Resenha 74: A Assustadora História da Medicina (Richard Gordon)

Resenha 74

A ASSUSTADORA HISTÓRIA DA MEDICINA

Autor: Richard Gordon

São Paulo: Ediouro, 2002, 432 pp.

 

Original: The Alarming History of Medicine. © 1993.

 

Richard Gordon foi um médico inglês bem-humorado (à semelhança de Theodore Dalrymple) que relata com chacotas, jocosidade e irreverência a história da Medicina. Na verdade, ele abandonou sua carreira de Anestesiologista para se tornar um gabaritado escritor e seu nome de nascimento era Gordon Stanley Ostlere. Este é um dos seus livros mais celebrados e é dividido em 14 capítulos e é constituído de uma escrita muito bem articulada, com uma fabulosa capacidade de prender o leitor.

No capítulo 1, intitulado “Hipócrates e tudo o mais”, o autor nos mostra um relato da história do homem caído, cheio de falhas, defeitos e, por que não dizer, pecados. Mas há espaço para mentiras também (num tom bem anticristão), como a de que “Michael Servetus (1509-1553) foi queimado vivo por Calvino, numa fogueira alimentada por seus livros, por ter descoberto a circulação pulmonar.” (p. 28). Sabe-se que a controvérsia não envolvia somente questões científicas, mas aspectos doutrinários, como a Doutrina da Trindade. O autor faz chacotas com teístas e ateístas, ironizando o ateísmo de muitos médicos, com uma alfinetada do tipo: “certamente qualquer médico ficaria agradavelmente surpreso se reacordasse [após a morte][i] numa nuvem, tocando harpa ao lado de Bertrand Russell” (p. 30).

O capítulo 2 – homem, micróbio e históriaé um excelente minitratado de Infectologia. Com sua pena bem-humorada, Gordon vai afirmar, por exemplo, que a pasteurização salvou milhares de vidas e foi utilizada para enriquecer a França. Descreve a trajetória das descobertas dos tratamentos para salmoneloses, botulismo, cólera, tifo (vacina com o bacilo atenuado), da Rickettsia prowazeki, descoberta pelo Dr. Howard Taylor Rickets (1817-1910). Não poderia deixar de tratar da Peste Negra e como aquilo causou um alvoroço em toda a Europa, e aqui apresenta o antissemitismo já instaurado na época, pois para a maioria a culpa era dos judeus (p. 73). Em 1967 o mundo se abalou com uma nova doença (AIDS), depois o Ébola e agora o H1N1. O que nos aguarda?

O capítulo 3 – Descobertas no Escuro – mostra como boa parte das descobertas médicas não foram previamente planejadas e devidamente estabelecidas pelo método científico. Foram produtos da observação da realidade e da sabedoria popular, muitas vezes casual (eu prefiro providencial), com mais méritos para o conhecimento historicamente acumulado (CHA – termo do meu antigo professor João Bosco Lopes Botelho) do que para os cientistas. Exemplo disto é a vacinação, descoberta a partir dos conhecimentos em varíola bovina, descoberto por simples ordenhadoras. Poderíamos citar ainda Flemming e a Penicilina (o bolor casual), que lhe rendeu o prêmio Nobel de Medicina de 1945. O médico Lister (médico da rainha Vitória) que descobriu as técnicas de assepsia e antissepsia em Hospitais e Cirurgias (diminuindo a mortalidade drasticamente); o tratamento do Escorbuto com Vitamina C, só para citar alguns.

O que me agrada mais em Richard Gordon, são as tiras cômicas. Exemplo: Edward Jenner (1749-1823) ficou famoso no campo da Imunologia, mas respondeu – “E o que é a fama? Um traseiro dourado, para sempre castigado pelas flechas da maledicência.” Outra frase fantástica no quesito fama é de William Osler: “Na ciência, o crédito vai para o homem que convence o mundo, não para o homem que teve a ideia em primeiro lugar” (p. 125).

