críticos mais severos à Apologética de Paulo presente no sermão do Areópago, o que dizer de pregadores sérios e compromissados com a Palavra de Deus que passam anos à fio sem grande incremento numérico em suas congregações (muitas delas com menos de 50 pessoas)?

 

[vi] Para maiores detalhes sobre a crítica ao sermão do Areópago é de excelente ajuda o artigo de Fudge (1971) publicado no Journal of Evangelical Theological Society (JETS).

 

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