 

No capítulo 4, que trata da Anestesia, Gordon faz brincadeiras com o gás hilariante e com o éter. Aponta que Morton, o primeiro a realizar uma anestesia com éter bem sucedida, foi ridicularizado publicamente anteriormente, em sua fase de experimentos. Antes disso, entretanto, o que se utilizava principalmente era o Mesmerismo (prática hipnótica do vienense Franz Anton Mesmer), que posteriormente foi muito bem utilizada por Freud. O ruim da anestesia, para Gordon, é que ela contribuiu para a mediocridade da profissão cirúrgica, uma vez que com o advento dos anestésicos, não se precisava mais tanto de cirurgiões fabulosos e rápidos como Liston ou Pirogoff. No entanto, é preciso ressaltar que a chegada do Clorofórmio, introduzida por James Young Simpson, bem mais potente que o Éter, causou problemas com o clero. Como bem afirma Gordon:

Meia colher das de chá de clorofórmio, num lenço dobrado sobre o nariz, exorcizava as dores do parto que atormentavam as mulheres desde Eva e escandalizou o clero (masculino) na Escócia.” (p. 141).

 

Ele chamou os clérigos anticientificistas de pessoas “ameaçadoramente virtuosas e perigosamente bem-intecionadas” (p. 141). Só que o “Clorofórmio evaporou”, pois matava rapidamente e logo foi abandonado.

Fala de lendários anestesistas como John Snow, e Joseph Thomas Clover. Mas ainda por muito tempo o anestesista ficou cunhado como o homem do trapo (pedaço de pano) e da garrafa e, na época, ganhava 10% dos honorários do cirurgião. Hoje, boa parte dos internos de Medicina desejam ser anestesistas!

 

O capítulo 5 – A Bengala de ouro – retrata como alguns médicos usaram de esperteza para subir na vida. Alguns até esquecidos em sua época como Thomas Hodgkin. Como os médicos usaram uma panaceia para tentar salvar o rei Carlos II, mas nada conseguiram (sangrias, dentre outras coisas). Como técnicas foram desenvolvidas (percussão, estetoscópio, pulso, temperatura). Como Wihelm Konrad Röntgen não procurou méritos para a descoberta da Radiografia. As descobertas sobre a glândula  tireoide, dentre outras; a descrição da doença de Cushing (Cushing é tido como um dos médicos mais memoráveis de todos os tempos, aos olhos do autor) e a de Addison. A questão política da dupla hélice de DNA e o ostracismo de Rosalind Franklin, que também mereceria o prêmio.

No capítulo 6, o autor faz uma abordagem curiosíssima do avanço da prática cirúrgica inicialmente entre os barbeiros até a oficialização dos cirurgiões. À medida que vamos avançando na leitura, temos a impressão que a história da Medicina de Gordon é a história da Medicina Inglesa. O capítulo 7, com temática voltada para o sexo,  descreve doenças como sífilis, cancro e sua história. Faz tiras bem humoradas sobre o pênis captvus, contracepção, vasectomia (os riscos da “bola preta”), etc. O capítulo 8, becos sem saída, nos apresenta as descobertas da Medicina promissoras, que logo foram abandonadas. Exemplos: os eternos purgatórios e laxantes; a adenoamigdalectomia de rotina para quase todas as crianças até os anos 1960, tratamentos com sanguessugas até meados do século XX e as muitas tentativas de tratamento e tuberculose malsucedidas (até os anos 1930).

No capítulo 9, temos a descrição de práticas estranhas que já foram realizadas por médicos proeminentes e pela medicina caseira também. Na Medicina caseira: mandigas, uso de esterco de ovelha para coqueluche; terapia das batatas, encantamentos. No meu caso já tomei até a banha do boto, em tratamento para Asma. Gordon ainda fala bastante do tratamento por meio da água, que findou gerando muito dinheiro para os donos de grandes balneários e templos (desde a Grécia); sem contar o banho de lama, o mesmerismo, que de Mesmer a Charcot (que utilizou no tratamento da paralisia histérica), serviu na fundamentação do Freudianismo. O Herbalismo fez sucesso com muitas plantas (e enriqueceu muita gente) e a Homeopatia, criada por Hahnemann a partir das ideias de John Bronw, contribuiu para o seu enriquecimento. Ele arremata o capítulo nos dando uma definição de Medicina Alternativa:

‘Alternativa’ é a palavra da moda para fazer parecer importante o que não tem nenhum significado. Ela serve para enfeitar um misto de misticismo medieval, bobagem herbalista, lixo dietético, brinquedos elétricos, superstição, sugestão, ignorância e pura fraude. (p. 328)

 

O capítulo 10 é dedicado exclusivamente a Freud. Gordon resume quatro casos clínicos emblemáticos de Freud: Dora, o Pequeno Hans, O Homem-Rato e o Homem-Lobo. As correlações sexuais em todos os casos intrigaram os europeus da primeira metade do século XX ao passo que foi um terreno fértil para as ideias da Escola de Frankfurt. Já a prática da transferência é elucidada com esmero na história de Miss Lucy, a governanta inglesa que se sentia perseguida pelo cheiro de pudim queimado. Os comentários de Gordon em cada caso são genais.

O autor deixa claro que Freud contribuiu para a transformação da loucura em doença; Pinel, por sua vez, lutou pela libertação dos loucos de suas correntes. Até então as pessoas pagavam para ver os loucos no Hospício com o faziam num zoológico. William Tuke trouxe a ideia dos asilos e depois os ideais manicomiais. A tentativa de reumanizar os doentes mentais e o movimento anti-manicomial contribuiu para o aumento da violência em pronto-atendimentos e um reviravolta nos CAPS. A ênfase no tratamento farmacológico é bem explicitada por Gordon nesta frase bem escrita que revela a tristeza de nossos dias:

Depois da guerra apareceram os medicamentos antidepressivos, ansiolíticos, hipnóticos, poderosos tranqüilizantes e sais de lítio para estabilizar os maníaco-depressivos. Uma população que afirma, indignada, que é perfeitamente sã agora devora drogas psicotrópicas, como se estivesse pondo açúcar nos flocos de milho. Os asilos se transformaram em hospitais mentais, que depois se tornaram hospitais e então as portas foram escancaradas para libertar os pacientes drogados na comunidade, que é o mundo cruel. (p. 355)

O capítulo 11 apresenta uma lista de bons alunos de Medicina, alunos faltosos e que desistiram do exercício da Medicina ou que conciliaram a Medicina com outras vocações, com ênfase para a de escritor. No capítulo 12, Gordon elenca um glossário das principais calamidades no mundo médico. No capítulo 13, Gordon toma como ilustração as punições do código de Hamurábi e apresenta algumas situações de erros médicos do cotidiano que possivelmente seriam punidas com bem mais rigor do que cortar as mãos do médico. Por fim, a partir do modelo molecular do DNA, chegando ao projeto GENOMA, o autor coloca suas esperanças de tratamentos promissores futuros na Genética. Por fim no capítulo 14, ele apresenta como a Inglaterra trabalhou a saúde pública dos séculos XIX ao século XX.

Indico com entusiasmo esta obra, mas é necessário entender que mais do que uma obra de História, ela é uma História Engraçada da Medicina. É necessário contrabalançar esta leitura com tomos de História da Medicina mais sistemáticos. Sugiro a obra do Dr. João Bosco Lopes Botelho (“História da Medicina”). Aliás, eu vou sugerir a mim, uma releitura desta obra. Enquanto eu corro para o livro do professor João Bosco, gostaria de desafiá-lo a ler Richard Gordon. Garanto que pelo menos boas gargalhadas ele arrancará de você!

 

____________________________________________________________________

Nota de fim:

[i] Colchetes meus.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s